quinta-feira, dezembro 30, 2010

A perversa mitologia soviética

Vladimir Bukovsky no meio, 1976

Em 18 de dezembro de 1976, ocorreu, talvez, a mais famosa troca de prisioneiros políticos durante toda a Guerra Fria (também houve trocas de espiões e agentes de inteligência, mas desta vez tratava-se de prisioneiros políticos).
 

Moscovo recebeu o líder comunista chileno Luis Corvalán, preso após a ascensão do general Augusto Pinochet ao poder em seu país. Corria o boato de que, o então, chefe da KGB, Yuri Andropov, queria fazer um presente especial ao secretário-geral do PCUS, Leonid Brezhnev por seu 70º aniversário. 

Em troca, os serviços secretos soviéticos concordaram em libertar, deportando para fora da URSS, o dissidente Vladimir Bukovsky. Na época, ele era um dos mais famosos opositores internos do regime comunista, escreve o blogueiro ucraniano Oleksii Mustafin. 

Vladimir Bukovsky na imprensa francesa, em inglês e russo

Bisneto de um rebelde polaco/polonês capturado pelos russos em Ostrołęka e exilado na Sibéria, Bukovsky iniciou suas atividades antissoviéticas aos dezesseis anos – foi expulso da escola por produzir “samizdat” (publicações clandestinas). 

Em seguida, vieram as tentativas de organizar comícios de rua no centro de Moscovo/ou, rusgas em casa, expulsões da universidade e sua primeira prisão. Foi então que ele “se familiarizou” com a psiquiatria punitiva, que denunciou ao longo de sua vida posterior na URSS – apesar dos constantes “avisos” do KGB. 

Manif em Amsterdão com exigência de libertação do Bukovsky. Praça Dam, da esquerda para a direita a partir de Duijn, de Ulsen (M), Biesheuvel e (D) Foudraine.
4 de janeiro de 1975. Amsterdão, Holanda.

Os cidadãos soviéticos comuns eram constantemente silenciados sobre a existência de opositores ao regime. Mas podiam tomar conhecimento de Bukovsky por meio de um artigo no principal jornal oficial – o “Pravda”. Antes da quarta prisão do dissidente, ele foi chamado de “um arruaceiro envolvido em atividades antissoviéticas”. 

Foi essa característica, que um outro dissidente soviético, Vadim Delaunay, mais tarde explorou na sua famosa quadra: 

Trocaram o hooligan,

pelo Luis Corvalán,

Onde apanhar a puta,

pelo Brejnev fazer a permuta? 

Bukovsky foi então condenado a sete anos de prisão e cinco anos de exílio por «agitação e propaganda antissoviética». No entanto, mesmo atrás das grades, participou de inúmeros protestos. E chegou a compilar — em coautoria com outro dissidente e médico psiquiatra, Semyon Gluzman — o «Manual de Psiquiatria para Dissidentes», que deveria ajudar aqueles que discordavam do regime comunista e que a medicina penal soviética tentava declarar mentalmente incapazes. 

Ler o texto em inglês ou russo

No total, Bukovsky passou doze anos atrás das grades, com breves períodos de liberdade condicional, e do outro lado da «cortina de ferro» temiam que ele fosse simplesmente morto na prisão. Portanto, também se apressaram em persuadir o governo chileno a concordar com a troca, embora Pinochet não tivesse particular interesse em libertar Corvalán. 

Os organizadores da troca e os mediadores formais (embora interessados) foram os americanos. Os dois prisioneiros foram levados para Zurique de avião. Quatro agentes da unidade especial «Alfa», comandados pelo 1º vice-chefe do KGB Baranov, levavam Bukovsky algemado. Considerado um arruaceiro, pelos padrões soviéticos, as autoridades da URSS temiam que ele iria protestar conta a sua expulsão e pudesse oferecer a resistência. A mãe, a irmã e o sobrinho gravemente doente de Bukovsky foram levados juntos para a Suíça. 

O próprio Bukovsky se lembrava, no livo de memórias, que as maiores críticas da sua livertação provinham dos circuitos da esquerda mundial, alinhada com a União Soviética. Durante anos, as publicações comunistas e semelhantes defendiam, que os dissidentes soviéticos eram uns arruaceiros, «sem nenhuma credibilidade e importância». Quando de repente, os camaradas soviéticos trocavam um destes «reles arruaceiros» por quase um santo, nos padrões comunistas, o líder de um PC, ainda mais um PC na clandestinidade. Dessa forma, a URSS, talvez sem querer, colocou Bukovsky num patamar absolutamente considerável.

Infelizmente, o trabalho do Bukovsky é pouco conhecido no Ocidente ou mesmo na rússia. Em 2008, Vladimir Bukovsky tentou concorrer às eleições presidenciais contra Dmitri Medvedev e viu a sua candidatura sofrer várias pressões ao estilo da junta chilena: perseguições, detenções e prisões dos seus mandatários, a sua própria detenção, etc.

Mas hoje apetece apresentar apenas um pequeno trecho da sua biografia chamada: “Cartas do Viajante Russo”, Nova Iorque, editora «Chalidze Publications», 1981, de 268 páginas. Nomeadamente os trechos № 257-258:

“Um amigo meu me contou, que por exemplo, as delegações estrangeiras, que indo a Moscovo passavam pela sua estacão [dos caminhos de ferro], regularmente eram recebidos por um grupo preparado e bem vestido dos artistas locais, em vestes tradicionais [da Moldova], que iniciavam os cantos e as danças mesmo na plataforma [dos comboios]. O comboio parava apenas durante 15 – 20 minutos. Antes da chegada [do comboio], nos quiosques da estação dos caminhos de ferro eram colocados o chocolate, as frutas e outros produtos raros, afixando os preços extremamente baixos. Obviamente, toda a população daquela cidadezinha sabia deste espectáculo, mas não deixavam a população local entrar na plataforma para que eles não acabassem em um só momento com os produtos propagandísticos. Apenas os mais ágeis, principalmente os rapazes, conseguiam as vezes penetrar na estação antes da chegada do comboio e se aproveitar [da situação].

Mas quem dos
[cidadãos] ocidentais podia só de imaginar uma operação desta envergadura, conduzida para a sua pessoa simples, numa cidadezinha da província, onde o comboio parava por alguns minutos? Obviamente, voltando para casa, o visitante estrangeiro se tornava o guia da propaganda soviética, até sem se aperceber disso”.

Bukovsky Vladimir, “Cartas do Viajante Russo”, Nova Iorque, Chalidze Publications, 1981

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