segunda-feira, junho 15, 2020

Russo que lutou pela Ucrânia independente até a morte

Em maio de 1948 o MGB da Ucrânia Soviética prendeu em Kyiv os 15 membros da resistência anti-comunista de Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), liderados pelo russo étnico, Ihor Pronkin “Berkut”, que apesar de tortura se recusou colaborar com autoridades soviéticas.
Ihor Pronkin, 1929-1953
Ihor Pronkin “Berkut” nasceu em 1929 na cidade russa de Kazan, na Ucrânia ele estudava física na Universidade de Kyiv, ao mesmo tempo liderava a rede da resistência de OUN na capital ucraniana, que se dedicava às ações de inteligência e propaganda,  preparando-se para ações de luta armada contra autoridades de ocupação soviéticas, representantes do partido comunista, do MGB e do ministério de interior.

Ihor Pronkin foi condenado aos 25 anos de GULAG, onde morreu em 1953 durante a revolta de Norilsk
Yuriy Hayduk, nasceu em 1928, sentenciado aos 25 anos de GULAG
Ivan Velyhurskiy, nasceu em 1930, sentenciado aos 25 anos de GULAG
Petro Bendyuk, nasceu em 1929, sentenciado aos 25 anos de GULAG
Hryhoriy Hovdyo, nasceu em 1928, sentenciado aos 25 anos de GULAG
Recorda o veterano do KGB soviético Albert Dichenko:
Ihor Denysenko, nasceu em 1930-2007, sentenciado aos 25 anos de GULAG
Hryhoriy Pidoplichko, nasceu em 1927, sentenciado aos 10 anos de GULAG
Oleksiy Hordiychuk, nasceu em 1928, sentenciado aos 25 anos de GULAG
Emiliy Khomenko, nasceu em 1928, sentenciado aos 10 anos de GULAG
“...Nessa altura, terminaram as ações do seguimento de dois casos de acompanhamento secreto de grupos – “Krai” e “Grachi” – sob os quais eram seguidos os membros da rede municipal da OUN de Kyiv. Nota-se que essa organização clandestina na própria capital [da Ucrânia] operou até 1949, e isso apesar da enorme concentração de unidades de contra-inteligência.

Interessante que organização foi liderada por um aluno do Instituto de Educação Física, da etnicidade russa, Ihor Pronkin. Ele foi capturado de forma simples – foi decifrado o emissário que chegou com as instruções e, quando ele chegou, foram detidos juntos.

[...]
Anatoliy Marchenko, nasceu em 1927, sentenciado aos 10 anos de GULAG
Natália Deyneko, nasceu em 1929, sentenciada aos 5 anos de GULAG
Lyudmyla Marchenko, nasceu em 1928, sentenciada aos 5 anos de GULAG
Literatura, armas e objetos pertencentes à rede da OUN de Kyiv
E o que é interessante, apesar dos métodos específicos de conduzir a investigação [uso da tortura], ele não disse nada, exceto: “Sim, sou o chefe da rede da OUN na cidade de Kyiv. E não vou vos contar mais nada. Além disso, ele disse: “Enquanto eu estiver vivo e por quanto tempo vou viver – lutarei por uma Ucrânia independente”.

Então ele, me parece que foi sentenciado aos vinte anos. Depois houve uma poderosa revolta em Norilsk e muitas pessoas morreram lá. Tanques a esmagaram. Naturalmente, a revolta foi liderada pelo ramo da OUN-Norte, que operou em Norilsk (ou melhor, em três grandes campos do norte – Inta, Vorkuta, Norilsk) por vários anos. Vejam o nível de conspiração.
Processo do MGB número 149064
E Ihor Pronkin também entrou na liderança dessa rede. E quando a revolta foi esmagada, ele foi mortalmente ferido por um estilhaço de um obus do blindado...”

Ler mais sobre este caso em ucraniano.

quinta-feira, junho 11, 2020

A lei soviética que punia com a morte a fuga para o exterior

Em 8 de junho de 1934, o Comité Executivo da URSS legislou que os cidadãos fugitivos ao exterior deveriam ser exterminados fisicamente. Mais tarde foi criada uma unidade especial de NKVD, que começou a perseguir e matar os “não-retornados”.

A resolução do Comité Executivo Central da URSS tratava a fuga para exterior como “traição à Pátria”, a simples fuga para o exterior, era punível com pena de morte – execução com confisco de todos os bens e sob circunstâncias atenuantes, com prisão por um período de 10 anos com confisco de todos os bens.

Uma seção da lei dizia respeito aos parentes de fugitivos que permaneceram na URSS, todos eles eram declarados criminosos, acusados de “não-delação”, alvos de processos judiciais. O “crime” de fuga do paraíso socialista se tornou o crime mais severo e mais pesado em toda a legislação soviética. Pois era único crime que previa responsabilidade colectiva dos familiares. Se irmão não denunciou o irmão, o pai não delatou a filha, estes também se tornavam criminosos, eram sentenciadas às penas entre 5 à 10 anos de prisão efectiva (texto das emendas).

Poucos conseguiram escapar da URSS, os números exactos de tentativas bem-sucedidas e mal-sucedidas permanecem em segredo dos arquivos russos até os dias de hoje.

As sentenças judiciais por fuga foram atenuadas somente após a morte de Estaline/Stalin. Em vez de execução, a lei soviética passou prever “somente” a prisão.

O levantamento final das medidas restritivas ocorreu em 1990, quando foi aprovada a Lei de “Entrada e Saída, que permitia aos cidadãos soviéticos de deixar livremente as fronteiras da URSS.

Ou seja, até 1990, um cidadão soviético NÃO podia deixar livremente o território da União Soviética, não podia se mudar, ao exterior, mesmo para um país dito fraterno, socialista ou “em vias de desenvolvimento”.

Se você é um “antifa”, será que está pronto à viver num país assim?

domingo, junho 07, 2020

Morrer de tortura em Minneapolis ou no aeroporto de Lisboa

Muitas questões se levantam quando um cidadão que entra em Portugal com um visto de turista é torturado até à morte numa sala do aeroporto de Lisboa. Mas onde estiveram então as ONG’s e os activistas?

A 12 de março, em Lisboa, nas instalações do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) foi torturado até à morte um cidadão ucraniano de nome Ihor Homenyuk.

por: Zita Seabra, Observador.pt

Segundo os jornais vêm a divulgar posteriormente, citando, entre outras fontes, a acusação aos inspetores do SEF, estiveram sentados em cima dele, esmagando-lhe o tórax contra o solo. Depois de Ihor ter sofrido um ataque epilético, caiu e partiu os dentes. Tinha sinais de pancada e morreu depois de horas de agonia, atado com fita cola e preso com algemas.

Segundo relata a jornalista Joana Gorjão Henriques (Publico, 10 de maio de 2020): «O cidadão ucraniano que morreu no SEF do aeroporto esteve 15 horas manietado com fita-cola e algemas. Foi visto assim por enfermeiros, inspetores, chefes. Ficou numa sala preso, durante horas, com as calças pelos joelhos e cheiro a urina. O médico que passou o óbito não viu agressões e deu-a como morte natural. Auto de óbito do SEF também não refere qualquer lesão.»

No Observador de 1 de Abril de 2020, Sónia Simões e Kimmy Simões escrevem sobre as provas recolhidas pela PJ: «Ucraniano esteve fechado numa sala, após ter sido brutalmente agredido por três inspetores do SEF, durante 8 horas, segundo as provas recolhidas pela PJ. E foi encontrado já morto.» Continuam: «O corpo de Ihor Homenyuk, o ucraniano assassinado no aeroporto de Lisboa, apresentava tantos hematomas e tantos sinais de ter sido barbaramente espancado que quase não seria necessária uma autópsia para perceber qual tinha sido a causa da sua morte.»

Muitas questões se levantam se um cidadão que entra em Portugal com um visto de turista é torturado até à morte numa sala do aeroporto de Lisboa. Torturado, segundo a acusação, espancado e com alguém o esmagando, sentando-se, repito, sentando-se em cima do seu tórax até o esmagar. Tudo segundo a acusação ou a PJ.

No seguimento das notícias de alguns jornais, o ministro da Administração Interna foi chamado ao Parlamento e manifestou justas palavras de vergonha pelo sucedido. Os três inspetores foram detidos e seguiram para casa, em razão do covid-19. Sabe-se também que o diretor do SEF no aeroporto foi substituído.

Reconheçamos que é muito pouco.

Assassinar barbaramente, por tortura, no aeroporto de Lisboa, um cidadão ucraniano, refugiado ou emigrante ilegal, é um sobressalto em qualquer Estado de direito. No entanto, não tenho notícia de nenhum sobressalto cívico em Portugal. Nada. Nenhuma manifestação no aeroporto, nenhuma homenagem, nenhum memorial, nenhum voto (que eu saiba) no Parlamento, nenhuma palavra do Presidente da República, nenhuma palavra do primeiro-ministro. Que tristeza.

E das organizações de direitos humanos? Onde estão as ONG’s, a Amnistia Internacional e o SOS Racismo? Que fizeram os Médicos do Mundo, que têm intervenção no aeroporto de Lisboa? E a Ordem dos Médicos? Será verdade que um médico assinou uma declaração em que consta «morte natural»? Fez-se-lhe um inquérito? E o SEF é tutelado por quem? Os inspetores, que estavam em casa, continuam lá? E todos os funcionários e inspetores zelosos que passaram por lá foram acusados? E o sofrimento e medo das pessoas que estavam nas instalações, emigrantes com filhos, foram ouvidos os seus testemunhos? Havia, dizem, crianças por lá. Alguém afagou o seu medo e lhes deu colo?

Muito mais perguntas poderiam ser feitas e devem ser feitas para que seja feita justiça.

O polícia que nos Estados Unidos asfixiou um cidadão é uma imagem tão brutal que sempre que as nossas televisões o mostram não consigo ver nem imaginar o sofrimento de uma morte assim. Mas quando li e comecei a acompanhar as notícias da tortura até à morte de Ihor também não consegui imaginar o sofrimento deste ucraniano, que chegou a Portugal à procura de uma vida melhor.

Mas, excluindo a preocupação de um punhado de jornalistas (homenagem lhes seja feita), a sua morte passou – quase – em silêncio.

Ao tentar perceber as razões, só encontro uma: que interesse pode ter a morte de um ucraniano? Os ucranianos são sempre números. Morreram milhões de fome no Holodomor ou «Holocausto Ucraniano». Estaline matou milhões, cinco milhões, durante os anos de 1932 e 1933. Estão habituados

Mortos pelos comunistas soviéticos, entre 1932 e 1933, não existem, não contam. São números. Aliás, as vítimas do comunismo não são iguais às vítimas do nazismo. São apagadas da História.

Que importância tem para o mundo um ucraniano torturado e morto no aeroporto de Lisboa? E que, segundo a acusação, alguém se tenha sentado em cima do seu tórax e que tenha ficado em agonia horas, sem ser levado ao hospital? Algum deputado europeu se preocupou com isso e interrogou o governo português? Algum deputado português levou um voto ao Parlamento?

Importantes são as vítimas que possam ser usadas para fins políticos, que interessem a agendas da esquerda. Os outros apagam-se.

Chama-se a isto relativismo.

Mas o mundo só será melhor se uma vítima na América for igual a uma vítima em Portugal, independentemente de ser preto, branco ou amarelo. Morra em Hong Kong, em Minneapolis ou no aeroporto de Lisboa.

sábado, junho 06, 2020

Líbia: colapso total do marechal Haftar

As forças do GAN retomaram o controlo sobre o aeroporto de Tripoli. Foto: Getty Images
Líbia viveu hoje o dia de virada total da situação. As tropas do Governo de Acordo Nacional (GAN) avançaram 200 km ao longo da costa, a cidade de Sirte se rendeu sem oferecer nenhuma resistência. As tropas de Khalifa Haftar se entregam ao governo e os municípios locais anunciam à sua lealdade ao GAN.
A retirada da Líbia dos mercenários russos, no fim do mês de maio de 2020
O GAN está começando a dominar áreas da Cirenaica e ainda não está claro se eles oferecerão qualquer resistência. A desintegração da estrutura militar de Haftar é muito ampla. Se o GAN conseguir tomar as cidades de Ras Lanuf e Brega no mesmo ritmo, Tripoli realmente assumirá o controlo da bacia de petróleo de Sirte, o que significa que cortarão Haftar de seu único recurso interno, o colocando na total dependência do exterior.

O Egito descartou a solução militar e pediu negociações gerais, de fa(c)to, sem condições prévias. O destino das 50 aeronaves estacionadas na base aérea de Al Jufrah ainda é desconhecido. Entre eles, podem estar cerca de seis MIG's russos, escreve o blogueiro militarista russo el-murid.
As tropas do GAN exibem enormes troféus. Entre eles os 4 mercenários russos. Estão em andamento as negociações sobre as condições da sua entrega ao Moscovo.

Os truckers (camionistas de longo alcance) ucranianos nos EUA e Canadá

Um grande número dos truckers (camionistas de longo alcance) americanos e canadenses, é composto pelos ucranianos étnicos. Alguns deles nasceram nos EUA ou no Canadá, outros emigraram desde a década de 1980-90, mas em menos de uma geração alcançaram o sucesso, ingressando na classe média.
Ninguém esperava pelos ucranianos nos EUA ou no Canadá, ninguém lhes criava condições especiais ou quotas. Uma grande força de vontade, disciplina, capacidade de sacrifício fizeram com que graças ao seu esforço pessoal, eles estão bem na vida de forma emocional e financeira. Muitos deles começaram como simples motoristas, mas em pouco tempo compraram os camiões/caminhões por eles conduzidos, tornando-se os seus próprios patrões. Uma espécie de sonho americano realizado, que continua a existir para quem quer e gosta de trabalhar.
O tryzub (tridente) estilizado, onde o “dentre” central ganha a forma de espada é símbolo histórico da OUN-M (Organização dos Nacionalistas Ucranianos, da sua ala histórica e dita “moderada”, liderada, durante décadas, pelo coronel Andriy Melnyk).
As fotos Myron Bytz e History Diaspora.

Mas sem dúvida, entre o truckers ucranianos o camionista/caminhoneiro mais famoso é Vadym Dubovsky (nascido em 21 de abril de 1964 em Donetsk), além de ser motorista, ele é um cantor de ópera (barítono). Em 2014, Vadym ficou famoso como “camionista/caminhoneiro cantor” – o autor e intérprete de romances ucranianos e seus próprios poemas satíricos ao som de canções soviéticas. Ele grava seus vídeos enquanto dirige um camião/caminhão e os publica na Internet:

sexta-feira, junho 05, 2020

Holodomor: história de um genocídio esquecido (ou escondido)

Este texto é sobre um genocídio mas não sobre o Holocausto. Fala da grande fome da Ucrânia – conhecida por Holodomor – um outro genocídio provocado por Stalin em 1932/33, mas praticamente desconhecido.

por: Francisco Lopes Matias, Observador.pt

[...] Este texto não é sobre o Holocausto. É sobre a grande fome da Ucrânia – mais conhecida por Holodomor – um genocídio em massa provocado por Stalin entre 1932 e 1933, mas praticamente desconhecido.

Para explicar este massacre, importa perceber primeiro o contexto espácio-temporal em que se insere. Mal chegou à liderança da União Soviética, em 1924, Josef Stalin tomou um conjunto de medidas para garantir a total abolição da propriedade privada, através da colectivização de todas as terras. Este modelo arrancou, em pleno, no ano de 1929, quando Stalin decretou a entrega imediata de toda e qualquer propriedade ao Estado Soviético. Este plano definia que cada terra (kolkhozes se formadas por uma cooperativa ou sovkhozes se administradas directamente pelo governo) deveria obedecer a certas quotas mínimas de produção, entregando depois tudo o que produzisse ao governo central da URSS, que distribuiria igualmente por todos os cidadãos, independentemente da região proveniente.

Esta decisão não foi, naturalmente, consensual, de modo que se veio a verificar, um pouco por todas as 15 repúblicas soviéticas, alguma resistência por parte dos proprietários rurais. O caso mais notório de oposição declarada a esta medida do I Plano Quinquenal de Stalin foi a Ucrânia, extremamente rica em matérias-primas e fértil em produtos agrícolas (trigo, beterraba, batata, por exemplo) e que seria, assim, enormemente prejudicada por esta lei agrícola, visto que, produzindo muito, não beneficiaria nada desta nova condição. Todavia, entre revoltas e contestação, o plano começou, à força, a ser aplicado e as quotas agrícolas exigidas à Ucrânia eram cada vez mais elevadas e desproporcionais, o que, conjugado com alguma desorganização, resistência e más condições meteorológicas, começou a causar alguma fome, que já se notava em 1931. Era preciso passar fome para que se cumprissem as quotas, mas, mesmo assim, Moscovo só recebeu 39% do valor utópico exigido à Ucrânia.

Perante a realidade ucraniana, Stalin decidiu tomar medidas implacáveis. Considerou que a responsabilidade pela produção baixa e insuficiente não era das metas completamente irrealistas fixadas pelo sistema de quotas ou da desorganização do sistema de colecta, mas antes daquilo que apelidou de “sabotagem dos nacionalistas e contra-revolucionários” ucranianos, que queriam, acima de tudo (na versão quase paranóica do ditador russo), ver o plano de Stalin fracassar. Na carta que endereçou a Kaganovich, um dos seus mais íntimos colaboradores, a 11 de Agosto de 1932, afirmava mesmo que “a Ucrânia é hoje em dia o principal problema (…) É preciso transformá-la numa fortaleza bolchevique, sem olhar a custos”. E Stalin seguiu literalmente estas suas palavras.
Visitar o museu do Holodomor em Kyiv
As colheitas mantinham-se e o trabalho permanecia obrigatório, mas não havia mais redistribuição e os camponeses passaram a estar proibidos de comprar alimento. A comida pura e simplesmente desapareceu. Para garantir que ninguém fugia a este plano demoníaco, Stalin proibiu o êxodo dos camponeses para a cidade.

Como represália pelo fracasso no plano megalómano que ele mesmo ordenara, Stalin usou a fome para castigar o povo ucraniano. Entre Setembro e Novembro de 1932, bloqueou completamente o fornecimento de alimentos à população rural da Ucrânia (mais de 75% do seu total). As colheitas mantinham-se e o trabalho permanecia obrigatório, mas não havia mais redistribuição e os camponeses passaram a estar proibidos de comprar alimento. A comida pura e simplesmente desapareceu. Para garantir que ninguém fugia a este plano demoníaco, Stalin proibiu o êxodo dos camponeses para a cidade, interditando também a sua circulação através da rede de comboios. Tal servos da gleba, os camponeses ucranianos estavam obrigados a permanecer nas suas terras, inevitavelmente condenados a morrer à fome nas aldeias geladas da Ucrânia soviética. Qualquer roubo da mais pequena semente de trigo era condenado, ao abrigo da famosa “lei das cinco espigas”, a dez anos num campo de trabalho forçado (gulag) ou mesmo à pena capital, normalmente executada no local. As conexões com o mundo urbano foram cortadas e os jornalistas proibidos de visitar o campo ucraniano. Aquele povo estava a morrer à fome, mesmo produzindo mais do que nunca.

Em apenas de um ano, morreram milhões de ucranianos (as estimativas variam entre os 4 milhões de mortos e os 12 milhões, que significavam, respectivamente, 12,5% e 37,5% da população total da Ucrânia) da forma mais lenta e desumana, de fome. Famílias inteiras arrasadas, crianças que nasceram sem vida, milhares de seres humanos deixados no chão ao abandono, corpos que nada mais eram do que a pele colada ao osso. Tudo por capricho, vaidade e vingança de Stalin, que, para mostrar que era o líder supremo e omnipotente da URSS, ordenou um dos maiores massacres humanos de que há memória. Nunca num tempo tão curto tanta gente foi morta por tão pouco. Este autêntico genocídio do povo ucraniano foi baptizado de “Holodomor”, que advém da expressão ucraniana “Морити голодом”, que significa “matar pela fome” e foi executado enquanto em grande parte do Ociente se louvava o suposto “milagre económico soviético”, como foi designado por Walter Duranty, conceituadíssimo jornalista do New York Times e prémio Pulitzer, que era, no entanto, negacionista do Holodomor e colaborador próximo de Stalin.

Enquanto 40 milhões de pessoas passavam fome e muitos deles acabavam mesmo por padecer, a URSS exportava trigo como nunca antes se vira, chegando aos 5.170.000 de toneladas (grande parte vinda da Ucrânia) vendidas ao estrangeiro. Fazia assim transparecer para o exterior uma imagem de vitalidade e progresso económico, enquanto a realidade interna era bem diferente. Em 1933, a produção ucraniana representou cerca de 32% do total soviético, sendo, de longe, a província mais fértil, próspera e rica de todo o território da URSS. Contudo, embora continuassem a exportar, os kolkhozes ucranianos não recebiam sequer uma ínfima parte do alimento que produziam. Mantinham-se, por ordem do governo, esfomeados e cada vez mais frágeis.

O pior do Homem veio ao de cima, não por maldade, mas por sobrevivência. Tudo era motivo para conseguir um pão. Denunciava-se a própria família, inventavam-se mentiras sobre os vizinhos, compactuava-se com os piores crimes do Exército. Por uma fatia de pão.

Pelos motivos aparentemente mais insignificantes, centenas, se não milhares de camponeses, foram expostos às maiores torturas e condenados às penas mais horríveis. Numa carta ao próprio Stalin, o oficial soviético Mikhail Cholokhov descreve a violência policial e do Exército Vermelho contra o povo ucraniano (“E eis alguns dos métodos empregados para obter essas 593 toneladas, das quais uma parte estava enterrada… desde 1918! O método do frio… Os kolkhozianos são despidos e postos ‘ao frio’, completamente nus, num celeiro. Muitas vezes, são bandos inteiros de kolkhozianos que são postos ‘ao frio’. O método do calor, em que os pés e as barras das saias das kolkhozianas são regados com gasolina e, em seguida, ateia-se fogo, que depois é apagado para começar de novo… No kolkhoz de Napolovski, um tal de Plotkin, ‘plenipotenciário’ do Comitê do Distrito, forçava os kolkhozianos interrogados a deitarem-se sobre um forno em brasa, depois ele os ‘esfriava’ trancando-os nus num celeiro… No kolkhoz de Lebiajenski, os kolkhozianos eram alinhados ao longo de um muro, e uma execução era simulada… Eu poderia multiplicar ao infinito esse tipo de exemplos. Não são ‘abusos’, mas o método usual de colecta do trigo…”). Stalin respondeu, cínico, que “os lavradores não são nenhumas ovelhinhas inocentes”.

A desgraça humana era total e a maldade chegou a níveis indescritíveis. Sem qualquer necessidade disso, um líder político ordenou a morte e a fome do seu próprio povo. O pior do Homem veio ao de cima, não por maldade, mas por sobrevivência. Tudo era motivo para conseguir um pão. Denunciava-se a própria família, inventavam-se mentiras sobre os vizinhos, compactuava-se com os piores crimes do Exército. Por uma fatia de pão. O Holodomor trouxe também consigo a horrenda realidade do canibalismo. Cantavam tristes as crianças ucranianas no Inverno de 1932-33: “Fome e frio estão nas nossas casas/ Nada que comer, nenhum lugar para dormir/ E o nosso vizinho perdeu a sua razão e comeu os seus filhos”.

Na verdade, milhares de famílias, com um dos membros mortos pela fome, eram obrigadas, para não seguirem o mesmo destino, a comê-lo. Numa entrevista que deu na década de 1990, uma vítima da grande fome ucraniana contou a sua duríssima experiência, quando criança: “Um dia, a filha de uma vizinha da nossa aldeia desapareceu. Todos fomos procurá-la, mas não estava em lado nenhum. Na mesma tarde, entrámos na casa de uma camponesa e deparámo-nos com a criança procurada. A cabeça estava em cima de uma mesa e o corpo a assar, para servir de alimento”.

Como esta, houve centenas de histórias e quantidades incontáveis de crianças foram raptadas para servirem de alimento. Uma das alternativas encontradas ao trigo foi o pirojki, um patê feito com fígado humano. Mas a maldade não fica por aqui. Também em condições muito difíceis, os agentes da NKVD (polícia secreta do regime soviético) recebiam 200 gramas de pão por cada corpo que encontrassem. Os corpos eram enterrados em valas comuns, muitas vezes ainda vivos. A propósito desta realidade, um ucraniano que viveu este terror descreve que “a maioria morria lentamente, em casa (…) Os militares entravam nas casas e perguntavam: “Onde estão os seus mortos?”. Uma vez, havia apenas uma mulher moribunda deitada na cama. Eles disseram: “Vamos levá-la, ela vai morrer de qualquer forma”. Ela implorava: “Não me enterrem, que eu ainda estou viva! Eu quero viver!”. Os guardas insistiram: Para quê vir amanhã por ela? Vai morrer de qualquer forma!”. Levaram-na e enterraram-na viva”.

Honestamente, a única diferença entre a planície ucraniana nos anos de 1932 e 1933 e o Inferno é que, em vez de chamas, ali havia quilómetros intermináveis de neve e temperaturas na ordem dos 30°C negativos. Enquanto as valas comuns se enchiam de corpos quase sem carne e completamente desprovidos da sua dignidade, o trigo de que o povo ucraniano era privado enchia os cofres da URSS, batendo os recordes de exportação para a Europa e para o mundo ocidental. Muitos se esforçaram para descredibilizar aqueles que, como Gareth Jones e Malcom Muggeridge, denunciaram os horrores da fome ucraniana e só na década de 1980 é que investigações sérias começaram a ser conduzidas e relatórios produzidos.
Estas vítimas não tiveram direito a funerais nem a lápides bonitas. Não tiveram direito a ser reconhecidas pelos seus nomes, não tiveram direito a memoriais e praticamente não são referidas nos livros de História. Mas estas vítimas são como, vós, caríssimo leitor. São como eu, são como nós. Estas vítimas eram milhões de seres humanos (mulheres, crianças e homens adultos), inocentes, condenados a morrer da forma mais cruel e morosa, condenados a serem apagados do mapa e da História. Em apenas um ano, milhões de ucranianos foram exterminados, por puro sadismo e vingança de um líder e de um governo que devia ter como única missão defendê-los e às suas vidas. Esquecer o Holodomor ou ficar-lhe indiferente, tal como esquecer o Holocausto, é demitirmo-nos da nossa humanidade, é aceitar que, em última instância, nada mais somos como raça e como espécie do que instrumentos à mercê de alguns facínoras que se outorgam o direito divino de definir o bem e o mal, quem vive e quem morre. E isto, nunca! Ser-se humano, livre e capaz de amar verdadeiramente, é a maior graça que podemos ter e receber. Não a entreguemos de mão beijada àqueles que apenas a querem aniquilar.

Este texto é, assim, dedicado aos milhões incontáveis de mortos provocados por este genocídio absolutamente impiedoso. A eles, todo o meu respeito e homenagem. E se umas breves palavras de um jovem desconhecido nada podem fazer para evitar a tragédia que aconteceu, têm, no entanto, o poder de lembrar o pior a que o Homem pode chegar, nunca esquecendo que cabe a cada um de nós, cidadãos do mundo e seres humanos, impedir que tal se repita.

O autor não escreve em conformidade com as regras do novo Acordo Ortográfico.

segunda-feira, junho 01, 2020

Morte em Lisboa: ucraniano espancado até a morte pelas autoridades de migração

Imagem e parte do texto @Facebook Ricardo Sá
A situação nos Estados Unidos faz lembrar o que aconteceu em Portugal no dia 12 de março de 2020. Os polícias do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) espancaram, até à morte, um imigrante ucraniano no Aeroporto de Lisboa.

Ihor Homeniuk sofria de convulsões mas isso não impediu os inspetores Duarte Laja, Bruno Sousa e Luís Silva, de o algemarem a uma cadeira e o espancarem com murros, pontapés e um bastão durante 20 minutos. Ao saírem da sala disseram "agora está mais calmo" e "hoje já não preciso de ir ao ginásio". Poucas horas depois Ihor morreu. O SEF tentou limpar as mãos declarando que o corpo tinha sido encontrado na rua. No Instituto Nacional de Medicina Legal, na ficha do registo de entrada foi escrito que o cadáver “era proveniente da via pública”. A ficha foi preenchida pelo inspetor do SEF Ricardo Girante. Só a autópsia levantou a suspeita de homicídio. Devido à pandemia Covid-19 os 3 polícias ficaram em prisão domiciliaria e não existiram manifestações de revolta.

Num país europeu, de forma extremamente violenta, às mãos das autoridades foi brutalmente assassinado um ucraniano. Mas quem é que quer saber disso?

#justiçaparaIhorHomeniuk

Ler mais: https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/morte-no-aeroporto-agora-ele-esta-sossegado-disse-inspetor-do-sef

quarta-feira, maio 13, 2020

Leituras: "Meia-Noite em Chernobyl" de Adam Higginbotham

O dia 26 de abril de 1986 foi um ponto de viragem na História. O acidente em Chornobyl não mudou apenas a nossa perceção da energia nuclear, mas também o conhecimento da delicada ecologia do planeta. Chornobyl foi igualmente importante na destruição da URSS.

por: Nuno Coelho, in Ministério dos Livros

O dia 26 de abril de 1986 foi um ponto de viragem na História. O acidente em Chornobyl não mudou apenas a nossa perceção da energia nuclear, mas também o conhecimento da delicada ecologia do planeta. Chornobyl foi igualmente importante na destruição da URSS e, como tal, na vitória dos Estados Unidos na Guerra Fria. Para Moscovo, foi um desastre político e financeiro – provocando a bancarrota de uma economia já vacilante -, mas também ambiental e científico.

Esta é a história nunca contada dos eventos que começaram no centro de controlo do reator 4 da central nuclear de Chornobyl. Depois de centenas de entrevistas, consultas de cartas, memórias inéditas e documentos só agora tornados públicos, Adam Higginbotham revela-nos os acontecimentos dramáticos daquela noite através dos olhos dos homens e mulheres que os testemunharam em primeira mão e que enfrentaram um inimigo aterrador e invisível.

“Meia-Noite em Chornobyl”, uma obra amplamente premiada e que inspirou a série de sucesso da HBO, mostra-nos não só as dificuldades épicas de um império a morrer, mas também o heroísmo individual e desesperado num momento transformador da História.

sexta-feira, maio 08, 2020

Ucrânia recorda solenemente o 75º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa

Em 8 de maio, no 75º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa, o Congresso Mundial dos Ucranianos (CMU/UWC), juntamente com a comunidade internacional, recorda solenemente a memória de milhões de vítimas e oferece eterno agradecimento à todos aqueles que deram as suas vidas em defesa do mundo livre.

A Segunda Guerra Mundial, iniciada em 1939 com a invasão e divisão nazi-soviética da Polónia, tornou-se a guerra mais violenta da história da Humanidade. Seu preço é incalculável: mais de 8 milhões de vidas foram perdidas apenas na Ucrânia, mais de 2 milhões de ucranianos foram lavados aos trabalhos forçados. Hoje prestamos homenagem aos milhões de ucranianos que lutaram de forma brava na Segunda Guerra Mundial, incluindo mais de 250.000 ucranianos e ucranianas que serviram nas forças armadas aliadas da Polónia, França, Grã-Bretanha, Estados Unidos e Canadá. Estamos em dívida eterna para com eles.

Sobrevivendo entre os dois impérios totalitários e mortais de Hitler e de Estaline, o povo ucraniano lutou corajosamente contra os dois regimes de ocupação. O fim da Segunda Guerra Mundial não trouxe paz e liberdade à Ucrânia. Em vez disso, a União Soviética estalinista novamente trouxe a opressão e tirania à Ucrânia e aos muitos outros povos escravizados da Europa Central e Oriental. Por mais de quatro décadas, Ucrânia foi forçada a continuar a sua luta contra o regime soviético, que privou o povo ucraniano do direito fundamental à uma vida livre.

Hoje, o povo da Ucrânia é novamente forçado a lutar por sua terra e liberdade, enquanto a Rússia tenta subjugar Ucrânia ao seu poder imperial. A Rússia, a atual agressora, está tentando usar os símbolos da Segunda Guerra Mundial para justificar e glorificar a ocupação da Crimeia e invasão do leste da Ucrânia. Por meio de campanhas de propaganda estatal, tais como o dito “regimento imortal”, a Rússia está tentando apresentar o totalitarismo soviético de uma forma positiva, branqueando os horríveis crimes do comunismo soviético e criar um culto da suposta vitória estalinista soviética da Segunda Guerra Mundial, usando este tipo de propaganda para justificar a guerra de ocupação da região ucraniana de Donbas.

“Homenageando as milhões de vítimas da Segunda Guerra Mundial e à memória daqueles que lutaram pelo mundo livre, o CMU/UWC exorta a comunidade internacional de aprender com as lições da história. Não devemos tentar apaziguar um tirano moderno que está tentando reconstruir o império russo”, afirmou Pavlo Grod, presidente do CMU/UWC. – “No decorrer dos eventos solenes, os ucranianos, juntamente com outros povos da Europa Oriental e dos Países Bálticos, vão recordar o legado sangrento de Estaline e os diversos crimes da União Soviética, verdadeira cadeia dos povos, outrora escravizados”.

terça-feira, maio 05, 2020

O padre ucraniano que salvava os judeus no Holocausto

Metropolita Andrey Sheptytsky em 1921, foto: Wikipedia
Metropolita Andrey Sheptytsky liderou a Igreja Greco-Católica Ucraniana na época da II G.M. As novas informações sobre Sheptytsky oferecem aos ucranianos uma nova chance de honrar a sua vida e obra.

Os arquivos de papa Pius/Pio XII [o líder da igreja católica durante os anos da Segunda Guerra Mundial] no Vaticano, que foram abertos recentemente permitiram aos pesquisadores alemães descobrir mais evidências de que Pio estava muito ciente do genocídio dos judeus e tomou pouca ou nenhuma ação contra ele.

Mas os arquivos também lançaram uma nova luz sobre uma figura menos conhecida, mas crucial na história: Andrey Sheptytsky, que liderava a Igreja Greco-Católica da Ucrânia na mesma época.

Alguns há muito tempo pedem que Sheptytsky se torne um Justo Entre as Nações, o título de Israel para não-judeus que arriscaram suas vidas para salvar judeus do Holocausto. Mas Yad Vashem, memorial do Holocausto de Israel, resistiu a isso. As novas informações sobre Sheptytsky oferecem a seus simpatizantes uma nova chance de honrar seu recorde histórico.

O fundo

Sheptytsky e seu irmão, Klymentiy, que foi reconhecido como justo, abrigaram mais de cem judeus em mosteiros e organizaram grupos que os ajudaram a se esconder, de acordo com vários historiadores, incluindo o historiador de Yale Timothy Snyder. Andrey Sheptytsky também protestou publicamente o assassinato de judeus e denunciou seus próprios congregantes por participarem da violência.

Nascido em uma nobre família polaca/polonesa na Ucrânia em 1865, Andrey Sheptytsky se juntou ao clero, apesar da oposição de seu pai. Klymentiy, quatro anos mais novo que Andrey, seguiu os passos do irmão mais velho. Andrey falava hebraico fluentemente e era doador regular de causas judaicas na área de Lviv, onde morava. [...]

As novas evidências

Nos arquivos do Vaticano, os pesquisadores da Universidade de Munster descobriram que Sheptytsky escreveu ao papa uma carta que falava de 200.000 judeus massacrados na Ucrânia sob a ocupação alemã “diabólica”.

Escrever essa carta, cujo conteúdo completo ainda não foi publicado, constituiu um crime capital sob a ocupação nazista e, portanto, pode ser visto como uma nova evidência de que o Sheptytsky arriscou sua vida para salvar judeus.

O Secretário de Estado do Vaticano, Angelo Dell'Acqua, que mais tarde se tornou cardeal, alertou em um memorando na época para desacreditar um relatório da Agência Judaica sobre o Holocausto porque os judeus “exageram facilmente”. Ele também descartou o relato de Sheptytsky, dizendo que “os orientais não são realmente um exemplo de honestidade”, revelou a pesquisa alemã.[...]

Especialistas estão “monitorando as notícias que saem do Vaticano”, disse um porta-voz do Yad Vashem: “Esperamos que, uma vez terminada a crise da saúde, possamos retomar o trabalho regular e examinar esses documentos em primeira mão”, disse o porta-voz. “Naquela época, os historiadores terão uma melhor compreensão de todas as suas implicações”.

Ler o texto integral em inglês.