segunda-feira, outubro 21, 2019

As estratégias e segredos da presença russa em África

Em setembro de 2019, o Departamento das Finanças dos EUA estendeu a sua lista de sanções contra os cidadãos e empresas que interferiram nas eleições americanas de 2016. Eram dois cidadãos russos, três empresas registadas nas Ilhas Seicheles e na República Checa e até um iate.

Os cidadãos, Denis Kuzmin e Igor Nesterov, as três empresas: AutolexTransport, BeratexGroup e LinburgIndustries (com os respetivos aviões) e o iate St. VitaminPleasureCraft são, de alguma forma, afiliados ao empresário russo Yevgeny Prigozhin, conhecido como «cozinheiro do Putin». De momento, Kremlin confia ao Prigozhin as missões delicadas da política externa russa, executadas em segredo e que usam elementos económicos, políticos e militares, para influenciar as lideranças e elites dos países terceiros.

Prigozhin é considerado como o dono da «fábrica dos trolls» em São Petersburgo, entidade que usa as redes sociais e outros meios modernos de comunicação para influenciar a opinião pública estrangeira em diversos pontos do globo.

A parte paramilitar da operações russas coordenadas pelo Prigozhin é efetuada pelas EMP russas, a mais conhecida das quais é o «Grupo Vagner», avistada no Leste da Ucrânia, na Síria, na República Centro-Africana e alguns outros países africanos.

Em agosto de 2019, o canal russo «Currenttime.tv» divulgou a sua investigação, em que apurou que os aviões Hawker 125-800B e Hawker 800XP (último com número M-VITO), que foram abrangidos pelas recentes sanções americanas são usados pelo Priogozhin e pertencem à empresa LinburgIndustries.

Pelos dados do centro russo de investigação Dossier Center, as estruturas próximas do Prigozhin funcionam atualmente em cerca de 13 países africanos. Essas estuturas empregam os consultores, analistas, especialista políticos e das operações secretas com intuito de expandir a influência política e económica russa em África.

Os seus maiores éxitos foram registados na RCA, Sudão e Madagáscar. A liderança desses países demonstra lealdade à Rússia, permitindo que lobistas de empresas públicas e privadas russas tenham acesso aos seus recursos naturais e aos mercados internos. Potencialmente, a Rússia também pode estar interessada nos mercados de armas. Afinal, o continente africano é abundante em conflitos e violência.

Na África, os russos precisam, em primeiro lugar, o acesso aos centros de poder. Na maioria das vezes a liderança política concentra em suas mãos os principais recursos do país, facilitando a questão da obtenção de licenças de mineração, compra de armamento e outras despesas significativas, provenientes do orçamento do estado. Portanto, os esforços de consultores e tecnólogos russos se concentram, principalmente, em campanhas eleitorais e outras formas de luta pelo poder.

Na RCA, o pessoal do Prigozhin foi se engajando no apetrechamento das forças armadas e da burocracia estatal, na luta contra os oponentes das autoridades, conseguindo o afastamento do ministro dos Negócios Estrangeiros / das Relações Exteriores (visto por eles como pró-França), estando na origem do lançamento de uma estação de rádio e de dois jornais.

As ações semelhantes foram desenvolvidos no Madagáscar, onde pessoal russo chegando à oferecer os seus serviços aos futuro presidente Andry Rajoelina, embora este já era apoiado pelos EUA e pela China.

No Sudão, eles ajudavam na criação e disseminação dos fake news: os opositores do regime eram chamados de «anti-islámicos», «pró-Israel» e até mesmo «pró-LGBT».

Em fevereiro de 2019, em Senegal, o presidente Macky Sall acusou a embaixada russa no país em financiamento do líder de oposição, Ousmane Sonko. Sall ganhou as eleições e Sonko ficou em 3º lugar.

Em cada caso concreto, a maneira de obtenção do controlo sobre a liderança política de um país africano é diferente. Mas o objetivo é sempre o mesmo, beneficiar a Rússia. Esse benefício pode ser político (por exemplo, voto útil nas sessões da Assembleia Geral da ONU), geopolítico (rivalidade com os EUA e com a China), mas na maioria das vezes é um ganho puramente materialista a extração de ouro, minerais, compra de matérias-primas aos preços baixos, venda de armamento obsoleto, participação em projetos financiados pelos governos nos campos da energia, transportes, comunicações, etc.

Para a Rússia, é mais fácil conseguir os seus interesses políticos e económicos nos países africanos governados pelos regimes autoritários corruptos, onde existem conflitos armados reais ou potenciais, onde o acesso dos investidores estrangeiros é limitado e os preços de energia, matérias-primas e mão-de-obra local são baixos. Para esse fim trabalham os consultores políticos e/ou instrutores policiais e militares, que chegam às capitais africanas como parte da expansão da cooperação russo-africana.

Centenas de lobistas de interesses do Kremlin trabalham em vários países africanos, e as estruturas de Prigozhin são apenas uma parte dos recursos russos dirigidos ao fortalecimento de sua presença em África.

Ler mais.

sábado, outubro 19, 2019

Harold Bloom: “Agora temos obras-primas de lésbicas esquimós”

Disse Harold Bloom, professor em Yale e crítico literário mais popular das últimas décadas. Era intransigente na denúncia da perversão dos atuais critérios de avaliação do valor literário de uma obra. Morreu em 14 de outubro de 2019.

“Agora temos obras-primas de lésbicas esquimós. A minha mulher não gosta nada que eu diga isto. É uma coisa que vai chegar aqui. […] Vão dizer muito bem de poemas terríveis, apenas porque são escritos por lésbicos de Cabo Verde. […] Sou um dinossauro, uma espécie extinta. Há muito que a guerra nas universidades está perdida. Vou contar-lhe uma experiência muito interessante. Há três anos, fui dar umas conferências à Universidade da Califórnia, que é muito politicamente correcta. […] Estava a dar uma conferência, quando a sala literalmente explodiu. Queriam mesmo linchar-me, só porque eu, finalmente, disse a verdade. Virei-me para eles e disse-lhes: ‘Muitos de vocês, nesta sala, são professores de Literatura, mas não gostam realmente de literatura. Se comprarem uma mesa a um carpinteiro que por acaso é mexicano-americano, ou marxista, ou homossexual, e ele vos entrega uma mesa com as pernas a cair, vocês devolvem-na e exigem o vosso dinheiro. Mas estão mais do que dispostos a aceitar livros sem pernas. São completamente hipócritas. Há quotas [nos EUA] para mulheres, negros, mexicanos e homossexuais nas faculdades de Direito e Letras, mas não na de Medicina. Sabem porquê? Porque se vocês, os politicamente correctos, estiverem numa mesa de operações para ser operados ao cérebro e a médica que vai fazer a cirurgia for uma negra lésbica devastadoramente atraente – tento ser o mais ofensivo possível – que, explicam-vos, se qualificou com base na sua origem étnica e orientação sexual, todos vocês saltam imediatamente dali para fora’. Começou tudo a gritar comigo. ‘Racista! Fascista!’ E eu respondi-lhes, também aos berros: ‘Vocês são um nojo, são degradantes. Não têm qualquer argumento racional para opor ao que eu digo. São uns vigaristas. Todos vocês saltavam da mesa de operações’. Foi uma guerra. Mas haverá alguma ideia socialmente mais repugnante do que pretender que é mais benéfico para uma jovem cabo-verdiana que vem viver para Portugal ler obras dos seus compatriotas, por más que sejam, do que Eça ou Almeida Garrett? Outro dia fui falar de cinco dos meus poetas preferidos: Whitman, Pessoa, Lorca, Hart Crane e o maravilhoso Luís Cernuda. São todos homossexuais, mas que me interessa saber se eles preferem dormir com homens ou mulheres?”

Agora já percebem porque era polémico, porque não era muito popular no mundo académico mas os seus livros vendiam-se e vendem-se como pãezinhos quentes. É mais um que nos deixa saudades e cuja palavra nos vai fazer falta. Entretanto, se não leram Harold Bloom, é sempre boa altura para começar.

Trecho da entrevista, que deu em maio de 2001 ao jornal português “Público”, e que pode ser lida, descarregando a sua edição em PDF.

sexta-feira, outubro 18, 2019

Filme dedicado aos ucraniano-brasileiros já faz história em festivais do Brasil

O filme da realizadora brasileira Andréia Kaláboa, “Parabéns a Você”, retrata a vida das colónias ucraniano-brasileiras da década de 1980 e será exibido em três festivais do Brasil, entre eles de Santa Maria (RS) e Santos (SP), escreve Tribuna Paraná.  

O curta-metragem é baseado na história real da cineasta e contou com a produção da produtora curitibana GP7 Cinema, a mesma da série Contracapa. A produção foi gravada nas colónias rurais de imigrantes ucranianos de Barra D’Areia, Ponte Nova, Taboãozinho e Manduri no município de Prudentópolis, cidade natal de Andréia e do produtor Guto Pasko, dono da GP7.
Cena do filme 'Parabéns a Você'. Foto: Divulgação/GP7 Cinema
O filme se passa em 1988, época em que o país vivia uma grande crise económica, e conta a história de Yulia, uma menina de sete anos,nascida em uma família humilde de agricultores,que sonha em ganhar uma festa de aniversário, porém, as dificuldades financeiras dos pais podem estragar o desejo da garota:
Parabéns a Você é um fantástico curta-metragem que utiliza o contexto histórico revelando as dificuldades reais de uma classe [e de uma etnia] que enfrentou problemas para crescer economicamente, além de preservar a cultura de um povo que escolheu o Brasil como moradia.

Encanta pela fotografia e cenários bucólicos,que trazem a geografia característica da paisagem paranaense como palco principal. A delicadeza no roteiro e a su(b)til interpretação dos atores também se destacam no filme.
Cena do filme 'Parabéns a Você'. Foto: Divulgação/GP7 Cinema
Ainda sem data de estreia em Curitiba [e no resto do Brasil e Ucrânia], Parabéns a Você se destaca por trazer uma ótima história do povo paranaense.

quarta-feira, outubro 16, 2019

Parlamento Europeu aprovou resolução que coloca nazismo e comunismo em pé de igualdade

A União Europeia finalmente colocou comunismo e nazismo em pé de igualdade, depois de o Parlamento Europeu ter aprovado em setembro uma resolução histórica que condena os dois regimes ditatoriais, escreve a publicação portuguesa Observador.pt

No passado dia 19 de setembro, a União Europeia colocou comunismo e nazismo em pé de igualdade, depois de aprovar no Parlamento Europeu uma resolução condenando ambos os regimes por terem cometido “genocídios e deportações e foram a causa da perda de vidas humanas e liberdade em uma escala até agora nunca vista na história da humanidade”.

A resolução Importance of European remembrance for the future of Europe (consultar o texto) contou com 535 votos a favor, 66 contra e 52 abstenções, noticia o jornal espanhol ABC esta terça-feira. Apesar do significado histórico, esta resolução passou despercebida pela maioria, ainda que este seja tema de debate recorrente entre os historiadores desde a queda da União Soviética há três décadas.
Consultar o texto em inglês
De acordo com o ABC, o jornalista polaco Ryszard Kapuscinski chegou a essa conclusão em 1995: “Se pudermos estabelecer a comparação, o poder destrutivo de Estaline era muito maior. A destruição levada a cabo por Hitler não durou mais de seis anos, enquanto o terror de Estaline começou na década de 1920 e prolongou-se até 1953.”

O debate alcançou o seu auge em 1997, com a publicação do “Livro Negro do Comunismo” que foi escrito por um grupo de historiadores sob a direção do investigador francês Stéphane Courtois, que se esforçaram por fazer um balanço preciso e documentado das verdadeiras perdas humanas do comunismo. Os resultados foram esmagadores: cem milhões de mortos, quatro vezes mais do que o valor atribuído por esses mesmos historiadores ao regime de Hitler.

Apesar de tudo, estes números não eram uma novidade. Outros investigadores, como Zbigniew Brzezinski, Robert Conquest, Aleksandr Solzhenitsyn e Rudolph Rummel, já se tinham interessado anteriormente pelo Gulag, a fome causada por Estaline na Ucrânia e as deportações em massa dos dissidentes do regime soviético.

Uma das diferenças entre os dois regimes é que o GULAG soviético foi usado (principalmente, mas não só) para punir e eliminar dissidentes políticos (reais e imaginários), com o objetivo de transformar as estruturas socio-económicas do país e promover a coletivização e a industrialização. (Sem esquecer as fomes orquestradas, deportações e limpezas étnicas soviéticas, dirigidas contra os ucranianos, chechenos, tártaros da Crimeia ou alemães de Volga). Os nazis, por seu lado, usavam os campos de concentração principalmente para extermínio de vários grupos étnicos, políticos e sociais.

O regime nazi foi culpado do genocídio de cerca de 6 milhões de pessoas, incluindo judeus, ciganos, homossexuais e comunistas (vários correntes esquerdistas e centristas, como socialistas, social-democratas, etc.).

A resolução aprovada pelo Parlamento Europeu é bastante incisiva, nela se apelando, nomeadamente “a uma cultura comum da memória que rejeite os crimes dos regimes fascista e estalinista e de outros regimes totalitários e autoritários do passado como forma de promover a resiliência contra as ameaças modernas à democracia, em particular entre a geração mais jovem”. Também se manifesta “profundamente preocupado com os esforços envidados pela atual liderança russa para distorcer os factos históricos e para «branquear» os crimes cometidos pelo regime totalitário soviético, e considera que estes esforços constituem um elemento perigoso da guerra de informação brandida contra a Europa democrática com o objetivo de dividir a Europa”.

Leituras obrigatórias: “O Apelo da Tribo” do Mario Vargas Llosa

No seu livro “O Apelo da Tribo” Mario Vargas Llosa assina um conjunto de ensaios biográficos sobre autores que o ajudaram a traçar uma visão liberal do mundo.

Neste livro, o prémio Nobel da Literatura procura refletir sobre a vida e a obra dos autores que ajudaram o escritor peruano a moldar a visão liberal que tem sobre o mundo, visão que foi construindo, ao mesmo tempo que deixou um passado ligado ao marxismo.
Folha de rosto da obra de Adam Smith, numa edição de 1828, em Edimburgo
José Ortega y Gasset, Friedrich August von Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin, Jean-François Revel e Adam Smith foram os nomes escolhidos. E é um texto sobre este último que o Observador.pt revela (só para os assinantes), na pré-publicação de um livro que é publicado a 11 de outubro. Neste excerto, Mario Vargas Llosa escreve sobre “A Riqueza das Nações”, a obra que Adam Smith publicou em 1776 e que viria a tornar-se uma referência do liberalismo económico, até hoje.

quinta-feira, outubro 10, 2019

Secreta militar russa tem unidade própria para ações de desestabilização na Europa

Chama-se Unidade 29155, está ativa há pelo menos dez anos mas só agora foi descoberta por diversos serviços de informações ocidentais. Unidade russa terá estado envolvida no envenenamento de Skripal.

por: Gonçalo Correia, Observador.pt

As operações secretas em território estrangeiro têm sido muitas, mas os países ocidentais demoraram quase dez anos a descobrir que existe uma unidade dos Serviços Secretos das Forças Armadas Russas (conhecida pela abreviatura GRU) especializada em operações de desestabilização em território europeu. A divisão chama-se Unidade 29155, tem agentes peritos em ações de “subversão, sabotagem e homicídios” e foi responsável pelo envenenamento e tentativa de homicídio do antigo espião russo Sergei Skripal no Reino Unido, em 2018, pela tentativa de homicídio dois anos depois do primeiro-ministro de Montenegro e pelo envenenamento de um comerciante de armas na Bulgária, em 2015. Nenhuma destas operações foi concluída com sucesso.
O comerciante de armas búlgaro Emilian Gebrev sobreviveu a um ataque de envenenamento em 2015.
Crédito Nikolay Doychinov / Agence France-Presse - Getty Images
A revelação é feita pelo The New York Times (NYT). O jornal norte-americano teve acesso a documentos russos e a relatórios de unidades de Serviços Secretos de países ocidentais, recolhendo ainda depoimentos de agentes destas equipas e de um operacional “reformado” dos Serviços Secretos das Forças Armadas Russas.

Esta unidade dos secreta militar russa, agora revelada, contrasta com outras do mesmo país em termos de métodos. Ao invés de optar por ações de desestabilização informática — com recurso a hackers, por exemplo —, a Unidade 29155 realiza operações no terreno. Os seus agentes, alguns dos quais “veteranos de guerra condecorados” por serviços prestados “em alguns dos conflitos mais sangrentos” do exército russo (por exemplo, no Afeganistão, Chechênia e Ucrânia), “deslocam-se de e para países europeus” para operações secretas, aponta o NYT. O secretismo é tanto que a existência da unidade era desconhecida até de outras divisões do mesmo comando, a GRU.

Existem, no entanto, outras unidades russas com métodos similares, como o Serviço de Segurança Federal, que já foi liderado por Vladimir Putin e que chegou a ser acusado pelas autoridades britânicas de ter sido responsável pelo homicídio do antigo espião russo Aleksander V. Litvinenko, em 2006.
O major-general Andrei V. Averyanov, à esquerda, é o comandante da unidade.
O coronel Anatoly V. Chepiga foi indiciado na Grã-Bretanha pelo envenenamento de Skripal. imagem: NYT
Um agente europeu em atividade falou com o The New York Times sob condição de anonimato e afirmou tratar-se de “uma unidade que tem estado ativa ao longo dos últimos anos em território europeu”, admitindo ainda a surpresa perante a perceção de que “os russos, [através de] esta unidade dos serviços secretos, tenham-se sentido livres para sair do país e levar a cabo este tipo de atividades extremamente malignas em países amigáveis [com os quais têm relações diplomáticas]. Foi um choque”.

Os alertas sobre as ações secretas de agentes russos em território europeu têm sido sérios e múltiplos nos últimos anos. O chefe dos Serviços Secretos do Reino Unido (MI6), Alex Younger, já adimtiu que que “quase não há limites” nas operações secretas russas.

Em 2012, uma diretiva do Ministério da Defesa presidido por Vladimir Putin já reconhecia a existência desta unidade, autorizando que se dessem prémios especiais a três unidades secretas por “feitos especiais no serviço militar”. Uma delas era esta equipa agora descoberta pelos países ocidentais. As outras unidades eram a 74455 — que viria a estar envolvida, quatro anos depois, na alegada interferência russa nas eleições presidenciais norte-americanas, que opuseram Donald Trump a Hillary Clinton — e a 99450, cujos membros “terão estados envolvidos na anexação da Península ucraniana da Crimeia em 2014”.

Um dos aspetos que ainda intriga os países ocidentais é o fracasso de todas as operações conhecidas levadas a cabo por esta unidade de Serviços Secretos das Forças Armadas Russas. Não se descarta, para já, a hipótese de que tenham sido levadas a cabo outras operações com sucesso, de que os Serviços Secretos ocidentais não estejam ainda a par.

O jornal norte-americano tentou contactar um porta-voz do presidente russo Vladimir Putin, Dmitri S. Peskov, que “remeteu questões sobre esta unidade [dos serviços secretos] para o Ministério da Defesa da Rússia”. Contudo, o Ministério “não deu resposta aos pedidos de comentário” feitos a propósito desta revelação.

domingo, outubro 06, 2019

Retorno russo à África: estratégias, políticas e perigos

À semelhança das décadas 1960-1980, Kremlin decidiu apostar em África, oferecendo aos países e regimes amigos as soluções tradicionais já testadas durante a guerra fria: venda de armamentos e uso de “assessores” militares.

Porque Rússia escolheu África?

Ano 2018 se caraterizou pela «pausa» da estratégia internacional da federação russa, quando o modelo anterior já não funciona e o modelo novo ainda não foi criado. A tentativa russa de fazer aos países europeus esquecer a «questão ucraniana» não foi bem sucedida.

A política das sanções, criada para conter o comportamento agressivo do Kremlin foi alargada, principalmente após o “caso Salisbury”, quando os oficiais do GRU russo envenenaram a família Skripal no solo britânico. As tentativas russas de «descongelar» as relações com os EUA, via amizade Putin-Trump, receberam uma reação negativa do congresso americano.
A chegada dos equipamentos russos em Moçambique, setembro de 2019
Os negócios russos com a China também diminuíram. Na 1ª metade de 2018 os investidores chineses retiraram da Rússia os investimentos no valor de cerca de 1 bilião de dólares, ou seja, 25% do total dos seus investimentos no país. Nas outras regiões do globo o investimento chinês, em média, cresceu em 2018 em cerca de 14%.

Por sua vez, diversos países da África mostram o crescimento sustentável do seu PIB, se transformando num campo de batalha económica das potências mundiais, quer pelo controlo dos mercados, quer pelos seus recursos minerais. Actualmente, as importações africanas chegam aos 500 biliões de dólares, cerca de 13% são canalizados para a compra de alimentos.

Interesse russo «triplo»: votos na ONU, armamentos e recursos minerais

Em dezembro de 2018 a questão de cooperação russa com África foi debatida no âmbito da discussão «Retorno da Rússia à África: interesses, desafios, perspetivas».

O retorno russo à África é descrito na Rússia como algo que os próprios africanos necessitam mais do que os russos: «Na situação da presença ativa da China e da Índia, os colegas africanos precisam diversificar a interação. É necessário ter aqui um equilíbrio, porque os países africanos entendem que a posição predominante de um único país, especialmente com uma poderosa instituição de financiamento, será semelhante ao passado colonial. A Rússia [...] pode mudar essa situação».

No entanto, os propagandistas russos, por exemplo, do canal televisivo “Tsargrad TV” absolutamente não escondem a essência do interesse russo em África: “A Rússia precisa da África não menos do que a África precisa da Rússia. Antes de tudo, precisamos de criar as condições sob as quais nossos oponentes geopolíticos não possam fortalecer suas posições e jogar contra a Rússia no campo africano às custas dos países africanos...”
A chegada dos equipamentos russos em Moçambique, setembro de 2019
Neste momento a Rússia está criando a estratégia de relacionamento com África, intitulada “Rússia-África: uma visão geral em 2030”. Antes de tudo, será um guia pensado para evitar os erros comuns cometidos pelas empresas russas em África (até 90% de negócios russos na África se revelaram um fracasso). Cerca de 30 especialistas russos preparam um documento que inclui análises macroeconómicas, dos sistemas políticos e económicos dos países africanos e avaliação de riscos. Com base nos dados apresentados, uma equipa de especialistas desenvolve previsões e recomendações sobre o desenvolvimento das relações russo-africanas até 2030. Com base nessa análise, serão tiradas conclusões sobre as possibilidades da Rússia ocupar nichos específicos em África.

Até o momento, as relações Rússia-Africa se baseiam no “interesse triplo».

Países africanos possuem 54 votos na AG de ONU, que Moscovo pretende usar como apoio das suas posições internacionais (a guerra contra Ucrânia, anexação da Crimeia, reconhecimento internacional dos territórios ocupados da Geórgia, etc.).

Rússia tenta aprofundar a cooperação técnico-militar com África, dado que vários países africanos possuem, nas suas FA, os armamentos soviéticos e mostram interesse de receber os novos tipos de armamentos russo (casos de Sudão, Angola, DR Congo, RCA). Na imprensa internacional circulam os rumores de que Rússia planeia abrir as suas bases militares em África (Egito, Líbia Ocidental, Sudão, RCA). Na RCA são ativos os “assessores” e muito possivelmente os mercenários russos ligados à EMP russa Grupo Vagner.

Rússia também pretende explorar os recursos minerais africanos. Em geral, a Rússia e a África possuem aproximadamente 50-52% do potencial total de recursos da Terra. Mas a nomenclatura de minerais na África e na Rússia é diferente.

Segundo especialistas, os países africanos representam cerca de 30% das reservas minerais do mundo, incluindo 83% da mineração mundial de platina, 45% de diamantes, 40% de ouro, 47% de cobalto, 43% de paládio, 42% de cromo, etc.

Num futuro previsível, a Rússia pode experimentar um déficit em vários minerais extraídos em África. Isso a está pressionando a estabelecer controlo sobre as minas, jazigos ou campos de petróleo e gás que interessam aos seus oligarcas. Estes realmente gostam da África, porque devido às peculiaridades dos depósitos minerais e à mão-de-obra barata, a rentabilidade dos investimentos na indústria de mineração é significativamente maior do que em outras regiões do mundo, e o custo dos produtos extraídos é notavelmente, geralmente de 20 à 30% menor do que em outros lugares.

Para a federação russa, que está sob sanções internacionais, o comércio com os países africanos é muito importante como compensador. Além dos recursos minerais, a Rússia está interessada no fornecimento de produtos agrícolas tropicais (café, cacau, frutas cítricas), além de um aumento no fornecimento de frutas e legumes, que deve substituir os produtos da Europa sujeitos às “auto-sanções” russas.

Em termos de exportação, Rússia vende aos países africanos fertilizantes, máquinas, grãos, bem como a exportação de serviços e tecnologias de engenharia, incluindo construção de estações/usinas nucleares, hidrelétricas, fábricas de processamento, oleodutos e caminhos-de-ferro/ferrovias.

Segundo dados de 2017, o volume de comércio entre a federação russa e os países africanos, em comparação com 2016, aumentou 26,1% e alcançou 17,4 biliões de dólares, principalmente exportações russas (14,8 biliões de dólares), que aumentaram um terço (29,8%). As importações de bens africanos para a Rússia cresceram 8,3% e somaram 2,6 biliões de dólares, e os investimentos russos acumulados na África de 2003 a 2017 totalizaram 17 biliões de dólares.

A Rússia, privada do potencial financeiro de seus principais rivais – os EUA e a China – ocupa seu nicho na África, ajudando governantes autoritários em estados instáveis, mas potencialmente ricos, propensos aos uso dos equipamentos militares russos.

A EMP russa “Grupo Vagner” trabalha de acordo com o esquema: “o fornecimento de assistência militar e outras, em troca de licenças para a extração mineira”. Este esquema é usado na República Democrática do Congo, Sudão, Líbia, Angola, Guiné, Guiné-Bissau, Moçambique, Zimbábue, República Centro-Africana e Madagascar. Putin, comparou as actividades do alegado dono do “Grupo Vagner” Prigozhin, as com George Soros, um filantropo americano e financiador bilionário que o Kremlin há muito tempo acusa de derrubar governos autoritários ao mando de Washington.
A chegada dos equipamentos russos em Moçambique, setembro de 2019
Mas ao contrário dos EUA, que buscam popularizar e introduzir os padrões de democracia aos países parceiros, Moscovo segue os passos da China, que está pronta para cooperar sem condições políticas preliminares. No âmbito da ideologia expansionista do espaço vital do “mundo russo” e construindo as bases de influência do “império eurasiano”, para Kremlin é perfeitamente aceitável cooperar com qualquer ditadura em África.

Até o final do século XXI, pode haver mais de uma dúzia de países em África que iriam superar a população da Rússia, tendo em vista que o número dos seus habitantes cairá para o nível de 50 milhões de pessoas. Não se pode excluir que a liderança russa já esteja considerando a opção de atrair migrantes africanos para minimizar as perdas demográficas, talvez essa seja talvez a única maneira de evitar a completa dissolução da Rússia pelos chineses.

Fonte: secção «Delta» do grupo Resistência Informativa

quarta-feira, outubro 02, 2019

Projeto MARIA dedicado ao Holodomor será exibido em Paris

A artista ucraniano-canadense Lesia Maruschak, criadora da instalação de arte multimédia MARIA, dedicada ao Holodmomor, exibirá seu trabalho em outubro em Paris, na França, como parte da ParisArtistes e da prestigiada exposição fotográfica Objectif FEMMES.

O Projeto MARIA é um tributo às vítimas do Holodomor de 1932-33 – genocídio da fome na Ucrânia soviética, onde milhões de pessoas morreram. Político e intencional, Holodomor foi um ataque patrocinado pelo Estado soviético contra um único grupo étnico como parte do novo modelo socio-económico da União Soviética que exigia a subjugação da população ucraniana cuja consciência nacional estava no caminho da nova ordem. No centro, está uma única imagem vernacular de uma jovem, Maria F., que sobreviveu e atualmente reside no Canadá.

Lesia Maruschak estará entre 70 artistas franceses e internacionais contemporâneos, emergentes e estabelecidos, que exibirão seu trabalho em diversos meios em 7 locais parceiros em Paris durante o fim de semana de 4 a 6 de outubro de 2019.

Do grupo de artistas participantes do ParisArtistes, Lesia Maruschak foi escolhida como um dos cinco fotógrafos a serem exibidos na exposição de fotos Objectif FEMMES - um evento anual que mostra o trabalho de talentosas fotógrafas. Lesia exibirá MARIA, um Mobile Memorial Space que recorda o Holodomor, genocídio do povo ucraniano, inspirado na história de um sobrevivente do Holodomor que vive atualmente no Canadá. A instalação inclui escultura, filme, livros e arte.

A exposição fotográfica da Objectif FEMMES será exibida de 1 a 8 de outubro de 2019, nas salas requintadas da Prefeitura do 9º distrito de Paris, com o apoio do prefeito Delphine Bürkli.

“O Congresso Mundial Ucraniano felicita Lesia Maruschak por essa conquista notável e convida todos os amigos da Ucrânia em Paris e arredores a visitar essas exposições”, disse o vice-presidente do CMU/UWC e presidente do Comité Internacional de Consciência e Reconhecimento de Holodomor do CMU/UWC, Stefan Romaniw. “É obrigação de todas as comunidades afetadas pelo genocídio incentivar o diálogo e a arte é uma ferramenta muito poderosa com a qual a conversa é ativada e as pontes são construídas.”

No início deste ano, em maio, o livro de arte de Lesia Maruschak, MARIA, ganhou o prémio mais alto no Festival Internacional do Arsenal de Livros em Kyiv e foi colocado na lista curta do Festival de Photobook de Atenas e no prestigiado Prix du livre, Recontres d'Arles.

Saber mais sobre ParisArtistes# http://www.parisartistes.com

Saber mais sobre a Objectif FEMMES:
https://www.objectif-femmes.art/page/objectif-femmes-2019