terça-feira, junho 25, 2019

APCE/PACE: a venda absurda da consciência europeia

A Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (APCE) aprovou na madrugada desta terça-feira um texto que torna possível o retorno da Rússia ao organismo, o que deve acabar com cinco anos de crise institucional com Moscovo.
Após quatro horas de debates, 118 parlamentares dos estados-membros do Conselho da Europa aceitaram (62 deputados votaram contra, 10 se abstiveram e alguns simplesmente não apareceram no plenário) que a Rússia apresente uma delegação já nesta terça-feira, o que lhe permitirá participar na quarta-feira da eleição do/a Secretário-geral desta organização de defesa dos direitos humanos.
Cartoon histórico: Líderes da "democracia" sem espinha dorsal, década de 1940
O deputado croata da APCE/PACE, liberal Goran Beus Richembergh, foi demolidor para com a venda da consciência europeia:
Goran Beus Richembergh | Facebook
Nunca nos 70 anos da sua história a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa não se reunia até a noite, sendo vergada aos interesses de um Estado-Membro, como é actualmente. A instituição que durante sete décadas foi a guardiã dos princípios da democracia, do Estado de direito e dos direitos humanos na Europa, agora cedeu à chantagem da Rússia, que durante dois anos não pagava as suas contribuições do membro, colocando [APCE] de joelhos e abrindo um enorme buraco no seu orçamento.

Um pequeno grupo de deputados tenta apresentar mais de 200 alterações ao resultado absurdo que a intenção da maioria de aprovação de um relatório especial da Comissão sobre as regras e funcionamento da delegação parlamentar russa que volta [ao APCE] com todos os seus direitos, independentemente da anexação da Crimeia, da ocupação de Donbas, dos 12.000 de vidas perdidas, ignorando a decisão do Tribunal Europeu do Direitos Humanos, apesar da proibição aos Comissários dos Direitos Humanos de visitar a Federação Russa [Sic!], [apesar] dos 70 presos políticos nas prisões russas, da liquidação de dissidentes políticos em casa e no exterior, da captura dos marinheiros ucranianos, da culpa comprovada no abate de um avião comercial [MH17] de centenas de pessoas mortas na Ucrânia e muito mais pelo que [Rússia] foi excluída da Assembleia Parlamentar durante cinco anos. Mas quase todos os grupos políticos, exceto parte de nós liberais, dos conservadores (britânicos), dos deputados ucranianos e [dos países] bálticos [e da Geórgia] inclinaram a cabeça e decidiram, por cerca de 30 milhões [de euros] da dívida russa, expor à humilhação a mais antiga instituição europeia e acabar com os últimos remanescentes de sua autoridade, permitindo aos russos regressarem amanhã [25/06/2019] triunfalmente ao Estrasburgo e participarem na eleição do novo Secretário-Geral ou da nova Secretária-Geral da UE na quarta-feira, como se nada tivesse acontecido.
Imagens: artista georgiano Shota Leladze.

Artista: Andriy Yermolenko (Ucrânia)
Blogueiro: uma deputada georgiana da APCE/PACE fez a pergunta retórica aos delegados: quantos países da Europa devem se tornar as vítimas da agressão russa para que em Estrasburgo reconheçam a verdadeira ameaça russa?

A história real dos três mergulhadores de Chornobyl

A entrada dos três “mergulhadores suicidas” na cave alagada e radioativa do 4º reator de Chornobyl foi um dos momentos mais brilhantes e tensos da série “Chernobyl”. A operação realmente ocorreu em maio de 1986, embora de forma menos dramática.

O serviço ucraniano da BBC falou com um dos verdadeiros participantes daquele evento – Oleksiy Ananenko, ex-engenheiro-mecânico sénior da unidade de reatores da estação/usina nuclear de Chornobyl.

“Os suicidas”

No segundo episódio da série “Chernobyl”, académico Valery Legasov explica ao Mikhail Gorbachev o perigo de uma nova explosão na estação/usina, caso a “lava” do reator destruído chegar à piscina debaixo do mesmo. Se isso acontecer, poderá se dar uma nova explosão que lançara a radiação que cobrirá a metade do continente europeu.
“Solicitamos a sua permissão matar três pessoas”, – diz Valery Legasov e recebe a permissão do Secretário-geral do PCUS e líder soviético.

“Os voluntários”

Oleksiy Ananenko de 59 anos conta que na realidade nem sequer se perguntaram pelos voluntários, ele estava trabalhando na estação, quando recebeu o telefonema com a descrição da tarefa para cumprir (recordações não lhe são muito fáceis, em 2017 ele sofreu um acidente – foi atropelado por uma caro, passou 36 dias em coma induzido).
Ator que interpreta Oleksiy Ananenko na série
A tese dos voluntários foi inventada pelos jornalistas do jornal soviético “Trud” (Trabalho), que em 16 de maio de 1986 publicou no artigo chamado “Chornobyl: endereço da coragem” a seguinte passagem: “Eles se voluntariaram – o chefe do turno da estação/usina nuclear de Chornobyl B. Baranov, o engenheiro sénior da unidade de turbinas № 2 V. Bespalov e o engenheiro-mecânico sénior da unidade do reator № 2 O. Ananenko”.
Oleksiy Ananenko real na década de 1980, o seu bigode foi cortado após
acidente de Chornobyl para não capturar a radiação
Depois, a mesma tese foi copiada por outros jornais soviéticos.

Na realidade, a tarefa foi formulada pela comissão estatal – temia-se que o contato da “lava” do reator explodido com água poderá levar à segunda explosão de Chornobyl (a hipótese defendida pelo académico belaruso Vassili Nesterenko – protótipo da personagem Ulyana Khomyuk/atriz Emily Watson).
O artigo da imprensa soviética chamado “Rapazes heróicos”, baseado no texto
inicial do jornal soviético “Trud” de 16/05/1986
Para que isso não aconteça, era necessário drenar água das piscinas debaixo do 4º reator. Algo que podia ser feito apenas manualmente, numa cave alagada, três metros abaixo da superfície da estação. A missão calhou ao Baranov, Bespalov e Ananenko simplesmente porque era o seu turno laboral. Uma pessoa de fora dificilmente encontraria as escotilhas. Não foi lhes oferecida absolutamente nenhuma recompensa (na série se fala sobre o prémio de 400 rublos (equivalentes aos 678 dólares ao câmbio oficial) e uma subida na carreira).

Descida

Alguns anos atrás, Oleksiy Ananenko contou detalhadamente sobre a sua descida debaixo do reator (texto pode ser lido em russo AQUI).

As memórias do Oleksiy Ananenko:

Para manipular as escotilhas 4GT-21 e 4GT-22 era necessário descer ao corredor “zero zero um”, alagado por água radioativa. [...] O fator de risco foi a irradiação da água, uma vez que ninguém sabia como sua atividade mudaria pelo caminho ao longo do corredor, e, portanto, era impossível prever a magnitude da dose [da radiação que será] recebida”.
Reservatórios com água localizados imediatamente sob o reator (no esquema do Relatório do Grupo Consultivo Internacional sobre Segurança Nuclear são referidos como "capacitores do sistema de localização de acidentes"). Os mergulhadores de Chornobyl abriram as escotilhas num dos corredores próximos, o que permitiu o bombeamento de água fora dessas bacias.
Oleksiy Ananenko pediu que lhes sejam fornecidos os fatos de mergulho – para se proteger minimalmente contra água radioativa. Embora os fatos não tapavam os seus rostos, como na série, na realidade os mergulhadores usaram apenas as máscaras respiratórias soviéticas das mais primitivas, do tipo Lepestok
Máscaras da série "Chornobyl"
Essa foto é geralmente usada na Internet para ilustrar a história dos mergulhadores de Chornobyl. Na verdade, não são eles. No entanto, os mergulhadores usaram as máscaras semelhantes. Oleksiy Ananenko não sabe se eles foram fotografados ou não. Nos jornais soviéticos não foram localizadas as fotografias reais dos três mergulhadores.
Este tipo de máscaras defende apenas contra poeira e aerossóis, e não dificulta a comunicação (mais um mito, criado pelo mesmo artigo do jornal “Trud”).
Antes da entrada na cave, série "Chernobyl"
Cada mergulhador recebeu dois dosímetros de ionização: um colocado ao peito, o outro – no tornozelo para medir a radiação da água.
Na série Ananenko, Baranov e Bespalov usam os fatos de mergulho com garrafas de oxigénio.
Na verdade, eles usaram os fatos de mergulho com simples máscaras respiratórias.
As memórias do Oleksiy Ananenko:

A operação em si foi rápida e sem complicações [...] O último medo – de que nas escotilhas não haveria volantes ou que estes ficassem enganchados – também não se materializou. Eles os abriram com relativa facilidade, a chave inglesa não foi necessária. [...] De acordo com o ruído característico da água que fluía da piscina, ficamos convencidos de que a tarefa foi cumprida e a piscina foi esvaziada”.

As memórias do Valery Bespalov:

Eu olhei através do ombro de Baranov nos indicadores do instrumento [dosímetro militar DP-5] – a escala do dispositivo foi ultrapassada em todas as sub-bandas. Então veio um comando curto: mover-se muito rápido!

Correndo pela área perigosa, eu não resisti, olhei para trás e vi um gigantesco cone preto de fragmentos de reator explodido misturado com o miolo de concreto, que caia pela abertura tecnológica da sala central.

Na boca surgiu o sabor familiar metálico do fluido de radiólise”.

Apesar disso, os mergulhadores conseguiram evitar a exposição séria à radiação: “Eu não me lembro que leituras tivemos naquela época, e isso significa que eles não eram muito más/ruins”, – conta Oleksiy Ananenko.
Na cave, série "Chernobyl"
Além disso ninguém lhes aplaudiu após o seu retorno da cave e eles não se sentiam como heróis: “era um trabalho normal [...] sentimo-nos como de costume”, – conclui ele.

“Estou vivo e isso me basta”

Os mergulhadores de Chornobyl não morreram da doença de radiação aguda (a série informa disso nos seus momentos finais) e continuaram à trabalhar em Chornobyl.
Oleksiy Ananenko no seu apartamento em Kyiv, 2019
Borys Baranov morreu de enfarte em 2005, mas Oleksiy Ananenko e Valeriy Bespalov vivem em Kyiv. Oleksiy Ananenko trabalhou em Chornobyl até 1989, depois se transferiu para uma outra organização, ligada à segurança da energia atómica. A União Soviética lhe concedeu a ordem civil “Distintivo de Honra, e em 2018, o Presidente da Ucrânia Petró Poroshenko concedeu-lhe a ordem “Pela Coragem” do III grau.
Ordem “Distintivo de Honra” (em cima) e ordem “Pela Coragem” (em baixo)
Em 2017 Oleksiy Ananenko foi atropelado em Kyiv por um carro, numa passagem de peões. Ficou 36 dias no coma induzido com trauma severo da cabeça e do pé. Conseguiu manter o seu emprego, embora não voltou à trabalhar: “É preciso ficar feliz que pelo menos estou vivo. Não morri antes – ainda bem. Eu vivo e vivo, isso já é o suficiente”, acrescenta o mergulhador de Chornobyl.
Oleksiy Ananenko com esposa Valentyna em Kyiv, 2019
Blogueiro: a série anglo-americana não apenas foi a mais fiel aos acontecimentos da tragédia de Chornobyl (usando, naturalmente, uma certa dramatização dos eventos, coisa própria à “sétima arte”). A série até suavizou a realidade soviética, apresentando-a mais light e até mais simpática, em vários aspetos, do que essa mesma realidade era no quotidiano das pessoas que viviam e sobreviviam na URSS...

segunda-feira, junho 24, 2019

O que realmente aconteceu na URSS em 22 de junho de 1941?

Na URSS/Rússia essa data foi/é tida como o início da “Grande Guerra Patriótica”, uma espécie do mito histórico soviético, criado, para esquecer e branquear o período em que Alemanha nazi e URSS comunista eram amigas e aliadas que dividiam, entre elas, a Europa.

«Grande Marcha Libertadora»

Já em 1935, a URSS possuía uma gigantesca máquina militar, que superava quase todo o exército do continente – Exército Vermelho (RKKA) tinha 119 divisões e 17 brigadas separadas nas forças terrestres, 12 das quais eram divisões de tanques. O RKKA foi composto por quase um milhão de pessoas, mais 220 mil serviam na aviação e na marinha. Até 1939, a indústria aeronáutica soviética produzia mais de 45.000 aeronaves, das quais mais de 15.000 eram caças. O regime bolchevique contava com o maior arsenal de canhões, morteiros, metralhadoras e espingardas/fuzis do mundo.
Cartaz da Ucrânia soviética (1940):
"Juventude, aprende o desporto motorizado, se prepare para a defesa da URSS!"
Toda a “industrialização” soviética foi iniciada apenas para criar essa gigantesca força militar – todo o dinheiro, todos os recursos, toda a mão-de-obra dos cidadãos escravizados eram canalizados para a criação dessa máquina militar. Ao mesmo tempo, os militares soviéticos construíram poucas linhas da defesa.

Quase todo o poder militar do RKKA era composto por armas ofensivas, criadas para uma “campanha de libertação da Europa” – já na década de 1920, os bolcheviques soviéticos decidiram “libertar” a Europa até ao Atlântico. É por isso que a URSS não construía as linhas defensivas – as fronteiras da URSS eram consideradas temporárias, que deveriam ser estendidas até Portugal.

Quando começou a guerra?

A Segunda Guerra Mundial (II G.M) começou em 1 de setembro de 1939 – com o ataque alemão à Polónia. A URSS entrou nessa guerra 17 dias depois – como uma aliada da Alemanha nazi(sta) na divisão da Polónia, com um desfile conjunto em Brest. A URSS chegou à chamar a Grã-Bretanha e França de “agressores”, que tiveram a “ousadia” de atacar o aliado da URSS; a União Soviética  acusava os “círculos dominantes da Inglaterra e da França” de começar a II G.M.:
Jornal soviético "Pravda" de 1/12/1939
No dia 14 de junho de 1941, 8 dias antes do início da guerra nazi-soviética, a imprensa soviética classificou a possível guerra entre a URSS e a Alemanha como “rumores provocativos de detratores imperialistas” que aparentemente querem separar dois estados socialistas fraternos que estão lutando contra os imperialismos, britânico e francês:
Jornal soviético "Izvestia" de 14/06/1941, informe da agência soviética TASS
Até 22 de junho de 1941, a União Soviética era uma aliada e amiga muito próxima da Alemanha nazi(sta). Logo após o ataque alemão à URSS, os agressores alemães eram descritos na propaganda soviética como “fascistas” (embora fascistas, na realidade, eram seguidores de Mussolini na Itália). Isso foi feito para esconder completamente o fa(c)to de que a URSS socialista estava em guerra com os nacional-socialistas alemães – que também usavam a demagogia dos “direitos trabalhistas”, e, na sua propaganda assemelhavam-se ao comunismo estalinista.

O que realmente aconteceu em 22 de junho de 1941?

Aparentemente, a URSS fazia o jogo duplo – esperando que o seu aliado – a Alemanha nacional-socialista derrotasse a Inglaterra e a França, mas ao mesmo tempo ficaria enfraquecida pelo seu esforço da guerra, enquanto a própria URSS, juntaria os equipamentos militares ofensivos ocupando a Europa, já debilitada pela guerra, içando a bandeira vermelha na costa atlântica. Isso foi planeado acontecer em 1941, máximo em 1942, uma vez que a URSS nunca abandonou a ideia de ocupar e dominar o mundo inteiro.

Os alemães, muito provavelmente, se aperceberam do plano da URSS – e, decidiram atacar a União Soviética preventivamente – enquanto os equipamentos militares soviéticos ainda não foram colocados em formação de batalha, e as unidades militares não estavam equipadas com tudo o que é necessário. O plano foi parcialmente bem-sucedido – nos primeiros meses da guerra, os alemães capturaram centenas de tanques soviéticos, estacionadas em plataformas de comboios/trem de carga, bombardearam e incendiaram centenas de bombardeiros e caças, estacionados em aeródromos junto às fronteiras soviéticas e se preparavam às missões de combate, e assim por diante.
Cartaz da Ucrânia soviética (cerca de 1939-40):
"Daremos ao país do socialismo milhares de novos, bravos pára-quedistas!"
O despreparo da URSS para a guerra defensiva explica perdas monstruosas perdas nos primeiros meses da guerra – ao título de exemplo, a pequena Finlândia reteve o avanço dos cerca de 300.000 militares do RKKA, perdendo cerca de 20 mil pessoas (contra 140 mil da URSS), infrigindo à União Soviética uma pesada derrota. A URSS em 1941 não pretendia se defender e considerava as suas fronteiras como temporárias – razão pela qual sofreu perdas tão terríveis nas primeiras semanas da guerra.

A avaliação justa de 22 de junho de 1941 é essa: dois tiranos socialistas (um com preconceito de classe, o outro – da raça) dividiram a Europa sob duas bandeiras vermelhas – colocando-os em campos de concentração e matando todos os que discordassem, impondo a sua ditadura no mundo. Em algum momento eles não conseguiram dividir “por bem” alguma coisa e começaram uma nova fase da guerra pela dominação da Europa – dando origens à destruição, sacrifício e infortúnio...

Fotos e imagens: arquivo | ua-travels | Texto: Maxim Mirovich

A marcha gay “Kyiv gay pride 2019” em fotos e vídeo

No dia 23 de junho, em Kyiv, e mais uma vez, decorreu a marcha gay, conhecida como “Kyiv gay pride 2019”. A marcha foi fortemente vigiada e protegida pela polícia, acabando ser mais pacífica do que em 2017 e em 2018.
Neste ano e, pela primeira vez, na marcha participaram cerca de 30 militares ou ex-militares ucranianos. Um deles, Victor Pylypenko, ex-voluntário do batalhão “Donbas” deu a cara pela causa.  
Presidente Zelensky na parada gay em Kyiv, em forma impessoal, 22/06/2019 | foto: Efrem Lukatsky
Victor “Francês” Pylypenko foi voluntário do batalhão “Donbas” entre setembro de  2014 e verão de 2016. Como combatente e paramédico ele participou na batalha de Shyrokyne. “Francês” fez o coming-out em 8 de junho de 2018 na sua página de Facebook.
Victor "Francês" Pylypenko na linha da frente | life.pravda.com.ua
Victor tem 31 anos, é morador de Kyiv, estudava na escola pública № 117, onde estudou um outro voluntário do mesmo batalhão, que morreu no cerco de Illovaysk. Em 2013, Victor deixou o seu emprego nos Emirados Árabes Unidos na empresa “Dubai Duty-free” e veio à Ucrânia para participar na defesa ativa de Maydan (ler mais).
A Polícia Nacional & ver mais fotos
Pelos dados dos organizadores neste ano na marcha participaram cerca de 8.000 pessoas, embora, e muito sinceramente, neste número seguramente foram contabilizados milhares de agentes das forças de segurança presentes (polícia nacional à pé e à cavalo, polícia à civil, SBU e a Guarda Nacional da Ucrânia), além dos oponentes da marcha, que em geral se manifestaram de forma pacífica e ordeira.
Oponentes da marcha
Positivo: a marcha decorreu de uma forma pacífica, sem confrontos entre os ativistas que se opõem à marcha e as forças policiais. Notava-se que os organizadores tentaram educar os lgbt presentes, impondo-lhes uma agenda leal à Ucrânia, impedindo o aparecimento na marcha de quaisquer propaganda anti-ucraniana, existente em 2018. Daí a existência das bandeiras ucranianas, os ativistas de lgbt que discursavam em ucraniano ou os cartazes “Amo Ucrânia”.
Apoiantes da marcha
Negativo: as fotos mostram que nem todos participantes realmente amam Ucrânia, para alguns deles foi apenas um exercício de RP/PR, desligado da sua realidade pessoal.
Blogueiro: Ucrânia é um país europeu e deve garantir que os seus cidadãos não sejam perseguidos por causa da sua opção sexual e/ou afetiva. Por outro lado, país não deve permitir que os cidadãos lgbt tenham mais direitos e menos deveres do que os cidadãos comuns. Como reconciliar tudo isso na realidade quotidiana é um completo enigma...    

domingo, junho 23, 2019

Oleg Gordievsky. O espião britânico que era agente do KGB e evitou uma paranoia nuclear

“O Espião e o Traidor” é o livro de Ben Macintyre que conta a história de Oleg Gordievsky, o agente secreto soviético que passava informação para o MI6. O Observador faz a pré-publicação do livro.

Não é caso único na história, mas é um dos mais importantes da Guerra Fria. Oleg Antonyevich Gordievsky era coronel do KGB, os serviços secretos soviéticos. Um agente exemplar, com missões cumpridas um pouco por todo o mundo e promovido a chefe da estação de Londres. Mas apesar de ser um veterano cumpridor das vontades soviéticas, Gordievsky era, ao mesmo tempo, um espião ao serviço do Reino Unido. E é a história de Oleg que Ben Macintyre recorda no livro “O Espião e o Traidor”.

O Observador faz a pré-publicação, revelando parte do capítulo em que o autor recorda como um exercício de prevenção a um ataque nuclear poderia ter terminado da pior maneira. Foi Gordievsky o responsável pela troca de informação que mudou o que muitos chegaram a temer como inevitável.
“O Espião e o Traidor”, de Ben Macintyre (D. Quixote; à venda dia 25 de junho)
Ben Macintyre é autor de livros como “Jogo Duplo” ou “Agente Zig Zag”, é colunista e editor associado no jornal britânico The Times, do qual foi correspondente em Nova Iorque, Paris e Washington.

A “Dama de Ferro” tinha desenvolvido um fraquinho pelo seu espião soviético

Margaret Thatcher nunca conhecera Oleg Gordievsky. Não sabia o seu nome e referia-se a ele, de forma inexplicável e insistente, como “Mr. Collins”. Sabia que ele espiava a partir da embaixada soviética, preocupava-se com a tensão pessoal a que era sujeito e estava convencida de que ele poderia “dar o salto a qualquer momento” e desertar. A primeira-ministra insistia que, se isso acontecesse, ele e a família deveriam receber o melhor tratamento possível. Viria a dizer que o agente soviético não era um simples “fornecedor de informações secretas”, mas uma figura heroica e semi-imaginada, a trabalhar em prol da liberdade em condições de extremo perigo. Os relatórios que ele produzia eram trazidos pelo seu secretário particular, numerados e rotulados “ultrassecreto e pessoal” e “apenas para o RU”, o que significava que não seriam partilhados com outros países. A primeira-ministra consumia-os avidamente: “Lia, palavra por palavra, tomava notas, fazia perguntas e os documentos voltavam com as suas anotações, sublinhados, pontos de exclamação e comentários.” Nas palavras do seu biógrafo, Charles Moore, Thatcher “não estava imune a entusiasmar-se com o secretismo e com o romantismo da espionagem”, mas também sabia que o russo fornecia informações políticas verdadeiramente preciosas: “As comunicações de Gordievsky […] mostravam-lhe, como nenhumas outras, como o comando soviético reagia ao fenómeno ocidental e, na verdade, a ela.” O espião abriu uma janela para o pensamento do Kremlin, para a qual ela espreitava com fascínio e gratidão. “É provável que nenhum primeiro-ministro alguma vez tenha seguido o caso de um agente britânico com tanta atenção como a senhora Thatcher dedicou a Gordievsky.”

Enquanto as agências de informações britânicas andavam à procura de Koba, o KGB trabalhava com afinco para garantir que Thatcher perdia as eleições de 1983. Aos olhos do Kremlin, Thatcher era a “Dama de Ferro” – uma alcunha que pretendia ser um insulto do jornal militar soviético que a criou, mas que ela adorou – e o KGB estava a organizar “medidas ativas” para a debilitar desde que ela chegara ao poder, em 1979, fazendo inclusive uso do expediente de colocar artigos negativos nas mãos de jornalistas de esquerda solidários com a causa soviética. O KGB ainda tinha contactos na esquerda e Moscovo mantinha a ilusão de que conseguiria influenciar as eleições a favor do Partido Trabalhista, cujo líder continuava listado nos ficheiros do KGB como um “contacto confidencial”. Num intrigante prenúncio dos tempos modernos, Moscovo preparava-se para usar truques sujos e interferência oculta para mudar umas eleições democráticas a favor do candidato da sua preferência.

Se o Partido Trabalhista vencesse, Gordievsky estaria numa posição verdadeiramente bizarra: passar segredos do KGB a um governo cujo primeiro-ministro já recebera dinheiro do KGB. A encarnação anterior de Michael Foot como Agente BOOT manteve-se um segredo muito bem guardado; os esforços do KGB para mudar o resultado das eleições não tiveram qualquer impacto, e, no dia 9 de junho, Margaret Thatcher obteve uma vitória esmagadora, reforçada pela vitória nas Malvinas no ano anterior. Com um novo mandato e equipada em segredo com o conhecimento que Gordievsky possuía da psicologia do Kremlin, Thatcher concentrou-se na Guerra Fria. E o que viu foi profundamente alarmante.

No segundo semestre de 1983, o Leste e o Ocidente pareciam estar a dirigir-se para um conflito armado e talvez terminal, impulsionado por uma “combinação potencialmente letal de retórica reaganiana e paranoia soviética”. Num discurso no Parlamento britânico, o presidente americano prometeu “deixar o marxismo-leninismo na pilha de cinzas da história”. O reforço das forças armadas norte-americanas continuava a bom ritmo, acompanhado por uma série de operações psicológicas, entre as quais se contavam penetrações no espaço aéreo soviético e operações navais clandestinas que demonstravam como a NATO podia aproximar-se das bases militares soviéticas. Estas operações destinavam-se a provocar ansiedade à URSS, e conseguiram: o programa RYAN intensificou-se e as estações do KGB foram bombardeadas com ordens para encontrar provas de que os Estados Unidos e a NATO estavam a preparar um ataque nuclear surpresa. Em agosto, um telegrama pessoal do diretor do Primeiro Diretório Principal (mais tarde diretor do KGB), Vladimir Kryuchkov, dava instruções às rezidenturas para monitorizarem os preparativos da guerra, como a “infiltração secreta de equipas de sabotagem com armas nucleares, bacteriológicas e químicas” na União Soviética. As estações do KGB que relatavam atividades suspeitas eram elogiadas; as que não o faziam eram fortemente criticadas, e mandavam-nas fazer melhor. Guk foi obrigado a admitir “falhas” nos seus esforços para descobrir “planos específicos dos Estados Unidos e da NATO para a preparação de um ataque surpresa contra a URSS”. Gordievsky menosprezou a Operação RYAN como “ridícula”, mas os seus relatórios para o MI6 não deixavam espaço para dúvida: o comando soviético estava com medo, preparado para o combate e em pânico o suficiente para acreditar que a sua sobrevivência podia depender de uma ação preventiva, uma situação que piorou muito na sequência de um trágico acidente no mar do Japão.
Ronald Reagan e Oleg Gordievsky na Casa Branca
Às primeiras horas de 1 de setembro de 1983, um avião de interceção abateu um Boeing 747 de voo KAL007 da Korean Air Lines que se tinha desviado para espaço aéreo soviético, matando todos os 269 passageiros e a tripulação. O abate do voo 007 da KAL fez as relações entre o Leste e o Ocidente mergulharem num nível ainda mais perigoso. Moscovo começou por negar qualquer papel no abate do aparelho, mas posteriormente alegaria que o avião comercial era um avião espião que violara o espaço aéreo soviético numa provocação deliberada dos Estados Unidos. Ronald Reagan condenou o “massacre do avião coreano” como um “ato de barbárie […] [e] desumana brutalidade”, intensificando a revolta interna e internacional e entregando-se ao que um funcionário americano chamaria mais tarde “a alegria da mais profunda arrogância”. O Congresso aprovou um novo aumento do orçamento da defesa. Por sua vez, Moscovo interpretou a fúria do Ocidente com o que acontecera ao 007 da KAL como uma histeria moral fabricada no prelúdio de um ataque. Em vez de um pedido de desculpas, o Kremlin acusou a CIA de um “ato criminoso e provocador”. Uma grande quantidade de telegramas muito urgentes chegou à estação do KGB de Londres com instruções para proteger os bens e cidadãos soviéticos contra um possível ataque, culpar a América e reunir informações para reforçar as teorias da conspiração de Moscovo. Mais tarde, a estação do KGB de Londres seria elogiada pelo Centro pelos seus “esforços para neutralizar a campanha antissoviética no caso do avião da Coreia do Sul”. Em sofrimento e acamado devido ao que seria a sua doença final, Andropov atacou violentamente o que considerou a “ultrajante psicose militarista” da América. Gordievsky trouxe os telegramas da embaixada e passou-os ao MI6.

O abate do voo 007 da KAL deveu-se a básica incompetência humana dos dois pilotos, um coreano e um soviético. Porém, os relatos de Gordievsky ao MI6 mostravam claramente como, sob a pressão da tensão cada vez maior e da incompreensão mútua, uma simples tragédia tinha sido exacerbada para tomar proporções de uma situação política extraordinariamente perigosa.

Esta atmosfera de feroz desconfiança, incompreensão e agressão foi agravada por um acontecimento que levou a Guerra Fria à beira de uma guerra real.

“ABLE ARCHER 83” foi o nome de código de manobras militares da NATO, que decorreram entre 2 e 11 de novembro de 1983 e se destinavam a simular a escalada de um conflito que culminaria num ataque nuclear. Este tipo de ensaio geral militar fora realizado muitas vezes no passado pelos dois lados. ABLE ARCHER envolveu 40 mil tropas norte-americanas e de outros países da NATO e da Europa Ocidental e foi lançado e coordenado através de comunicações encriptadas. O exercício de treino criado pelo posto de comando imaginava uma situação em que as Forças Azuis (NATO) defendiam os seus aliados depois de as Forças Cor de Laranja (países do Pacto de Varsóvia) enviarem tropas para a Jugoslávia, antes de invadirem a Finlândia, a Noruega e, por fim, a Grécia. À medida que o conflito simulado se intensificava, uma guerra convencional pareceria escalar para uma guerra com armas químicas e nucleares, permitindo que a NATO treinasse os procedimentos de lançamentos nucleares. Não foram usadas armas reais. Era uma simulação, porém, na atmosfera febril que se seguiu ao incidente com o voo 007, os alarmistas do Kremlin viram uma coisa muito mais sinistra: um estratagema destinado a camuflar os preparativos para a guerra a sério, que seria um ataque nuclear do tipo que Andropov previa, e que a Operação RYAN procurava, há mais de três anos. A NATO começou a simular um realista ataque nuclear no preciso momento em que o KGB tentava detetar um. Diversas características sem precedentes do ABLE ARCHER reforçaram a desconfiança soviética de que aquelas manobras eram mais do que um treino: um grande fluxo de comunicações secretas entre os Estados Unidos e o Reino Unido um mês antes (na verdade, uma reação à invasão de Granada pelos Estados Unidos); a participação inicial de líderes ocidentais; e diferentes padrões de movimentos de pessoas nas bases norte-americanas na Europa. O secretário do Governo, Sir Robert Armstrong, informaria mais tarde a primeira-ministra Thatcher que os soviéticos tinham reagido com profundo alarme porque o exercício “decorreu durante um importante feriado soviético [e] tinha a forma de atividade e alertas militares reais, não apenas manobras”.

No dia 5 de novembro, a rezidentura de Londres recebeu um telegrama do Centro a avisar que, quando os Estados Unidos e a NATO decidissem iniciar um ataque, os seus mísseis seriam lançados nos sete a dez dias seguintes. Guk recebeu ordens para efetuar vigilância urgente no sentido de detetar qualquer “atividade invulgar” em locais-chave: bases nucleares, centros de comunicações, bunkers do governo e, acima de tudo, no número 10 de Downing Street, onde os funcionários estariam a trabalhar freneticamente para se prepararem para a guerra, “sem informar a imprensa”. Numa ordem que diz muito acerca das suas prioridades, o KGB deu instruções aos funcionários para monitorizarem indícios de que membros “da elite política, económica e militar” estavam a evacuar as suas famílias de Londres.

O telegrama, mostrado ao MI6 por Gordievsky, foi o primeiro sinal recebido pelo Ocidente de que os soviéticos estavam a reagir às manobras militares de uma forma invulgar e profundamente alarmante. Dois (ou talvez três) dias mais tarde, um segundo telegrama foi enviado para as rezidenturas do KGB a comunicar, erradamente, que as bases americanas tinham sido colocadas em alerta. O Centro ofereceu diversas explicações, “uma das quais foi que a contagem decrescente para um ataque nuclear começara a coberto do ABLE ARCHER”. (Na verdade, as bases estavam apenas a reforçar a segurança na sequência do ataque terrorista aos funcionários da embaixada americana em Beirute.) As informações de Gordievsky chegaram demasiado tarde para o Ocidente parar o exercício militar. Nesta altura, a União Soviética tinha começado a preparar o seu arsenal nuclear: aviões na Alemanha Oriental e na Polónia foram equipados com ogivas nucleares, o nível de alerta para cerca de 70 mísseis SS-20 apontados para a Europa Ocidental foi aumentado e submarinos soviéticos com mísseis balísticos nucleares foram lançados sob o gelo do Ártico para evitar a deteção. A CIA comunicou atividade militar nos estados do Báltico e na Checoslováquia. Alguns analistas acreditam que a União Soviética preparou os seus silos de mísseis balísticos intercontinentais para serem lançados, mas no último momento optou por não o fazer.

No dia 11 de novembro, ABLE ARCHER foi concluído na data prevista, os dois lados baixaram lentamente as armas e um aterrador impasse mexicano, desnecessário e que passou despercebido do grande público, chegou ao fim.

Os historiadores não estão de acordo em relação a como o mundo esteve perto de uma guerra. A história autorizada do MI5 descreve ABLE ARCHER como “o momento mais perigoso desde a Crise dos Mísseis de Cuba de 1962”. Outros alegam que Moscovo soube sempre que se tratava de um exercício e que os preparativos soviéticos para uma guerra nuclear foram apenas uma habitual intimidação. O próprio Gordievsky estava calmo: “Pareceu-me que era mais um perturbador reflexo da paranoia crescente de Moscovo e que, na ausência de outros indicadores, não era um motivo para preocupação urgente.”

Porém, no Governo britânico as pessoas que liam os relatórios de Gordievsky e o fluxo de telegramas de Moscovo acreditavam que uma catástrofe militar tinha sido evitada por um triz. Nas palavras de Geoffrey Howe, o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico: “Gordievsky deixou-nos convencidos do extraordinário, mas genuíno, medo russo de um ataque nuclear real. A NATO mudou de forma deliberada alguns aspetos das manobras militares para que os soviéticos não tivessem dúvidas de que era apenas um exercício.” A verdade é que, ao afastar-se da prática comum, a NATO pode ter reforçado a impressão de intenções sinistras. Um relatório posterior do Joint Intelligence Committee (JIC), a comissão conjunta de informações, concluiu: “Não podemos descartar a possibilidade de que pelo menos alguns funcionários/oficiais soviéticos podem ter interpretado mal o ABLE ARCHER […] como representando uma ameaça real.”

Margaret Thatcher estava muito preocupada. A combinação de receios soviéticos e retórica reaganiana podiam ter resultado numa guerra nuclear, mas a América não estava plenamente consciente da situação que contribuíra para criar. A primeira-ministra declarou que alguma coisa teria de ser feita “para remover o perigo de a União Soviética ter uma reação exagerada se avaliasse mal as intenções do Ocidente”. O Ministério dos Negócios Estrangeiros deveria “considerar com carácter de urgência a melhor maneira de abordar os americanos sobre a questão de possíveis equívocos em relação a um ataque surpresa da NATO”. O MI6 aceitou “partilhar as revelações de Gordievsky com os americanos”. A distribuição de material NOCTON foi alargada: o MI6 informou especificamente a CIA de que o KGB estava convencido de que as manobras militares tinham sido um prelúdio deliberado para o início da guerra.

“Não percebo como é que eles podem acreditar nisso”, declarou Ronald Reagan quando lhe disseram que o Kremlin temera verdadeiramente um ataque nuclear durante o ABLE ARCHER, “mas é um assunto para refletir.”

Na verdade, o presidente dos Estados Unidos já tinha pensado bastante na perspetiva do apocalipse nuclear. Um mês antes, ficara “muito deprimido” depois de assistir a The Day After [O Dia Seguinte], um filme sobre uma cidade no Midwest americano que é destruída por um ataque nuclear. Pouco depois do ABLE ARCHER, o presidente esteve numa reunião no Pentágono sobre o “fantasticamente horrível” impacto de uma guerra nuclear. Mesmo que a América “vencesse” um conflito desse tipo, era provável que 150 milhões de americanos perdessem a vida. Reagan descreveu a reunião como “uma experiência que deu muito que pensar”. Nessa noite, escreveria no seu diário: “Penso que os soviéticos estão […] tão paranoicos com a possibilidade de ser atacados que […] devíamos dizer-lhes que ninguém tem a intenção de fazer tal coisa.”

Tanto Reagan como Thatcher viam a Guerra Fria em termos de uma ameaça comunista à pacífica democracia ocidental: graças a Gordievsky, sabiam que a ansiedade soviética poderia representar um perigo maior para o mundo do que a agressão soviética. No seu livro de memórias, Reagan escreveu: “Em três anos aprendi uma coisa surpreendente acerca dos russos: várias pessoas no topo da hierarquia soviética tinham genuíno medo da América e dos americanos […] Comecei a perceber que muitos soviéticos nos temiam não apenas como adversários, mas como potenciais agressores que poderiam tomar a iniciativa de os atacar com armas nucleares.”

ABLE ARCHER marcou um ponto de viragem, um momento de aterrador confronto na Guerra Fria, que passou despercebido dos meios de comunicação e do público no Ocidente e que desencadearia um lento, mas percetível, degelo. A administração Reagan começou a moderar a sua retórica antissoviética. Thatcher decidiu estender a mão a Moscovo. “Ela sentiu que tinha chegado o momento de ir para lá da retórica do ‘império do mal’ e pensar como o Ocidente poderia pôr fim à Guerra Fria.” A paranoia do Kremlin começou a diminuir, sobretudo depois da morte de Andropov, em fevereiro de 1984, e embora os funcionários do KGB tivessem instruções para continuar atentos a sinais de preparação de um ataque nuclear, o ímpeto da Operação RYAN começou a desvanecer-se.

Gordievsky foi em parte responsável. Até ao momento, os seus segredos tinham sido distribuídos aos Estados Unidos em pequenos e muito seletivos fragmentos; doravante, as informações secretas que ele transmitia seriam partilhadas com a CIA em bocados cada vez maiores, se bem que ainda camuflados com todo o cuidado. Dizia-se que as informações sobre o alarme soviético durante o ABLE ARCHER tinham vindo de um “agente checoslovaco dos serviços secretos […] encarregado de monitorizar grandes exercícios da NATO”. Gordievsky não se importou que o MI6 partilhasse as suas informações com a CIA. “O Oleg queria”, disse um dos seus controladores britânicos. “Ele queria causar impacto.” E causou.

A CIA tinha vários espiões na URSS, mas nenhuma fonte capaz de fornecer este tipo de “verdadeiro conhecimento da psicologia soviética” e apresentar “documentos originais que demonstravam um genuíno nervosismo perante a possibilidade de um ataque preventivo a qualquer momento”. Robert Gates, vice-diretor de informações da CIA, leu os relatórios baseados nas informações de Gordievsky e percebeu que a agência deixara escapar uma coisa: “A minha primeira reação aos relatórios foi não apenas que podíamos ter tido uma grande falha de informações, mas que o aspeto mais aterrador do ABLE ARCHER era que podíamos ter estado à beira de uma guerra nuclear sem sequer sabermos.” Segundo um resumo interno secreto da CIA sobre o estudo do susto do ABLE ARCHER, escrito vários anos mais tarde, “as informações de Gordievsky foram uma epifania para o presidente Reagan […] só o seu aviso atempado a Washington através do MI6 impediu que as coisas fossem demasiado longe”.

A partir do ABLE ARCHER, a essência dos relatórios políticos de Gordievsky era transmitida a Ronald Reagan sob a forma de um resumo regular, claramente proveniente de um único agente. Gates escreveria, anos mais tarde: “As nossas fontes na União Soviética forneciam-nos, essencialmente, informações sobre as suas forças armadas e sobre investigação e desenvolvimento militar. O que Gordievsky estava a dar-nos era informações sobre a forma de pensar do comando – e esse tipo de informações era tão raro para nós como dentes nas galinhas.” Reagan estava “muito comovido” com o que lia, pois sabia que vinha de uma pessoa que arriscava a vida algures no interior do sistema soviético. As informações do MI6 eram “tratadas como as mais sagradas das coisas sagradas na CIA, vistas apenas por um pequeno grupo que as lia em papel, em condições rigorosas”, antes de as folhas serem guardadas e enviadas para a Sala Oval. As informações de Gordievsky sustentavam “a convicção de Reagan de que teria de ser feito um esforço maior não apenas para reduzir a tensão, mas para pôr fim à Guerra Fria”. A CIA estava agradecida, mas frustrada, e profundamente curiosa quanto à origem daquele fluxo constante de segredos.

Os espiões têm tendência para empolar a importância da sua profissão, mas a realidade da espionagem é que muitas vezes só faz uma pequena diferença duradoura. Os políticos adoram informações confidenciais porque são secretas, o que não as torna, necessariamente, mais fiáveis do que as informações de acesso público, e muitas vezes acabam por ser menos fiáveis. Se o inimigo tiver espiões no nosso campo, e nós tivermos espiões no dele, o mundo pode ser um pouco mais seguro, mas, no fundo, acabamos onde começámos, algures no espectro obscuro e não quantificável do “eu sei que tu sabes que eu sei…”.

No entanto, muito de vez em quando, os espiões têm um profundo impacto na história. A decifração do código Enigma reduziu a Segunda Guerra Mundial em pelo menos um ano. Uma espionagem de sucesso e engano estratégico sustentaram a invasão da Sicília pelos Aliados e os desembarques do Dia D. A infiltração soviética nos serviços secretos ocidentais nas décadas de 1930 e 1940 conferiu a Estaline uma vantagem crucial nas suas relações com o Ocidente.

O panteão dos espiões que mudaram o mundo é pequeno e seleto, e Oleg Gordievsky faz parte dele: ele desvendou o funcionamento interno do KGB num momento crucial da história, revelando não apenas o que os serviços secretos soviéticos estavam a fazer (e o que não faziam), mas o que o Kremlin estava a pensar e a planear, e ao fazê-lo transformou a forma como o Ocidente pensava na União Soviética. Gordievsky arriscou a vida para trair o seu país e tornou o mundo um pouco mais seguro. Um documento interno secreto da CIA dizia que o susto do ABLE ARCHER foi “o último paroxismo da Guerra Fria”.