quarta-feira, maio 29, 2019

Donbas: os gemidos e as quimeras do “mundo russo”

https://www.novayagazeta.ru/articles/2019/05/26/80657-pasportnyy-ston
Os passaportes russos, prometidos recentemente pelo Putin, ainda não foram distribuídos, mas os moradores das “repúblicas populares” de Donetsk e Luhansk já retornaram à sua juventude soviética. Inscrever-se num caderninho ainda de madrugada, receber um número escrito na palma da mão, lutar por um lugar na fila, sair do trabalho para fazer a chamada obrigatória duas vezes por dia (Sic!) – na URSS as pessoas compravam assim as geleiras/geladeiras e mobílias [da RDA e Checoslováquia].

por: Irina Tumanova, Novaya Gazeta (a versão curta, título do artigo é da responsabilidade do nosso blogue)

O decreto do Presidente Putin sobre a obtenção simplificada da cidadania russa para cidadãos da Ucrânia, que “vivem em certos distritos das regiões de Donetsk e Luhansk” foi emitido em 24 de abril de 2019. Alguns dias depois, os canais russos da TV mostraram dois escritórios da recepção de documentos, maravilhosamente equipados na região de Rostov: na aldeia de Pokrovskoye e na cidade de Novoshakhtinsk, para os cidadãos de “dnr” e “lnr”, respectivamente. Assim como [mostraram] os funcionários competentes e trabalhadores desses pontos, que no primeiro dia receberam “um pouco menos de cem” conjuntos de documentos. E também têm trezentos mil “em processo de registo”.

[Spoiler: ambos os escritórios não funcionam, fechados e guarnecidos pela polícia/Guarda Russa].

Desde o início, sabia-se que, na região russa de Rostov, tudo arrancaria apenas quando os moradores das “repúblicas” entreguem os documentos no seu local de residência [na Ucrânia ocupada]. E os camaradas autorizados de “dnr” e “lnr” levarão estes documentos aos locais no território russo.

«Gente, não sejam como uma manada de animais!»
Foto: Irina Tumanova, NG
Donetsk, rua Schors, № 104. Escritório de emissão de bilhetes de identidade do bairro de Kyiv. 7h00 de manha. Escritório abre às 9h00. Junto às portas já se formou uma fila, pessoas vão chegando.
Foto: Irina Tumanova, NG
Para se inscrever na fila (Sic!), é preciso preencher os papelinhos expostos no capô de uma velha Škoda preta, com a matrícula igual ou semelhante a dos militares russos: no bloco de notas está a lista para receber o “passaporte” fake da “dnr”, numa folhinha solta – para o passaporte/cidadania russa. No gabinete № 1 se deve receber o talão de pagamento e pagá-lo.
Foto: Irina Tumanova, NG
O passaporte interno russo (semelhante ao cartão do cidadão/BI) custa 4.000 rublos (61,82 dólares); o passaporte interno, mais o passaporte de viagem internacional — 5.900 rublos (91,18 dólares).

Nem todos os moradores da dita “dnr” obtiveram o “passaporte” fake da sua “república”. Mas segundo o decreto do Putin, sem possuir o “passaporte” da “dnr” não se pode receber a cidadania russa. Pelo passaporte da «dnr» se espera por 2-3 meses, pois, como foi explicado, «demoram de serem impressos».

Uma avó veio marcar a fila às 5h20 de manha. Em toda a “dnr” funciona o regime do recolher obrigatório das 23h00 às 5h00. Quem é apanhado na rua, pode entrar nas masmorras do “mgb” por 28 dias.
Foto: Irina Tumanova, NG
As pessoas sonham com as reformas/aposentadorias russas, outros subsídios sociais. Mas não sabem como proceder com o seu registo domiciliar. Para receber a cidadania russa, é preciso ter o registo do domicílio na federação russa. Mas todos eles vivem na Ucrânia temporariamente ocupada... O pessoal da fila tem fé, que eles serão registados como moradores da região russa de Rostov. Na realidade, na Rússia isso é um crime, se chama “registo [domiciliar] fictício”.

Pensões / aposentadorias

Putin prometeu aos russos, que orçamento do estado russo aguentará os pensionistas/aposentados de Donbas. Mas ninguém sabe quantos pensionistas/aposentados realmente vivem na região [antes da guerra russo-ucraniana em Donetsk viviam cerca de 950.000 pessoas; na região/oblast de Donetsk – 2.500 milhões de pessoas. O número de pensionistas/reformados nas regiões de Donetsk e Luhansk é avaliado em cerca de 1,1 milhões de pessoas].

A região de Donbas são minas de carvão e as unidades de metalurgia pesada. A produção é muito prejudicial à saúde, devido às condições de trabalho, e por lei ucraniana, os mineiros podem se aposentar após 20 anos de serviço. Para as mulheres que trabalham nessas indústrias há mais de sete anos, a idade de aposentadoria também é reduzida. A possibilidade de receber o passaporte russo, para tentar reclamar a reforma/aposentadoria russa, fará com que as pessoas um pouco mais velhos de 40 anos vão se inscrever no programa.

Cidade de Donetsk. Bairro de Kalinin.

O Departamento local da polícia começou receber as listas no segundo dia após a saída do decreto do Putin, em 26 de abril de 2019. Até o dia 15 de maio a lista já tinha cerca de 600 nomes. Por dia aqui são recebidas 6-8 pessoas.

Eu também me inscrevi: № 539 para o passaporte da “dnr” e № 468 para o passaporte da federação russa – os números foram desenhados na palma da minha mão. Se ter em conta que o escritório funciona quatro dias por semana, então a minha vez chegará em cerca de 4 anos e 9 meses.
Foto: Irina Tumanova, NG
— Que não, será mais rápido – me acalma um titio de cabelos grisalhos. — Lhes prometem alocar mais um funcionário.

Então, é possível contar com cerca de dois anos e meio. Todo esse tempo é necessário vir aqui de manhã das seis às nove para se registar. Caso contrário a pessoa é riscada da lista. Desde ontem, devido aos “riscados”, a fila encurtou imediatamente em 25 nomes.

Aqueles que diligentemente se registavam todos os dias, nas primeiras duas semanas avançaram 101 posições. Assim, a fila para receber o passaporte da “dnr” na realidade durará apenas dois meses e meio. Após mais alguns meses de espera, pessoa receberá o documento. O problema é que a fila da recepção do passaporte russo é mais curta. Se a minha vez chegar, sem eu receber o passaporte da “dnr”, terei que marcar a fila novamente.

Mas o passaporte da “dnr” não é dado à todos. Primeiro, a pessoa precisa de provar que estava residente da “república” em 12 de maio de 2014. Portanto, a lista onde sou 539ª é apenas para verificação dos documentos.

«Quando receberemos a ordem…»

No primeiro dia de entrega dos documentos, 6 de maio de 2019, houve lutas corporais por um lugar na fila do escritório regional de passaportes em Donetsk. Agora o escritório serve apenas os funcionários de empresas estatais (EE) e funcionários públicos da “república”. O serviço é mais caro do que aos outros: eles pagam 7.100 rublos (109,69 dólares) por um conjunto completo de dois passaportes russos (interno e externo). Mas essas pessoas explicam que precisam de passaportes russos muito mais do que outros. Pois temem as represálias por parte da Ucrânia pelo seu serviço à “república” não reconhecida.

«Queremos simplesmente qualquer tipo de reconhecimento»

Não vi nada de novo nos balcões de emissão de passaportes de Luhansk em comparação com os de Donetsk: as mesmas filas, as mesmas listas, as mesmas pessoas infelizes de plantão desde cinco da manhã.
Foto: Irina Tumanova, NG
Você está na primeira consulta? — uma mulher com a pasta vem até mim e me instrui claramente: — Se recorde do seu número. Serve para a validação dos documentos. Não é necessário ficar aqui. A chamada é às cinco da tarde e às oito da manhã. Se você não vier, sairá da lista. Terá que marcar a fila novamente. Você será verificada, receberá um talão de pagamento – vá para a próxima fila.

Ex-banqueiro Kostia (Kostiantyn) conta a sua história.

— Tinha um emprego – o levaram. — Eu preciso desesperadamente do passaporte russo! Ainda não temos nem Ucrânia, nem a Rússia. Eu trabalhei num banco...
— Todos esperávamos, que nos libertassem. Alguns esperavam que Ucrânia o fizesse, outros esperavam pela Rússia. Agora entendemos: somos dispensáveis. E de alguma forma eu paro de gostar disso.
— Você não gostaria que tudo volte como era em 2014? – pergunto com cuidado.
— Honestamente? Bem, eu ... Não, você não pense que eu sou contra a Rússia! Eu até sou russo por etnicidade, mas ninguém nos perguntou quando tudo aconteceu.
— Como não perguntou? Vocês tiveram um referendo? Você participou no referendo [de 2014]?
— Não, eu não participei.
— Mas quer um passaporte?
— Claro que sim. Queremos simplesmente qualquer tipo de reconhecimento. Se começamos tudo isso, então deve haver algum reconhecimento. E não como na Transnístria. Ou na Abecásia.
Foto: Irina Tumanova, NG
Donetsk em 2014 era uma cidade bonita e próspera, nas ruas principais havia butiques caros. Agora os moradores locais estão brincando, dizem que têm uma nova rede de lojas “À Arrendar”. Esta palavra está colocada em várias montras. No lugar de butiques – as lojas de roupas da segunda mão.

As grandes redes comerciais deixaram o território não reconhecido, roupas são importadas da Rússia. As roupas mais chiques – atrás de vitrinas com as placas “Roupas da Polónia”, de alguma forma são contrabandeadas por aqueles que possuem o passaporte ucraniano, isento de visto da UE.

Antigamente eu gostava de visitar as lojas second-hand, mas agora parei, – cara da jornalista Oksana se escurece. — Sabe, geralmente há um cheiro específico de roupas de segunda mão – após o processo de saneamento. Depois entro – não há cheiro. Finalmente, pensei, eles fizeram alguma coisa para evitar o cheiro. Cheguei mais perto e percebi que as roupas têm o cheiro do armário.

E aqui fiquei como se fosse baleada: meu Deus, são roupas vindas dos saqueadores...

Depois li nas redes sociais: uma mulher viu seus vestidos numa das lojas de second-hand, eram peças exclusivas, importadas, a sua casa foi saqueada... É impossível verificar isso, mas é claro, coisa assustadora para saber.

Serhiy, com quem conversamos na estação ferroviária de Donetsk, não pretende pedir o passaporte russo.

Você participou no referendo [de 2014]? – pergunto.
Infelizmente fui. E votei... Nos assustaram com os “banderistas” [nacionalistas ucranianos]. O povo acreditou. Quando começaram os combates, quando aqui começou o caos, ficou logo claro para onde estávamos indo. Instantaneamente. Mas as pessoas por inércia ainda acreditavam que tudo ficaria bem.
— Ilegalidade – por parte da Ucrânia?
Vinda dos locais! As pessoas simplesmente eram atiradas/jogadas fora dos seus carros, mortas. Os apartamentos eram ocupados. Os marginais locais faziam tudo isso. Aqueles que nunca trabalharam na vida. Eles primeiro correram lá! Toda a sua vida ele não fez nada – e aqui já estava conduzir um “Land Cruiser”. Com bolsos cheios de dinheiro. Num mês. De onde veio isso? O meu carro tentaram me arrancar algumas vezes. Simplesmente rua, aparecem e começam...
— As pessoas provavelmente tinham medo de bombardeamentos? Os ucranianos bombardearam as casas pacíficas?
— Dizer a verdade?.. Ucrânia atirava apenas contra nas posições da onde era alvejada. Se fogo vinha dos [bairros] de setor privado, respondiam naqueles alvos. Os bombardeios em larga escala, como dizem, é simplesmente uma propaganda.
— Muita gente entende isso agora?
— Bem, agora, claro, estão percebendo as coisas.
— Se de repente Ucrânia...
— Voltará aqui? Será bem-vinda e recebida de braços abertos! E serei primeiro à correr.

Ler o artigo completo em russo.

terça-feira, maio 28, 2019

A atração da Europa Ocidental

Magnum Photos, O Muro de Berlim, novembro de 1989; foto de Raymond Depardon
Na primavera de 1952, a “cortina de ferro” que Winston Churchill descreveu como descendente na metade oriental da Europa – “de Stettin, no Báltico a Trieste, no mar Adriático” – já se sentia impenetrável, até permanente.

por: Anne Applebaum, New York Review of Books.com

Edição de 6 de junho de 2019
A Era Global: Europa 1950–2017
por Ian Kershaw
Edição americana: Viking, 670 pp., US $ 40,00
Naquele ano, os tribunais checos condenaram à morte Rudolf Slansky, secretário-geral do Partido Comunista Checo, por suposta participação em uma conspiração “trotskista-titoísta-sionista”. O Partido Comunista da Alemanha Oriental adotou uma nova política económica, a “Planeada Construção do Socialismo”. Harry Truman advertiu o Congresso dos EUA da terrível ameaça de agressão da União Soviética; do outro lado do Atlântico, a nova aliança da NATO/OTAN estava se preparando para aceitar uma Alemanha Ocidental rearmada.

Mas 1952 foi também o momento em que o conceito de “o Ocidente” – o bloco democrático liberal, unificado por laços económicos e uma aliança militar, firmemente oposta aos regimes comunistas – chegou mais perto do colapso. Em março de 1952, Estaline/Stalin fez uma tentativa final de colocar a Alemanha Ocidental em um rumo alternativo. Inesperadamente, ele fez uma oferta de paz à América, França e Grã-Bretanha, os poderes que ocupavam a Alemanha junto com a União Soviética. Ele propôs unificar a Alemanha – e mantê-la neutra. Ele declarou que essa Alemanha unificada e não-aliada poderia estar aberta à “livre atividade dos partidos democráticos”. Alguns dias depois, ele sugeriu que uma Alemanha neutra também poderia ter eleições livres e até seu próprio exército.

Kurt Schumacher, o líder dos social-democratas da Alemanha, ficou tentado: queria aceitar a oferta de Estaline/Stalin, assim como muitos outros alemães. Mas o homem que era então o chanceler da Alemanha Ocidental, o democrata cristão Konrad Adenauer, recusou. Ele tinha boas razões: em 1952, já estava claro que as “eleições”, para Estaline/Stalin, eram uma charada, um exercício de relações públicas que podia ser manipulado ou ignorado. A economia da Alemanha Ocidental também passou vários anos em um boom de proporções históricas, enquanto a economia da Alemanha Oriental estava ficando para trás. O profundo contraste entre as duas metades da Alemanha – uma próspera e livre, a outra uma pobre ditadura – já era visível. Milhares de alemães atravessavam a fronteira de leste a oeste em números maiores a cada ano, um êxodo que só terminaria em 1961, com a construção do Muro de Berlim.

A lembrança de Hitler e da recente guerra assombrava Adenauer e seus compatriotas também. O chanceler estava com medo de que a nova democracia da Alemanha Ocidental pudesse ser frágil, especialmente se estivesse sob pressão direta da URSS. Ele achava que sua sobrevivência exigia que ele fosse ligado firmemente às outras nações do Ocidente. E assim Adenauer rejeitou a oferta soviética de unificação. Essa decisão, escreve Ian Kershaw, foi “altamente controversa, pois tinha um corolário direto: aceitar que, por um futuro indefinido, não poderia haver nenhuma expectativa de união da Alemanha Oriental e Ocidental”. Adenauer não apenas aceitou a divisão de seu país, ele também concordou. a uma presença militar permanente dos EUA e à profunda integração de seu país com o resto da Europa, especialmente com a antiga inimiga da França, a Alemanha.

Em certo sentido, The Global Age: Europe 1950–2017, de Kershaw, uma síntese útil e competente de uma era extraordinariamente complexa, é a história do que aconteceu a seguir. Por aproximadamente quarenta anos, as nações do que costumávamos chamar de Europa Ocidental estavam todas unidas por uma decisão semelhante: como um grupo, eles escolheram a democracia sobre a ditadura, a integração sobre o nacionalismo, a economia social de mercado sobre o socialismo de estado. Em nome do combate ao comunismo soviético, e com a memória da Segunda Guerra Mundial pairando sobre eles, eles aceitaram um conjunto de princípios liberais que alguns deles, mais notavelmente a Alemanha nazista e a Itália fascista, haviam rejeitado apenas uma década antes.

Embora, como Kershaw escreve, os sistemas políticos variassem de país para país, eles eram “construídos em todos os lugares nos princípios da lei, direitos humanos e liberdade pessoal”, junto com “economias capitalistas reestruturadas” que criaram a base para o crescimento bem como o bem-estar. Estado. Esses sistemas também eram extraordinariamente estáveis, graças não a um “desejo generalizado de 'normalidade', por paz e sossego, por condições estabelecidas após a imensa reviravolta, enorme deslocamento e enorme sofrimento durante a guerra e suas consequências imediatas”. Em vez disso, “a estabilidade foi fundamental para a maioria das pessoas. Como o gelo se formou na Guerra Fria, todos os países da Europa Ocidental deram um prémio à estabilidade interna”.

Para tanto, junto com os Estados Unidos, os europeus também criaram uma série de instituições ocidentais, defensivas e económicas. Lentamente, eles aprenderam a compartilhar soberania. Eles não apenas criaram o Fundo Monetário Internacional em 1945 e a Organização do Tratado do Atlântico Norte em 1949, eles também criaram a Comunidade Europeia de Carvão e Aço em 1951 e a Comunidade Económica Europeia em 1957. Kershaw observa que a existência da “outra Alemanha” “forneceu cimento ideológico ”para a república da Alemanha Ocidental. A consciência da “outra Europa” uniu o resto do Ocidente também, ajudando a manter não só a Alemanha, mas a Itália e a França, ambas com poderosos partidos comunistas e fortes correntes de anti-americanismo, firmemente dentro da dobra.

Ler mais em inglês.


Bónus

Escreve o nosso querido leitor Maurício Vieira de Andrade: “Esse documentário não só mostra como ficou e como se recuperou a Europa nos anos pós guerra, mas os jogos sujos de Estaline/Stalin para implantar o totalitarianismo comunista no leste Europeu. Excelente!!”


O caos na Alemanha após Hitler – Episódio 02 – Dublado HD (43´56´´):

segunda-feira, maio 27, 2019

Como Finlândia derrotou o comunismo soviético

Em 1939 União Soviética atacou a pacífica Finlândia com blindados e aviação, usando o contingente militar de quase 1 milhão de soldados e oficiais. Os finlandeses responderam com exército essencialmente voluntário e armamento obsoleto – mas venceram, defendendo um país livre e economicamente próspero, contra o comunismo agressivo e pobre.
  
«República Popular da Finlândia»

Na era estalinista a URSS foi formulado o objetivo final da existência do sistema soviético – a construção do comunismo, através da conquista do mundo inteiro – por meios políticos ou militares.
Antes de mais nada, planeava-se reconquistar as regiões que pertenciam à Rússia czarista – Finlândia e Polónia. A propaganda soviética chamava polacos/poloneses e finlandeses de “polacos/poloneses brancos” e “finlandeses brancos” (em alusão aos exércitos monárquicos russos) – aos operários e camponeses soviéticos empobrecidos diziam que estes povos adorariam entrar e rapidamente na URSS.

Ao longo da década de 1930, a URSS aliciava a Finlândia com suas iniciativas imperiais, propondo “mover a fronteira e transferir parte do território finlandês para a URSS. Primeiro de tudo, a URSS queria anexar a linha defensiva de Mannerheim – a chamando de exemplo de agressão finlandesa. Se a Finlândia tivesse entregue a linha de Mannerheim, muito dificilmente teria resistido ao exército soviético.

Tendo falhado em conseguir qualquer coisa pela via “diplomática” – a URSS moveu o seu exército contra Finlândia. Pouco antes do ataque militar do Kremlin, a União Soviética tinha criado a “República Popular da Finlândia" – em cujo nome foi efetuado o ataque soviético contra a Finlândia.

«Os finlandeses de Minsk/Mensk»

No dia 1 de dezembro de 1939 no jornal “Pravda” foi publicado a notícia que dizia que na Finlândia (na verdade, no Kremlin) já foi formada a “República Popular da Finlândia”, cujo governo já foi convidado para se deslocar ao Moscovo, e em Helsínquia está, relativamente falando, “a Junta sangrenta finlandesa, tomando ilegalmente o poder na Finlândia”. Não parece absolutamente nada com a propaganda usada contra Ucrânia em 2014.

Ainda em outubro de 1939, na URSS e no mais estrito sigilo se começou à formar o Exército Popular da Finlândia – inicialmente planeado para ser formado pelos “finlandeses soviéticos” e pelos caréios etnicamente próximos aos finlandeses – mas dado que se consegui apenas cerca de 1.000 pessoas, as fileiras do “exército popular” foram completos pelos belarusos – na URSS brincava-se em voz baixa: “os finlandeses de Minsk irão às minas finlandesas.
Um desses “finlandeses de Minsk” foi o noivo, o primeiro (e, talvez, o único) amor da avó do autor deste texto (na foto em cima). Ele foi chamado ao serviço militar soviético em 1939 e morreu nesta ignóbil “guerra finlandesa” do império soviético – depois disso foi esquecido e classificado pelo regime comunista, que não reconhecia as suas guerras agressivas.

A Helsínquia bombardeada e queimada
Desde as primeiras horas da guerra finlandesa, a URSS começou a bombardear a Finlândia – para desmoralizar e intimidar a população civil. Os primeiros aviões começaram a lançar panfletos com propaganda e chantagem tipicamente soviéticas – a propaganda dizia que o povo finlandês estava sofrendo sob o jugo da burguesia, que a “junta finlandesa” deveria renunciar – e que depois disso “virá a paz”.
No mesmo dia, às 14h30, os soviéticos começaram a bombardear a Helsínquia com bombas incendiárias, quando as ruas tinham o número máximo de transeuntes. As primeiras bombas caíram perto da estação ferroviária – uma área tradicionalmente lotada da cidade. O edifício da estação foi danificado, restaurado após a guerra.
As bombas soviéticas atingiram a Praça do Senadomuitos desses prédios foram engolidos pelo fogo, como pode ser visto na foto comparativa do título nesta seçãoeste é o atual Museu Nacional da Finlândia, que está localizado na Praça do Senado, Unioninkatu № 34.
As bombas soviéticas danificaram a Sé Catedral na mesma praça – depois o edifício foi completamente restaurado:
Ao longo da rua Aleksanterinkatu, podemos ver, aqui e ali vários edifícios modernos que foram erguidos no local dos prédios antigos completamente queimados em resultado dos bombardeamentos soviéticos, e que não puderam ser restaurados.
Pelo menos 50 bombas soviéticas caíram na rua principal de Fredrikinkatu – que na época era conhecida sob o nome sueco Fredriksgatan. Aqui um enorme edifício do instituto tecnológico foi destruído, várias casas de habitação de cinco e seis andares, diversos carros queimados – os “finlandeses que definhavam sob a opressão dos finlandeses brancos” possuíam muitos veículos pessoais.

Bombas caíam ao largo da atual avenida Mannerheim – o centro de Helsinquia. Estes edifícios de vidro misturados com edifícios históricos são resultados dos bombardeios soviéticos de 1939.

Ironicamente, os bombardeiros soviéticos atingiram a sua própria embaixada em Helsínquia – localizada nessa área:

Ao mesmo tempo, o ministro soviético Molotov, segundo um hábito puramente soviético, mentia que não houve os bombardeios de Helsínquia – e que o governo soviético estava lançando as cestas de pão para o “faminto povo finlandês”, que também definhava sob a opressão dos “brancos capitalistas finlandeses”. 
Mais tarde, os finlandeses colocaram essas “cestas de pão” soviéticas no museu militar – na foto você pode ver uma bomba aérea dispersora rotativa, um dos primeiros protótipos de bombas de fragmentação – com a qual os invasores soviéticos bombardearam a cidade de Helsínquia.

Resistência. Batalha na estrada de Raat.

Os líderes militares e políticos soviéticos contavam com o colaboracionismo em massa dos finlandeses algo que não aconteceu. O exército finlandês foi formado em menor tempo possível e quase exclusivamente por voluntários – que sabiam por que defendiam a sua Pátria. Os finlandeses tinham lacunas em equipamentos militares e em armamento – a Finlândia era um país pacífico e não planeava atacar ninguém – por isso na Guerra de Inverno / Talvisota, foram usadas, por exemplo, os canhões da Primeira Guerra Mundial.

A Finlândia não produzia seus próprios tanques – o governo finlandês comprou na Grã-Bretanha os 34 blindados Vickers – imediatamente após de ouvir a narrativa soviética sobre os “irmãos finlandeses perdidos que precisam urgentemente de serem libertados”.
Quase todos os Vickers foram perdidos nas batalhas contra os invasores soviéticos – um dos tanques sobreviventes com a placa de identificação pode ser visto agora no museu militar em Helsínquia.

Foram usadas as antigas metralhadoras pesadas da Primeira Guerra Mundial:

As bombas incendiárias, chamados de “Cocktail para Molotov” – a sua produção foi estabelecida em pequenas fábricas nas cidades – em toda a Finlândia os finlandeses recolhiam as garrafas de vidro vazias. Os “Cocktail para Molotov” eram pensados para “cegar” os visores dos blindados soviéticos – até que os finlandeses notaram, se a garrafa entrar na conduta de ar na parte traseira do tanque soviético – este ardia como uma vela.
As histórias sobre a “República Popular da Finlândia” apenas escondiam os planos soviéticos para a ocupação total do país – na URSS já eram produzidas os mapas com toda a Finlândia inclusa na União Soviética; o sistema de campo de concentração GULAG estava preparado para receber até 500.000 finlandeses para “reeducação” – tendo em conta que toda a população da Finlândia era de três milhões de pessoas. No lugar dos finlandeses deportados os bolcheviques tinham planeado trazer as populações das regiões centrais da Rússia Soviética, para mais tarde estes contarem as histórias de que “a Finlândia sempre foi uma parte da Rússia”.

Um dos exemplos da tática bem-sucedida da resistência contra agressão soviética foi a batalha na estrada de Raat, durante a qual o Exército Vermelho (RKKA) perdeu 17.000 homens. Em 20 de dezembro de 1939, a 44ª divisão do RKKA de Zhytomyr (Ucrânia Soviética) entrou na Finlândia. O império bolchevique preferia lutar, usando os recrutas das colónias anexadas.
Os militares do RKKA: congelados até a morte e POW
De dia, os soldados do RKKA naturalmente se moviam, sem nenhuma resistência, ao longo da floresta, mas no meio da noite – eram atacados pelos franco-atiradores finlandeses invisíveis. A divisão passou na floresta durante duas semanas, todos os dias o mesmo cenário era repetido. No final, a menor parte dos 17 mil mortos foi abatida pelos finlandeses – a maioria morreu congelada. Os prisioneiros sortudos eram alimentados, aquecidos e enviados para a retaguarda segura.
Na foto acima – um vagão soviético de comunicação com as antenas no telhado, abandonado numa das batalhas na estrada de Raat, bem como a placa de fronteira da Finlândia – sobre o qual os soldados soviéticos já tinham rabiscado: URSS.
A bandeira da 44ª Divisão de Zhytomyr, que deixou de existir após a batalha na estrada de Raat. Na foto pode ser visto pobre fardamento e armamento dos militares soviéticos. O governo soviético simplesmente mandou milhares de pessoas avançar nas florestas finlandesas – [em nome de uma utopia bolchevique].
Assim eram equipados os combatentes finlandeses, que durante a maior parte da batalha de Raat permaneceram invisíveis aos soviéticos. À esquerda – o franco-atirador finlandês com equipamento de esqui – que lhe permitia mover-se rapidamente. À direita – o combatente de um grupo de assalto com a submetralhadora Suomi.

Apesar de todo o poder militar da URSS, os finlandeses conseguiram sobreviver e salvar o seu Estado. Os planos da “República Popular da Finlândia” foram enterrados na estrada de Raat – a URSS conseguiu ficar com territórios reduzidos, perdendo 130.000 militares mortos e destruindo completamente o seu próprio apoio internacional.

«Podemos repetir». Em vez de um posfácio.

Pouca gente sabe – mas quase imediatamente após o fim da guerra finlandesa – Estaline/Stalin ordenou ao Estado-Maior do RKKA que desenvolvesse planos para uma nova guerra contra a Finlândia – desta vez com a ocupação do país – o novo ataque começaria em julho de 1941 – e apenas o começo da guerra nazi-soviética impediu a implementação deste plano.
Na URSS, a guerra soviético-finlandesa foi silenciada e excluída dos livros de história – cerca de 130 mil mortos e dezenas de milhares de feridos foram condenados ao esquecimento, os feridos naquela guerra nem sequer eram considerados veteranos – e, no início de 1941, deixaram de importar – todos na URSS já se esqueceram da guerra finlandesa.
Na própria Finlândia, a Guerra de Inverno / Talvisota é de grande importância – os finlandeses entendem que eles salvaram o seu próprio país do abismo da degradação soviética. Finlândia de hoje é um excelente exemplo do que uma antiga região do império russo poderia parecer, sem conhecer um único dia de comunismo – é um país próspero, que em termos de desenvolvimento ocupa uma das primeiras posições do ranking mundial.

Fotos: arquivo e Maxim Mirovich | Texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]