sábado, março 09, 2019

As exportações e importações da Ucrânia em 2018

Pela primeira vez na história as exportações de bens da Ucrânia para a União Europeia ultrapassaram o marco de 20 bilhões de dólares e totalizaram, em 2018, os 20,2 bilhões de USD.

A participação da UE na estrutura das exportações de mercadorias ucranianas em 2018 elevou-se ao 42,6%. Ao mesmo tempo, as exportações de produtos ucranianos para a federação russa totalizaram 3,7 bilhões, representando 7,7% do total das exportações.

Importação de bens da UE em 2018 totalizou 23,2 bilhões de dólares e representa 40,6% das importações ucranianas totais. As importações de mercadorias da federação russa em 2018 totalizaram 8,1 bilhões e sua participação representa 14,2% do total importado.

Da federação russa as empresas privadas ucranianas importam os produtos petrolíferos – 2,063 bilhões no ano passado. Seguidos pelo carvão – 1,823 bilhão (devido à decisão ucraniana de deixar comprar o carvão diretamente nos territórios ocupados de Donbas).

A única coisa que o Estado ucraniano importa da federação russa é o combustível nuclear, usado nas estações nucleares da Ucrânia. Em 2018 foram 378 milhões, em 2016 o valor era quase o dobro (Ucrânia diversifica as suas compras neste domínio, optando, cada vez mais, pelos fornecedores americanos).

Os operadores da TV, compram na federação russa os equipamentos da televisão, possivelmente, devido ao facto de usarem algum equipamento russo, em 2018 essas compras valeram 102 milhões.

Essa é a situação atual e “nada mudou” só para aqueles que aspiram o retorno da escravidão neocolonial moscovita (fonte).

quarta-feira, março 06, 2019

O mapa eletrónico do Serviço Nacional de Saúde da Ucrânia

O Serviço Nacional de Saúde da Ucrânia (NSZU) criou um mapa eletrónico de todas as instituições que prestam cuidados médicos primários, bem como base de dados de todos os médicos que assinaram o contrato com este serviço.

No mapa você pode encontrar:

— Todas as instituições e todos os médicos que assinaram o contrato com NSZU;
— Informações de contato de instituições e médicos;
— O número de contratos que o médico já assinou com pacientes (informação ajuda avaliar se o médico é bem cotado/procurado pelos pacientes ou não);
— Especialização dos médicos.

No mapa, é possível procurar pelas instituições médicas por regiões, cidades, código único de pagador dos impostos e existência do contrato com NSZU. Além disso, você pode encontrar um médico específico por seu nome ou especialidade.

terça-feira, março 05, 2019

Recordar o general Roman Shukhevych (3)

No dia 5 de março de 1950, em resultado da operação especial da secreta soviética MGB, foi descoberta a casa segura do comandante-em-chefe do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), general Roman Shukhevych, situada na aldeia de Bilogorsha, nos arredores da cidade de Lviv (hoje a parte da cidade).
Foto pós-morte, 5/03/1950 | arquivo do SBU
Na operação participaram cerca de 700 militares do MGB e do exército soviético. Na aldeia, eles cercaram 5 casas onde pensavam que poderia se esconder general Shukhevych. A casa foi descoberta devido as táticas do MGB que combinavam as torturas com uso do agente provocador. Na troca de tiros, e no momento em que Roman Shukhevych tentou romper o cerco, ele abateu major do MGB Rovenko, mas foi gravemente ferido pelo tenente-coronel Fokin (contra as ordens expressas de capturar o líder do UPA vivo) e não querendo cair nas mãos do inimigo suicidou-se com uma bala na testa. O seu corpo, às ordens do MGB, foi reconhecido por alguns dos membros presos da OUN e pelo seu filho, Yuri. O mais provável que de seguida o corpo do general foi destruído em segredo pelo MGB, até hoje o local exato da sua sepultura é desconhecido (ler Mistério da morte do Roman Shukhevych).
Foto rara do Romans Shukhevych tirada na década de 1930, constava no âlbum do MGB 
As primeiras informações sobre a sua morte foram publicadas no Ocidente só nos finais de outubro de 1950. O jornal ucraniano Svoboda, editado ininterruptamente nos EUA desde 1893, publicou a notícia, usando apenas o pseudónimo do general, “Taras Chuprynka”, também usando o pseudónimo para identificar o seu sucessor, “coronel Vasyl Koval” (general Vasyl Kuk).
A imagem é da coleção privada do jornalista ucraniano Vakhtang Kipiani
As forças de ocupação soviéticas celebravam a morte de Roman Shykhevych por diversas vezes. Pela primeira vez, os rumores sobre a morte do comandante do UPA apareceram em 1945. A próxima dessas informações surgiu no outono de 1947. Em 10 de setembro daquele ano, na floresta de Stanimir, na região de Lviv, MGB atacou um esconderijo de OUN-UPA e matou cinco guerrilheiros ucranianos. De um deles dizia-se que era Roman Shukhevych.
Roman Shukhevych e esposa Natália no dia do seu casamento, 1930
Nenhum dos líderes do movimento anticomunista da Europa Central e do Leste conseguiu liderar a resistência armada anti-soviética durante mais de 6,5 anos seguidos. Melhor morrer de pé do que viver de joelhos essa foi a máxima da luta contra o sistema comunista, que Roman Shukhevych seguiu no dia 5 de março de 1950. A foto póstuma foi feita pelo fotógrafo do MGB. General se suicidou para não ser capturado.
fotos: galinfo.com.ua
Ler mais sobre general Roman Shukhevych:
Ver: 12 fotos do Roman Shukhevych

A comandante separatista de blindados se entrega à Ucrânia

A notória comandante separatista Svitlana “Veterok” Dryuk passou ao lado ucraniano, e juntamente com os seus filhos foi retirada de Donetsk. Na saída, Svitlana  participou na destruição de 9 blindados T-72, incluindo do seu pessoal – T-72B3 “Prizrak” (Fantasma).

Na Donbas ocupada, Svitlana Dryuk (1978), conhecida pelo seu nom de guerreVeterok” (Ventinho) era vista como símbolo do movimento separatista, entre 2014 e 2018 ela fez uma carreira brilhante, passando de uma simples paramédica até vice-comandante do regimento de blindados. As peripécias da sua vida serviram aos propagandistas russos como guião do primeiro blockbuster da “novaróssia”, filmado na Donbas com dinheiro russo, e que deveria ser exibido nos cinemas da Donbas ocupada já no dia 9 de maio de 2019, informa na sua reportagem a TV ucraniana 1+1 (tsn.ua)
Svitlana Dryuk, 28.08.1978
Não se sabe se o filme ainda será mostrado ao público, já que Svitlana Dryuk fugiu para Ucrânia livre e já declarou que deseja testemunhar no Tribunal Internacional de Haia sobre os crimes da guerra russos, cometidos no leste da Ucrânia:

Enredo do filme propagandista é simples, três ucranianas de Donbas estão combater Ucrânia e os ucranianos sob a bandeira da “novaróssia”. A publicidade do filme separatista usava as imagens reais da Svitlana Dryuk.
Quando a secreta ucraniana SBU retirou Svitlana de Donetsk, ela contava aos seus ex-comparsas que estava na cidade russa de Rostov, à tratar das feridas da guerra.

A memória fenomenal e a capacidade de trabalho rapidamente elevaram Svitlana até a liderança das unidades mercenárias. Ela ocupou as posições de destaque no assalto russo contra a cidade de Debaltseve; passou pelo batalhão Cheburashka”, “A 9ª” – ​unidade russo-terrorista que atacou Shyrokyne. O topo da sua carreira é o posto do vice-comandante do “11º regimento, a unidade mais combativa dos separatistas.

“Me dizem – você estava lutando, você matava as pessoas, sim, por isso me tornei a chefe da divisão de artilharia reativa em 2014. Não estou se justificando [...] eu fazia aquilo que me diziam” – diz Svitlana.
Mas o motivo pessoal forçou-a a mudar completamente sua vida e passar para o lado ucraniano: “Eu tenho aqui, espero, um amigo, que me está muito próximo. Ele é um oficial de serviço secreto [ucraniano], e a atitude de todos os envolvidos no meu presente destino é muito diferente daquilo que eu via lá [na Donbas ocupada]. Não me arrependo”.

Svitlana Dryuk comandava o blindado russo T-72B3. A versão russa do clássico T-72, que após uma modificação profunda até o nível de T-90. As forças armadas russas usam, em grande segredo, os territórios da Ucrânia ocupada para rodagem dos seus equipamentos militares. Svitlana entregou à Ucrânia os documentos que provam que os equipamentos mais modernos russos são ilegalmente levados até Donbas através da fronteira controlada pelas forças russas e separatistas.

O T-72B3 da Svitlana com código de identificação “Prizrak” (Fantasma) foi lhe trazido pelo capitão do exército russo Yuri Prilutsky. O capitão deveria receber a nova patente e se tornar o major. Poderá ficar surpreendido, quando souber que este blindado e outros oito T-72 “mais simples” foram dinamitados pela resistência ucraniana em novembro de 2018 no polígono militar nos arredores da cidade de Chystiakove (ex-Torez).
Publicado em 19/11/2018
A informação sobre a explosão dos blindados foi publicada na Internet, embora naquela altura as fontes ucranianas escreviam, no esforço de proteger os agentes e a rede da resistência, que os blindados foram perdidos, basicamente, devido ao excesso de álcool no seio dos separatistas.  

Alguns dias após a explosão, Svitlana já estava fora do território ocupado. Mas seus dois filhos, Dmytro e Natália, ficaram em Donetsk. Svitlana colocou apenas uma única condição para cooperar em pleno com a contra-inteligência ucraniana. Os filhos deveriam ser levados para Ucrânia livre.

“Realmente poderiam (matar as crianças). Em primeiro lugar, iriam maltratá-las, fazendo com que esta informação chegasse até mim, para me atrair novamente ou obter outra coisa qualquer. Seriam vítimas dos maus-tratos – isso com certeza. Mas se não conseguissem nada – as matariam”, – explica Svitlana.

A retirada dos filhos foi feita por etapas. Um erro e quer os jovens, quer os agentes ucranianos poderiam ser presos e torturados. Mas operação corre bem, Svitlana se reúne com os filhos já na Ucrânia livre.
Dmytro Dryuk, 24.02.1998
Dmytro também foi separatista ativo, por isso seu perfil está registado na página Myrotvorets. Zombificado pela propaganda separatista e russa, ele esperava que será detido, maltratado. Diz que se souber de início que mãe o chamou para ficar na Ucrânia livre, recusaria. “Mas a mãe disse – confia em mim”, – conta Dmytro.

Após a explosão dos blindados, o comando militar russo enviou ao regimento o novo comandante – alemão étnico Alexey Berngard (1978). Oficial de carreira, ele participou na ocupação e anexação da Crimeia, no ataque das forças regulares russas contra Debeltseve. Oficialmente, o tenente-coronel Berngard é comandante da 810ª Brigada dos fuzileiros navais russos em Sebastopol ocupada, na realidade, sob o nome fictício de “Tarasov” ele comanda o 11º regimento separatista de blindados no Donbas. Svitlana era a sua vice-comandante.  
Alexey Berngard, 22.10.1978
Svitlana está pronta para testemunhar no Tribunal Internacional de Haia sobre ele e diversos outros oficiais russos no ativo, que vieram até Ucrânia ocupada para não deixar terminar a guerra no leste do país.   

O próprio Berngard é caraterizado pela Svitlana como “um carreirista, interessado em realizar as tarefas à qualquer custo”, homem que chegou à Donbas com intenção de subir na carreira militar.

“Chegando cá [na Donbas], eles imediatamente assinam uma ordem que não tenham o direito de se comunicar connosco, aborígenes, fora do âmbito do serviço”, diz Svitlana.

Segundo Svitlana, o exército russo criou o algoritmo secreto para a eventual invasão do território ucraniano. Em cada unidade ilegal armada da dita “dnr” existe o departamento de RH. O departamento possui os documentos forjados dos soldados russos, que serão usados no ataque contra Ucrânia na qualidade dos “cidadãos locais”. Um único regimento da dita “dnr” em questão de horas, pode se desdobrar em três regimentos russos. Em toda a Donbas, podem chegar aos cerca de 100.000 militares.

“Todos os russos da lista são [registados] como locais. Um regimento local desdobra-se em três – se unidade possuir duas mil pessoas, virão seis mil russos”, explica Svitlana.

Tudo isso Svitlana está disposta repetir no Tribunal de Haia. Assim como está pronta para voltar à linha da frente no caso de agressão russa – trajando a uniforme ucraniana.

Blogueiro: o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) confirma o fa(c)to da passagem aos territórios controlados da Ucrânia da mercenária das unidades ilegais armadas russas na Donbas, Svitlana Dryuk, a “chefe do 11º batalhão de tanques do 1º corpo da milícia popular da dita dnr”, com o nome de código “Veterok”.

O chefe do SBU, general Vasyl Hrytsak disse: “Esta operação foi uma competição da inteligência e profissionalismo entre os serviços secretos russos e ucranianos, e o resultado obtido é mais uma prova da agressão armada russa”.

segunda-feira, março 04, 2019

A tragédia da Ucrânia

Anne Applebaum relata a fome premeditada por Estaline/Stalin para subjugar a população da Ucrânia, frear qualquer tentativa de nacionalismo e liquidar as organizações que resistiam a integrá-la à URSS.

por: Mario Vargas Llosa, El Pais (Brasil)
Red Famine: a Guerra do Estaline contra Ucrânia
Em 1928, Estaline/Stalin fez uma viagem pela Sibéria que durou três semanas. Tinha derrotado seus adversários dentro do partido comunista e já era o amo supremo da União Soviética. Os cereais começavam a escassear no imenso território e, depois do que viu e ouviu naquela viagem, Estaline/Stalin tirou as conclusões ideológicas pertinentes. Segundo a doutrina marxista, a culpa era dos camponeses retrógrados, que, graças à expropriação dos latifúndios e à liquidação dos kulaks/kurkuls, tinham se tornado pequenos proprietários de terra e contraído as taras características da burguesia. A solução? Obrigá-los a ceder suas granjas e a se incorporar às fazendas coletivas que os tornariam proletários, a força poderosa e renovadora que substituiria sua mentalidade burguesa pelo fervor solidário dos bolcheviques.

Segundo ela, a fome foi premeditada por Estaline/Stalin e seu séquito de cúmplices – Molotov, Kaganovich, Voroshilov, Postishev, Kosior e alguns outros − para subjugar a Ucrânia, frear qualquer tentativa de nacionalismo em seu seio e liquidar as organizações que resistiam a integrá-la à URSS sob o açoite de Moscovo/u. Ela cita como prova o fato de que, naqueles mesmos anos, o Politburo soviético reduziu drasticamente a publicação de livros e jornais em ucraniano, assim como o ensino dessa língua nas escolas e universidades, e impôs o russo como idioma oficial do país.

Seja como for, em 1929 é iniciada a dissolução das pequenas propriedades agrícolas a fim de incorporá-las às fazendas coletivas. Os camponeses, que tinham visto com simpatia a revolução, resistem a entregar suas terras e seu gado, e a se associar às enormes empresas coletivas que, dirigidas por burocratas do partido, costumam ser pouco eficientes. As instruções de Estaline/Stalin são rigorosas: aquela resistência só pode vir dos inimigos de classe que querem acabar com o socialismo, e deve ser esmagada sem piedade pelos revolucionários. As brigadas comunistas percorrem os campos confiscando propriedades, gado, ferramentas agrícolas e sementes, e mandando para a prisão quem não colabora. Um dos chefes do GULAG, na Sibéria, envia um telegrama a Moscovo/u pedindo que não lhe enviem mais detidos porque já não tem como alimentá-los. Ao mesmo tempo, um prisioneiro escreve para sua família: “Que maravilha! Eles me dão um pãozinho por dia!”

As colheitas começam a encolher, os roubos e ocultação de alimentos se multiplicam por todo lugar, Estaline/Stalin insiste que o partido deve ser “implacável” em sua luta contra os sabotadores da revolução, e a fome entra em cena com suas terríveis sequelas: roubos, assassinatos, suicídios, aldeias que desaparecem porque todos os seus habitantes fugiram para as cidades na esperança de encontrar trabalho e alimentos. Os cadáveres já são tão numerosos que ficam estendidos nas ruas e estradas porque não há gente suficiente para enterrá-los.

Os testemunhos reunidos por Anne Applebaum são de arrepiar: há pais que matam seus filhos com as próprias mãos para que não sofram mais e, os mais desesperados, para se alimentar com eles. Já comeram todos os cães, cavalos, porcos, gatos e até ratos que conseguiam pegar, e os comunicados que chegam à Ucrânia vindos de Moscovo/u são cada dia mais urgentes: negar a fome e, principalmente, o canibalismo e os suicídios, e punir sem dó os verdadeiros causadores dessa catástrofe: os inimigos de classe, os fascistas, os kulaks/kurkuls, os responsáveis reais pelas calamidades que se abatem sobre a Ucrânia.

Quantos morreram? Cerca de cinco milhões de ucranianos, pelo menos. Mas não há como saber com exatidão, porque as estatísticas eram forjadas pela disciplina partidária que assim exigia ou pelo medo dos burocratas do partido de ser punidos como responsáveis pela fome. O Kremlin impôs, além disso, uma versão oficial dos acontecimentos que era reproduzida não só pela imprensa comunista, mas também pela capitalista, que fazia isso por meio de jornalistas vendidos ou covardes, como o repulsivo Walter Duranty, então correspondente do jornal The New York Times, que, comprado com casas e banquetes por Estaline/Stalin, dava um jeito, em artigos que pareciam redigidos por um Pôncio Pilatos moderno, de apresentar um quadro de normalidade e desmentir os exageros de certos testemunhos que conseguiam vazar para o exterior sobre o que realmente ocorria na URSS e, principalmente, na Ucrânia. Uma das exceções foi o britânico Gareth Jones, quem conseguiu percorrer a pé o coração da fome durante várias semanas e contar aos leitores ingleses do jornal The Evening Standard os horrores vividos na Ucrânia.
Ler mais sobre Gareth R. V. Jones
Ler um livro como o de Anne Applebaum não é um prazer, e sim um sacrifício. Mas obrigatório, se queremos conhecer os extremos a que podem levar o fanatismo ideológico, a cegueira e a imbecilidade que o acompanham, e a irremediável violência que, mais cedo ou mais tarde, vem como consequência. A fome e as mortes na Ucrânia ajudam a entender melhor o terrorismo jihadista e a bestialidade irracional que consiste em se tornar uma bomba humana e explodir em um supermercado ou uma discoteca, pulverizando dezenas de inocentes. “Ninguém é inocente!” era um dos gritos do terror anarquista segundo Joseph Conrad, que descreveu melhor do que ninguém essa mentalidade em O Agente Secreto.

Se ler o livro de Anne Applebaum provoca calafrios, como terão sido os anos que sua autora levou para escrevê-lo? Posso imaginá-la muito bem, imersa horas e horas em arquivos empoeirados, lendo informes, cartas de suicidas, sermões, e descobrindo de repente que está com o rosto encharcado de lágrimas ou que está tremendo da cabeça aos pés, como uma folha de papel, transubstanciada por aquele apocalipse. Ela deve ter sentido mil e uma vezes a tentação de abandonar essa tarefa terrível. No entanto, continuou até o fim, e agora esse testemunho atroz está ao alcance de todos. Aconteceu há quase um século lá na Ucrânia, mas não nos enganemos: não é coisa do passado, continua ocorrendo, está ao nosso redor. Basta ter a coragem da Anne Applebaum para ver e enfrentar isso.

Direitos mundiais de imprensa em todas as línguas reservados a Edições EL PAÍS, SL, 2019. © Mario Vargas Llosa, 2019.

domingo, março 03, 2019

Voluntários ucranianos na guerra da Transnístria (7 fotos)

No dia 2 de março de 1992 começou oficialmente a Guerra da Transnístria, a fase militar do conflito político e territorial entre Moldova e os separatistas locais, primeiras hostilidades do qual se iniciaram em novembro de 1990. Exemplo de um dos desastres político-militares, herdados do comunismo soviético.
Blindado improvisado dos separatistas em Dubăsari
A fase mais quente da guerra começou 27 anos atrás, na noite de 1 à 2 de março, quando um grupo de polícias de Transnístria da cidade de Dubăsari foi mortalmente metralhado, caindo numa emboscada. Até hoje não são conhecidos os responsáveis do sucedido.
O grupo nacionalista ucraniano UNA-UNSO participou nas hostilidades militares que se seguiram do lado dos separatistas da Transnístria. A decisão da UNA-UNSO foi defendida pela liderança do grupo como a necessidade de defender os ucranianos étnicos residentes no enclave, abrindo a possibilidade teórica de futura adesão do território à Ucrânia.
Um dos principais líderes e fundadores de UNSO, Dmytro Korchynsky (expulso do grupo em 1997), explicou essa decisão da seguinte forma:
Sempre consideramos a Transnístria como nosso território. Foi levantada claramente a questão da unificação da Moldova e da Roménia num estado único. Na Roménia, a minoria ucraniana tem sido tradicionalmente discriminada [na realidade, até 1989 o estado comunista romeno discriminava todas as suas minorias étnicas, sem excepção], pelo que nos apresentámos do lado da “república Moldova de Transnístria” (PMR). Em 1992, a União dos Ucranianos da Transnístria “Povernennia” (literalmente Regresso) dirigiu-se a nós com um pedido de assistência militar e enviamos as nossas unidades para lá”.
Dessa forma, os ucranianos da UNA-UNSO acabaram por apoiar os separatistas da Transnístria contra o governo legítimo da Moldova. Mais de 50 membros da organização foram condecorados com a “Ordem de Defesa da Transnístria”, uma das distinções da república autoproclamada e não reconhecida internacionalmente.
A permanência nas mesmas trincheiras juntamente com as forças russas e pró-russas, não poderia ficar sem consequências práticas. Nas eleições de 2004, Dmytro Korchynsky apoiou o candidato pró-russo Viktor Yanukovych. Mais tarde, Korchynsky e seu novo grupo “Bratstvo” (literalmente Irmandade) se aliou ao Partido Socialista Progressivo da Ucrânia (PSPU) da Natália Vitrenko, na base da rejeição da escolha euro-atlântica da Ucrânia (aproximação à NATO, à União Europeia e aos EUA).
Juntamente com o neofascista Aleksandr Dugin e “socialista progressista” Natália Vitrenko, Korchynsky fez parte do Conselho Supremo do “Movimento Eurasiano Internacional”, grupo agudamente anti-ucraniano. Devido às atividades e ações notoriamente anti-ucranianas dessa organização, “Bratstvo” e Korchynsky anunciaram, em outubro de 2007, a sua desvinculação deste movimento duginista.
Dmytro Korchynsky e a liderança do movimento euro-asiático duginista russo
Desde início da atual guerra russo-ucraniana, Dmytro Korchynsky e outros membros do “Bratstvo”, participam na defesa da Ucrânia, principalmente inseridos nas atividades da unidade voluntária, conhecida como “batalhão Santa Maria”.

Possivelmente, uma das melhores caraterísticas do Dmytro Korchynsky foi dada pelo seu ex-companheiro de UNA-UNSO, Andriy Shkil: “Korchinsky possui a indisposição de trabalhar na política. Ele sempre foi atraído pelo show”.

Fotos: os membros da UNA-UNSO (vestindo fardamento de padrão camuflado) no decorrer do conflito militar na Transnístria em 1992. @Vijsjkovaistorija
Mapa da Moldova e da Transnístria | Wikipédia
Blogueiro: a diferença óbvia entre os voluntários ucranianos em Transnístria em 1992 e as forças mercenárias e estatais russas na ocupação da Ucrânia desde 2014 reside no fa(c)to do apoio (ou oposição) às suas ações pelos respetivos estados. Os membros da UNA-UNSO não recebiam nenhum apoio do Estado ucraniano, pelo contrário, eram seguidos e até perseguidos pelo SBU. Seguindo a postura da Ucrânia, decorrente da sua decisão oficial de ser neutra no conflito da Transnístria. Uma postura absolutamente diferente do estado russo, que apoia, arma, financia, compõe e comanda as unidades ditas “separatistas”, ativas na região de Donbas no leste da Ucrânia.

sábado, março 02, 2019

Toda a verdade sobre Mikhail Gorbachov

No dia 2 de março de 2019 Mikhail Gorbachov completou 88 anos. Último Secretário-geral do PCUS, primeiro e último presidente da União Soviética (15/03/1990 – 25/12/1991). O homem, que retirou o exército soviético do Afeganistão, acabou com a perseguição dos dissidentes, guerra fria e dominação de ideologia comunista.    

Os fãs do comunismo costumam acusar Gorbachov de traição, acreditando, ingenuamente, que este “arruinou a URSS” [fazendo parte de algum complô secreto dos reptilóides capitalistas]. Na verdade, Gorby pretendia fortalecer a URSS, iniciando uma série de reformas sistémicas (Uskorenie – Aceleração e depois a Perestroika – Reconstrução), sem perceber que o colapso da União Soviética seria o resultado mais natural de suas reformas. A escravidão não pode ser “reformada” – apenas abolida.

Carreira política dentro e fora do PCUS

Gorbachov nasceu em 1931 na região de Stavropol. Em 1937 o seu avô materno [ucraniano Panteleymon Hopkalo] foi preso, acusado de trotskismo, passou 14 meses na cadeia, foi vítima de tortura, humilhações e maus-tratos, escapou milagrosamente da execução.
Desde seus 15 anos, Gorbachov [que na sua meninice se comunicava em ucraniano] trabalhou como ajudante do motorista de um combinado (máquina agrícola usada na safra de trigo), aos 19 anos tornou-se o candidato ao PCUS (ainda na escola foi condecorado com a Ordem da Bandeira Vermelha pelo seu lavouro exemplar). Em 1950 Gorby terminou a escola com medalha de prata e foi aceite na Universidade Estatal de Moscovo sem exames de admissão, onde se formou na Faculdade de Direito. Em 1961-62, Gorbachov torna-se o primeiro secretário do Comité/ê distrital da juventude comunista Komsomol.

Depois disso, a sua carreira partidária e estatal apenas acelera – em 1969 ele é cotado como candidato ao cargo de vice-presidente do KGB da URSS. Em 1971, Gorbachov tornou-se membro do Comité/ê Central do Partido Comunista da União Soviética, em 1978 muda-se para Moscovo, onde é promovido ao membro do Politburo e, após a morte do Konstantin Chernenko torna-se o Secretário-geral do PCUS – em 11 de março de 1985.

Aceleração, Perestroika, Chornobyl e Afeganistão

Sendo especialista em propaganda, Gorbachov sabia que a propaganda comunista funcionava cada vez menos. Por isso, já em 20 de abril de 1985, ele anunciou a chamada Aceleração/Uskorenie – prometendo investir drasticamente na indústria e no bem-estar social dos cidadãos – o que, de fa(c)to, preparou a Perestroika, que começou apenas em 1987. Com o início da Perestroika, a URSS introduzi a política da Glasnost (Abertura), a censura comunista foi praticamente abolida – Gorbachov acreditava, corretamente, que era necessário lidar com os problemas e não encobrir os sintomas, proibindo falar sobre esses mesmos problemas.
Gorbachov e Boris Yeltsin
Na URSS começaram surgir as publicações independentes, programas interessantes da TV, foram produzidos filmes e desenhos animados que falavam sobre os problemas que se acumularam na União Soviética durante várias décadas de censura comunista sufocante. Os cidadãos começaram perceber que, de fa(c)to, a URSS não era nada daquilo que lhes haviam mostrado nos jornais e na televisão por quase 70 anos.

O desastre de Chornobyl (1986), mostrou claramente como o sistema soviético é incapaz, enganoso e de dupla moral – os cidadãos ucranianos e belarusos não foram informados sobre a catástrofe, o que causava graves problemas de saúde de dezenas de milhares de pessoas.

A Perestroika e Glasnost trouxeram a verdade sobre a guerra no Afeganistão – propaganda comunista dizia que os especialistas soviéticos construíam lá as casas e estradas, a realidade mostrava as mortes dos militares soviéticos e de dezenas de milhares de afegãos, as aldeias que foram varridas da terra, a droga trazida do Afeganistão em caixões de zinco e várias outras coisas semelhantes.

Tudo terminou exatamente como deveria terminar – na derrocada da URSS. As pessoas simplesmente perceberam quão injusto e enganoso era a União Soviética e decidiram que não queriam de viver num país assim. Gorby não quis acabar com URSS – pretendia torná-la “brilhante e perfeita”, fruto do socialismo utópico desprovido de falhas. Mas, como se viu, os princípios democráticos e regime comunista são coisas e realidades incompatíveis.

Retrato da época. Em vez de um epílogo
Mikhail Gorbachov era e é um homem bastante imperfeito [e definitivamente será julgado pela História. É responsável pelo Massacre de Tbilissi (19 mortos e mais de 4.000 feridos), ataques contra Lituânia (14 civis mortos e 702 feridos) e contra a cidade de Baku (conhecido historicamente como Janeiro Negro, resultante em 131-170 civis mortos e até 800 feridos), encobrimento da verdade sobre a catástrofe nuclear de Chornobyl na Ucrânia, vários outros desastres político-militares um pouco por toda a ex-URSS]. Mesmo assim, podemos e devemos agradecer Gorbachov pelo fim do sistema institucionalizado de delações, prisões, tortura e GULAG, caraterísticas intrínsecas da URSS entre 1922 à 1985. Foi na época de Gorbachov que as pessoas deixaram de ter medo e começaram realmente se tornar cidadãos – se vestir, pensar e falar de forma diferente, deixar de acreditar na propaganda comunista e recusar de aceitar de se mover em fileiras, no sentido figural e na realidade prática do seu quotidiano.
Ucranianos  (incluindo as crianças) que foram obrigados à marchar no centro de Kyiv no dia em 1 de maio de 1986,
com os níveis da radiação centenas de vezes superiores aos permitidos... | arquivo
As reformas do Gorbachov foram um grande passo rumo ao futuro e o começo do fim do comunismo, até hoje [um objetivo ainda por cumprir] – mas o primeiro passo nessa direção foi dado pelo Gorby. Muitas pessoas, a propósito, até hoje não entenderam que foi Gorbachov que as libertou da escravidão comunista – é simplesmente surpreendente como muita gente continua sem se aperceber disso.

Nos vossos comentários escrevam, por favor, o que pensam sobre Mikhail Gorbachov, argumentando a sua posição. Os vossos comentários poderão ser publicados no nosso blogue.

Fotos: BBC | TASS | arquivo | Texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]

Bónus

Em 2014 Gorby apoiou a anexação russa da Crimeia ucraniana. Em 26 de maio de 2016, o Serviço de Segurança da Ucrânia proibiu a entrada de Gorbachov na Ucrânia por 5 anos. “Pelo apoio público da anexação da Crimeia, Mikhail Gorbachov, por cinco anos, é proibido de entrar na Ucrânia” – informou o comunicado do SBU.
Gorbachov em dezembro de 2016 | foto: BBC
Em dezembro de 2016, Mikhail Gorbachov sugeriu a possibilidade do surgimento de um novo Estado Unitário no espaço da antiga União Soviética: “Eu acho que uma nova União poderá existir”.

Ucrânia no século XX: cidade de Alchevsk 120 anos atrás

Devido à um grande desconhecimento, decidimos mostrar como Ucrânia era no fim do século XIX – início do século XX. A imagem revela duas lindas ucranianas com um bebé, a foto foi tirada entre 1895 e 1901-03 na localidade de Yurievsky zavod (atual Alchevsk), na região ucraniana de Luhansk.

A foto foi produzida pelo estúdio fotográfico de Luhansk, pertencente ao conhecido fotógrafo Semen Umansky, na localidade de Yurievsky zavod (literalmente Fábrica de Yurievsky). O fundador da fábrica (atualmente a Fábrica Metalúrgica de Alchevsk), foi um importante industrial ucraniano – Oleksiy Alchevsky.

A empresa «Yurievsky zavod», fábrica metalúrgica pertencente à Sociedade Metalúrgica de Donetsk-Yurievsk (DUMO), foi fundada em 1895 (o primeiro alto forno começou a funcionar já em maio de 1896), deu origem à uma localidade, onde viviam os seus funcionários. Em 1900, a fábrica já empregava cerca de 3.200 trabalhadores, entre operários e engenheiros.

No dia 7 de maio de 1901, nos arredores de São Petersburgo morre abruptamente Oleksiy Alchevsky (suicídio ou vítima de um assassinato), em sua homenagem, a estação ferroviária local «Yuriivka», ao pedido dos empresários locais, foi rabatizada de “Alchevske” (1901 ou 1903), que, por sua vez, deu o novo nome à localidade — Alchevsk(e). Em 1926-1959 a cidade se chamava de Voroshylovske; em 1959-61 de Alchevsk, entre 1961–1991 ostentava o nome de Komunarsk (respetivamente, a fábrica, nacionalizada em junho de 1918) se chamava de Fábrica Metalúrgica de Komunarsk.

Em 1991, após a proclamação da independência da Ucrânia, num referendo local os moradores da cidade votaram a devolução do seu nome histórico – Alchevsk. Desde 2014 a cidade está sob a ocupação efetiva russo-terrorista.

sexta-feira, março 01, 2019

Ucrânia e Geórgia permitem viagens mútuas sem uso do passaporte

Desde dia 1 de de março de 2019, Ucrânia e Geórgia colocaram na prática o novo regime de viagens mútuas, segundo o qual os cidadãos dos dois países podem viajar usando apenas os cartões de identidade biométricos internos (Bilhete de Identidade/Cartão do Cidadão).

Para entrar em qualquer dos dois países, os cidadãos da Ucrânia e da Geórgia precisam apenas possuir um cartão de identificação que contenha o suporte electrónico sem contacto (chip). O movimento deve ser por via aérea ou marítima internacional.
Atualmente, os cidadãos da Ucrânia e da Geórgia podem permanecer no território do outro estado sem o visto por um período de 90 dias dentro de um ano. Depois deste período ou devem sair do país ou solicitar o visto de permanência.