segunda-feira, março 04, 2019

A tragédia da Ucrânia

Anne Applebaum relata a fome premeditada por Estaline/Stalin para subjugar a população da Ucrânia, frear qualquer tentativa de nacionalismo e liquidar as organizações que resistiam a integrá-la à URSS.

por: Mario Vargas Llosa, El Pais (Brasil)
Red Famine: a Guerra do Estaline contra Ucrânia
Em 1928, Estaline/Stalin fez uma viagem pela Sibéria que durou três semanas. Tinha derrotado seus adversários dentro do partido comunista e já era o amo supremo da União Soviética. Os cereais começavam a escassear no imenso território e, depois do que viu e ouviu naquela viagem, Estaline/Stalin tirou as conclusões ideológicas pertinentes. Segundo a doutrina marxista, a culpa era dos camponeses retrógrados, que, graças à expropriação dos latifúndios e à liquidação dos kulaks/kurkuls, tinham se tornado pequenos proprietários de terra e contraído as taras características da burguesia. A solução? Obrigá-los a ceder suas granjas e a se incorporar às fazendas coletivas que os tornariam proletários, a força poderosa e renovadora que substituiria sua mentalidade burguesa pelo fervor solidário dos bolcheviques.

Segundo ela, a fome foi premeditada por Estaline/Stalin e seu séquito de cúmplices – Molotov, Kaganovich, Voroshilov, Postishev, Kosior e alguns outros − para subjugar a Ucrânia, frear qualquer tentativa de nacionalismo em seu seio e liquidar as organizações que resistiam a integrá-la à URSS sob o açoite de Moscovo/u. Ela cita como prova o fato de que, naqueles mesmos anos, o Politburo soviético reduziu drasticamente a publicação de livros e jornais em ucraniano, assim como o ensino dessa língua nas escolas e universidades, e impôs o russo como idioma oficial do país.

Seja como for, em 1929 é iniciada a dissolução das pequenas propriedades agrícolas a fim de incorporá-las às fazendas coletivas. Os camponeses, que tinham visto com simpatia a revolução, resistem a entregar suas terras e seu gado, e a se associar às enormes empresas coletivas que, dirigidas por burocratas do partido, costumam ser pouco eficientes. As instruções de Estaline/Stalin são rigorosas: aquela resistência só pode vir dos inimigos de classe que querem acabar com o socialismo, e deve ser esmagada sem piedade pelos revolucionários. As brigadas comunistas percorrem os campos confiscando propriedades, gado, ferramentas agrícolas e sementes, e mandando para a prisão quem não colabora. Um dos chefes do GULAG, na Sibéria, envia um telegrama a Moscovo/u pedindo que não lhe enviem mais detidos porque já não tem como alimentá-los. Ao mesmo tempo, um prisioneiro escreve para sua família: “Que maravilha! Eles me dão um pãozinho por dia!”

As colheitas começam a encolher, os roubos e ocultação de alimentos se multiplicam por todo lugar, Estaline/Stalin insiste que o partido deve ser “implacável” em sua luta contra os sabotadores da revolução, e a fome entra em cena com suas terríveis sequelas: roubos, assassinatos, suicídios, aldeias que desaparecem porque todos os seus habitantes fugiram para as cidades na esperança de encontrar trabalho e alimentos. Os cadáveres já são tão numerosos que ficam estendidos nas ruas e estradas porque não há gente suficiente para enterrá-los.

Os testemunhos reunidos por Anne Applebaum são de arrepiar: há pais que matam seus filhos com as próprias mãos para que não sofram mais e, os mais desesperados, para se alimentar com eles. Já comeram todos os cães, cavalos, porcos, gatos e até ratos que conseguiam pegar, e os comunicados que chegam à Ucrânia vindos de Moscovo/u são cada dia mais urgentes: negar a fome e, principalmente, o canibalismo e os suicídios, e punir sem dó os verdadeiros causadores dessa catástrofe: os inimigos de classe, os fascistas, os kulaks/kurkuls, os responsáveis reais pelas calamidades que se abatem sobre a Ucrânia.

Quantos morreram? Cerca de cinco milhões de ucranianos, pelo menos. Mas não há como saber com exatidão, porque as estatísticas eram forjadas pela disciplina partidária que assim exigia ou pelo medo dos burocratas do partido de ser punidos como responsáveis pela fome. O Kremlin impôs, além disso, uma versão oficial dos acontecimentos que era reproduzida não só pela imprensa comunista, mas também pela capitalista, que fazia isso por meio de jornalistas vendidos ou covardes, como o repulsivo Walter Duranty, então correspondente do jornal The New York Times, que, comprado com casas e banquetes por Estaline/Stalin, dava um jeito, em artigos que pareciam redigidos por um Pôncio Pilatos moderno, de apresentar um quadro de normalidade e desmentir os exageros de certos testemunhos que conseguiam vazar para o exterior sobre o que realmente ocorria na URSS e, principalmente, na Ucrânia. Uma das exceções foi o britânico Gareth Jones, quem conseguiu percorrer a pé o coração da fome durante várias semanas e contar aos leitores ingleses do jornal The Evening Standard os horrores vividos na Ucrânia.
Ler mais sobre Gareth R. V. Jones
Ler um livro como o de Anne Applebaum não é um prazer, e sim um sacrifício. Mas obrigatório, se queremos conhecer os extremos a que podem levar o fanatismo ideológico, a cegueira e a imbecilidade que o acompanham, e a irremediável violência que, mais cedo ou mais tarde, vem como consequência. A fome e as mortes na Ucrânia ajudam a entender melhor o terrorismo jihadista e a bestialidade irracional que consiste em se tornar uma bomba humana e explodir em um supermercado ou uma discoteca, pulverizando dezenas de inocentes. “Ninguém é inocente!” era um dos gritos do terror anarquista segundo Joseph Conrad, que descreveu melhor do que ninguém essa mentalidade em O Agente Secreto.

Se ler o livro de Anne Applebaum provoca calafrios, como terão sido os anos que sua autora levou para escrevê-lo? Posso imaginá-la muito bem, imersa horas e horas em arquivos empoeirados, lendo informes, cartas de suicidas, sermões, e descobrindo de repente que está com o rosto encharcado de lágrimas ou que está tremendo da cabeça aos pés, como uma folha de papel, transubstanciada por aquele apocalipse. Ela deve ter sentido mil e uma vezes a tentação de abandonar essa tarefa terrível. No entanto, continuou até o fim, e agora esse testemunho atroz está ao alcance de todos. Aconteceu há quase um século lá na Ucrânia, mas não nos enganemos: não é coisa do passado, continua ocorrendo, está ao nosso redor. Basta ter a coragem da Anne Applebaum para ver e enfrentar isso.

Direitos mundiais de imprensa em todas as línguas reservados a Edições EL PAÍS, SL, 2019. © Mario Vargas Llosa, 2019.

domingo, março 03, 2019

Voluntários ucranianos na guerra da Transnístria (7 fotos)

No dia 2 de março de 1992 começou oficialmente a Guerra da Transnístria, a fase militar do conflito político e territorial entre Moldova e os separatistas locais, primeiras hostilidades do qual se iniciaram em novembro de 1990. Exemplo de um dos desastres político-militares, herdados do comunismo soviético.
Blindado improvisado dos separatistas em Dubăsari
A fase mais quente da guerra começou 27 anos atrás, na noite de 1 à 2 de março, quando um grupo de polícias de Transnístria da cidade de Dubăsari foi mortalmente metralhado, caindo numa emboscada. Até hoje não são conhecidos os responsáveis do sucedido.
O grupo nacionalista ucraniano UNA-UNSO participou nas hostilidades militares que se seguiram do lado dos separatistas da Transnístria. A decisão da UNA-UNSO foi defendida pela liderança do grupo como a necessidade de defender os ucranianos étnicos residentes no enclave, abrindo a possibilidade teórica de futura adesão do território à Ucrânia.
Um dos principais líderes e fundadores de UNSO, Dmytro Korchynsky (expulso do grupo em 1997), explicou essa decisão da seguinte forma:
Sempre consideramos a Transnístria como nosso território. Foi levantada claramente a questão da unificação da Moldova e da Roménia num estado único. Na Roménia, a minoria ucraniana tem sido tradicionalmente discriminada [na realidade, até 1989 o estado comunista romeno discriminava todas as suas minorias étnicas, sem excepção], pelo que nos apresentámos do lado da “república Moldova de Transnístria” (PMR). Em 1992, a União dos Ucranianos da Transnístria “Povernennia” (literalmente Regresso) dirigiu-se a nós com um pedido de assistência militar e enviamos as nossas unidades para lá”.
Dessa forma, os ucranianos da UNA-UNSO acabaram por apoiar os separatistas da Transnístria contra o governo legítimo da Moldova. Mais de 50 membros da organização foram condecorados com a “Ordem de Defesa da Transnístria”, uma das distinções da república autoproclamada e não reconhecida internacionalmente.
A permanência nas mesmas trincheiras juntamente com as forças russas e pró-russas, não poderia ficar sem consequências práticas. Nas eleições de 2004, Dmytro Korchynsky apoiou o candidato pró-russo Viktor Yanukovych. Mais tarde, Korchynsky e seu novo grupo “Bratstvo” (literalmente Irmandade) se aliou ao Partido Socialista Progressivo da Ucrânia (PSPU) da Natália Vitrenko, na base da rejeição da escolha euro-atlântica da Ucrânia (aproximação à NATO, à União Europeia e aos EUA).
Juntamente com o neofascista Aleksandr Dugin e “socialista progressista” Natália Vitrenko, Korchynsky fez parte do Conselho Supremo do “Movimento Eurasiano Internacional”, grupo agudamente anti-ucraniano. Devido às atividades e ações notoriamente anti-ucranianas dessa organização, “Bratstvo” e Korchynsky anunciaram, em outubro de 2007, a sua desvinculação deste movimento duginista.
Dmytro Korchynsky e a liderança do movimento euro-asiático duginista russo
Desde início da atual guerra russo-ucraniana, Dmytro Korchynsky e outros membros do “Bratstvo”, participam na defesa da Ucrânia, principalmente inseridos nas atividades da unidade voluntária, conhecida como “batalhão Santa Maria”.

Possivelmente, uma das melhores caraterísticas do Dmytro Korchynsky foi dada pelo seu ex-companheiro de UNA-UNSO, Andriy Shkil: “Korchinsky possui a indisposição de trabalhar na política. Ele sempre foi atraído pelo show”.

Fotos: os membros da UNA-UNSO (vestindo fardamento de padrão camuflado) no decorrer do conflito militar na Transnístria em 1992. @Vijsjkovaistorija
Mapa da Moldova e da Transnístria | Wikipédia
Blogueiro: a diferença óbvia entre os voluntários ucranianos em Transnístria em 1992 e as forças mercenárias e estatais russas na ocupação da Ucrânia desde 2014 reside no fa(c)to do apoio (ou oposição) às suas ações pelos respetivos estados. Os membros da UNA-UNSO não recebiam nenhum apoio do Estado ucraniano, pelo contrário, eram seguidos e até perseguidos pelo SBU. Seguindo a postura da Ucrânia, decorrente da sua decisão oficial de ser neutra no conflito da Transnístria. Uma postura absolutamente diferente do estado russo, que apoia, arma, financia, compõe e comanda as unidades ditas “separatistas”, ativas na região de Donbas no leste da Ucrânia.

sábado, março 02, 2019

Toda a verdade sobre Mikhail Gorbachov

No dia 2 de março de 2019 Mikhail Gorbachov completou 88 anos. Último Secretário-geral do PCUS, primeiro e último presidente da União Soviética (15/03/1990 – 25/12/1991). O homem, que retirou o exército soviético do Afeganistão, acabou com a perseguição dos dissidentes, guerra fria e dominação de ideologia comunista.    

Os fãs do comunismo costumam acusar Gorbachov de traição, acreditando, ingenuamente, que este “arruinou a URSS” [fazendo parte de algum complô secreto dos reptilóides capitalistas]. Na verdade, Gorby pretendia fortalecer a URSS, iniciando uma série de reformas sistémicas (Uskorenie – Aceleração e depois a Perestroika – Reconstrução), sem perceber que o colapso da União Soviética seria o resultado mais natural de suas reformas. A escravidão não pode ser “reformada” – apenas abolida.

Carreira política dentro e fora do PCUS

Gorbachov nasceu em 1931 na região de Stavropol. Em 1937 o seu avô materno [ucraniano Panteleymon Hopkalo] foi preso, acusado de trotskismo, passou 14 meses na cadeia, foi vítima de tortura, humilhações e maus-tratos, escapou milagrosamente da execução.
Desde seus 15 anos, Gorbachov [que na sua meninice se comunicava em ucraniano] trabalhou como ajudante do motorista de um combinado (máquina agrícola usada na safra de trigo), aos 19 anos tornou-se o candidato ao PCUS (ainda na escola foi condecorado com a Ordem da Bandeira Vermelha pelo seu lavouro exemplar). Em 1950 Gorby terminou a escola com medalha de prata e foi aceite na Universidade Estatal de Moscovo sem exames de admissão, onde se formou na Faculdade de Direito. Em 1961-62, Gorbachov torna-se o primeiro secretário do Comité/ê distrital da juventude comunista Komsomol.

Depois disso, a sua carreira partidária e estatal apenas acelera – em 1969 ele é cotado como candidato ao cargo de vice-presidente do KGB da URSS. Em 1971, Gorbachov tornou-se membro do Comité/ê Central do Partido Comunista da União Soviética, em 1978 muda-se para Moscovo, onde é promovido ao membro do Politburo e, após a morte do Konstantin Chernenko torna-se o Secretário-geral do PCUS – em 11 de março de 1985.

Aceleração, Perestroika, Chornobyl e Afeganistão

Sendo especialista em propaganda, Gorbachov sabia que a propaganda comunista funcionava cada vez menos. Por isso, já em 20 de abril de 1985, ele anunciou a chamada Aceleração/Uskorenie – prometendo investir drasticamente na indústria e no bem-estar social dos cidadãos – o que, de fa(c)to, preparou a Perestroika, que começou apenas em 1987. Com o início da Perestroika, a URSS introduzi a política da Glasnost (Abertura), a censura comunista foi praticamente abolida – Gorbachov acreditava, corretamente, que era necessário lidar com os problemas e não encobrir os sintomas, proibindo falar sobre esses mesmos problemas.
Gorbachov e Boris Yeltsin
Na URSS começaram surgir as publicações independentes, programas interessantes da TV, foram produzidos filmes e desenhos animados que falavam sobre os problemas que se acumularam na União Soviética durante várias décadas de censura comunista sufocante. Os cidadãos começaram perceber que, de fa(c)to, a URSS não era nada daquilo que lhes haviam mostrado nos jornais e na televisão por quase 70 anos.

O desastre de Chornobyl (1986), mostrou claramente como o sistema soviético é incapaz, enganoso e de dupla moral – os cidadãos ucranianos e belarusos não foram informados sobre a catástrofe, o que causava graves problemas de saúde de dezenas de milhares de pessoas.

A Perestroika e Glasnost trouxeram a verdade sobre a guerra no Afeganistão – propaganda comunista dizia que os especialistas soviéticos construíam lá as casas e estradas, a realidade mostrava as mortes dos militares soviéticos e de dezenas de milhares de afegãos, as aldeias que foram varridas da terra, a droga trazida do Afeganistão em caixões de zinco e várias outras coisas semelhantes.

Tudo terminou exatamente como deveria terminar – na derrocada da URSS. As pessoas simplesmente perceberam quão injusto e enganoso era a União Soviética e decidiram que não queriam de viver num país assim. Gorby não quis acabar com URSS – pretendia torná-la “brilhante e perfeita”, fruto do socialismo utópico desprovido de falhas. Mas, como se viu, os princípios democráticos e regime comunista são coisas e realidades incompatíveis.

Retrato da época. Em vez de um epílogo
Mikhail Gorbachov era e é um homem bastante imperfeito [e definitivamente será julgado pela História. É responsável pelo Massacre de Tbilissi (19 mortos e mais de 4.000 feridos), ataques contra Lituânia (14 civis mortos e 702 feridos) e contra a cidade de Baku (conhecido historicamente como Janeiro Negro, resultante em 131-170 civis mortos e até 800 feridos), encobrimento da verdade sobre a catástrofe nuclear de Chornobyl na Ucrânia, vários outros desastres político-militares um pouco por toda a ex-URSS]. Mesmo assim, podemos e devemos agradecer Gorbachov pelo fim do sistema institucionalizado de delações, prisões, tortura e GULAG, caraterísticas intrínsecas da URSS entre 1922 à 1985. Foi na época de Gorbachov que as pessoas deixaram de ter medo e começaram realmente se tornar cidadãos – se vestir, pensar e falar de forma diferente, deixar de acreditar na propaganda comunista e recusar de aceitar de se mover em fileiras, no sentido figural e na realidade prática do seu quotidiano.
Ucranianos  (incluindo as crianças) que foram obrigados à marchar no centro de Kyiv no dia em 1 de maio de 1986,
com os níveis da radiação centenas de vezes superiores aos permitidos... | arquivo
As reformas do Gorbachov foram um grande passo rumo ao futuro e o começo do fim do comunismo, até hoje [um objetivo ainda por cumprir] – mas o primeiro passo nessa direção foi dado pelo Gorby. Muitas pessoas, a propósito, até hoje não entenderam que foi Gorbachov que as libertou da escravidão comunista – é simplesmente surpreendente como muita gente continua sem se aperceber disso.

Nos vossos comentários escrevam, por favor, o que pensam sobre Mikhail Gorbachov, argumentando a sua posição. Os vossos comentários poderão ser publicados no nosso blogue.

Fotos: BBC | TASS | arquivo | Texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]

Bónus

Em 2014 Gorby apoiou a anexação russa da Crimeia ucraniana. Em 26 de maio de 2016, o Serviço de Segurança da Ucrânia proibiu a entrada de Gorbachov na Ucrânia por 5 anos. “Pelo apoio público da anexação da Crimeia, Mikhail Gorbachov, por cinco anos, é proibido de entrar na Ucrânia” – informou o comunicado do SBU.
Gorbachov em dezembro de 2016 | foto: BBC
Em dezembro de 2016, Mikhail Gorbachov sugeriu a possibilidade do surgimento de um novo Estado Unitário no espaço da antiga União Soviética: “Eu acho que uma nova União poderá existir”.

Ucrânia no século XX: cidade de Alchevsk 120 anos atrás

Devido à um grande desconhecimento, decidimos mostrar como Ucrânia era no fim do século XIX – início do século XX. A imagem revela duas lindas ucranianas com um bebé, a foto foi tirada entre 1895 e 1901-03 na localidade de Yurievsky zavod (atual Alchevsk), na região ucraniana de Luhansk.

A foto foi produzida pelo estúdio fotográfico de Luhansk, pertencente ao conhecido fotógrafo Semen Umansky, na localidade de Yurievsky zavod (literalmente Fábrica de Yurievsky). O fundador da fábrica (atualmente a Fábrica Metalúrgica de Alchevsk), foi um importante industrial ucraniano – Oleksiy Alchevsky.

A empresa «Yurievsky zavod», fábrica metalúrgica pertencente à Sociedade Metalúrgica de Donetsk-Yurievsk (DUMO), foi fundada em 1895 (o primeiro alto forno começou a funcionar já em maio de 1896), deu origem à uma localidade, onde viviam os seus funcionários. Em 1900, a fábrica já empregava cerca de 3.200 trabalhadores, entre operários e engenheiros.

No dia 7 de maio de 1901, nos arredores de São Petersburgo morre abruptamente Oleksiy Alchevsky (suicídio ou vítima de um assassinato), em sua homenagem, a estação ferroviária local «Yuriivka», ao pedido dos empresários locais, foi rabatizada de “Alchevske” (1901 ou 1903), que, por sua vez, deu o novo nome à localidade — Alchevsk(e). Em 1926-1959 a cidade se chamava de Voroshylovske; em 1959-61 de Alchevsk, entre 1961–1991 ostentava o nome de Komunarsk (respetivamente, a fábrica, nacionalizada em junho de 1918) se chamava de Fábrica Metalúrgica de Komunarsk.

Em 1991, após a proclamação da independência da Ucrânia, num referendo local os moradores da cidade votaram a devolução do seu nome histórico – Alchevsk. Desde 2014 a cidade está sob a ocupação efetiva russo-terrorista.

sexta-feira, março 01, 2019

Ucrânia e Geórgia permitem viagens mútuas sem uso do passaporte

Desde dia 1 de de março de 2019, Ucrânia e Geórgia colocaram na prática o novo regime de viagens mútuas, segundo o qual os cidadãos dos dois países podem viajar usando apenas os cartões de identidade biométricos internos (Bilhete de Identidade/Cartão do Cidadão).

Para entrar em qualquer dos dois países, os cidadãos da Ucrânia e da Geórgia precisam apenas possuir um cartão de identificação que contenha o suporte electrónico sem contacto (chip). O movimento deve ser por via aérea ou marítima internacional.
Atualmente, os cidadãos da Ucrânia e da Geórgia podem permanecer no território do outro estado sem o visto por um período de 90 dias dentro de um ano. Depois deste período ou devem sair do país ou solicitar o visto de permanência.

quinta-feira, fevereiro 28, 2019

Língua ucraniana para os iniciantes chineses

Em novembro de 2018, na RP China foi publicado o livro didático de estudos da língua ucraniana. Agora os amigos da Ucrânia na China podem aprender a língua e cultura ucranianas. O livro é dirigido aos iniciantes.

É de notar que a edição anterior do livro autodidático de ucraniano foi publicada pela mesma equipa editorial ainda em 2001 (infelizmente, ambas as edições têm alguns erros bastante grosseiros ainda na capa, possivelmente “graças” à coordenadora da edição, Sra. Larisa Zhebokrytska(ya))  

Ucrânia e os valores cristãos da Europa

Mapa da Ucrânia por Guilhelmum le Vasseur de Beauplan, Gdansk, 1648
Hoje, a velha Europa atravessa uma crise moral, duvida de si mesma e os seus habitantes já não estão preparados para proteger os valores europeus, se for necessário. Os ucranianos não só estão prontos, como são os únicos que estão a defendê-los com armas em punho no campo de batalha.

por: Pavlo Klimkin, Ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Observador.pt
Em janeiro de 2019, a Ucrânia viveu um acontecimento histórico: a Igreja Ortodoxa da Ucrânia recebeu o Tomo(s) de Autocefalia de Constantinopla e pôde renovar a sua igreja independente canónica, da qual foi desprovida por mais de 300 anos.

A Ucrânia é essencialmente um país cristão. Em 988 d.C, o Príncipe de Kyiv, Volodymyr, batizou todos os habitantes de Kyiv no Rio Potchayna, trazendo-os para a luz da fé cristã. O baptismo iniciou a verdadeira vida da nossa nação e do nosso país. Como cristão fiel, estou convencido de que a adoção do cristianismo, antes de mais, trouxe a salvação ao nosso povo, mas a acção de Volodymyr, além de uma escolha de fé, foi a escolha de um caminho histórico, civilizacional, de valores morais e culturais, ou seja, de tudo o que realmente forma uma nação.

A introdução da fé num único Deus na Rus´, como era chamada a Ucrânia naquela época, uniu as tribos eslavas orientais e reafirmou a autoridade do Príncipe de Kyiv. Cerca de meio século depois, durante o principado do seu filho, Yaroslav, o Sábio, a Rus´ tinha um território mais alargado e tornou-se um dos novos estados mais desenvolvidos na Europa. Juntamente com a religião, a Rus´ foi enriquecida pela educação, pela arte e pela cultura de Bizâncio. Kyiv era um centro espiritual e cultural poderoso e influente, logo, em todo o país, construíam-se igrejas, escolas e novas cidades. O apogeu e o poder da então Rus´ de Kyiv continua a ser hoje uma base da nossa consciência estatal e orgulho nacional. A nossa adesão ao mundo cristão representa, ao mesmo tempo, um envolvimento significativo na civilização europeia. Podemos dizer que o primeiro passo rumo a uma família europeia, unida por valores cristãos comuns, foi feito justamente na altura do baptismo, em 988 d.C. Este passo determinou para sempre a essência europeia e o destino europeu da Ucrânia.

A Europa pré-cristã deu à humanidade os ideais da liberdade individual, da democracia grega e da república romana, e o cristianismo deu a determinação fundamental do amor (humanismo). A combinação da liberdade-democracia com o amor-humanismo forma a essência civilizacional da Europa, na qual se baseiam hoje todos os seus valores e princípios. Desta perspetiva, os ucranianos são pronunciadamente uma nação europeia, uma vez que a moralidade cristã e a busca da liberdade se tornaram, há muito, elementos fundamentais da nossa mentalidade.

A Ucrânia-Rus’ não só recebeu benefícios do cristianismo, mas também deu muito à Igreja de Cristo, à Europa e ao mundo inteiro. Após o batismo de Kyiv, o cristianismo começou a espalhar-se pelas restantes tribos eslavas orientais, a norte e a leste da Rus’ de Kyiv, onde, após alguns séculos, surgiram as atuais Belarus e Rússia. Por fim, a religião cristã espalhou-se pelo vasto território dos Cárpatos a Kamchatka. Concordem, sem isso, o mundo moderno seria completamente diferente.

Foi também a Rus’ de Kyiv, na fronteira da Europa Oriental, que enfrentou, em meados do século XIII, a horda tártaro-mongol, defendendo a Europa da invasão asiática. Mais tarde, os cossacos de Zaporizhzhya foram participantes ativos na defesa da Europa e do cristianismo face à invasão do Império Otomano. Recordem-se, pelo menos, as batalhas de Khotyn (1621) e de Viena (1683) que salvaram a Europa Central da escravidão.

Hoje, os cossacos são muitas vezes considerados um fenómeno russo, selvagem e exótico, com um quê de pasquim romântico. Porém, foram os cossacos ucranianos que criaram a primeira república militar na nova Europa com uma liderança democraticamente eleita e proclamaram a fé cristã. Em 1054, depois da divisão entre católicos e ortodoxos, foi também na Ucrânia que se deu a reconciliação entre as duas denominações, com a instauração da Igreja Grego-Católica. Apesar disso, a Europa sabe pouco sobre esta contribuição da Ucrânia para a história da civilização europeia.

Atualmente, em termos de diversidade religiosa, a Ucrânia é um espaço único, reunindo praticamente todas as religiões da Europa Central num só país, as quais operam em paz e diálogo amigável. A tolerância, solidariedade e abertura dos ucranianos é um reflexo da Europa, dos seus valores fundamentais, dos quais nos podemos orgulhar e os quais devemos proteger.

Note-se que a situação religiosa na Ucrânia tem ainda outra característica — esta pós-traumática. A ideologia soviética agressivamente ateísta, esmagou a igreja em todos os sentidos, milhares de padres foram mortos durante a repressão stalinista e a Igreja foi, em geral, proibida. Assim, o renascimento da religião e da liberdade de religião, na consciência do nosso povo, estão intrinsecamente ligados à luta contra o totalitarismo comunista, à democracia e a todos os valores europeus.

A atual Ucrânia é, em grande parte, um país neófito. E a fé dos neófitos é muito mais sincera e apaixonada. Atrevo-me a dizer que, neste momento, o coração apaixonado da Europa bate na Ucrânia. Hoje, a velha Europa atravessa uma crise moral, duvida de si mesma e os seus habitantes já não estão preparados para proteger os valores europeus, se necessário. Os ucranianos não só estão prontos, como são os únicos que estão a defendê-los com armas em punho no campo de batalha. Parece claro que a Rússia de Putin está a travar uma guerra não só contra a Ucrânia, mas também contra a Europa e todo o mundo ocidental, e que esse conflito tem um caráter civilizacional.

Na Rússia ortodoxa nunca houve liberdade, democracia, abertura, nem tolerância como valores. Portanto, a Rússia não pertence à civilização da Europa, apesar de todas as semelhanças externas. A falta de liberdade distorce o princípio do amor cristão, muitas vezes transformando-o em ódio em nome da Ortodoxia e do Império Russo. Infelizmente, as diferenças civilizacionais são extrapoladas para a vida religiosa na Ucrânia e, paradoxalmente, com total harmonia inter-religiosa e interconfessional, temos uma divisão dentro da própria fé ortodoxa. A nossa Ortodoxia hoje é dividida entre uma Igreja Ortodoxa Autocéfala da Ucrânia, independente da Rússia, e a Igreja Ortodoxa Russa, que opera no nosso país sob o controlo direto de Moscovo.

Mas o principal é que esta divisão não é de religiosa por natureza, já que os dogmas e cânones das duas igrejas são quase idênticos. Trata-se, sim, do desejo da Rússia de manter o controlo sobre a Ucrânia, sua antiga colónia, a todo custo e por qualquer meio. Talvez seja difícil para os católicos entenderem esta questão, já que podem estar absolutamente certos de que o pontífice não cumpre ordens do presidente da Itália. Com a Igreja Ortodoxa Russa acontece exatamente o oposto: há muito que a igreja está firmemente ligada ao aparato estatal russo, e é hoje um líder ativo do conceito imperialista-chauvinista chamado “mundo russo”.

Estou convencido de que a autocefalia, que segue plenamente a tradição ortodoxa (onde praticamente cada país tem a sua Igreja), abriu caminho para unir todos os ortodoxos ucranianos numa mesma família. Estou igualmente convicto da necessidade de reunir os povos da Europa em torno dos seus valores – cristãos e democráticos, que por mais de mil anos determinaram o sucesso da Europa e de toda a civilização ocidental. Hoje assistimos a uma operação especial em grande escala para a sua destruição. O nosso dever comum é protegê-los.

quarta-feira, fevereiro 27, 2019

Canção russa sobre o bombardeio nuclear dos “negros” e da América

No dia 23 de fevereiro de 2019, na Catedral de Santo Isaac de São Petersburgo, o coro de concerto municipal apresentou a canção sobre o bombardeio nuclear dos “negros” e da América.
Uma das passagens da canção:

Cochilam docemente luzinhas na costa de Norfolk,
Dormem brinquedos cansados, negros dormem em silêncio,
Me desculpe América, boa América,
Mas quinhentos anos atrás você foi descoberta em vão.

Tru – la – la, tru – la – la,
Eu posso fazer tudo por três rublos!
Ao meio fica a terra queimada do
Adversário!

O concerto, que decorreu na principal Catedral ortodoxa de São Petersburgo, foi dedicado ao feriado de 23 de fevereiro, celebrado na Rússia como “Dia de Defensor da Pátria”. O público presente apoiou à música com aplausos e a Igreja Ortodoxa Russa (IOR) não reagiu oficialmente ao sucedido.

É de recordar que duas integrantes da banda russa Pussy Riot foram presas em 2012 e condenadas à 3 anos de prisão efetiva (cumprindo 21 e 24 meses respetivamente), acusadas de “vandalismo motivado por intolerância religiosa”, devido à uma dança silenciosa [música e vozes foram colocados no vídeo posteriormente] efetuada na Catedral de Cristo Salvador de Moscovo. Na altura, o líder da IOR, o Patriarca Kirill I, não pediu nenhuma clemência e até disse que as artistas estavam fazendo o trabalho do demónio.
A canção de Andrei Kozlovsky “Em um submarininho”, escrita na década de 1980, no auge da Guerra Fria, de repente se tornou muito relevante na Rússia dos tempos modernos...

terça-feira, fevereiro 26, 2019

“Ukroboronprom” efetua os testes da nova blindagem do BTR-4

As empresas ucranianas pertencentes à corporação da defesa UkrOboronProm estão terminar uma série de testes da nova blindagem do blindado BTR-4 no âmbito do aumento da produção destes veículos para as necessidades do exército ucraniano (FAU).
Durante os testes os novos BTR-4 percorreram várias centenas de quilómetros, no campo e nas estradas pavimentadas, e a sua nova blindagem passou pelos testes de tiro, nomeadamente foi alvejada por fogo de metralhadoras pesadas.
Dessa forma, as duas unidades de Kharkiv, “Fábrica Malyshev” e “Bureau Morozov” estão prontas e licenciadas, para, no decorrer de 2019, começar a produção em massa do BTR-4 com blindagem de fabrico ucraniano (aço blindado de marca 71). Uma decisão tecnológica que permite aumentar significativamente a capacidade de fabricação e de transferência dos blindados às necessidades do exército ucraniano.
O blindado BTR-4 foi desenvolvido por engenheiros ucranianos do “Bureau Morozov”, o equipamento foi usado na Operação Antiterrorista (OAT) desde 2014 e se mostrou como bastamente eficaz no campo de batalha.
O nível de proteção do BTR-4 é um dos maiores entre veículos blindados das Forças Armadas da Ucrânia. O blindado é armado com o módulo de combate BM-7 “Parus” com canhão automático de 30 mm, sistema de mísseis antitanque “Baryer”, morteiro automático e uma metralhadora pesada. Graças ao uso de sistemas digitais de tiro e de orientação, BTR-4 é capaz de atingir os alvos blindados numa distância de até 5 km.

BTR-4 usa motor alemão Deutz e a transmissão automática americana Allison, que permitem levar o blindado de 22 toneladas às velocidades de até 110 km/h.

Até a data, as carroçarias blindadas do BTR-4 eram fabricadas na empresa privada da Fábrica de Ferragem Mecânica de Loziv (LKMZ), que em 2018 recebeu a encomenda de 40 unidade do BTR-4. Devido ao aumento da demanda e das limitações da ordem de aumento da sua capacidade de produção, UkrOboronProm tomou a decisão estratégica de licenciar a produção do BTR-4 na “Fábrica Malyshev” em Kharkiv.

domingo, fevereiro 24, 2019

Ler e baixar o livro “Hugo Chávez: o Espectro” de Leonardo Coutinho

Neste livro, o jornalista Leonardo Coutinho revela – com base em milhares de páginas de documentos, muitos deles secretos, e mais de uma centena de entrevistas em dez países – como as digitais de Hugo Chávez estão espalhadas em todo o mundo, desde a explosão da violência na América Central e no México, até o financiamento de organizações terroristas como o grupo Estado Islâmico.

O que levou um país rico, dono das maiores reservas de petróleo do planeta e com uma localização estratégica ao maior colapso financeiro e institucional do Ocidente? A destruição da Venezuela é apenas a face mais evidente de uma intrincada rede de organizações políticas e criminosas que foram criadas ou alimentadas por Hugo Chávez como parte de seu sonho de reengenharia global. Eleito em 1998 com a promessa de tirar a Venezuela da crise e com o compromisso de conduzir os venezuelanos ao desenvolvimento, Hugo Chávez desperdiçou a fortuna arrecadada durante a bonança petroleira para financiar um modelo de mundo que fosse o seu espelho: caótico e subversivo. Apesar de sua morte, em março de 2013, em decorrência de um câncer, Chávez segue presente “assombrando” o mundo com os efeitos destrutivos de sua combinação de tráfico de cocaína, terrorismo e corrupção. Um legado que o presidente Nicolás Maduro soube herdar e manter, conduzindo o país a um colapso económico e institucional sem precedentes.

Bónus

É de reconhecer que para já batalha de entrega da ajuda humanitária (marcada ao dia 23 de fevereiro de 2019) foi ganha pelo regime bolivariano. Agentes da secreta venezuelana, o SEBIN, travestidos de titushki “coletivos”, queimaram camiões de ajuda humanitária em Ureña, na fronteira colombiana. Houve vários feridos entre o povo presente.
Cerca de 23 militares, guardas e polícias venezuelanos abandonam os seus comandantes, alguns pediram o asilo na Colômbia. O major-general Alexis López Ramírez (ex-secretário executivo do Consejo de Defensa de la Nación (Codena) pediu aos colegas para que reconheçam o presidente legítimo Juan Guaidó e deixem de apoiar o regime criminoso de Maduro.
O major-general Alexis López Ramírez, ex-secretário executivo do Codena
Os 13 oficiais venezuelanos que abandonam o regime do Maduro, 23/02/2019
O regime do Maduro mata o seu povo para que este não seja alimentado por los americanos, muito semelhante a posição do Estaline em 1932-33 em relação os ucranianos, que morriam de fome no Holodomor, mas estado soviético não aceitava e até rejeitava toda e qualquer ajuda alimentar ocidental...

O ataque das forças leais ao regime socialista bolivariano da Venezuela contra camião/caminhão de ajuda humanitária em Ureña (twitter do presidente Juan Guaidó):