sexta-feira, dezembro 28, 2018

Míssil russo “Avangard”: entre habituais fantasias e a dura realidade

A notícia sobre o lançamento do sistema de míssil russo “Avangard”, com a velocidade de 20 Mach, merece ser analisada do ponto de vista de engenharia térmica, ciência que estuda “transporte de energia particularmente em nanoescala”.

A informação sobre os 20 Mach foi lançada pelo canal militar russo TV Zvezda: “... A arma é um bloco alado, que é lançado com auxílio de um míssil balístico, que se dirige ao alvo em camadas densas da atmosfera à uma velocidade superior à velocidade do som, cerca de 20 vezes...”

Embora o vice-primeiro-ministro russo, Yuri Borisov, já fala em 27-30 Mach: “os últimos testes mostraram que [a unidade de combate do sistema de mísseis estratégicos “Avangard”] atingiu velocidades próximas à 30 Mach. Atingia a velocidade cerca de 27 Mach”.

No âmbito da já falada engenharia térmica, se estuda o efeito do calor na construção de mísseis e foguetões, dependendo de velocidade do seu movimento nas alturas diferentes. Quanto maior for a velocidade, mais aquecida fica a superfície do míssil (ou dos seus blocos). As grandezas de aquecimento podemos verificar nessa tabela:

A tabela mostra que nas velocidades até 10 Mach em camadas densas da atmosfera, o aquecimento da estrutura pode atingir valores próximos de 6.000 graus Kelvin (5.727º C). Naturalmente existem nuances, o aquecimento à este nível não ocorre em toda a estrutura, mas apenas em certos pontos, o calor é ligeiramente dissipado pelo fluxo de ar, etc. A tabela demonstra apenas os valores máximos.

Mas porque a tabela acaba em 10 Mach? E se a velocidade do nosso objeto é maior? Porque o ponto de fusão do metal mais refratário – tungsténio é de 3.420º C. Depois disso a nossa tabela perde seu significado – não existe material que possa suportar o movimento de um míssil em camadas densas da atmosfera à uma velocidade superior a 10 Mach. Mas e os cosmonautas / astronautas na sua aterragem? Podem perguntar os leitores. Os astronautas descem à terra numa cápsula. A cápsula possui várias camadas de protecção, elas queimam sucessivamente e, enquanto estão queimando, a cápsula ganha o tempo necessário para travar/frear contra as camadas densas da atmosfera terrestre, até atingir a velocidade aceitável. No decorrer dessa descida a cápsula está fundamentalmente incontrolável – não há possibilidade de fixar os lemes/estabilizadores, senão eles também ficarão queimados na descida (fonte).

A propaganda russa afirma que o seu wunderwaffen que voa com a velocidade de 20 Mach nas camadas densas da atmosfera, consegue manobrar, escapando do sistema de antimisseis americanos.
Ultramoderno míssil “Sarmat”: Wunderwaffen do Putin
No entanto, e através das fontes abertas, sabe-se que os parâmetros reais do produto 4202 (o nome oficial do projeto “Avangard”) são mais modestos. A velocidade máxima é de 14-15 Mach (no espaço cósmico) e 6-8 Mach próximo do alvo (entre 200 à 500 km, nas camadas densas da atmosfera). Mas faltou o principal. Este mesmo sistema de mísseis “Avangard” é destinado ao uso juntamente com o veículo de lançamento “Sarmat” (míssil RS-28). O mesmo míssil que foi mostrado pelo presidente russo no desenho animado em março de 2018, dedicado ao míssil soviético R-36M2 “Satan” (RS-20 e SS-18) fabricado na Ucrânia.
Míssil R-36M2 (RS-20 e SS-18 "Satan"), fabricado na Ucrânia e confundido com "Sarmat"
O que significa que antes do aparecimento real do “Sarmat”, não existirá a plataforma de lançamento do “Avangard”. Uma situação parecida com o famoso blindado T-14 Armata, das 2.300 unidades planeadas “até o fim de 2020”, se passou para “70 unidades até o início de 2020”. O número que poderá ser novamente comparado com a realidade muito em breve.
RS-28 "Sarmat", em testes, março de 2018
Neste momento se pode falar, provavelmente, sobre 4 ou 5 testes reais do produto 4202, o último dos quais foi declarado com sucesso. A parte russa reconhece que a ruptura da cooperação tecnológica e militar com Ucrânia atrasou significativamente os trabalhos, dado que o sistema de direção do novo sistema foi desenvolvido em Kharkiv (pressuponha-se que o dispositivo realizará as manobras na parte atmosférica do voo usando sistema aerodinâmico – com auxílio de asas e escudos na fuselagem).

Mas mesmo se, num futuro próximo, o produto 4202 for levado ao estado de uma ogiva real, isso não mudará muito a capacidade dos mísseis russos de penetrar no sistema da defesa antimíssil americano. O “Avangard” será útil apenas para superar os sistemas de defesa antimísseis locais, quando o alvo está à 100 – 200 km e 20 – 30 segundos de voo. Na maior parte da sua trajetória, que passa no espaço cósmico próximo, é completamente inútil. Os Estados Unidos há muito abandonaram o sistema de defesa local antimísseis e desenvolvem defesa antimísseis no curso médio! Seus antimísseis encontrarão os mísseis russos à milhares de quilómetros dos alvos, ou seja, onde as ogivas controladas aerodinamicamente não fazem sentido.
"Visitar Obama", se diz no maquete dos mísseis, num Lada podre puxado por um cavalo...
De fa(c)to, o trabalho no projeto 4202 (“Avangard”) está irremediavelmente desatualizado, embora fosse relevante na década de 1980. O projeto foi retirado do armário principalmente para fins de propaganda, de modo servir de base para criar os mitos patrioteiros de levantar o espírito e mascarar o estado real do escudo nuclear russo. Que não pode diferir significativamente do estado geral do país, saqueado e devastado por “gerentes eficazes” (fonte).

Arábia Saudita compra na Ucrânia os sistemas de mísseis antitanque

O Ministério do Interior da Arábia Saudita recebeu os sistemas de mísseis antitanque Skif e Corsar, fabricadas na Ucrânia e fornecidos pela companhia ucraniana “Progress”.

De acordo com o Defence-blog.com, a empresa ucraniana “Progress” forneceu ao Ministério do Interior do Reino da Arábia Saudita, através do porto de Mykolaiv, sistemas de mísseis guiados antitanque e os próprios mísseis, fabricados pelo Bureau do Design “Luch” de Kyiv. O negócio é avaliado em 24,2 milhões de dólares.
Sistema Skif | foto: Defence-blog.com
O lote incluiu 30 sistemas de mísseis antitanque Skif com termovisores, 15 sistemas de mísseis leves Corsar, mais de 300 mísseis e outros equipamentos relacionados.

O sistema Skif consiste no míssil (R2S e R2I de 130 mm e um alcance máximo de 5.000m), o seu tubo lançador descartável, o pacote de orientação de mísseis e sistema de observação, tripé ajustável e câmara de imagem térmica projetada para detecção, reconhecimento e identificação de ameaças de longo alcance, no período diurno e em condições climáticas adversas.
Sistema Corsar | foto: Defence-blog.com
O Corsar é um míssil antitanque leve, projetado para destruir alvos blindados estacionários e em movimento e outros objetos com armadura combinada, carregada ou monolítica, incluindo ERA (armadura reativa explosiva), bem como alvos específicos, como plataformas de armas, blindados escondidos nas trincheiras, objetos blindados e helicópteros. Os sistemas Corsar utilizam mísseis RK-3OF de 107 mm e um alcance máximo de 3.000 m.

quinta-feira, dezembro 27, 2018

Matança pela fome: genocídio desconhecido do povo ucraniano

De 27 de dezembro de 2018 à 27 de janeiro de 2019, em Portugal, na cidade de Aveiro (Galeria Morgados da Pedricosa, avenida de Santa Joana), será realizada a Exposição da fotografia documental “Matança pela fome: genocídio desconhecido do povo ucraniano”, organizada pelo Consulado da Ucrânia no Porto em parceria com a Câmara Municipal de Aveiro.
Edição de 28/12/2018
No dia 27 de dezembro na cidade de Aveiro (Galeria Morgados da Pedricosa) foi aberta da exposição fotográfica documental “Morte pela fome. O genocidio desconhecido do povo ucraniano”. No evento participaram os colaboradores do Consulado da Ucrânia na cidade do Consulado Geral da Ucrânia na cidade do Porto, o Presidente da assembleia municipal de Aveiro José Ribao Esteves, conselheiro dos assuntos da cultura Luis Miguel Capão Filipe, os dirigentes do museu Santa Joana, os representantes da comunidade ucraniana e os párocos da Igreja Ortodoxa Ucraniana.
Mais fotos | Consulado Geral da Ucrânia na cidade do Porto
No âmbito do evento o Cônsul da Ucrânia Anatoly Koval informou sobre as consequências do Holodomor dos anos 1932-1933 na Ucrânia e apelou à necessidade de preservar a memória das suas vítimas, bem como a importância em demonstrar os factos deste crime ao mundo, um dos maiores crime contra a humanidade, perpetuado pelo regime comunista soviético.

A exposição estará aberta às visitas do público no horário do funcionamento da Galeria (entrada é gratuita) até o dia 27 de janeiro de 2019.

Bónus

A foto histórica mostra uma manifestação pacífica ucraniana em Chicago nos EUA, atacada pelos comunistas em 17 de Dezembro de 1933.
Cerca de 5.000 ucranianos se reuniram em Westside de Chicago, organizados pelo “Comité da Ajuda à Ucrânia em Fome”, para denunciar as atrocidades do Holodomor, organizado pelas autoridades comunistas soviéticas.

20 pessoas foram hospitalizadas após o ataque em que foram utilizados todos os tipos de armas, incluindo tijolos, que foram lançados no meio da multidão à partir da estação de metro.

Foto@ ACME Newspictures, Inc (Chicago).

A chegada triunfal da McDonald's à União Soviética

No dia 31 de janeiro de 1990 em Moscovo abriu-se a primeira McDonald's na União Soviética. A empresa-mãe teve que solicitar a autorização, lhe concedida pela alta liderança do partido comunista (PCUS).

No primeiro dia de abertura, a primeira McDonald's serviu mais de 30.000 pessoas. Os cidadãos soviéticos vinham apenas ver as maravilhas do Ocidente – de tanta McDonald's era diferente do fast-food soviético opaco, sujo e cinzento – com a sua carne moída feita de pão e alho, bandejas gordurosas e mesas bambas, sempre cheias de sujidade pegajosa. De uma certa forma é possível dizer que McDonald's fez muito bastante pela desintegração da URSS.

Retrato de McDonald's no contexto da época

No início de 1990 ainda persistia uma verdadeira URSS – embora a Perestroika já estava em pleno andamento, as empresas privadas e cooperativas eram permitidas de forma limitada – mas o partido comunista ainda governava o país, criando muitas restrições e obstáculos e continuando promover a sua “economia plane(j)ada”.
Slogan numa cantina soviética: "A nossa ordem é essa — comeu, limpa atrás de si"
O fast-food soviético estava em péssimo estado – como tudo plane(j)ado e compulsório, funcionava na ausência de competição, segundo o princípio “por que arrumar a mesa, se eles vão tachar na mesma”, estava cheio de roubos e grosseria – os funcionários roubavam os alimentos, faltando respeito aos clientes: “camarada, o pão na carne moída está lá segundo o padrão estatal! O que você quer? É pegar ou largar!”

Nas cantinas e cafés soviéticos, via de regra, sempre havia mesas pegajosas e sujas, e na estação fria – o chão estava coberto da sujeira, trazida pelo calçado dos camaradas compradores. Frequentemente, no decorrer do almoço, uma faxineira qualquer, gorda e vestindo a túnica azul, saia dos fundos, enrolava um pano de linho cinza em volta de um esfregão enorme, o batia no chão e gritava: “deixem-me lavar!” Passava o esfregão sob os seus pés, depois levava o pano ao balde metálico com uma inscrição vermelha torta: “Inv. 643-14”.

Outro detalhe importante da restauração e da vida soviética em geral, é uma espécie de cinzentismo universal, e não no sentido figurado, mas no sentido literal da palavra. Todos os letreiros soviéticos, interiores, todos os tecidos de roupas, todas as impressões eram meio sem graça e desbotadas – como se fossem gastos. Parecia que havia muitas cores – mas todas elas estavam no espectro cinzento-castanho/marrom-carmesim, e para o observador casual pareciam “cinquenta tons de cinza”.

Fila à procura do respeito
A fila começou se formar na noite de 30 para 31 de janeiro na praça Pushkin em Moscovo, onde a primeira McDonald's na URSS abriu nas instalações do antigo café “Lira”.
Na madrugada do dia 31 de janeiro, a fila na porta da McDonald's já era composta por cerca de 5.000 (cinco mil pessoas). Havia na fila muitos estudantes que fugiram das suas universidades estatais apenas para ver a McDonald's, que na época era visto na União Soviética como um símbolo de “bela vida ocidental”.
Mais tarde, quando a fila se tornou realmente gigantesca, a milícia (polícia) moscovita instalou cercas metálicas (daquelas que hoje dividiam a multidão nos estádios) e colocou todos os jornalistas e equipas/es da TV num camião/caminhão com as bordas abertas.

O que viram e saborearam os cidadãos soviéticos

Os felizardos viram um interior e um serviço limpos e bonitos, sem titias soviéticas grosseiras – que na URSS já em si era uma maravilha. O interior da McDonald's, para os padrões modernos, era um tanto ingénuo e ultrapassado – mas em comparação com o quotidiano soviético da época, era um luxo cósmico.
O estabelecimento tinha um chão limpo, a limpeza era efetuada por pessoal especialmente treinado, sem perturbar os visitantes. McDonald's tinha mesas limpas – o que era algo irreal para fast-food soviético, com as suas mesas sempre pegajosas, sujas e gordurosas, às vezes cobertas com uma coberta plástica oleada e fedorenta. O serviço era incrível. Todos os caixas sorriram, pedidos pequenos como um guardanapo ou garfo extra eram imediatamente executados com o mesmo sorriso doce – ninguém gritava: “vocês são muitos, eu aqui estou sozinha!” ou “leva o que te dou, intelectual de uma figa!” Já em si mesmo, isso era algo fantástico, simplesmente impossível na URSS.
A limpeza e modernidade do WC/banheiro impressionavam. No WC/banheiro foram instaladas máquinas automáticas de sabão líquido, secadores de mãos automáticos com sensores, tudo estava perfeitamente limpo e bem iluminado, havia água quente nos lavatórios e rolos de papel higiénico. Comparada com as latrinas melhoradas soviéticas, McDonald's se parecia com uma nave espacial – a propósito, não uma nave soviética, Yuri Gagarin não tinha papel higiénico à bordo – a URSS só começou produzi-lo em 1968.

Para os cidadãos soviéticos comuns, a McDonald's era um prazer bastante caro: “Big Mac” custava 3 rublos e 75 copeque (6,35 dólares ao câmbio oficial), “Filé-o-peixe” – 4 rublos e 20 copeque (7,11 usd), hambúrguer – 1 rublo e 65 copeque (2,79 usd), um milk-shake – 90 copeques (1,52 usd), bebidas de 500 ml de “Sprite” ou “Coca-Cola” custavam 70 copeques (1,18 usd). Aos padrões soviéticos era muito caro (o almoço na cantina soviética custava cerca de um rublo), o que mais uma vez confirma o valor bastante inflacionado do rublo soviético.

Em geral, para os padrões da URSS, tanto o serviço em si, quando a ementa eram algo incrível, interessante e muito invulgar.

Contos de embalar sobre a “falta de espiritualidade ocidental”. Em vez de epílogo

Durante décadas, o governo comunista soviético contava às pessoas as histórias sobre “Ocidente decadente”, onde os trabalhadores “passam fome” e o povo sonha em fazer a uma revolução socialista/comunista... Até que no início da década de 1980 as pessoas deixaram de acreditar nessas balelas – era URSS que vivia cada vez pior, e Ocidente “em decadência” ficava cada vez mais próspero.
No final da década de 1980, todos os contos soviéticos sobre milhões de toneladas de ferro fundido, sobre o rendimento incrível das vacas leiteiras ou sobre aquela coisa cósmica incrivelmente importante (fabricada apenas na URSS) não causaram nada aos cidadãos, exceto forte irritação – ao verem apenas entorpecimento, sujeira, desespero e pobreza. A fila à McDonald's pôs fim a propaganda soviética – as pessoas ficavam horas na fila para ver com próprios olhos como as pessoas vivem nos países ocidentais desenvolvidos. Em parte, foi a McDonald's que acabou com a União Soviética – os cidadãos viram tudo e tiveram a oportunidade de comparar. Apesar do fa(c)to de que McDonald's, em geral, é um café barato com comida barata – mas na URSS, o seu nível era claramente algo cósmico e inatingível.

Pode acontecer que, daqui à uns 30 anos, alguma outra empresa ocidental irá novamente abrir um café em Moscovo, apenas para que os moscovitas pudessem simplesmente ver como é possível viver sem eterno bombeamento ideológico, cinzentismo e desespero...

Naturalmente, é uma outra história.

Fotos: arquivo | Texto: Maxim Mirovich

quarta-feira, dezembro 26, 2018

A comédia russa negra «Prazdnik» — “blasfémia” acessível somente no YouTube

O realizador russo Aleksey Krasovskiy apresentou ao público o trecho da sua comédia negra «Prazdnik» (Festa), o enredo da qual decorre em Leninegrado, numa festa do Ano Novo, no decorrer do cerco nazi da cidade, marcado pela fome generalizada e extrema da sua população.
Os personagens principais do filme, membros da família privilegiada do cientista Voskresensky, comemoram o Ano Novo numa casa de campo. Convidados inesperados juntam-se à festa: o filho dos Voskresensky traz para casa a sua namorada que não está acostumada ao luxo que goza a família, e a filha trouxe o noivo que acaba de voltar da linha da frente. Os Voskresensky têm que esconder a sua vida de privilégios, porque os outros moradores de Leninegrado estão, literalmente, morrendo de fome.
As filmagens do Prazdnik
O realizador arrecadou o dinheiro para fazer o filme com a ajuda do crowdfunding. Ele recebeu várias ameaças pelo telefone e nas redes sociais, devido ao facto de fazer uma comédia sobre Leninegrado sitiado. O filme, sem sequer ser visto, foi chamado pelos críticos do regime de “blasfémia”; acusando os seus criadores de “pisotear o tema sagrado”. Krasovskiy se recusou a receber a licença estatal para exibição do seu filme – decidindo, simplesmente, colocar a película, de forma livre, no seu canal no YouTube.
Ler a entrevista do realizador (em russo)
A estreia do «Prazdnik» será já no dia 31 de dezembro. Vocês poderão ver o filme online AQUI.

Blogueiro: o cerco a Leninegrado pelos exércitos alemão, finlandês e espanhol, durou longos 872 dias. Cerco resultou, diretamente, na morte de 641.000 pessoas e milhares de outros morreram fora da cidade, já após a sua evacuação.

Por outro lado, a cidade sitiada recebia comida, quer por caminho-de-ferro (que na realidade nunca foi cortado pelos alemães), quer por via aérea, mas que claro, não chegava e nem era distribuída para todos. Na cidade circulavam os talões e cabazes especiais, acessíveis à elite soviética militar, científica e do NKVD. Um grande número desses documentos históricos está nos arquivos, no Museu do Cerco da cidade, que até hoje não podem ser exibidos publicamente (fonte).

No período mais terrível do inverno de 1941-42 (a temperatura caiu abaixo de – 30ºC), um operário recebia 250 g de pão por dia e os cidadãos “improdutivos” apenas 150 g. No entanto, na cidade existia o sempre presente mercado negro de alimentos e foram registados diversos atos de canibalismo (segundo arquivos do NKVD-MGB em Leninegrado foram detidos cerca 2.000 praticantes do canibilismo, 586 deles foram executados. Anne Reid, “Leningrad: The Epic Siege of World War II, 1941-1944”).

terça-feira, dezembro 25, 2018

Alyona Alyona, a nova estrela do rap ucraniano

No dia 23 de outubro de 2018, a rapper ucraniana Alyona Alyona, colocou no YouTube a sua composição «Rybky 2» (Peixinhos 2) — vídeo musical, que mistura a paródia de um programa infantil com um rápido hip-hop. Momentaneamente nasceu uma nova estrela.

O marketing viral funcionou e Alyona Alyona divulgou mais quatro vídeos, cada um conseguindo mais de um milhão de visualizações e dezenas de comentários, maioria em russo, à dizer que isso é muito melhor do que todo o hip-hop russo. Até recentemente, Alena Savranenko (27) era educadora no jardim-de-infância na pequena cidade de Baryshevka, na região de Kyiv.

Alyona Alyona por Alena Savranenko (Meduza.io, versão curta)

Terminei a escola e fui trabalhar. Comecei aos 15 anos, em Kyiv no mercado de Troeschyna, vendia malas e sapatos numa barraca de um chinês. Depois trabalhei como a caixa, coletora, faxinheira nos centros comerciais, vendedora. Foi formada em psicologia e comecei trabalhar como assistente social. Dava as consultas às pessoas que necessitavam: jovens mães, mulheres de famílias problemáticas, pessoas que foram libertadas das cadeias, toxicodependentes, alcoólicos/alcoólatras.  

Comecei trabalhar no jardim-de-infância, como educadora, por lá não existir a vaga de psicóloga. Adorei e me formei em educação de infância, trabalhei por cinco anos, no meu segundo jardim-de-infância cheguei à ser diretora  me despedi apenas no início de dezembro deste ano.

Gostava de trabalhar lá, gosto de fazer aplicações, desenhar, as crianças me oiçam, gostam de mim. Ensinar as crianças coisas boas, ser pessoas boas. Criança, digamos, partiu um galho, explicava que assim a árvore não irá crescer, passarinho ficará com fome, esquilo também. As crianças aprendem ter a compaixão, amar, não fazer mal. Isso é muito importante.

Desde os meus 12 anos escrevia poesia, depois ouvi rap e entendiassim é possível contar toda a história num único texto. Aprendi os programas musicais para escrever os beats. Tínhamos um grupo, com mais duas meninas. Mas elas foram embora e eu continuei. Dentro da comunidade rap ucraniana era conhecida como a rapper, fora dela ninguém sabia de mim.
Escrevia textos para ser aceite no meio do rap, sobre as coisas que nada tinham ver com a minha vida. Depois esqueci tudo isso e comecei escrever sobre a minha vida, comecei ler hip-hop de forma rápida, algo desprezado no meio do rap ucraniano.

Cerca de 10 anos atrás fiz a minha primeira faixa em ucraniano, depois comecei ler em russo, experimentei o inglês. Mas queria usar a língua ucraniana, isso é meu. Comecei ler a nova prosa ucraniana hoje em dia composta por muitas obras interessantes. Como educadora eu usava a língua ucraniana assim o meu vocabulário aumentou ainda mais. Eu penso, quase sempre, em ucraniano. Além disso, a estrutura da língua ucraniana é ligeiramente mais simples de que a língua russa é a língua mais melódica, mais fofa e poética, não é à toa que se chama “a língua do rouxinol”.

Porque as minhas composições obtiveram o sucesso? Primeiro porque eu me encontrei. Em segundo lugar, há muitas pessoas que vivem nas províncias, de uma forma parecida com a minha vida, as suas histórias são semelhantes às minhas. Além disso, o fato de eu ser uma educadora de infância desempenha um papel, é uma coisa bastante incomum.

Eu não tinha (e não tenho) nenhuma ideia de promover a ideia do “corpo positivo”. Sou do jeito que sou. Eu não aceitei isso de imediato – somente após completar os meus 20 anos, na universidade. Decidi que as coisas que eu amo [à fazer] são mais importantes para mim do que o meu corpo. Deixei de usar as mais diversas dietas. Temos que encarar tudo isso de forma mais fácil – então a vida se torna muito mais bonita e elegante.
Eu quero desenvolver a música ucraniana. Na Ucrânia, o hip-hop é ainda difícil – mas acho que tudo vai mudar muito em breve. E também gostaria de preparar [a sociedade ucraniana para que] aceite pessoas como eu, normalmente. Eu não pretendo perder 40 quilos – e se eu puder dar [às pessoas] através da música a oportunidade de acreditar em si mesmo, se sentir mais livres, desenterrar algum talento seu, algures, eu farei isso.

[Quando os meus alunos do jardim-de-infância viam os meus vídeos], eles diziam: Alena Olegivna, você é tão linda! As crianças gostam da minha música. Eu não digo palavrões nos textos. Me mandam os vídeos de crianças à dançarem sob as minhas músicas. Os pais aparecem e dizem coloquei a sua faixa para a minha criança, nós gostamos tanto!

Advogado do Lusvarghi fica sem carro ardido não assegurado

Advogado Valentyn Rybin, conhecido por defender Rafael Lusvarghi e vários outros terroristas, ex-polícias “Berkut” e cidadãos acusados de traição do Estado, viu o seu carro à arder, informa a página Novynarnia.com

Como informou próprio Rybin, a sua viatura ardeu no dia 24 de dezembro, parqueada num parking subterrâneo em Kyiv, perto do apartamento do advogado pró-separatista. Rybin não sabe quem é culpado, mas considera que o caso está relacionado com a sua atividade profissional:


Eu posso associá-lo [o ocorrido] com qualquer coisa, porque eu estou constantemente ameaçado devido à [minha] atividade”, — disse ele.

Nas palavras do Rybin, a viatura, que não estava assegurada, ficou bastante danificada.

Os clientes do Valentim Rybin eram/são Volodymyr Ruban, que preparava, conjuntamente com Nadia Savchenko o golpe do Estado; Rafa Lusvarghi; organizador da tentativa do assassinato do jornalista russo Arkady Babchenko – Vyacheslav Pyvovarnyk; três ex-polícias “Berkut” que fugiram para a Rússia e ex-tradutor do primeiro-ministro da Ucrânia, acusado de traição do Estado.
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Blogueiro: São Nicolau (Mykolay) sabe muito bem quem neste ano era menino bom, e quem era um menino que não presta, filho do capeta, consoante isso Mykolay oferece as prendas ou as reprimendas... 

domingo, dezembro 23, 2018

Natal ucraniano: você sabe o que é o Didukh?

Didukh é o nome dado ao elemento decorativo mais importante do Natal ucraniano. É um feixe de trigo, escolhido entre os ramos mais bonitos, representando os antepassados da família que não estão mais presentes nas celebrações de final de ano, além de significar fartura e um desejo de boa colheita para o ano que se segue.
Foto: Folclore Ucraniano Barvinok
Seu nome possivelmente vem de did, “o avô”, em ucraniano, justamente por se tratar de uma homenagem aos antepassados. Ele é colocado pelo pai da família em lugar de destaque na casa e costuma ficar lá até a celebração do batismo de Cristo, dia em que, em algumas regiões da Ucrânia, esse Didukh é queimado.

Obrigado ao Folclore Ucraniano Barvinok

UM NATAL UCRANIANO

por: Andreiv Choma (Brasil), Tse Folk

E aí, já está preparando tudo para a Sviatei/Sviatiy Vechir? Que tal deixar sua festa um pouco mais parecida com aquela que seus avós faziam?
Didukh na Ucrânia | foto: a mestre Maria Kravchuk, Ucrânia
Eu sei que muitas famílias ainda preservam as tradições do Natal ucraniano religiosamente, mas em muitas casas a festa já ganhou ares brasileiros. A festa da natividade é uma das mais complexas da tradição ucraniana e fazer tudo, conforme manda o figurino, é uma tarefa árdua que nem sempre a correria da vida moderna nos permite.

Mas, se você não conseguir fazer tudo, escolha alguns elementos e coloque na sua noite de Natal, ela vai ter cheirinho de casa de bába.
imagem: arquivo
Você pode começar fazendo um diduch, feixe de trigo que representa os antepassados da família. Antigamente o trigo era selecionado na época da colheita, hoje você encontra facilmente em floriculturas. Se você tiver uma toalha bordada, utilize para amarrar o feixe.

A ceia pede 12 pratos, sem carne, ainda estamos na quaresma do Natal. Os pratos variam de região para região e cada família mantem sua própria tradição. Eu sugiro incluir perohê/verenyky (encontrados congelados em muitas cidades do Parana), kutiá (pode ser a receita abrasileirada, muito mais condizente com o verão tropical), medivnyk (bolo de mel) e borsh. Você encontra milhares de receitas na internet.
Chão debaixo da mesa natalina | Foto: Tse Folk
Comece a ceia quando encontrar a primeira estrela no céu, sirva um pedaço de pão embebido em mel para cada convidado, é um jeito de desejar que as festas e o novo ano sejam fartos e doces. Você pode deixar as velhas koliady de fundo musical, o YouTube está cheio delas.

Não esqueça de, depois de terminada a ceia, deixar um prato com um pouco de comida na mesa, os ucranianos acreditam que os ausentes virão tomar parte da festa.
Didukh | foto: a mestre Maria Kravchuk, Ucrânia 
Existem vários outros elementos que você pode incluir, achei esses os mais simples de fazer.

Ah, não esqueça de lembrar dos antepassados, isso é muito importante na festa de Natal ucraniana.
Didulh da Ucrânia | Fotos: Facebook
Conta aí pra gente que outros elementos estão na festa da sua família.

Fotos: Folclore Ucraniano Barvinok; Tse Folk; Natalia Borysenkovua; arquivo