quinta-feira, outubro 04, 2018

O golpe e contragolpe armado de Moscovo, outubro de 1993 (36 fotos)

25 anos atrás, em outubro de 1993, a cidade de Moscovo viveu o golpe e contragolpe do Estado, impasse militar entre o Parlamento (Conselho Supremo), dominado pela antiga nomenclatura comunista e Boris Yeltsin, dado, cada vez mais, aos tiques autoritários e que, no fim das contas, resultou em fortalecimento do poder ilimitado do presidente e da derrocada final da democracia liberal na Rússia.
Moscovo, metro Smolenskaya, a manif e barricadas antigovernamentais, 2/10/1993
Slogan: "Somos russos! Deus está connosco!"
Em dezembro de 1992, o Supremo Conselho recusou-se a aprovar o candidato de Yeltsin, Yegor Gaidar (1956-2009), ao posto de chefe de governo. Em março de 1993, Yeltsin fez um discurso televisivo anunciando a suspensão da constituição russa. O parlamento, em resposta, tentou anunciar o impeachment do Yeltsin, mas a ideia foi apoiada por apenas 617 deputados, dos 689 votos necessários, e então os deputados decidiram realizar o referendo popular de não-confiança em Boris Yeltsin e em suas políticas. O referendo foi realizado em 25 abril de 1993, o desempenho do Boris Yeltsin foi aprovado por 59,9% dos votos; as suas políticas por 54.3%; além disso 51,2% votaram contra as eleições presidenciais antecipadas e 69,1% se manifestaram ao favor das legislativas antecipadas. O vice-presidente russo, Alexander Rutskoi, herói popular da guerra soviética no Afeganistão, se opôs abertamente ao Yeltsin. Em resposta, Yeltsin demitiu Rutskoi – mas a decisão foi contestada pelo Conselho Supremo. Como resultado, o vice-presidente e a maioria do parlamento russo se uniram contra Boris Yeltsin, o acusando de tentar usurpar o poder e violar a constituição. O poder estatal na federação russa ficou paralisado.
Os deputados russos do Conselho Supremo na "Casa Branca",
após a corte de eletricidade, água e telefones (desde 23/09/2018)
Moscovo, metro Smolenskaya, a manif e barricadas antigovernamentais, 2/10/1993
Desde o dia 1 de maio de 1993, as manifestações comunistas, apoiados pelos nacionalistas, nazis e fascistas russos entravam com confrontos esporádicos, mas permanentes com a polícia moscovita.
Moscovo, manif anti-governamental, rompimento dos cordões policiais, 03/10/1993
Em 21 de setembro de 1993, Yeltsin emitiu o decreto № 1400 sobre a dissolução do Conselho Supremo. O Conselho Supremo votou pela cessação da autoridade de Yeltsin e pela transferência de poder ao vice-presidente russo Alaxander Rutskoi. A decisão do parlamento foi apoiada, não oficialmente, por alguns líderes das regiões russas. O Tribunal Constitucional apoiou o Conselho Supremo. No dia 27 de setembro os opositores ao Boris Yeltsin saíram às ruas de Moscovo, alguns deles estavam armados com caçadeiras e AK, principalmente os elementos da segurança dos deputados, do parlamento e do vice-presidente Rutskoi. Boris Yeltsin, em geral, controlava a situação em Moscovo, onde era apoiado pelo prefeito da cidade, Yury Luzhkov.
Polícia russa primeiro foge, mas depois se reorganiza responde com fogo 
No dia 23 de setembro de 1993 um grupo de manifestantes, liderados pelo chefe do grupo nacional-comunista “União dos Oficiais”, ultra marxista e assessor do “ministro da defesa” do governo papalelo do Rutskoi, Stanislav Terekhov (1955-2017) tomou a decisão de ocupar o quartel-general das Forças Armadas Unificadas dos países da CEI (ex-URSS). No ataque morreu um polícia, um dos agressores e uma mulher civil, vítima de bala perdida. Após o ataque, o governo do Boris Yeltsin declarou os defensores do parlamento de grupo armado ilegal, estabeleceu um cordão de isolamento em redor da “Casa Branca” (sede do Governo russo, ocupado pelo apoiantes do Parlamento) e mandou desmantelar as barricadas dos seus defensores.
Momento em que o vice-presidente russo Rutskoi exorta tomar a prefeitura de Moscovo e TV Ostankino.
Ele foi responsável moral pelas dezenas de mortos. Mais tarde ele comentará este episódio:
“Claro, foi um erro. Eu não queria sangue. Mas os nervos estavam tensos”.
Num dos camiões/caminhões abandonados pelos militares, o líder ultra comunista Victor Anpilov
(1945-2018) com megafone nas mãos leva os seus apoiantes à atacar a TV Ostankino.
No dia 2 de outubro de 1993, na praça (junto à estação do metro) Smolenskaya, em Moscovo, foram erguidas as barricadas e decorreram os confrontos com a polícia. Mas tudo se precipitou em 3 de outubro de 1993, quando a multidão de dezenas de milhares de manifestantes, após a manif na praça de Outubro marchou rumo à “Casa Branca”. Os cordões, formados pela polícia e militares do Ministério do Interior, armados apenas com escudos e bastões foram facilmente rompidos. Polícias estavam fugindo, perseguidos pela multidão enfurecida. Polícia e militares eram espancados, lhes arrancavam escudos, capacetes, cassetetes. Manifestantes usavam os escudos para golpear os jovens militares.
Alguns dos principais líderes da rebelião anti-Yeltsin em 3-4/10/1993, de esquerda à direita:
Viktor Anpilov, Ilya Konstantinov (1956) e Albert Makashov (1938)
A multidão revoltosa consegui ocupar o edifício da prefeitura de Moscovo. Sob o comando do notório anti-semita, ex-general e nacional-comunista russo Albert Makashov (1938), a multidão nacional-comunista armada com AK e pelo menos um morteiro PG-7VR com duas cargas explosivas se dirigiu para ocupação e controlo de TV russa em Ostankino (atual 1º canal da TV estatal russa).
Nacional-comunistas armados com AK na entrada de Ostankino
A unidade de polícia de choque “Vityaz”
Entendendo a gravidade da situação, o governo do presidente Yeltsin reforçou a defesa de Ostankino, às 19 horas do dia 3 de outubro de 1993, o complexo de edifícios foi guarnecido por cerca de 480 policiais e militares do Ministério do Interior, com a presença da unidade de polícia de choque “Vityaz” e forças especiais. As forças russas da lei e ordem dispunham de cerca de 320 AK, metralhadoras, espingardas/rifles de precisão, 130 pistolas, 12 morteiros, incluindo um morteiro antitanque RPG-7, com uma quantidade suficiente de munição. Eles também dispunham de seis veículos blindados tipo BTR, meios de comunicação, sistemas de proteção pessoal e meios especiais de ataque e defesa. O comando geral foi exercido pelo vice-comandante das tropas do Ministério do Interior, que dispunha de poderes correspondentes.
O momento em que a polícia russa responde com fogo indiscriminado
Os manifestantes nacional-comunistas tentaram entrar no edifício, derrubando as portas da entrada com uso de um camião/caminhão. Em algum momento os atacantes dispararam contra o prédio, usando o morteiro RPG, as forças especiais abriram fogo cerrado em resposta. Como foi estabelecido mais tarde pela investigação, um militar das forças especiais que defendia prédio foi morto por um disparo na nuca, devido à um acidente, ou então, sacrificado pelos seus, para justificar a resposta armada dos defensores. As forças especiais russas abriram fogo indiscriminado contra a multidão que se aglomerava na entrada de Ostankino. Entre 46 à 50 pessoas foram mortas, incluindo dois jornalistas ocidentais (no total em Ostankino morreram três cidadãos ocidentais).
As barricadas das forças anti-Yeltinin junto à "Casa Branca", 2/10/1993
Um dos feridos nas ruas de Moscovo
Os primeiros mortos e feridos entre as forças anti-Yeltinin junto à "Casa Branca", 3/10/1993
Oficial do serviço de bombeiros, ferido pelos defensores da "Casa Branca"
Junto à “Casa Branca”, os seus defensores nacional-comunistas reforçavam as barricadas, esperando o ataque dos militares, fiéis ao governo central russo. 
As barricadas dos apoiantes do governo central russo do Boris Yeltsin, 2-3/10/1993
Eram erguidas as barricadas na rua moscovita Tverskaya, onde se esperava o ataque dos neonazis russos do grupo Unidade Nacional Russa (RNE) do Alexander Barkashov (em 2014-15, o mesmo grupo se “destacou” em assassinatos e torturas dos ucranianos no leste da Ucrânia, onde atuou sob o nome de “Exército Ortodoxo Russo”).
Os neonazis russos do grupo Unidade Nacional Russa (RNE), em 2014-15 o grupo
atuou no leste da Ucrânia sob o nome de “Exército Ortodoxo Russo”
O dia seguinte, 4 de outubro de 1993, foi marcado pelo tiroteio nas proximidades da embaixada americana, os rumores falavam dos míticos “franco-atiradores nos telhados”. Policiais, usando os capacetes do exército disparavam às longas rajadas, usando AK, contra os andares superiores de um dos arranha-céus na avenida Kalinin, contra o suposto franco-atirador escondido.
“Casa Branca” alvejada pelos tanques da divisão Tamanskaya, 4/10/1993
Destacamento "Alfa" do FSB se prepara ao assalto final da "Casa Branca"
Filtração dos revoltosos
"Alfa" supervisiona a saída dos deputados da "Casa Branca"
Polícia do serviço de proteção da "Casa Branca"
A guerra civil acabou, "Casa Branca" começa ser restaurada
De seguida, e no mesmo dia, o exército russo posicionou os blindados da divisão Tamanskaya em frente da “Casa Branca”, onde estavam entrincheirados os deputados do Conselho Supremo e os seus apoiantes nacional-comunistas, os tanques começaram atirar, à queima roupa, contra o edifício. Milhares de pessoas estavam em redor como meros espetadores de mais um pesadelo russo, com mortos e feridos de ambos os lados. Uma câmara da CNN na avenida Kutuzovsky filmava tudo desapaixonadamente, permitindo aos milhões de espetadores em todo o mundo assistirem à revolta russa “sem sentido e sem a piedade”. A jornalista americana disse algo que na tradução russa soou assim: “mais uma vez na história, os russos se matam uns aos outros”...
No total, no decorrer do golpe e do contragolpe de Moscovo, de acordo com os dados oficiais, morreram 158 pessoas e 423 ficaram feridas.

De acordo com o ativista russo dos direitos humanos Yevgeny Yurchenko, um dos fundadores da sociedade histórica russa “Memorial”, nos eventos de setembro – outubro de 1993, e tomando em consideração apenas os casos dos desaparecimentos comprovados ou de existência das testemunhas da morte, morreram 829 pessoas. Possivelmente essa lista está incompleta, escreve a página russa russian7.
"Casa Branca" à arder após ser alvejada pelo blindados | foto: russian7.ru 
Como consequência direta da sua vitória, Boris Yeltsin mudou a constituição, aboliu o cargo de vice-presidente e elegeu um parlamento mais obediente. A propaganda estatal russa transformou a palavra “democrata” e “democracia” em palavrões, Rússia começou gradualmente perder as liberdades civis, o poder estava concentrado nas mãos de Yeltsin e do circuito próximo, alguns oligarcas e siloviki (exército, polícia, FSB).
Boris Yeltsin em 1993 | foto: ITAR-TASS
Já no ano seguinte Boris Yeltsin enviou as tropas russas à Chechénia – também sem hesitação, sem planos, sem preparação, o ministro da defesa russo Pavel Grachov prometia a tomada da cidade de Grozny em apenas algumas horas. O poder de Yeltsin se tornou ilimitado. As duas guerras na Chechénia, que se seguiram, se transformaram numa aventura sangrenta e se saldaram em dezenas de milhares de mortos. Na base de todo esse sangue derramado, um ex-oficial do baixo escalão do KGB tomou o poder autocrático das mãos de um alcoólico/alcoólatra...

Foto: RIAN; ITAR-TASS | arquivo | Texto: Yuriy Butusov e Drugoi

Holanda expulsa cidadãos russos e acusa GRU de tentativa de roubar os arquivos

O Ministro da Defesa dos Países Baixos informou que a inteligência militar russa (GRU) estava tentando roubar os documentos relacionados com a investigação do abate, pela Rússia, do Boeing-777 do voo MH17, que se deu na Ucrânia em 2014, informa agência noticiosa Associated Press.
Anteriormente, no dia 4 de outubro de 2018, as autoridades da Holanda revelaram os detalhes da expulsão, em abril de 2018, de quatro operativos do GRU russo (revelando os dados dos seus passaportes diplomáticos) detidos em 13 de abril de 2018 quando planeavam cometer um ataque cibernético à Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ).
Os operativos do GRU russo chegaram à Haia no dia 10/04/2018,
recebidos, no aeroporto, pelo consul da federação russa
Aleksei Morents (1977): operador TI/hacker
Alexey Minin (1972): acompanhante
Evgenii Serebriakov (aka Serebryakov), 1981, especialista em TI / hacker
Oleg Sontnikov (1972): apoio de HUMINT (Human Intelligence)
O laptop de Serebriakov, foi conectado ao Wi-Fi em um dos hotéis na Malásia.
Segundo os dados holandeses, este laptop foi usado em ataques cibernéticos
contra a polícia e Ministério Público da Malásia
Equipamentos russos apreendidos e esquema representativo do ataque
Equipamentos russos apreendidos e esquema do seu uso no ataque
Péssimo 007, no momento da detenção Morents tentou partir o seu próprio telemóvel

O Departamento de Justiça dos EUA apresentou a acusação formal contra sete agentes de inteligência militar russa GRU (acusados de ataque informático russo contra agência antidopagem WADA, USADA e Tribunal Internacional de Arbitragem, divulgando, indevidamente os dados pessoais dos cerca de 250 atletas), de acordo com Erik Welling, o Vice-Diretor Assistente do FBI da divisão cibernética, os três deles já foram acusados nos EUA em conexão com a interferência ao processo eleitoral americano. Os agentes russos são acusados de branqueamento de capitais e o uso da criptomoeda para financiar as suas atividades criminais, parcialmente nos EUA.
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quarta-feira, outubro 03, 2018

Tanques ucranianos “Oplot” testados com sucesso na Tailândia (11 fotos)


Os últimos 6 tanques ucranianos “Oplot-T” passaram com sucesso nos testes na Tailândia. Em 13 de setembro, as máquinas fábricadas em Kharkiv completaram os testes de campo e dos disparos diurnos e noturnos, tornando-se oficialmente, a parte do 2º Batalhão de Cavalaria do exército tailandês, escreve o blogueiro andrei-bt.
Fotos @Sompong  Nondhasa

IstoÉ: Como Lula montou um QG de campanha na cadeia

A revista brasileira IstoÉ desta quarta feira explica como Lula montou um quartel-general de campanha dentro da cadeia. As negociações envolvem até repasse de dinheiro por jatinhos.
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terça-feira, outubro 02, 2018

Como soviéticos torturavam Sergei Korolev, o prisioneiro do GULAG № 1442

80 anos atrás, em 27 setembro de 1938 foi preso Sergei Korolev – o pai do programa espacial soviético, o homem que lançou o primeiro satélite e mandou Gagarin ao espaço. Mas antes disso, Korolev foi espancado e torturado pelo NKVD, enviado ao GULAG, da onde voltou, apenas graças à uma coincidência histórica.

Quem era Sergei Korolev?

Sergei Korolev nasceu em 1906, na cidade ucraniana de Zhytomyr, localizada à cerca de 140 quilómetros ao oeste de Kyiv, o pai de Sergei veio de Mogilev, em Belarus. Sergei estudou nos ginásios de Kyiv e Odessa, após golpe bolchevique de 1917 continuou a educação em casa – os seus pais eram professores. Já na escola Sergei se interessava pela aviação e aos 17 anos desenhou o projeto de um avião não motorizado. Na década de 1920 Korolev estudou no Instituto Politécnico de Kyiv e na Universidade Bauman (MVTU) de Moscovo – ainda estudante, ele projetou alguns aviões e se interessou em desenvolvimento de foguetes e mísseis.
CV manuscrito (em ucraniano) do Korolev na epoca dos seus estudos no Instituto Politécnico de Kiyv.
3. Nacionalidade: Ucraniana
No início da década de 1930, Sergei Korolev desenvolveu vários protótipos de mísseis, e mais tarde, após a sua libertação dos campos de concentração soviéticos de GULAG, tem trabalhado na zona de ocupação soviética na Turíngia, onde estudou o equipamento alemão, capturado pelos soviéticos no fim da II G.M. Em 1946 e para estudar os mísseis alemães FAU-2 na cidade de Nordhausen foi criado o instituto soviético-alemão sob o nome de “Nordhausen”. Neste instituto e na base do modelo alemão do foguete V-2, foi criado o primeiro grande míssil balístico soviético R-1 – na realidade apenas uma modificação do foguete alemão.

Na década de 1950, Korolev trabalhou em várias modificações de mísseis R-1, terminado o desenvolvimento do míssil R-5 e começou a desenhar o míssil intercontinental R-7. Além de aprimoramento da tecnologia alemã, Korolev também introduziu inovações – criando os primeiros mísseis balísticos que usavam os componentes de combustível estável. Em 1957, usando o foguete R-7, o primeiro satélite artificial da Terra chamado “Sputnik” foi lançado em órbita.
Mais tarde, diversos outros satélites foram criados na base dos projectos do Korolev, e em 1961, com a ajuda de míssil “Vostok-1”, Korolev enviou para a órbita da Terra o cosmonauta Yuri Gagarin (embora existam versões de que Gagarin nunca foi ao espaço, mas isso é uma outra história).

Sergey Korolev era uma pessoa muito genial e inovadora, mas tudo isso poderia não acontecer. Os livros soviéticos nunca falavam disso – mas no final da década de 1930 Korolev foi preso, torturado e condenado aos 8 anos do GULAG sob acusações comunistas absolutamente delirantes.

Quem e porque prendeu Korolev?
No final da década de 1930 as repressões comunistas alargaram a sua escala, iniciando o Grande Terror estalinista – às centenas eram detidos escritores, poetas, cientistas, políticos, artistas, etc. Eram acusados de espionagem (por vezes, a suposta espionagem ao serviço de várias agências estrangeiras simultaneamente), participação nas “organizações trotskistas” ou “organização de atos de sabotagem”.
Trecho do protocolo № 68 da Reunião Especial do NKVD da URSS de 10/VII/1940
Bastava ter em casa um dicionário de palavras estrangeiras para ser acusado de espionagem, como pretexto para acusações de pertencer à um “organização trotskista” bastava a conversa telefónica com esposa, criticando o aumento dos preços da manteiga. Quanto à “sabotagem” – tudo podia servir de pretexto aos carrascos de NKVD – desde neve não recolhida do quintal até a quebra de uma ferramenta num torno mecânico.

A hora do Sergei Korolev chegou em 27 de junho de 1938, quando ele foi preso sob acusação de “sabotagem”.

Como Sergei Korolev foi torturado na prisão

Os métodos de interrogatórios do NKVD se baseavam numa só ideia: “a confissão é a rainha de provas”. Já no segundo dia após a sua prisão, em 28 de junho de 1938, o investigador Shestakov tinha chamado Korolev de “bastardo fascista”, após disso, o cientista foi colocado na “linha contínua” – quando o acusado durante dias não bebe, não come, não dorme, ficando de pé em frente de “investigadores”, que estavam mudando, para comer, beber e descansar.
Na cadeia moscovita de Butyrka em 27/06/1938, no momento da sua prisão
No decorrer dessa tortura o futuro académico soviético era espancado com mangueiras de borracha, levava golpes na virilha, lhe cuspiam no rosto. O investigador Shestakov era apoiado pelo ajudante chamado Bykov. No dia 13 de junho, o próprio Korolev descreveu as torturas, de forma muito discreta, na carta dirigida ao Estaline – “Shestakov e Bykov me sujeitaram às represálias físicas e aos abusos”.

Os carrascos forçavam Korolev à “confessãr” que este era membro da “unidade de combate” de uma “organização anti-soviética clandestina subversiva”. Korolev foi implicado na participação dessa suposta organização pela confissão do engenheiro-chefe Georgy Langemak [criador do sistema soviético de mísseis Katyusha, futuros Grad; cientista que desenvolvia a pólvora sem fumo, inventor da palavra cosmonáutica, entre outros], após doze dias de tortura, completamente fora de contato com a realidade, num estado de inconsciência dinâmica.
O engenheiro-chefe Georgy Langemak na prisão do NKVD
Korolev aguentou por três meses – o seu julgamento teve lugar em 27 de setembro de 1938, levou 15 minutos e decidiu a condenação do Sergei Korolev aos 8 anos de GULAG em regime severo. O engenheiro Langemak, que sob tortura denunciou Korolev, foi executado com uma bala na nuca após o mesmo “julgamento” em janeiro de 1938 – ele foi morto numa cela de execuções e enterrado numa vala comum no local especial do NKVD “Kommunarka”, na estrada de Kaluga, nos arredores de Moscovo.

Kolyma, antes de depois

Sergey Korolev foi enviado para trabalhar na mina de ouro de Madyak, na Kolyma – local considerado “suicida” – quase ninguém voltava de lá vivo. Korolev também não iria conseguir sobreviver os seus 8 anos – 2 anos depois ele ficou nas suas últimas forças, perdeu os dentes devido ao escorbuto, não conseguia ir ao trabalho.
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Do GULAG o “bastardo fascista” Korolev escrevia as cartas ao Estaline, mas não para pedir a sua própria libertação. Ele contava como NKVD falsificou o seu caso, falava sobre a próxima guerra, pedia a oportunidade de terminar o seu avião-foguete, que garantiria à URSS a superioridade militar sobre o inimigo. Korolev não sabia que Estaline, praticamente pessoalmente assinou a ordem de sua prisão, perseguido pelas suas próprias visões paranóicas – de alegada existência da “organização clandestina Moscovo-Centro”, que supostamente incluía proeminentes engenheiros e cientistas.
Korolev na prisão moscovita de Butyrka em 29/02/1940
Em 1940, Korolev foi transferido para o “sharashka” [bureao de construção em forma de prisão] do NKVD – o famoso “sharashka Tupolev”, onde ele se dedicou à algum trabalho decente e, finalmente, a URSS se recordou de cientista em 1946, quando tornou-se necessário encontrar alguém que pudesse entender o dispositivo do motor de foguete do alemão V-2 – os carrascos de NKVD não eram muito versáteis em ciências...

O sucesso posterior do Korelev é amplamente conhecido

Para o resto da sua vida Sergei Korolev não consegia abrir bem a boca – uma das consequências de ferimentos sofridos durante a tortura de NKVD [numa das secções os torturadores soviéticos lhe partiram o maxilar], então o mais provável, que Korolev não poderia desfrutar plenamente o sabor do sorvete soviético, o mais saboroso do mundo...

Fotos: arquivo | Texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]

segunda-feira, outubro 01, 2018

O marvado do Poroshenko e a guerra fraternal russo-ucraniana

O painel da TV estatal russa Rossija-1 discute em direto a "divisão eventual da Ucrânia"
Em setembro de 2014, o politólogo russo Valery Solovei descreveu os resultados conseguidos pelo Kremlin na Ucrânia. E traçou três cenários das relações futuras ao médio-curto prazo: otimista, realista e pessimista.

Vamos citar:

«1. A opção mais favorável para a Rússia é o profundo declínio socioeconómico e político da Ucrânia, em consequência do qual a sua parte oriental, sem o esforço da guerra e com o consentimento do Ocidente entrará sob o protetorado, de facto, da Rússia. E enquanto algumas das elites russas consideram essa ideia de wishful thinking [pensamento positivo], ela se tornou o leitmotiv de uma nova estratégia de mídia: a Ucrânia, dizem eles, entrará em colapso sob o peso de dificuldades, erros e ações suicidas.
2. Pior, mas bastante aceitável é considerado um acordo estratégico, sob o qual a legalização internacional do novo status da Crimeia e do corredor terrestre [entre Rússia continental e Crimeia] será trocado pela entrega [russa] do Donbas. Dizem que agora isso não pode ser feito, mas em três ou quatro anos, por que não? Acredita-se que com Poroshenko “é possível lidar e negociar”.
3. É altamente indesejável e improvável, mas não seja excluída a opção de retomar os combates convencionais em larga escala. Se pode escolher essa opção caso Ocidente não apreciar devidamente o “comportamento pacífico da Rússia” e não abolir o regime de sanções».
33 tipos de armamentos e equipamentos russos na Ucrânia: a base de dados e infografia
Mais uma vez, era a situação, vista em 22 de setembro de 2014. O que aconteceu desde aí de facto? Que tal repetir sobre “Poroshenko com qual se pode lidar e negociar”?

Na realidade veio o quarto cenário – mais que pessimista²:

O Ocidente não apreciou o “comportamento pacífico da Rússia” e não aboliu o regime de sanções. Além disso, o Ocidente introduziu as novas, até que hoje as sanções de 2014 pareçam ridículas [no dia 29/09/2018, o Secretário do Estado do Interior dos EUA, Ryan Zinke, disse que os Estados Unidos não descartam a hipótese “se for necessário”, de usar a marinha, para “bloquear o fornecimento de energia russa ao Médio Oriente, levando assim a Rússia fora do mercado energético]. A Rússia optou por um agravamento militar no início de 2015, apesar da extrema indesejabilidade de tais ações. Conseguiu um resultado extremamente importante – realizou em Moscovo a exposição de objetos saqueados na cidade ucraniana de Debaltseve. O tema da troca da Crimeia pelo Donbas causa o riso até nos galinheiros do galo-alfa Igor “Strelkov” Girkin, e a frase “corredor terrestre à Crimeia” é simplesmente esquecida a abandonada por todos.

A única esperança do Kremlin atualmente é a vitória nas eleições presidenciais na Ucrânia de qualquer um, menos o Presidente Petró Poroshenko. É a sua esperança final.

Essa é a diferença real entre o plano pessimista e a realidade, é a razão pela qual votaremos em Poroshenko. A última esperança do Kremlin “qualquer um, menos Poroshenko” é a razão principal por que apoiaremos Presidente e pedimos os votos para ele.

@Svitlana Samborska & Ucrânia em África


Bónus



O presidente Petró Poroshenko em conversa com Fareed Zakaria (GPS – CNN):