sexta-feira, setembro 28, 2018

As cartas dos filhos de GULAG às suas mães, prisioneiras do sistema comunista

A sociedade histórica russa, Memorial, preserva nos arquivos centenas de cartas de crianças, que estas, nas décadas de 1930-40 escreviam às suas mães. As leis comunistas separavam as famílias dos “inimigos do povo”: o pai era fuzilado, a mãe – enviada ao GULAG e os filhos – iam aos orfanatos estatais ou, com sorte, viviam com os seus parentes. Os irmãos e irmãs eram constantemente separados entre si...   

01. Cartas de Henrietta Chuprun

Carta foi escrita para a sua mãe, prisioneira do campo de concentração soviético de Karlag. O seu pai nasceu em Mensk/Minsk em Belarus, trabalhava em Moscovo, era vice-diretor do Instituto de Pesquisa Científica da Indústria de Congelação. Preso em 1937, acusado de espionagem, torturado durante dois meses e depois fuzilado. Após disso foi presa a mãe de Henrietta, Eudoquia — segundo o artigo da lei sobre os “membros da família do traidor da pátria”, ela foi condenada aos 8 anos do GULAG soviético.

Eudoquia passou pelo Temlag em Mordóvia, Segezhlag em Carélia e depois foi transferida ao campo de ALZHIR.

26/XI-[19]44. Querida mamã!

Eu recebi sua carta. A tia Charlotte ficou doente. Eu não sou muito boa em estudos, embora me empenho. Eu assisti o filme The Rich Bride. Sou a editora do jornal da turma “Zateynik” (literalmente Criador-Inventor). Eu tenho pequenas tranças de rato aos lados da minha cabeça. Eu tenho um álbum da poesia. Quase todas as minhas amigas escreveram lá em memória. Mas, estranhamente, minha amiga do peito, Lera S., não escreveu! Aqui estou te desenhando uma imagem, beijo dez vezes em 10º grau. Hertha.

P.S. Como você acha, o pai morreu ou não?

Mais uma carta de Henrietta:

Querida mãe! Eu recebi a sua carta. Uma vez visitei Nina. E ontem ela veio. Eu cortei meu cabelo e pareço com Alik. Nina aconselhou a desenhar uma imagem para você. Na escola, muitas vezes tiro “excelente” em [língua] russa.

Fortemente te beijo. Hertha

02. Carta da Marina Dushkina

A mãe de Marina foi detida e aprisionada no mesmo ALZHIR, não temos as informações mais detalhadas sobre ela. Marina escreve para sua mãe sobre o passado e sobre a escola.

Querida mamãe! Felicito-te pelo aniversário passado. Você celebrou a data? Mãe, nós estudamos a história, eu fui chamada e recebi “excelente”, na cadeira de música nós fizemos um teste, e eu tirei “excelente”. Eu também sou uma excelente aluna em alemão e, quando estava tocando, não tinha nenhum receio. Querida mamãe, eu te espero com todas as minhas forças.

Te beijo muito fortemente. A tua Marina.

03. Carta de Viola Gollender


Uma menina chamada Viola Gollender escreveu essas cartas para sua mãe, Ekaterina Gollender, que naquele momento já estava presa em ALZHIR há oito anos. O pai de Viola era engenheiro-chefe na construção de fábrica de tratores em Estalinegrado, em 1936 ele foi preso sob a acusação de participação numa “organização trotskista contra-revolucionária”, e em 1937 foi fuzilado. Como no caso de Henrietta, a mãe de Viola foi enviada ao GULAG.

27/IX-[19]45

Olá querida mãe! Saudações de Moscovo! Mamãe há apenas 7 dias completei 15 anos. Já 15! Eu nem acredito nisso. Quantos! Claro que este dia não diferiu dos outros e foi semelhante a todos os outros. À noite, quando fui para a cama, em seguida, chorei, eu não sei por que, ... [a folha é rasgada aqui, a carta continua no verso] ... ele finalmente chegará! Mãe, como você é agora, provavelmente uma velhinha. Eu não posso imaginar você. Já me esqueci. Afinal, eu era uma garotinha – com apenas 7 anos e agora com 15 anos de idade.

Eu já nem imagino como isso é, viver com a mãe.

04. Cartas da Aurora Sturit

Cartas ao campo de concentração de ALZHIR de uma menina letã chamada Aurora, a sua mãe Cristina Ruben estava presa em GULAG por vários anos, e Aurora estava em um orfanato. Em cartas, a garota menciona o seu irmão mais novo, Victor.

aldeia Perekopnoe 9/XII-[19]42

Olá, querida, minha querida mãezinha! Hoje me sinto especialmente bem, porque recebi uma carta sua. Nós também vivemos bem, estamos bem vestidos. Nós, isto é, as meninas recebemos novos casacos, novos chapéus-gorro, escovas e botas com galochas, e algumas – as botas de feltro. E os meninos não receberam casacos novos, mas feitos no ano passado e chapéus-kubankas, também comprados no ano passado, eles não receberam as ceroulas, porque eles usam as calças cumpridas, mas todos eles receberam botas de feltro. Então nos vestimos muito bem. Agora estamos saudáveis ​​e não estamos doentes. Inverno ainda não tem muito frio, mas muita neve. Cara mãezinha, estou muito feliz por você estar bem vestida. Mamãe, você provavelmente me imagina alta, não, eu não sou tão alta, apenas 1.39 cm. Do nosso 7º ano, eu sou a mais baixinha.

Victor, já é diferente, claramente mais baixinho que eu, mas não muito. Você pergunta como vivem os Rutman. Eles vivem com muitas dificuldades, agora não vivem em Moscovo, mas perto de Moscovo, na estação de Bykovo. (Lembre-se, mãezinha, fomos lá com o jardim-de-infância no verão. E a próxima estação será Ilhinka, onde morávamos na casa do campo). Eles têm uma horta e no verão ali crescem legumes. A mãe de Ilga trabalha em Moscovo, e Ilga estuda em Moscovo e todos os dias viaja de comboio/trem de lá para cá. Vilik, o irmão mais novo, mora em Bykovo e frequenta a escola lá. A avó deles está viva, ela mora com Vilik. O irmão mais velho está do exército, ele está na divisão letã, agora ele está no hospital. Assim são as coisas deles.

Mãezinha, eu já praticamente esqueci a língua letã.

Lembro me apenas de algumas palavras. Por exemplo, pão.

Mais uma carta da Aurora:

Mãe, escreva, você tem papel ou não? Se não, então eu vou mandar. Trouxeram-nos ao orfanato as roupas novas. Nós, isto é, as meninas recebemos 2 pares de meias, 2 pares de ceroulas, 2 camisas, 1 par de meias e 1 vestido. E os garotos, as calças novas, camisas interiores, camisas normais, ceroulas. E meias. Garotas guardam as suas próprias roupas. Nós as lavamos e usamos quando queremos trocar de roupa. E [a roupa dos] meninos é lavada pelas lavadeiras.

Mãezinha, estou mandando um envelope e papel. Bem, tchau-tchau. Beijos fortes-fortes.

Com saudações pioneiras! Esperando por uma resposta.

05. Carta do Victor Sturit

Victor era o irmão mais novo de Aurora e o filho de Cristina Ruben, que foi condenada como a “membro da família de um traidor da Pátria”. Como Aurora, Victor foi enviado ao orfanato – que ele tentou desenhar na sua carta, e também escreveu que ele sente muita falta de mãe.

Olá querida mãe, por que você escreve para mim. Mãe, você não sabe onde está o pai. Mãe, eu estou na segunda classe. Mãe, eu fiquei doente com as tinhas [dermatofitose] por muito tempo. Mãezinha estou vivo e saudável. mãe, você escreveu que não tinha papel. mamãe vou mandar para você.

Mãezinha, tinha muitas saudades suas. Não há mais nada para escrever.

Imagens: Memorial | Texto: Maxim Mirovich | Tradução das cartas: Ucrânia em África

quinta-feira, setembro 27, 2018

Índia quer comprar sistemas S-400 russos, pagando em óleo de palma

A Índia quer comprar cinco sistemas de defesa aérea russa S-400 “Triumph”, no valor de 5,43 bilhões de dólares, segundo o jornal indiano Times of India. O país pagará apenas 15% do valor no acto de assinatura de contrato, e o resto, durante 20 anos em “entregas”, nomeadamente em óleo de palma.   

Segundo o jornal, a decisão foi aprovada pelo Comité de segurança do governo da Índia sob a presidência do primeiro-ministro Narendra Modi. A assinatura do contrato espera-se no início de outubro, no decorrer da visita do presidente russo ao país. No entanto, a publicação observa que não há nenhuma confirmação oficial desta decisão.

Nota-se, que muito recentemente, os EUA impuseram as sanções à China, por causa da sua compra do mesmo sistema de mísseis S-400.

Mas como escreve o blogueiro militarista russo el-murid, o negócio envolve algumas nuances não relatadas pela mídia russa. Para comprar S-400, a Índia receberá um empréstimo de 1,5 bilhão de dólares por um período de 20 anos e sob a taxa de juro de 1,2% ao ano. O retorno do empréstimo não será em dinheiro, mas em óleo de palma. A Índia realmente tem bastantes palmeiras.
Blogueiro: recebendo essas notícias extraordinárias é difícil não recordar a guerra fria, quando URSS fornecia as armas aos amigos comunistas e mesmo aos “não-alinhados” à troca de açúcar e camarão, sem contar com inúmeras promessas muitíssimo progressistas e abundantes slogans antiamericanos. “Victoria o muerte” clamavam habitualmente os amados líderes e por trás recebiam mais dois Rolex e uns tantos fatos de treino de bons brands ocidentais...

Oficial do GRU russo é reconhecido pelos seus conterrâneos


https://ucrania-mozambique.blogspot.com/2018/09/revelado-o-nome-real-do-agente-do-gru.html
Enquanto os propagandistas russos afirmam que “Ruslan Boshirov”, acusado pelos britânicos no caso Skripal em nada parece com o coronel do GRU, apresentado pelo Bellingcat, os jornalistas do jornal russo Kommersant viajaram para a região de Amur, e os moradores locais confirmaram que “Ruslan Boshirov” realmente é o seu conterrâneo – Anatoly Chepiga.

O facto de que ele estava no serviço secreto, em pontos quentes, nós sabíamos. Sua mãe chorava: até mesmo a sua família não sabia exatamente onde ele estava localizado – diz outra residente [da aldeia] Berezovka. — Esposa viveu em Khabarovsk, o esperando. A última vez que o vi [foi há uns] dez anos atrás, quando ele visitou os seus familiares, escreve o jornal russo Kommersant.

A imprensa britânica também não larga o azarento coronel do GRU:

 

quarta-feira, setembro 26, 2018

As mesmas profissões nas duas Coreias, comunista e capitalista, em 30 fotos

Numa viagem entre as duas Coreias, o fotógrafo Edward “Ed” Jones da AFP comparou as pessoas que têm as mesmas ocupações, mas estão separadas pelo paralelo 38ºN. Eis as diferenças (e semelhanças) nos dois países em 30 imagens.

por: Marta Leite Ferreira, Observador.pt
O barco turístico na Coreia do Norte é pilotado por um capitão (do exército? da secreta?), os turistas não são esquecidos) 
Se reparar bem, na carrinha das compras do camarada norte-coreano está a sua filha e a sua pasta, nada mais)
Faça click para aumentar as fotos | ED JONES/AFP/Getty Images / Observador.pt
O presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, visitou a capital norte-coreana de Pyongyang entre 18 e 20 de setembro para a terceira cimeira com Kim Jong Un. O encontro entre o líder da Coreia do Norte e o presidente sul-coreano foi o mais recente passo na aproximação diplomática entre os dois países separados pelo Paralelo 38º N. Os dois líderes assinaram dois documentos que aprofundam a Declaração de Panmunjom: uma ameniza a tensão entre as duas Coreias, pede mais cooperação entre elas e promete a desnuclearização da península; enquanto a outra especifica medidas concretas para que isso se possa realizar.
No centro de tiros sul-coreano as armas estão livremente expostas na parede (foto em baixo, canto superior esquerdo)
Faça click para aumentar as fotos | ED JONES/AFP/Getty Images / Observador.pt
Se Coreia do Norte e Coreia do Sul estão cada vez mais próximas em termos diplomáticos, o estilo de vida da população continua distinto. A prová-lo está a combinação feita pelo fotojornalista Ed Jones ao serviço da Agence France-Presse e da Getty Images. Num projeto pensado para mostrar ao mundo a realidade social das duas Coreias durante a cimeira entre Moon Jae-in e Kim Jong Un, Ed Jones foi aos dois países e tirou fotografias que mostram como as mesmas profissões são exercidas num lado e no outro da fronteira.
Aparentemente no parque aquático em Pyongyang as pedras amontoadas no fundo da foto fazem parte de algum monumento de exaltação comunista, já em Seul o parque Carribean Bay exalta as Caraíbas)
Faça click para aumentar as fotos | ED JONES/AFP/Getty Images / Observador.pt
Ed Jones descobriu como as crianças brincam, as fábricas funcionam e os agricultores trabalham na Coreia do Norte e na Coreia do Sul. Depois, na combinação das imagens, mostrou as diferenças e as semelhanças na vida social dos dois países.
No laboratório informático em Pyongyang podemos ver uma “voluntária” e no máximo mais dois “estudantes”,
na sala de informática em Seul o ambiente é diferente.
Faça click para aumentar as fotos | ED JONES/AFP/Getty Images / Observador.pt
Ver as comparações na fotogaleria.

Revelado o nome real do agente do GRU russo “Ruslan Boshirov”

A terceira parte da investigação conjunta de Bellingcat e The Insider revela o verdadeiro nome do “Ruslan Boshirov”, acusado na Grã-Bretanha pela tentativa do assassinato dos Skripal – o coronel do GRU russo Anatoly V. Chepiga.
À esquerda: foto do passaporte russo de Anatoliy Chepiga de 2003. No meio: foto do passaporte de “Ruslan Boshirov” de 2009. À direita: “Ruslan Boshirov”, visto numa fotografia divulgada pela polícia do Reino Unido
As publicações explicam que os seus investigadores conseguiram achar os dados do passaporte interno russo em nome do Anatoly Vladimirovich Chepiga, nascido 5 de abril de 1979 – na foto este homem parece com Ruslan Boshirov.
Foto de graduados da DVOKU em missão na Chechénia, sem data. A Bellingcat não afirma que a pessoa à direita é Chepiga; fotografia incluída apenas para conclusão do processo de pesquisa
Segundo a investigação Anatoly Chepiga nasceu na região russa de Amur. Se formou na Escola Militar Superior de Comando do Extremo Oriente (DVOKU) e fez parte da 14ª Brigada do GRU. Chepiga completou três missões na guerra da Chechénia e possui o posto de coronel. Em 2014, o presidente russo Vladimir Putin concedeu-lhe o título de Herói da Rússia pela participação numa alegada missão de paz (a participação oficial russa na guerra na Síria ainda não tinha começado) – de acordo com The Insider, em 2014 a pressença da sua unidade foi detetada nas proximidades da fronteira estatal da Ucrânia, possivelmente estamos falar das ações militares e/ou terroristas ligadas à invasão ilegal russa da Ucrânia.
Chepiga Anatoliy Vladimirovich - herói da federação russa
Memorial do marechal Rokossovsky na Escola de Comando Militar do Extremo Oriente com o apelido/sobrenome do coronel Chepiga na lista dos condecorados com a Estrela Dourada (Herói da Rússia)
Na definição da verdadeira identidade do Boshirov aos investigadores ajudaram os dados dos graduados da DVOKU, que uma das suas fontes chamou de “melhor escola de formação dos funcionários da GRU”.
Ler mais em russo
Bónus: apesar de reconhecer alta qualidade investigativa da comunidade OSINT Bellingcat, continuamos à considerar que neste caso estamos assistir a luta sem quartel entre as várias “torres do Kremlin”, em que SVR (secreta externa) está afundar, sem dó nem piedade, os operativos do GRU (secreta militar) para mostrar o serviço e demonstrar quem é que manda no pedaço.

terça-feira, setembro 25, 2018

Made in Ucrânia: o novo MBT ucraniano na base do T-64

O blindado ucraniano da série T-64 possui um grande potencial para a sua modernização, e o MBT T-64BM Bulat não é a sua versão final; em 2019 Ucrânia apresentará uma nova versão do T-64 – neste momento o equipamento está sendo trabalhado no Bureau de Construção “Morozov” em Kharkiv.
Blindado T-64 "base" da fábrica ucraniana "Morozov" no museu
A informação foi confirmada pelo chefe da Direção Central de Blindados das Forças Armadas da Ucrânia (FAU), Major-General Yuriy Melnyk: “Teremos uma máquina que, em termos de suas qualidades de combate, excede a capacidade do tanque Bulat, tanto em termos de segurança, quanto de mobilidade. O trabalho é realizado de forma abrangente – no que diz respeito à mobilidade, as melhorias no motor e no sistema de transmissão, nos sistemas de comunicação, navegação e controlo/e de armamento”, escreve a página ucraniana OPK.com.ua
A vista parcial lateral do novo blindado ucraniano
O desenvolvimento do novo blindado tem dois objetivos: criar um equipamento económico e em um curto espaço de tempo, que, de acordo com suas qualidades de combate, corresponderá aos requisitos estabelecidos pelas FAU e encontrar um substituto para o T-64TM Bulat.
Blindado ucraniano T-64BV
Blindado ucraniano T-64BV-2
Anteriormente, nos polígonos das FAU se iniciaram os testes de fogo do tanque T-72AMT, produzido pela Fábrica de Blindados de Kyiv, que pode usar vários tipos de munição, incluindo mísseis guiados de alta precisão “Kombat” (Combate). Além disso, o tanque recebeu a proteção de uma nova geração, usando as grades anti-cumulativas. O veículo de combate é uma versão modernizada do tanque T-72A.

Os dados técnicos do T-64BM Bulat (fonte)
Blindado ucraniano T-64BM Bulat
O blindado ucraniano T-64BM Bulat é um produto de modernização profunda do blindado T-64BV, com um número de melhorias vindas do T-84BM Oplot. A modernização ucraniana do blindado-base T-64BV até o nível T-64BM Bulat, custa cerca de 3 vezes menos do que a produção de um T-90A.

O T-64BM possui o motor bastante poderoso e mais barato do que os blindados da série T-90/S/A, com possibilidade de uso de novos motores 5TDFMA-1/6TD-2, mira panorâmica, termovisor e sistemas de proteção passiva “Dublet” e de proteção ativa “Zaslon”, ambas de fabricação ucraniana.
Blindado ucraniano T-84 Oplot-M
Mecanismo de carregamento do T-64BM Bulat possui 28 tiros e pode ser regulado, a capacidade de disparos do T-90 é de apenas 22 tiros, sem possibilidade de ser regulação. Os motores ucranianos da série 5TD/6TD, usados no T-64BM Bulat, possuem o desenho mais “frio” do seu escape, graças às características construtivas das séries T-64 e T-84 (são cerca de 1,5 vezes menos notados pelos sistemas de termovisão, comparados com os tanques das séries T-72 e T-90 com motores V-84/V-92).

A reparabilidade do tanque T-64BM Bulat (substituição do bloco único de motor e da transmissão) no campo de batalha leva entre 2,5 à 6 horas. A substituição do motor nos tanques T-90S/A demora cerca de 24 horas.

O T-64BM Bulat é muito mais suave em movimento do que o tanque T-90A. As vibrações em solo duro são menores e a precisão do disparo em movimento é maior. Assim como as, muito boas, capacidades do T-64BM de se mover nos terrenos lamacentos.

Conclusões:

Os MBT russos da série T-90/S/A são inferiores ao T-64BM Bulat no domínio do poder de fogo, na sua eficácia e na precisão, permeabilidade e a capacidade de manobra, ergonomia, facilidade de operação e da manutenção.

Bónus
Ler mais | arte do Rado Javor "Campo de girassóis"
Um dos combates registados entre T-64BV ucraniano e T-72B russo se deu no verão de 2014 no leste da Ucrânia no decorrer da guerra russo-ucraniana. Exército ucraniano tentava, à todo o custo, conter a ofensiva russa. O jovem comandante do tanque ucraniano, tenente Artem Abramovich (21/04/1990), deliberadamente embateu o seu blindado T-64BV contra o russo T-72B, à fim de salvar os militares em retirada. No combate as forças russas perderam dois T-72B e FAU perderam um T-64BV e um blindado ligeiro BMP-2. Ambos os tanques foram destruídos e jovem tenente (tal como os seus dois companheiros) perdeu a vida, mais tarde ele foi condecorado com a medalha “Herói da Ucrânia”.

Do GULAG ao Nóbel: Lidija Doroņina-Lasmane

Isto é o mais sagrado,
Não se esqueça:
Ascendendo ao céu,
Ou mergulhando nas profundezas do mar,
Dividindo a alegria com os amigos,
Ou enfrentando seus oponentes sozinho,
Você é a Letônia.
– O.Vācietis

   Sentada em sua sala, rodeada de livros e desenhos de crianças, uma senhora de grandes e expressivos olhos azuis recita, com uma voz calma e pausada, poesia para seus netos. Assim como o livro de poesia de Ojārs Vācietis, acomodado em seu colo, ela também havia sido censurada. Suas mãos rudes – fruto do GULAG soviético – seguram-o com terneza, quase como se abraçassem centenas de velhos amigos, perdidos pelo totalitarismo. 

   Essa senhora de olhos azuis e voz calma é Lidija Doroņina-Lasmane. Apesar de não gostar muito dos holofotes – prefere livros e netos – há poucos na Letônia que não a conheçam. Foi a protagonista do documentário “Lidija” (2017), de Andrejs Verhoustinskis.

A Família e a Guerra

   Lidija nasceu em 28 de julho de 1925 na bucólica vila costeira de Ulmales. Sua família era batista, com três irmãos (um veio a falecer cedo) e ela cresceu em uma atmosfera de amor, que moldaria seu caminho pelo resto da vida. Lidija se batizou na igreja batista de Saka aos 13 anos, um ano antes da Segunda Guerra Mundial.

   A região de Ulmales, Kurzeme, é igual a vila descrita: plana, campestre, bucólica. Mas não seria assim por muito tempo. Em 1940, a Letónia foi ocupada pela União Soviética, que logo começou as deportações em massa de elementos “contra-revolucionários”: políticos, pastores, professores e quem mais pudesse desafiar a nova ordem.

   A situação mudou novamente quando a Alemanha nazista invadiu a União Soviética em 1941 – e com ela, a Letónia – trazendo seus aparatos de censura, perseguição e execução.

   “No outono, os nazistas vieram  e abateram todos os judeus de Pavilosta quase na frente dos nossos olhos. Havia também meus colegas de escola, a garota com quem eu brincava. Eu percebi que [o totalitarismo] era uma insanidade tão grande que se tinha que abandonar uma parte de si mesmo, sob nenhuma circunstância deveria sucumbir a ela”,  relatou Lidija ao compartilhar suas memórias.

   Em 1944, 200.000 tropas alemãs, recuando após sucessivas derrotas no front, foram cercadas pelo Exército Vermelho em Kurzeme. Sem ter para onde recuar, as tropas nazistas e o exército soviético transformaram a região em uma zona de total desolação e destruição.

A Ocupação

   A jovem Lidija decidiu que faria de tudo para salvar vidas. Em 1946 começou a estudar em uma escola de enfermagem em Riga. Nessa época, a União Soviética, após ocupar novamente a Letônia, continuou com a “limpeza” de opositores. Em novembro do mesmo ano, Lidija e sua família foram presas por abrigarem e fornecerem curativos para um grupo de letos que resistiam à ocupação.

   “Eu cresci na velha Letónia, formada com meu país e seu espírito. Eu não podia aceitar ocupação, era inteiramente contrária a minha natureza. Esses grandes países não tinham o direito de nos conquistar. Deus deu a cada um a sua terra onde morar e servi-lo.”

   Lidija e sua família foram levadas pelo serviço secreto soviético, a Tcheka MGB (precursora da KGB) para serem interrogados na sede do serviço em Riga. A jovem de 21 anos foi condenada a, no mínimo, 5 anos de prisão e mais 3 de retenção de direitos por “traição à pátria”. Seu pai foi condenado a 10 anos e sua mãe, 3 anos em um hospital psiquiátrico.
Na foto à esquerda: Lidija no final dos anos 1960. Na foto à direita: Lidija com a sua filha Ari
no início dos anos 1950 | fotos: Laikmeta zīmes
    Durante os primeiros anos de prisão, Lidija era obrigada a carregar troncos, e ficou doente com tuberculose e quase morreu. Em 1951 foi transferida para a infame prisão de Vorkuta, o maior campo de trabalhos forçados da União Soviética, onde os inimigos e dissidentes políticos eram obrigados a minerar carvão. Em 1953, o ditador soviético Stalin morreu e seu sucessor, Khrushev, concedeu perdão a alguns presos políticos, entre eles, Lidija.

A Traficante de Livros

Lidija retornou a Letónia, mas não tinha lugar para morar; sua família havia perdido tudo. Nos anos seguintes, começou a guardar e redistribuir livros que haviam sido proibidos pela censura, o que a levou a ser presa novamente em 1970. Passou dois anos na prisão feminina de Riga. “Quando fui presa, não tive medo, pois defendia algo justo. Eu tinha certeza de que eles estavam errados. Mas havia a sensação de que havia muito a se fazer, muito a planejar, mas eu estava lá, sem sentido”.

   Após sair da prisão, continuou seu trabalho com fervor ardente, recolhendo não só músicas, livros e filmes proibidos, como também memórias de outros prisioneiros políticos e exilados.

   Sua resistência trouxe a polícia secreta mais uma vez até sua porta na manhã de 6 de janeiro de 1983. Lidija reconta que o jovem que a interrogou sobre o livro que havia distribuído, Piecas Dienas (Cinco Dias, do escritor Anšlavs Eglītis), era também um letão: “O investigador me disse ‘Está escrito aqui, e você o leu e divulgou, como se a Letônia estivesse ocupada, como se em 1941 tais e tais pessoas tivessem sido deportadas. O que você pode dizer sobre isso?’ Eu digo a ele, ‘o que devo dizer sobre isso? Somos dois letões. Você não nasceu ontem e sabe bem que a Letónia está ocupada.’ Mas ele não tinha nada para dizer.”
Lidija detida pelo KGB em 1983 | foto: Latvijas Valsts arhīvs
    Lidija foi detida novamente e deportada para a Mordóvia, onde dividiu cela com outros criminosos, prostitutas e ladrões, mas nada disso jamais a fez perder a esperança. No natal, ela e outros prisioneiros cortavam panos verdes para simular pinheiros e todos os prisioneiros entoavam os hinos que lembravam. “Eu nunca senti ódio por aqueles que me torturaram. Absolutamente não. Fiquei com vergonha deles porque me humilharam”, conta Lidjia.

   Em 1987, Lidija e outros prisioneiros foram perdoados no Glasnost de Gorbachev. Lidija visitou a Suécia e viu centenas de refugiados letãos cantando hinos proibidos e segurando fotos de prisioneiros políticos, inclusive fotos suas.

A Vitória

   Depois da Independência, Lidija começou a visitar antigos lugares da KGB e recolher documentos de assassinatos e execuções. Ela conta que uma vez achou entre os documentos a foto do delator que possibilitou sua prisão: “como pode fazer isso? Ele morreu e eu não pude saber. Se pudéssemos falar, poderíamos nos reconciliar. É fácil perdoar na mente, mas, para sentir isso no coração, foi necessário tempo”.
Lidija com alguns dos livros proibidos na URSS | foto: letoniabrasil.org
    Lidija participou ativamente do Centro de Documentação do Totalitarismo, atendendo também outras vítimas de perseguição. Em 1994, ela foi premiada com a Ordem Triju Zvaigžņu ordenis (Ordem das Três Estrelas) pelo seu trabalho, mas decidiu recusar. Segundo ela, há prêmios muito maiores do que medalhas.

   Participou também do trabalho “Akcija dzīvībai” (Ação pela Vida), em que atendia mulheres afligidas com gravidez indesejada, muitas vezes sofrendo também de depressão e estigma social. Por sua luta contra totalitarismo e seus trabalhos, Lidija é uma das indicadas para o prémio Nóbel da Paz de 2018.

   “Hoje posso cantar de coração: Dievs, svētī Latviju! (Deus abençoe a Letônia!). Eu tenho uma filha e três netos, mas também inúmeros outros ‘netos’ pelo mundo que buscam justiça. Eu tenho uma igreja maravilhosa, e moro em um país livre, a Letônia. Espero que agora as pessoas aprendam a amar uns ao outros, não importem as circunstâncias. E espero que aqueles que estão no poder saibam usá-lo com sabedoria”.
Lidija em sua igreja em Riga, a Mateja Baptistu Draudze | foto: letoniabrasil.org
Trechos retirados do periódico “Tikšanās” (Reunião), de dezembro de 2001 a janeiro de 2009. Traduzidos livremente por Andreis Purim

Bónus
Ler mais (em letão) | foto: letoniabrasil.org
A história da dissidente letã Lidija Doroņina-Lasmane: presa pelas autoridades comunistas soviéticas em 1946, 1970 e 1983: ler mais em letão.

Bónus II
Ler mais | foto: Wikipédia
Ler mais sobre a famigerada “deportação de junho”, uma deportação em massa, executada pelas autoridades comunistas da União Soviética de dezenas de milhares de pessoas dos territórios ocupados em 1940-1941: Estados Bálticos, Belarus Ocidental, Moldova e Ucrânia Ocidental.