segunda-feira, agosto 06, 2018

Voluntária Yana Zinkevych: a personificação da própria Ucrânia

A voluntária paramédica Yana Zinkevych, que já foi chamada de “anjo de vida”, ferida gravemente na guerra russo-ucraniana, é a personificação da própria Ucrânia: linda, mutilada, mas viva...
Yana no DUK PS
Aos apenas 19 (!) anos a jovem voluntária salvou a vida e retirou do campo de batalha mais de duas centenas de feridos ucranianos. Em 2014, o Ministério da Defesa da Ucrânia, condecorou a chefe do serviço médico do Corpo Voluntário Ucraniano do Setor da Direita (DUK PS), Yana Zinkevych, com a condecoração “Pela Coragem Militar”.

Yana continuou na linha da frente, acompanhando a transformação do DUK PS no Exército Voluntário Ucraniano (UDA),  continuando sendo a chefe da sua Direção médica e de reabilitação, batalhão Hospitallers.
Condecorada pelo Petró Poroshenko com a “Ordem de Mérito”
Em dezembro de 2015 Yana Zinkevych, já com 20 anos, foi condecorada pelo Presidente Petró Poroshenko com a “Ordem de Mérito” do 3º grau. Nas vésperas, Yana sofreu um grave acidente de viação, foi operada de urgência na cidade de Dnipro, e depois transportada para Israel, onde novamente foi operada e passou por um curso prolongado de reabilitação.

Em maio de 2016, aos 21 anos, Yana Zinkevych se casou (grávida de 4 meses) com o seu noivo, também voluntário ucraniano Maxym Korablev. A nova seria numerosa: Yana, Maksym, a filha Bohdana e um cão...
Yana no dia do casamento
Mas nem todas as histórias têm o final feliz. Menos de um ano após o casamento e apenas uma semana depois do parto, Maxym deixou a família. Essa foi a sua decisão. Yana tornou-se mãe solteira, estudante da Academía Médica do Dnipro, sem deixar o trabalho no batalhão. “Não sei porque Maxym me deixou, – conta Yana – talvez foi demasiadamente fraco perante as dificuldades da vida real”.
Com a filha Bohdana
Desde a sua criação e no decorrer da fase ativa de OAT, o batalhão Hospitallers salvou e retirou do campo de batalha mais de 2.500 feridos ucranianos. Yana, após as suas operações e o curso de reabilitação, continua se mover numa cadeira de rodas.
A unidade médica do UDA Hospitallers
Tal como Ucrânia, Yana Zinkevych luta e não se rende (fonte).
Como se diz na sua unidade: a chave para o sucesso é a unidade da retaguarda e da linha da frente! Glória à Ucrânia!

Ajudar à unidade médica do UDA Hospitallers
Zinlevych Yana Vadymivna: conta 5168 7422 1293 5864 (PrivatBank Ucrânia)
Western Union: Yana Zinkewich
Página oficial da unidade: https://www.facebook.com/hospitallers

domingo, agosto 05, 2018

O guarda-fronteira modelo das portas do “paraíso socialista”

O guarda-fronteira Nikita Karatsupa foi a personagem ideal da propaganda soviética – órfão desde cedo, ele dedicou toda a sua vida à luta contra os “infratores da fronteira estatal”. A propaganda comunista apenas não revelava que absoluta maioria destes “infratores” simplesmente tentava escapar do “paraíso socialista”.

A propaganda estatal soviética o transformou em herói e modelo comunista, à seguir para todas as crianças, que eram pesadamente indoutrinadas na necessidade de servir no exército vermelho (RKKA). Karatsupa era o modelo ideal, segundo a sua biografia oficial, aos 7 anos ele se tornou órfão (ou seja, desconhecia a vida familiar normal), entrou no orfanato (da onde fugiu e tornou-se um vagabundo, mas na União Soviética essa parte naturalmente era omitida), mais tarde tornou-se um pastor num kolkhoz. No início dos anos 1930, ele foi convocado ao exército, mostrando a vontade de servir nas tropas de guarda-fronteira. O comissário militar que tratou do seu recrutamento observou que ele é muito baixinho para o serviço escolhido, mas este respondeu – “então os infratores não me vão ver!” – depois disso, foi admitido numa das unidades da guarda-fronteira soviética.
Nikita Karatsupa e um dos seus primeiros Indus/Ingus, 1936 | Wikipédia
Karatsupa fazia a dupla com os seus cães/cachorros pastores alemães, sempre chamados de Indus (Indiano), eram cerca de 12 ao longo dos anos – que, a propósito, mais tarde foram rebatizados na imprensa e na literatura soviética de Ingus, por razões do politicamente correto, de modo à não ofender Índia, que desde o fim da década de 1950 se tornou amiga e aliada “não-alinhada” da União Soviética. Com ajuda dos cães/cachorros, Karatsupa deteve (e também matou 129 pessoas), segundo várias fontes soviéticas, de 246 à 338 ou mesmo 467 “violadores de fronteira”, pelo que se tornou um herói soviético. Os propagandistas do regime comunista lhe dedicavam os poemas e canções, livros, postais e editoriais de imprensa, e as crianças queriam ser como ele.

[Karatsupa recebeu as mais altas condecorações soviéticas – o título de Herói da União Soviética, a Ordem de Lenine, duas Ordens da Bandeira Vermelha e outras condecorações. Serviu no Vietname comunista e morreu de pneumonia em Moscovo aos 84 anos].

O que a propaganda soviética omitia desde sempre, era o facto de que a absoluta maioria dos infratores fronteiriços não pretendia entrar na URSS, mas fugia do país – eram os cidadãos soviéticos em fuga que Karatsupa prendia e matava.

Pois os serviçais da guarda-fronteira soviética tinham as instruções muito claras: no caso de impossibilidade de deter o cidadão que tenta escapar da URSS, este deve ser abatido, antes que consegue chegar à um país capitalista:
Legenda: 4. Na impossibilidade de deter os infratores – usar armas, antes que eles conseguem passar ao território de um país capitalista
Foto: Wikipédia e arquivo | Texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]

Apenas dois drones colocam exército venezuelano em fuga

O ditador da Venezuela – Nicolás Maduro sobreviveu o ataque de dois drones. Mas o mais caricato é ver o seu exército em fuga, uma pequena amostra o que acontecerá no momento em que o seu regime colapsar, informou a BBC.


As autoridades venezuelanas dizem que os drones explodiram quando Nicolás Maduro fazia o discurso televisionado ao vivo em Caracas, por ocasião do 81º aniversário do exército venezuelano. Mais de uma centena de militares foi vista à fugir do local, antes que a transmissão televisiva fosse interrompida.
Ler mais
Um pequeno aviso muito semelhante que o destino ofereceu ao ditador romeno – Nicolae Ceauşescu em dezembro de 1989, e que este também não entendeu. Os ditadores são assim mesmo, só começam à entender as coisas quando são levados ao local da execução.

sábado, agosto 04, 2018

South African engineer executed by the soviet regime

South African engineer Robert Sassone lived in the Soviet Union when he was arrested by the NKVD on December 3, 1937. He was executed at Butovo field, near Moscow, only nineteen days later, on December 22, 1937.

Little is known about Robert Sassone, who was Afrikaner (Boer), possibly of French origin. He was born in Pretoria in 1888. He graduated from a military academy, also possibly in South Africa. His father´s name was Richard, so the Soviets authorities attributed to Robert a patronymic name and changed the initial letter S from his family name to Z. Therefore, Soviet identification documents identified him as Robert Richardovich Zassone (Роберт Ричардович Зассонэ).

We don’t have details on how, why, and when Robert Sassone moved to the Soviet Union. We can entertain two more probable hypotheses. First, he moved on his own will being a naive sympathizer of the left-wing ideas. Second, Robert came through some British military mission, since the Union of South Africa (founded on May 31, 1910) was the domain of the British Empire.

At the time of his arrest by the NKVD on December 3, 1937, Robert Sassone was 50 years old. He had no political affiliation, and he served as the chief of the wood department in the construction of the Moscow Canal (which until 1947 was called the Moskva-Volga Canal), one of the Stalin´s Pharaonic construction sites. He lived in the locality of Dedenevo (house № 102), located in Dmitrovski district, in the Moscow region.
Early release certificate (issued by the NKVD) from Dmitlag labor camp
for accelerated work for the construction of the Moscow-Volga canal | Wikipedia
As in a many other works of the Soviet communist regime of that time, the government used the semi-slave labor of soviet prisoners, both political and ordinary ones at the construction of the canal. On September 14, 1932, the Soviet concentration camp of Dmitlag was established for the construction of the canal. This camp operated until 1938, and its population reached 192,000 prisoners in 1935-1936. It was the absolute record in terms of number of prisoners in the Soviet GULAG system of the time. There is no exact data on the number of prisoners who died in Dmitlag, but according to several sources, this figure ranges from 10,000 to 30,000 people [source].

Several “freely contracted” people (i.e. the civilian workers) worked at similar construction sites as well. Many of them were ex-prisoners who decided to stay and work at the same workplace upon their release. It is not clear if Robert Sassone was among them, but there is as a strong possibility.

Robert Sassone was arrested by the NKVD on December 3, 1937.
His case № 20897 (volume II, p.166) is stored in the Russian Federation State Archive (it is possible to consult its data online in Russian HERE or HERE). Robert Sassone is smiling in his archive photo. He did not suspect that his fate had already been decided, and he would be swallowed up by the relentless Great Soviet Terror machine...

He was accused of “anti-soviet agitation and terrorist intentions”, condemned by the NKVD “troika” on December 20, 1937. It is unknown whether Robert confessed his alleged “crimes”. He was executed at Butovo field, near Moscow, two days later, on December 22, 1937. The short period of two days between the date of conviction and the date of execution naturally implies that the convicted person had no opportunity to appeal the conviction, much less rely on the assistance of a lawyer.
Robert Sassone was rehabilitated posthumously on July 15, 1989.

Our blog would like to thank Ms. Iryna Andrews for the linguistic revision of the text.

Our blog also thanks readers for any additional information about Robert Sassone.

O seu guia turístico na cidade de Kyiv: projeto Amigo em Kyiv

Amigo em Kyiv é o grupo de locais que mostram a cidade de Kyiv. É a vossa primeira vez em Kyiv ou já estão acostumados a passar férias em Kyiv? Não se preocupe: a cidade de Kyiv sabe como surpreender. O nosso objetivo é fazer vocês se apaixonar pela cidade. 

O que oferecemos?
Poderá visitar e explorar Kyiv de acordo com o seu ritmo, segundo as suas preferências e desfrutando melhor do seu tempo.

Visitas guiadas personalizadas
Todos os nossos roteiros são construídos de acordo com as suas preferências.

Guias que falam português
Não se preocupe! Falamos em português fluente que é importante para vocês se sentirem bem à vontade.

Somos mais amigos do que guias
Durante a sua viagem vocês podem contar com o nosso apoio. Acreditamos em amizade.

Serviço de transporte:
Oferecemos o serviço de transporte de/para aeroporto.

Tours
Neste momento Amigo de Kyiv oferece 7 diferentes visitas guiadas, incluindo ao Chornobyl, que é uma cidade fantasma localizada no nordeste da Ucrânia, onde no dia 26 de abril 1986 se deu uma das maiores catástrofes tecnogénicas do século XX que fez desaparecer a cidade. Visite o lugar para ver como ficou agora.

Contatos:
Cel.: +38 095 799 9576
e-mail: amigoemkyiv@gmail.com
WhatsApp +351 938 140 269
Viber/Telegram +380 95 799 9576

sexta-feira, agosto 03, 2018

As câmaras de espionagem do KGB soviético vendidas no leilão britânico

Em julho de 2018, um colecionador anónimo vendeu no leilão britânico Aston’s, 25 câmaras e acessórios de espionagem, que no passado foram usados ​​pelos serviços secretos da União Soviética. A maior parte dos dispositivos estava em funcionamento. Escolhemos os lotes mais interessantes.

1. O aparelho “Rubin” para copiar documentos, uma espécie de scanner. Década 1970. Vendido por apenas 55 libras (!)

2. Uma pasta com a câmara “Zola” embutida. O primeiro aparelho soviético para captura de imagens de modo furtivo, equipado com sistema automático de exposição. Função muito útil para seguir alguém que muda do ambiente claro (local público durante o dia) ao ambiente mais escuro (entra num prédio, hotel ou quarto escuro). Década de 1970. Vendida por 850 libras.

3. Jaqueta masculina, preparada para esconder a câmara “Ajax-12”. A lente está localizada no botão. Década de 1970. Vendida por 1000 libras, sem a câmara.

4. Câmara “Riga” – a primeira e a menor de uma linha de câmaras em miniatura, que em 1938-1943 foi produzida pela fábrica letã Minox. Na Letónia livre, antes da ocupação soviética, o aparelho se vendida livremente. Vendida por 2.100 libras.


5. A câmara “Ajax-12”, escondida no guarda-chuva masculino. A série foi produzida após a II G.M., como cópia não autorizada das câmaras alemãs “Robot”. A própria “Ajax-12” foi lançada em 1952. O kit incluía um cabo para o controlo remoto. Vendida por 2.700 libras.

6. Câmara de filmar “Imbir” de 16 mm com a lente larga de 28 milímetros, disfarçada de bolsa feminina. De acordo com o consultor de leilões Aston´s, Tim Goldsmith, é um protótipo das modernas câmaras GoPro. Vendida por 2.800 libras.

7. Bolsa feminina com a câmara escondida. Vendida por 2.900 libras.

8. A câmara “Kiev-30M”, produzida na Ucrânia, com a lente de 23 milímetros, embutida numa lanterna de bolso. Modelo de 1989. Vendida por 2.900 libras.

9. Câmara “Ajax-12” colocada no corpo de câmara comum “Zenit”. A câmara tirava as fotos através de um pequeno orifício na parte lateral de invólucro de cabedal. Vendida por 3.300 libras.

10. O lote mais caro da coleção foi a câmara ucraniana “Kiev-30”, escondida numa caixa metálica à imitar um maço de cigarros. Vendida por 29.000 libras.

Fotos: Leiloeiros Aston’s | Texto: Edward Andryushchenko (WAS).

Bónus
A câmara ucraniana “Kiev-30”, produzida na mesma época, mas para o consumo de massas soviéticas.

quinta-feira, agosto 02, 2018

Os alimentos de desigualdade socialista da União Soviética

Desde criação da União Soviética, a sua nova classe dominante – a nomenclatura (também conhecida como aparatchik) criou o seu próprio sistema de abastecimento de alimentos e bens, em forma de “distribuição especial” e “cestas alimentícias especiais”, chegando ao seu apogeu na era Brejnev.

De que estamos à falar?

Leonid Brejnev chegou ao poder em 1964, marcando uma nova era, que mais tarde seria chamada de “zastoy”, literalmente a “estagnação”. Essa estagnação moldou praticamente todas as esferas da vida soviética – de arquitetura ao cinema, bem como teve um impacto muito visível no bem-estar dos cidadãos soviéticos – [a indústria soviética já não conseguia produzir os objetos de uso quotidiano e os alimentos em quantidades suficientes], razão pela qual, no comércio surgiu um grande deficit – quando vários tipos de bens e alimentos escasseavam ou só podiam ser comprados, obrigando o cidadão permanecer nas filas enormes [por horas, dias e as vezes anos, último caso se aplicava à compra de viaturas ou dos conjuntos de mobiliário, produzidos nos países socialistas].
Loja do comércio geral
Devido à falta de bens e alimentos, começou se formar o sistema de distribuição soviética, para as elites comunistas e para o resto do povo. A cadeia “de cima” era criada oficialmente, permitindo que uma determinada categoria de cidadãos, próximos ao poder soviético, poderia comprar uma viatura, um conjunto de mobiliário, usando algum “fundo especial” ou até mesmo fazer a viagem turística ao estrangeiro, comprando um “tour especial”.
O sistema de distribuição também se formava “por baixo” – quando as pessoas comuns criavam os laços de amizade com os gerentes das lojas, e mesmo entre os simples vendedores, que lhes vendiam algum bem escasso – alimentos, roupas ou móveis. Na era Brejnev até surgiu uma anedota sobre o tema: “o comunismo chegará, quando cada homem soviético fará amizade com um gerente de uma loja”.

Mais iguais que outros

Na União Soviética, que oficialmente declarava a “igualdade universal”, na verdade, era praticada uma desigualdade bastante formal – porque uns tinham fácil acesso às determinadas mercadorias, enquanto outros não; de acordo com a expressão apropriada de Orwell – “somos todos iguais, mas alguns são mais iguais que outros”. Ou como bem notou o escritor soviético Vladimir Voinovich na sua genial distopia “Moscovo-2042” – “aqui todo o cidadão tem o direito de entrar livremente na loja e sair de lá completamente de graça”.
Uma das lojas dos privilegiados, chamada "Beryozka" (com as cortinas nas montras), as vendas
eram feitas ou apenas em divisas (aos diplomatas estrangeiros e soviéticos e turistas estrangeiros) ou em cheques soviéticos especiais, equiparados às divisas (neste caso era permitido fazer as compras aos cidadãos soviéticos, como marinheiros, professores ou especialistas que trabalhavam no estrangeiro e recebiam os cheques após a venda compulsiva das divisas ao estado soviético (os letreiros e preçários das lojas estão em inglês esforçado)
A classe privilegiada na sociedade soviética (supostamente uma sociedade sem classes) era formada por aqueles que estavam dentro do sistema soviético, e quando mais longe neste sistema conseguia penetrar um indivíduo – maiores benefícios ele recebia, em relação ao quase tudo – desde a qualidade da habitação, existência do carro de serviço e do motorista pessoal, às possibilidades de comprar os alimentos escassos e de boa qualidade aos preços baixos. Existiam mesmo as diversas cantinas, situadas nos comités provinciais do partido comunista e interditas ao público geral, onde a qualidade de alimentos e do serviço prestado era de muito longe superior às comuns cantinas soviéticas.
Cheque da Vneshposyltorg que eram usados como forma de pagamento nas lojas Beryozka
A distribuição de alimentos foi realizada de seguinte modo – cada organização soviética tinha lojas especiais e recebia “cestas alimentícias especiais”, compostos por alimentos soviéticos ou mesmo estrangeiros de grande deficit e procura. Os restos destes alimentos (no caso de restarem) – era encaminhado ao comércio geral, onde os gerentes e os vendedores também os vendiam entre “os seus”.
Existia também o chamado “fornecimento especial” dos alimentos – os membros da nomenklatura soviética nem sequer tinham que ir às lojas especiais para comprar a tal “cesta alimentícia especial”, esta era levantada e trazida às suas casas pelo motorista pessoal do serviço.

O que continha a «cesta alimentícia especial»?
A maioria das “cestas alimentícias especiais” (existiam as “do comité distrital do PC”, “do comité regional do PC”, “académicas”, entre outros) continham os alimentos que não eram disponíveis para a maioria da população soviética. As “cestas” levavam enlatados ocidentais e boa maionese soviética (que nem sempre estava disponível no comércio geral), comida para bebés, caviar preto e vermelho, fruta importada, linguiça defumada e cozida, salsichas, mortadela, caranguejos, peixe de importação, camarão congelado, frango de excelente qualidade, fígado de bacalhau, ananases/abacaxi, tangerinas, vinhos e conhaques ocidentais (ou soviéticos de uma qualidade superior), e muito mais.
Os preços são dados em rublos, absolutamente baixos, realmente o verdadeiro comunismo
Os alimentos produzidos na URSS e usados nas “cestas” eram fabricados, usando as linhas de produção separadas. Nas herdades agrícolas (kolkhozes especiais) era proibido o uso de pesticidas e de agro-químicos (enquanto em kolhozes comum os agro-químicos eram usados com fartura), nas fábricas de processamento de carne, existiam as “unidades fechadas”, onde eram produzidas as salsichas e linguiça de boa qualidade, sem a adição da carne de 3ª ou de papel higiénico. Ou seja, mesmo na qualidade de alimentos, a desigualdade dos cidadãos soviéticos se manifestava na íntegra.
Até as embalagens destes “alimentos especiais” eram diferentes – em vez do habitual papel cinza soviético de má qualidade (usado para empacotar as salsichas nas mercearias), as salsichas e linguiça de “cestas” eram embaladas em caixas de papelão bonitas, com etiquetas coloridas, mas sem a marcação de preço.

País de felicidade universal

Não é difícil adivinhar quem é que hoje reclama na Internet dos “malditos anos 1990” – na União Soviética, eles próprios, ou seus pais tinham acesso ao abastecimento especial, possuindo tudo o que o seu coração desejava, e no início dos anos 1990 a sua fartazana comunista acabou repentinamente, e eles tiveram que se dirigir às lojas “do povo”, para encontrar as prateleiras vazias.
Comendo das «cestas alimentícias especiais», vivendo nos apartamentos governamentais “gratuitos”, se pode facilmente e casualmente contar as histórias sobre as “amanhas cantantes”, apresentando a URSS como o país “de igualdade social e de felicidade geral”. E se nas proximidades funcionavam os campos de concentração de GULAG, os kolkhozes, onde as pessoas trabalhavam pelo “dias-de-trabalho” ou as fábricas, onde os operários simplesmente se afogavam em álcool – era possível fazer de conta que tudo isso não existisse, ainda mais, porque da janela do apartamento do Kremlin nada disso era visível.

Foto: arquivo | Texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]

quarta-feira, agosto 01, 2018

A escola de verão dos “comissários políticos da NATO/OTAN”

A escola de verão dos “comissários políticos da NATO/OTAN” (de acordo com a propaganda russa) será realizado na Ucrânia nos dias 29-31 de agosto de 2018.

A Escola Internacional “Liga de Resiliência” reunirá os especialistas da Ucrânia, Lituânia, Estónia e Letónia. Eles irão compartilhar o mais interessante e mais importante das suas experiências na luta dos seus países na guerra da informação. Afinal, a Ucrânia não é a única vítima da propaganda russa.

Para participar: até o dia 3 de agosto, registe-se on-line (bit.ly/2mV9xdK) e envie os seus, CV e a carta de motivação, ao e-mail: resilienceleague.ukraine@gmail.com com o tópico “SUMMER SCHOOL”.

O programa e os palestrantes são muito competentes. Alojamento, refeições e os materiais de conferência serão fornecidos pelos organizadores.

Junte-te aos melhores!

Os três jornalistas investigativos assassinados em África

Na República Centro Africana foram assassinados dois jornalistas russos e um ucraniano, que estavam rodando o filme documental sobre as atividades mercenárias da empresa militar privada (EMP) russa “grupo Vagner” neste país.

Os nomes dos jornalistas foram avançados pela TV russa “Dozhd”, os assassinados são o realizador russo Aleksander Rastorguev (1971); repórter militar russo Orhan Dzhemal (1966) e cameraman ucraniano Kirill Radchenko (33). Na RCA eles estavam engajados no projeto conjunto com o “Centro de gestão investigativa” (tzurrealism); oficialmente, os seus nomes ainda não foram revelados nem pelas autoridades locais ou russas, nem pelo MNE da Ucrânia.

Como informa Reuters tudo aconteceu nos arredores da localidade de Sibut, localizada cerca de 200 km a nordeste da capital Bangui. Os jornalistas se dirigiam para a cidade de Bambari, várias agências noticiosas escrevem que o assassinato aconteceu num dos postos de controlo na estrada pela qual circulavam os jornalistas.

Henri Dépélé, prefeito de Sibut, contou à Reuters, que os jornalistas foram emboscados por volta das 22 horas locais (21h00 GMT) do dia 30 de julho, por homens armados escondidos na vegetação ao longo da estrada pela qual viajavam; a viatura deles foi metralhada. Ao contrário dos passageiros, o motorista sobreviveu e já prestou os depoimentos às autoridades locais.

Um porta-voz da presidência da RCA, Albert Yaloké Mokpémé, disse que os corpos das três vítimas “aparentemente européias” foram encontrados perto de Sibut por soldados do exército regular.

A fonte da página russa Zona.Media disse que os jornalistas estavam indo à uma reunião com o fixer – pessoa que deveria ajudá-los a trabalhar na RCA – e levavam consigo os equipamentos de filmagens caros.

A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Maria Zakharova, informou aos jornalistas que os diplomatas russos já foram identificar os corpos. A ex-esposa de Dzemal, a jornalista do jornal russo Novaya Gazeta, Irina Gordienko, disse ao canal The Bell que identificou o corpo do marido pela fotografia que recebeu pelos canais diplomáticos.

Quem são os jornalistas mortos?

Graduado pela Academia de São Petersburgo de Artes Cénicas, Aleksandr Rastorguev tornou-se um dos representantes mais proeminentes do novo cinema documentário russo – nos seus filmes os heróis tinham muito mais liberdade do que era costume na tradição soviética; as vezes eles recebiam do realizador a câmara, para pudessem filmar as suas próprias vidas.
Aleksandr Rastorguev | Rádio Svoboda
Rastorguev fez alguns projetos em conjunto com o diretor Pavel Kostomarov e jornalista da TV russa NTV Alexei Pivovarov – como a série de documentários “Srok” (O termo), sobre os protestos liberais russos de 2011-2012.

Orhan Dzhemal era filho do conhecido acadêmico e ativista islâmico russo, Geydar Dzhemal (1947-2016). Geólogo de profissão, Orhan Dzhemal se tornou o repórter militar, trabalhava para a edição russa de Newsweek. Em 2008, no decorrer da guerra russa contra Geórgia, Dzhemal estava “acamado” com o batalhão checheno “Vostok” (Leste), a unidade que em 2014-15 participou nas atividades terroristas no leste da Ucrânia. O repórter já trabalhou em África, nomeadamente escrevendo para a Newsweek, Dzhemal passou por uma cadeia na Somália.
Orhan Dzhemal | Rádio Svoboda
Em 2011, como repórter do jornal russo “Izvestia” cobriu a guerra na Síria, foi gravemente ferido numa das pernas. Após a recuperação se dedicou aos ensaios, se recusava de ter um olhar objetivo e enfatizava que olha ao mundo como um muçulmano.

Orhan Dzhemal criticou a ocupação russa da Crimeia e chamava à si próprio de “ukrop” (literalmente endro, também é o nome que os russo-terroristas usam para descrever os ucranianos da atual guerra russo-ucraniana), escreve a página ucraniana Novynarnia.com

Pouco se sabe sobre o terceiro morto, o cameraman e cidadão ucraniano Kirill Radchenko. A julgar por suas contas nas redes sociais, ele tinha 33 anos de idade. Trabalhou numa série divulgada exclusivamente na Internet, colaborava com uma agência de notícias pró-separatista, passou pela Síria como cameraman, “acamado” com as forças do regime de Damasco.
O cameraman e cidadão ucraniano Kirill Radchenko | Facebook
Apesar de vários conselhos não irem à República Centro Africana, os jornalistas pretendiam fazem o filme documental sobre os mercenários russos em África. A sua viagem foi preparada durante cerca de 6 meses e se deu devido aos fortes rumores do que neste país africano desde 2018 são vistos os militares ou mercenários russos que alegadamente treinam as forças governamentais.  

O blogue francês Lignes de defense escreveu que nos arredores de Sibut deveriam decorrer os exercícios militares do exército governamental. Os jornalistas receberam as informações que no local poderiam estar os assessores militares russos e possivelmente os mercenários do “grupo Vagner”.

O Instituto Independente da Defesa dos Direitos Humanos (IPIS) divulgou em dezembro de 2017 o relatório, que afirmava que nas estradas da RCA foram instalados pelo menos 284 postos de controlo: 115 são controlados por tropas governamentais, cerca de 150 pela coligação/coalizão de oposição Séléka, os restantes pertencem aos diversos outros grupos paramilitares.
Diversos postos de controlo nas estradas da RCA
O jornal russo Novaya Gazeta, citando as fontes do francês Le Monde, escreveu no início de junho de 2018 que os mercenários russos apareceram no país em forma de “instrutores civis” da unidade de proteção do presidente Alexandre-Ferdinand Nguendet.
Possivelmente um dos elementos do "grupo Vagner" | Foto: facebook.com/presidence.centrafrique
A publicação escreveu sobre a chegada à RCA, no início de 2018, de cinco oficiais russos e até 170 “instrutores civis”. Formalmente todos eles trabalham para duas empresas militares privadas – Sewa Security Services e Lobaye, Ltd. No entanto, dizem os especialistas, ambas servem apenas como a cobertura para a EMP russa “grupo Vagner”, associada ao empresário Eugeniy Prigozhin, conhecido como “cozinheiro do Putin”.
Possivelmente os elementos do "grupo Vagner" | Foto: facebook.com/presidence.centrafrique
“Novaya Gazeta” também escreveu que os mercenários russos foram vistos no Burundi e no Madagáscar, informação sem a confirmação documental e sempre desmentida pelas autoridades russas.
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No dia 31 de julho, a publicação russa Lenta.ru escreveu que no decorrer dos exercícios militares, os combatentes [russos] mataram um civil africano. Revoltados, os moradores locais decidiram se vingar e lincharam o mercenário russo.