terça-feira, fevereiro 16, 2016

O bom russo é um bom ucraniano

Anatoliy D. Vodolazskiy nasceu na região russa de Voronezh em 1951, mas desde 1975 vive na Ucrânia, em Druzhkivka, onde trabalhou como soldador. Anatoliy foi um dos poucos ucranianos que publicamente apoiou Ucrânia, quando a cidade foi ocupada pelos terroristas da “dnr”.

No auge do terror terrorista, no dia 22 de maio de 2014, Anatoliy Vodolazskiy, foi a praça central da sua cidade, com a bandeira ucraniana nas mãos. Nas vésperas, ele avisou sobre a sua ação de protesto a polícia e o jornal local. 15 minutos depois, Anatoly foi atacado pelos terroristas armados que lhe colocaram o saco na cabeça, o agrediram e meteram numa viatura. Os terroristas o lavavam ao Kramatorsk, mas à saída da cidade o terrorista condutor propôs assassina-lo, deixando o corpo algures na estrada. O que não foi feito, talvez pelo receio dos terroristas que o momento do ataque fosse capturado pelas câmaras de vídeo vigilância no centro de Druzhkivka.

Anatoliy voltou para casa alguns dias depois — cansado, magro, sem alguns dentes. Muito raramente o contato com o “mundo russo” é prazeroso...

No outono de 2014, após a libertação de Druzhkivka dos terroristas, no telemóvel de um dos separatistas presos foi achado o vídeo da ação do protesto, protagonizada pelo Anatoliy. O terrorista foi julgado, o caso se tornou público.

Agora Anatoliy D. Vodolazskiy vive no território da Ucrânia livre, ele é respeitado pela sua ação e pelas privações que passou pela Ucrânia. O próprio Anatoliy, após o sucedido, começou amar Ucrânia ainda mais intensamente. «Cada um deve fazer a escolha no momento mais difícil para Ucrânia, eu fiz a minha», – diz ele (foto do herói @Roman Nikolayev).

Bónus
No dia 14 de março começam em Curitiba (Brasil) os cursos de língua ucraniana, níveis I, III e VII, ministrados pela Profª Drª Olga Nadia Kalko, ainda há lugares disponíveis! 

Ucranianos de Portugal se dirigem à Assembleia da República

Carta ao Presidente da Assembleia da República Portuguesa da comunidade ucraniana em Portugal.
Exmo Sr. Dr. Eduardo Ferro Rodrigues,
Presidente da Assembleia da República,

Depois de mais de 15 anos de história da nossa comunidade em Portugal nós, ucranianos que chegaram à terra lusa com o objetivo inicial de trabalho temporário, podemos afirmar que hoje estamos ligados a Portugal e consideramo-nos cidadãos deste país cuja cultura, história e regras sempre respeitámos.

Consideramo-nos perfeitamente adaptados à sociedade portuguesa e por isso agradecemos ao Governo, aos deputados e a todos os portugueses pelas condições que permitiram a nossa rápida integração.

Ao mesmo tempo, continuamos a preocupar-nos com a nossa Pátria – Ucrânia. Preocupamo-nos com as nossas famílias e queremos que o nosso país tenha os mesmos valores sociais a que nós nos acostumamos ao vivermos numa sociedade democrática e europeia como Portugal. A Ucrânia esteve muitos anos reprimida pelo regime totalitário da União Soviética, que lhe trouxe milhões de vítimas de repressões políticas, genocídio de fome e causou uma estagnação do desenvolvimento cultural e social.

Consequência desta ocupação foi o facto de a Rússia, após a declaração da independência da Ucrânia em 1991, ter mantido o controlo económico e político sobre o nosso país, bloqueando a sua integração nas estruturas europeias e mundiais.

O desejo dos ucranianos de viver num país livre e sem corrupção levou a população a sair à rua na Revolução de Maidan em 2013. Centenas foram os que morreram às balas dos apoiantes do regime pró-Kremlin de Viktor Ianukovitch. Isso foi a prova de que os ucranianos estão prontos para lutar pela democracia, mesmo com a própria vida.

Compreendendo que está a perder o controlo sobre a Ucrânia, o governo de Vladimir Putin iniciou uma agressão militar direta contra a Ucrânia: em primeiro lugar anexou a Crimeia, depois, apoiou militarmente organizações terroristas de Donetsk e Lugansk que, do seu lado, autoproclamaram independência territorial da Ucrânia.

A Rússia justificava (e justifica) esta agressão como a “defesa dos direitos dos russos étnicos na Ucrânia”. E a guerra que iniciou, como um conflito civil da própria Ucrânia. O que não é verdade, visto que este conflito é um fruto da chamada guerra “russa-híbrida” contra os países que procuram sair do controlo de Moscovo. Exemplos deste tipo de guerras: Transnístria, Abkhazia, Ossétia e Chechénia.

Desde o início da Revolução de Maidan, a diáspora ucraniana de todo o mundo, que perfaz mais de 20 milhões de pessoas, ativa e extremamente unida começou a auxiliar a Ucrânia. Salientando as causas e abordando os governos e políticos dos países onde vivem para ajudarem a parar a agressão russa.

Estamos agradecidos a Portugal que, numa situação geopolítica difícil que ameaça o mundo com um novo terrível conflito, apoiou a Ucrânia. Mas, infelizmente, os acordos de paz negociados pela comunidade internacional para acabar com a guerra no leste da Ucrânia, na verdade, não trouxeram o resultado esperado. Praticamente todos os dias nós recebemos com dor, notícias de ataques de mercenários russos, mais vítimas e mais vidas destruídas. Além disto, esta situação isola a Ucrânia, converte-a numa zona de perigo com consequências económicas e políticas.

Em vez de um diálogo construtivo para acabar com o derramamento de sangue no leste da Ucrânia, em vez de permitir uma relação amigável e mutuamente benéfica com a vizinha Ucrânia, a Rússia continua uma política de agressão e a ocupação da Crimeia, e não retira as forças militares nas regiões de Lugansk e Donetsk. Continua a abastecer os terroristas com armas modernas permitindo a destruição em massa das infra-estruturas ucranianas, a morte de civis e a prisão de cidadãos por motivos políticos, entre os quais, a mais conhecida Nadia Savchenko (deputada). A Rússia está constantemente a construir uma propaganda suja sobre a Ucrânia nos media nacionais e internacionais e a nível político elevado (nos MNE’s).

Portanto, caro Sr. Presidente, escrevemos-lhe em nome de todas as organizações que unem os ucranianos em Portugal e em nome da nossa unida diáspora, para lhe pedir ajuda: continuem a apoiar as sanções internacionais políticas e económicas contra a Rússia. Aliado a outras medidas que possam vir a ajudar a acabar com a agressão russa, a devolução dos territórios ocupados, assim como a libertação dos reféns ucranianos que estão detidos nas autoproclamadas repúblicas de Lugansk e Donetsk.

Vivemos em países livres e é livre que queremos ver a nossa pátria.
Com os melhores cumprimentos,
Associação dos ucranianos em Portugal (www.spilka.pt), presidente – Pavlo Sadokha,
Associação "UPE—Centro Social e Cultural Luso-Ucraniano", vice-presidente Olena Lyubarska
Centro Educativo e Cultural "Dyvosvit" (Lisboa), director – Vlada Kiyak,
Centro Educativo e Cultural «Oberig», director
Ulyana Kucheras,
Associação "Fonte de Mundo", presidente
Boris Kucheras,
Centro educativo e cultural luso-ucraniano "Escola Tarás Shevtchenko"(Faro), directora  Natalia Dmytruk,
Centro cultural e educativo «Rodyna», director – Iryna Melnychuk,
Associação cultural «Êxito das Tendências», presidente – Taras Shevchenko,
Associação dos ucranianos Algarve, presidente – Igor Korbelyak,
Associação Cultural e de Solidariedade Social "Casa da Ucrânia", presidente – Valentina Vassilenko,
Associação dos ucranianos em Portugal «Sobor», presidente – Oleg Hutsko,
Centro da língua materna «Sobor», Oksana Hutsko,
Movimento Cristãos Ucranianos em Portugal, presidente – Ivan Onyschuk,
Associação de Jovens Ucranianos em Portugal «Synytsia», presidente – Iuliia Voroshylova,
Centro cultural e educativo "Escola Kyrylo e Mefodiy", director – Olena Dvoinikova,
Associação "Pirâmide das Palavras", presidente – Myroslava Martynyuk,
Centro Educativo e Cultural "Світлиця" (Cacém), director – Lyubov Pikho,
Comunidade ucraniana de Albufeira, responsável – Oksana Turyk,
Secção ucraniana da Primeira escola Eslava, vice-director – Bohdan Leskiv,
Cantora – Oksana Boroday,
Associação dos imigrantes de Gondomar – «Amizade», Nataliya Khmily,
Associação de apoio dos imigrantes «São Bernardo», presidente – Lyudmila Bilaya,
Repórter – Tamara Moroshan

domingo, fevereiro 14, 2016

Feliz Dia de São Valentim!

O dia 14 de fevereiro é considerado em muitos países, inclusive na Ucrânia, como o Dia dos Namorados (já no Brasil, esta data é comemorada no dia 12 de junho).
Todos os amigos parabenizo pelo Dia do Amor!
Para que todos se amam desde a noite até subir o sol!
E para que sempre tenham essa vontade,
Como aos vinte anos, lá na sua herdade.


O encontro que não aconteceu?

No dia 12 de fevereiro de 2016, no aeroporto de Havana, decorreu o encontro entre o líder da Igreja católica, Papa Francisco e o chefe da igreja ortodoxa do maior país ortodoxo, Patriarca Kirill. A reunião, realizada às portas fechadas durou mais de duas horas.

A reunião que culminou com assinatura da declaração conjunta provocou diversas reações do público e dos representantes das igrejas da Ucrânia. As suas impressões sobre a reunião em geral e sobre a declaração em particular, partilhou connosco o Patriarca da Igreja Greco-Católica Ucraniana (UGCC), Sviatoslav Shevchuk (o texto curto).

As suas impressões sobre o encontro do Papa Francisco e o Patriarca Kirill. E sobre a declaração conjunta que eles assinaram?
Com os nossos largos anos de experiência, podemos dizer que quando o Vaticano e Moscovo organizam os encontros ou assinam os textos conjuntos, não devemos esperar disso nada de bom. [...] Quando se trata do texto da Declaração conjunta, em geral, a impressão é positiva. A declaração levanta as questões que são comuns aos católicos e ortodoxos e abre os novos horizontes para a cooperação. Incentivo à todos ver os pontos positivos. Embora os pontos [25 e 26] sobre Ucrânia, em geral, e sobre a Igreja Greco-Católica em particular, me levantam mais perguntas do que as respostas. [...] Falando disso, como líder da igreja [ucraniana], sou membro oficial do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos, nomeado ainda pelo Papa Bento XVI. Mas ninguém me pediu para expressar os meus pensamentos e, de fato, como acontecia no passado, falaram sobre nós mas sem nós, sem nós dar o direito da opinião. [...]
No entanto, o ponto 25 da Declaração se refere respeitosamente aos greco-católicos e, essencialmente, a Igreja Greco-Católica Ucraniana é reconhecida como objeto das relações intra-eclesiásticas entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas.
Sim, você está certo. Parece que já não se levanta nenhuma objeção sobre a nossa existência. Embora, na verdade, à fim de existir e agir, não temos que pedir permissão à ninguém. A nova ênfase está, claro, no Acordo de Balamand de 1994, que até recentemente era usado pelo metropolita [russo] Alfeyev para negar o nosso direito de existir, agora é usado para aprovar [a nossa existência]. Sempre referindo-se à rejeição da “uniatismo” como um método de unificação das igrejas, Moscovo exigia ao Vaticano, praticamente, a proibição da nossa existência e limitação das nossas actividades. Mais, este requisito, de forma de ultimato, foi colocado como a condição para a possibilidade do encontro entre o Papa e o Patriarca [russo] . Éramos acusados ​​de “expansão no território canónico do Patriarcado de Moscovo” e agora nós reconhecem o direito de cuidar de nossos fiéis, onde quer que eles necessitam disso. Presumo que isto também se aplica ao território da federação russa, onde até hoje não temos a possibilidade de existência jurídica livre ou ao território anexado da Crimeia, onde após um “novo registo” segundo a legislação russa, somos liquidados de facto. [...] 

Como você comenta a seguinte tese [da declaração]: “Exortamos todas as partes em conflito à prudência, a solidariedade social e a construção ativa da paz. Nós encorajamos as nossas igrejas a trabalhar na Ucrânia para alcançar a harmonia social, a abster-se de tomar parte no confronto e não apoiar o seu desenvolvimento posterior”?
Na verdade, eu quero dizer que o ponto 26 da Declaração é o mais controverso. Tem-se a impressão de que o Patriarcado de Moscovo ou não admite teimosamente que é uma parte do conflito, ou seja, apoia abertamente a agressão da Rússia contra a Ucrânia, tal como está santificar as ações militares da Rússia na Síria como uma “guerra santa” ou dialoga com a sua própria consciência, exortando-a à prudência, à solidariedade social e à construção ativa da paz. Não sei ... A própria palavra “conflito” é um termo obscuro e seduz o leitor a pensar que temos um “conflito civil” ao invés de agressão externa de um estado vizinho. Hoje é um facto largamente conhecido, se à terra ucraniana não vinham os militares da Rússia, se não seriam fornecidas as armas pesadas, se a Igreja Ortodoxa Russa em vez de benzer a ideia do “mundo russo” pregaria a passagem do controlo da Ucrânia sobre as suas próprias fronteiras, nem a anexação da Crimeia, nem a guerra teriam o lugar. Essa é a solidariedade social com o povo ucraniano e pela construção activa de paz que esperamos dos signatários deste documento. [...]

A Igreja Greco-Católica Ucraniana nunca apoiou, nem promoveu a guerra. Em vez disso, sempre apoiamos e apoiaremos o povo da Ucrânia! Nós nunca estivemos ao lado do agressor, pelo contrário, estávamos com a nossa gente na Maydan, quando eles eram assassinados pelos representantes do “mundo russo”. Os nossos sacerdotes nunca pegaram em armas, ao contrário daquilo que acontecia do outro lado. Nossos capelães, como construtores de paz, apanham o frio com os nossos soldados na linha de frente, com as suas mãos levam os feridos do campo de batalha, enxugando as lágrimas de mães que choram os seus filhos mortos. Nós cuidamos dos feridos e atingidos em resultado dos combates, independentemente da sua origem étnica, pertença religiosa ou política. Hoje, mais uma vez, as circunstâncias ditam que o nosso povo não tem a outra protecção e socorro, para além da sua Igreja. É a consciência pastoral nós chama para sermos a voz do povo, para despertarmos a consciência da comunidade cristã do mundo, mesmo quando essa voz não é entendida ou tem sido negligenciada pelos líderes religiosos das igrejas modernas.

Será que o facto de que o Santo Padre assinou um documento vago e ambíguo não abalará o seu respeito por parte dos fiéis da Igreja ucraniana, para a qual a unidade com o sucessor de São Pedro é uma parte integrante da sua identidade?
Sem dúvida, este texto tem causado profunda decepção entre muitos dos fiéis de nossa Igreja e mesmo entre os cidadãos consientes da Ucrânia. [...] No entanto, incentivo os nossos fiéis à não dramatizar a presente Declaração e não exagerar a sua importância para a vida da Igreja. Sobrevivemos várias declarações semelhantes, sobreviveremos essa também.

Ler o texto integral (em ucraniano):

sábado, fevereiro 13, 2016

Os crimes russos da guerra no leste da Ucrânia

O militar ucraniano no cativeiro dos terroristas da "lnr"
A deputada do parlamento polaco, Małgorzata Gosiewska (partido PiS), apresentou publicamente o relatório dedicado aos crimes da guerra russos, cometidos no leste da Ucrânia contra os civis e militares ucranianos. O jornalista polaco Wojciech Pięczak do jornal “Tygodnik Powszechny” conversou sobre a investigação com Adam Nowak (pseudónimo), o investigador do grupo, ex-oficial do Bureau Central de Investigação (CBS) da Polónia.

por: Wojciech Pięczak (versão curta, +16, o texto contém as descrições de tortura)

— Quantas pessoas foram entrevistadas?
— Quase 70. Apenas dois na Polónia, os restantes na Ucrânia. É apenas um fragmento daquela realidade. À partir do momento em que terminou a colheita de informações e começou o seu processamento nós sempre recebemos os dados de outras pessoas que querem dar o seu testemunho. Mas nós já não somos capazes de usá-los, porque, neste caso, o trabalho será adiado por mais um ou dois anos. É claro, se o tribunal de Haia mostrar interesse na matéria (e espero que isso irá acontecer, porque lá já começou um estudo preliminar sobre a situação na Ucrânia, e enviamos o nosso material como parte deste tema em particular), vamos fornecer [ao tribunal de Haia] as informações de contato de outras testemunhas.

— Porque as testemunhas são citadas no relatório de forma anónima?
— Preservação do anonimato é um procedimento padrão em tais investigações. Todas as vítimas aparecem no documento sob os números C-1, C-2, e assim por diante. «C» do inglês «case» – o caso. Se o Tribunal Penal Internacional começará o caso, nós iremos conectar os investigadores com as vítimas. No entanto, um par de pessoas já pode ser identificado, por exemplo, através dos fotografias contidas no relatório. Eles concordaram com isso, eles próprios já falam publicamente, falando abertamente sobre aquilo que lhes aconteceu.

— Você se lembra da sua primeira conversa?
— Era o voluntário do batalhão "Donbas". Ele caiu no cativeiro russo no cerco de Ilovaysk, foi torturado. Ele telefonou para seus companheiros que também passaram pelo cativeiro, estes enviaram-nos aos outros. Nós íamos de pessoa à pessoa. Os contactos úteis foram nós cedidos pela Małgorzata Gosiewska e pelos voluntários ucranianos.

— Todos estavam preparados para falar?
— Alguns não. Nós, infelizmente, não conseguimos documentar o caso de uso de tanta crueldade que foi absolutamente incrível, mesmo no contexto de tudo o que tínhamos ouvido. Uma jovem mulher concordou, mas depois não conseguiu falar.

— O que aconteceu com ela? Onde ela está agora?
— Ela tinha 22 anos. Ela caiu nas mãos dos mercenários chechenos que lutaram ao lado dos russos. Ela foi cativa durante cerca de duas semanas. Provavelmente, não é preciso explicar mais. [De momento ela] está num hospital psiquiátrico. Não se sabe se ela jamais sairá de lá.

— No vosso relatório nada se diz sobre os estupros.
— Não conseguimos obter os testemunhos de mulheres que sofreram a violência. Talvez, se passássemos mais tempo lá, teria sido diferente. Éramos apressados pelo tempo. Às vezes, íamos de uma vítima para outra durante a noite, para ganharmos o tempo. [Małgorzata] Gosiewska dirigia a viatura, nós dormíamos, depois nas manhas nós recolhíamos os depoimentos e ela dormia.

— Como se sabe que houve os estupros?
— Através das pessoas que cuidavam dessas mulheres, ou das testemunhas que viram essas cenas.

[As torturas sofridas pelos ciborgues]
— Por exemplo, o grupo dos ciborgues (militares que defendiam o aeroporto de Donetsk) que caíram no cativeiro [...] eles todos estão numa condição física e mental terrível. Eles eram [torturados] com o derramamento da água fervente, queimados com os ferros de engomar.
O ciborgue ucraniano assassinado no aeroporto de Donetsk (o militar tem as mãos atados atrás das costas)
foto @Channel 4 News (Alex Thompson)
— Quais as outras situações que você se lembra mais?
— A conversa com um ciborgue. Eu não posso esquecê-la, embora tento manter uma distância psicológica. Ele caiu no cativeiro ferido, cheio de estilhaços. Ele contou que os russos, em vez de lhe ministrar algum curativo, começaram à torturá-lo. Uma enfermeira russa tentou convencer os seus colegas para que ele seja castrado. Felizmente, isso não aconteceu. Ou uma outra história: o soldado ucraniano contou como ele foi feito prisioneiro pelos chechenos e [estes] perguntaram o que ele preferia: que eles lhe cortaram o coração, os órgãos genitais ou ouvido? Ele escolheu ouvido. E eles o cortaram. Eles mataram o seu colega ferido. Depois veio uma espécie de comandante e proibiu matar os restantes. O homem sobreviveu, eu falei com ele. Sua imagem está no relatório. Ele realmente não tem a orelha.

[O objetivo do relatório]

— Identificar os criminosos e documentar as suas ações na base dos depoimentos de testemunhas e vítimas. [Foram identificados] várias dezenas [de criminosos]. Alguns parcialmente: temos o nome ou uma alcinha, uma descrição. Mas alguns [são identificados] na íntegra: temos apelidos, datas de nascimento, os locais da sua atuação e dos crimes cometidos.

— Faz sentido a publicação das alcunhas?
— Sim, porque o texto do relatório está disponível na Internet, e nós esperamos que este será lido pelas pessoas, que pelas descrições e alcunhas reconhecerão os criminosos, e, depois entrem em contato connosco. Se temos uma descrição de um homem chamado David, cuja vítima disse que antes da guerra, este trabalhou como chefe de subdivisão na polícia de Donetsk, e o relatório será lido por ex-policiais de Donetsk, há uma chance de que alguém o reconhecerá e ganhará a coragem para passar nos a informação. Pelo menos anonimamente, via e-mail.

— Vocês identificavam os criminosos baseando-se nas fontes abertas?
— Sim, nós não tínhamos acesso à qualquer informação classificada. Muito útil foi nós a informação da Internet ucraniana: há páginas [https://psb4ukr.org] locais onde as autoridades e os voluntários publicam diversos dados sobre a situação de Donbas, incluindo sobre o que está acontecendo do outro lado, escrevem quem é quem. No entanto, um monte de pessoas suspeitas por nós de crimes de guerra, não esconde nada. Pelo contrário, eles se gabam nisso na Internet russa, nas redes sociais.

— Pode dar algum exemplo?
— Por exemplo, um homem, que ainda não está presente na lista de criminosos, porque não conseguimos chegar às suas vítimas que sobreviveram. Nós seguimos o princípio de incluir na lista apenas aqueles que aparecem nos depoimentos recebidos. O seu nome é Alexey Milchakov, russo de São Petersburgo. Vinte e poucos anos. É um monstro com as características didáticas de um serial killer. A sua presença nas redes sociais, ele começou fotografado com um cachorrinho, em seguida, cortou sua garganta e comeu, para mostrar que é um verdadeiro homem. Ele se voluntariou no Donbas, tornou-se o comandante da unidade no batalhão “Rusich” – são os nacionalistas russos com a inclinação eslava – fascista. No Facebook, ele publicou as suas fotos com os corpos esfolados. O tipo de psicopata pervertido. Na Rússia, ele é homenageado como um herói, é convidado à TV como um especialista em temas ucranianas. [No nosso relatório] aparece apenas nas notas.
— Vocês não acharam as suas vítimas?
Vivas não. Nós ainda temos apenas as descrições dos assassinatos cometidos por ele.

— Os assassinos que foram identificados, quem são estas pessoas?
— São bem diferentes. O grupo mais horrível são mercenários das repúblicas do Cáucaso. Os chechenos e ossetas, mas também os cossacos do Don da Rússia. Eles se caracterizam pela extrema crueldade. Mas outros grupos divergem deles em muito pouco. Há, por exemplo, uma organização chamada Exército ortodoxo russo – são voluntários da Rússia [composto pelos membros da organização neo-nazi russa RNE]. Eles se distinguem pela agressividade especial contra os “infiéis”, ou seja, aqueles que não pertencem à Igreja ortodoxa russa do Patriarcado de Moscovo. [Eles consideram que] “os infiéis” podem ser mortos. O mais severamente eles perseguem os protestantes ucranianos. Antes da guerra, havia [na Donbas] uma pequena comunidade protestante. Eles mataram vários padres, em alguns casos juntamente com as suas famílias. Outros foram torturados com extrema crueldade. Houve situações em que as suas ações, por exemplo, os ataques contra as igrejas protestantes, eram abençoados pelos padres ortodoxos. Quando eu ouvia os depoimentos sobre este “exército”, tinha a impressão de que são simplesmente os jihadistas ortodoxos. Na Internet encontrei os vídeos deles, por exemplo, com as instruções de como limpar as armas de maneira “ortodoxa”, para durarem mais tempo.

— E havia “bons russos”?
— Havia. Temos o testemunho de um homem que foi torturado durante várias horas, e depois, quando ele voltou à sua cela, alguém, em segredo, lhe trouxe os analgésicos. Então, não é possível dizer que do outro lado estão apenas os psicopatas. No entanto, houve um consenso social sobre a prática de tais atos, que são considerados crimes no direito internacional. Incluindo o consentimento do topo. Temos exemplos de torturas terríveis, eu diria, as torturas profissionais, que eram feitas pelos funcionários da inteligência militar russa – GRU.

— Como se sabe que eram realmente GRU?
— Primeiramente, eles próprios assim se apresentavam. Em segundo lugar, eles torturaram os oficiais profissionais do exército ucraniano, que anteriormente serviram no exército ainda soviético, passaram pela guerra no Afeganistão: eles conhecem este ambiente e os seus métodos.

— Como decorriam estas torturas?
— Por exemplo, com aquecedor de água queimavam a boca, debaixo das unhas eram marteladas as peças finas, com as facas eram perfurados os joelhos, se faziam as incisões musculares, as feridas eram polvilhados com o sal. Para obter informações também foram usadas as substâncias químicas.
Ler o relatório completo (em inglês, francês e polaco): http://www.donbasswarcrimes.org/report
Consultar os dados na rede Facebook:

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

A vida do bestiário terrorista (4)

O comércio da região de Donbas, sob ocupação terrorista, começou comercializar os preservativos, dedicados à liderança terrorista da dita “dnr”. Ou, como escreveu um blogueiro ucraniano: “camisinhas fabricam os preservativos”.

Os preservativos terroristas se chamam “Vitória” e são fabricados em 3 variações:
  • “Ultra resistente e altamente forte preservativo “Subversivo” é a melhor arma do “miliciano” para as operações súbitas na retaguarda e na luta contra as doenças DTS e outras surpresas”. 
  • “Forte como um verdadeiro zakharovista, confiável como o ombro do camarada das armas, o preservativo clássico “Zakharovski” é a melhor arma do “miliciano” na luta contra doenças DTS e a gravidez indesejada. Usar somente segundo a descrição”.
  • “Equipado com os bigodes bacanas, o preservativo “Strelkovsky” é a melhor arma do “miliciano” na luta contra doenças DTS,  a gravidez indesejada e a monotonia sexual”.
A embalagem indica que os preservativos são alegadamente produzidos na Fábrica de galochas de Donetsk (fonte). O genial George Orwell previu todo este bacanal na sua distopia “1984”, apenas errando nas datas e nos produtos.

Ele levou da prateleira uma garrafa de líquido incolor com uma etiqueta branca simples “Gin Vitória”. O cheiro de gim era desagradável, oleoso, como da vodka de arroz chinesa. Winston encheu quase um copo cheio, ganhou a coragem e engoliu, como um remédio.
Seu rosto ficou imediatamente vermelho, e as lágrimas escorreram dos olhos. A bebida parecia um ácido nítrico; mais do que isso, depois de um gole parecia que você levou nas costas com um cassetete de borracha. Mas logo a queimação no estômago acalmou e o mundo começou parecer mais alegre. Ele tirou um cigarro do maço amarrotado com as palavras “Cigarros Vitória”, distraidamente, segurando-a na vertical, como resultado todo o tabaco de cigarro caiu no chão.
George Orwell, “1984

A educação na/da “dnr”
O vice-chefe da Cátedra das Ciências de Computação da Universidade de Donetsk (sob liderança terrorista), Vuktor Tolstykh (57) em aulas particulares com a sua estudante, menor de 17 anos (fonte).

Blogueiro: já imaginamos o seguinte diálogo, algures na “novaróssia”...

Bro Raphael: Oi, bro, que tal passarmos hoje às operações súbitas na retaguarda confiável do camarada das armas, segundo a descrição?
Bro Rodolfo: Bacana, bro, sou contra a gravidez indesejada e a monotonia sexual!

Bónus

À partir de 1 de abril de 2016, autoproclamada Abecásia, o território temporariamente ocupado da Geórgia, promete introduzir os vistos de entrada aos cidadãos de todos os países que não reconheceram a sua independência.
Após a guerra russo-georgiana de 2008 a “independência” da Abecásia foi reconhecida pela Rússia (2008), Nicarágua, Venezuela e mais três ilhas-estados do pacífico, dois deles denunciaram este reconhecimento em 2013 e 2014, respetivamente. Como escreve o blogueiro georgiano mais influente, cyxymu, a decisão irá prejudicar, em primeiro lugar, a numerosa diáspora abecasa radicada na Turquia.  

terça-feira, fevereiro 09, 2016

O brojob da novaróssia

No “exército” da dita “dnr”/rpd rebentou o escândalo sem precedentes, nas fileiras das suas “forças armadas” foram caçados dois representantes de orientação sexual nada tradicional, isso é, aos padrões dos bravos defensores dos valores tradicionalíssimos da “novaróssia”.

O separatista Roman Baraban e a comunidade terrorista “MILÍCIA POPULAR DE STAKHANOV” informam que os sodomitas foram achados no coração da “5ª brigada especial de infantaria ´Oplot´”.
VERGONHA AOS SODOMITAS E PERVERTIDOS!

A coletividade da 5ª brigada especial de infantaria “Oplot”, com muito pesar informa que nas fileiras dos heróicos defensores da república se infiltraram os sodomitas.

Os combatentes Viktor Kolomoytsev e Eduard Polynnikov foram apanhados no local do seu crime vergonhoso pelos companheiros.

Os pervertidos não têm lugar na nossa brigada. Ambos os combatentes serão privados de todos os [seus] patentes e condecorações e com vergonha [serão] expulsos da unidade com a proibição de servir nas outras unidades do exército da dnr.

A república deve conhecer os seus “heróis” na face.
Aqui não é a gayroupa. Sodomia não passará!  

Fontes:

Lembramos, que recentemente “dnr” já viveu uma situação nada tradicional quando em 29 de janeiro de 2015 as forças fieis ao líder separatista Zakharchenko atacaram a base do bando “Troia”, composto, na sua maioria, pelos mercenários de nacionalidade russa.
Dos 108 mercenários presentes na base no momento do ataque, 7 terroristas conseguiram fugir do cerco, 24 foram capturados e o destino dos 92 é “incerto”. Isso é, apesar dos sobreviventes informarem que na noite de 29 à 30 de janeiro dois camiões ZIL levaram diversos corpos, embrulhados nos sacos pretos de lixo, à um destino desconhecido. O “representante da dnr na Rússia”, Yevgeni Shabaev, até escreveu uma carta “oficial” ao Zakharchenko, pedindo esclarecimentos sobre a localização dos 24 capturados e 92 desaparecidos membros da “Troia”. Apelando, vocês vão se rir, ao “direito internacional” (Sic!)

Blogueiro

Estou totalmente em dúvida, a “dnr” afinal faz parte da dita gayroupa ou sempre não, pois nem sei se essa de apelar ao “direito internacional” é coisa do macho. Embora o brojob até pode ser, pois segundo o Dicionário Urbano, ente os amantes do brojob sempre é possível um diálogo deste tipo:

Bro Raphael: Oi, bro, o que foi todo esse brojob da noite passada? Foi uma cena legal?
Bro Rodolfo: Bro, estávamos totalmente f0did0s, está tudo bem...

sábado, fevereiro 06, 2016

Agricultura ucraniana: 1 ano da ausência russa

A zona de comércio livre com a UE, o total embargo russo contra as exportações alimentares ucranianas, bloqueio de trânsito [da Crimeia], sanções recíprocas da Ucrânia [...] levaram o setor agrícola ucraniano à um novo nível de desenvolvimento qualitativo.

Dezenas de empresas ucranianas continuam à receber a certificação da UE, exportando a sua produção à Europa Comunitária. Começou a exportação de laticínios para a China e o número das empresas [ucranianas] que recebem a certificação chinesa aumenta constantemente. As relações económicas entre Ucrânia e os países de Médio Oriente, Ásia Central e África testemunham um renascimento sem precedentes.
   
Em 2015 o complexo agro-industrial ucraniano conseguiu impensável: praticamente a total reorientação do mercado russo aos mercados da Ásia, UE e África. A estatística mostra a veracidade dos factos: em 12 meses de 2015 o mercado agrícola ucraniano movimentou 18,5 biliões de dólares, destes – 14,8 biliões de exportações e 3,7 biliões de importações.

Ásia representou 40% das transações (7,4 biliões de USD), países da EU – 32% (5,9 biliões) e África – 12% (2,2 biliões). O saldo comercial positivo foi de 11 biliões de dólares, 400 milhões à mais do que em 2014.
O top-5 dos países do comércio agrícola com Ucrânia é composto por China – 7,2% (1,3 biliões de USD), Índia – 6,5% (1,2 biliões), Egito – 5,7% (1 bilião), Turquia – 5,3% (993,4 milhões de USD) e Espanha – 5,3% (987,2 milhões).

Os principais produtos que Ucrânia forneceu aos mercados estrangeiros em 2015 tradicionalmente foram os produtos vegetais (13,8 bilhões de dólares): cereais, óleo de girassol, sementes oleaginosos, açúcar, tabaco e derivados. Por sua vez, o agro-negócio nacional exportou em 2015 produtos de origem animal no total de 968 milhões de dólares (carne e derivados, produtos lácteos, produtos de carnes prontos à consumir ou em conservas, etc.).
Ucrânia importou no ano passado essencialmente os produtos vegetais no valor de 3 mil milhões de dólares (frutas, nozes e citrinos, café, chá, especiarias, tabaco e derivados). Os produtos de origem animal foram importados no valor de 730,7 milhões de dólares.

O país terminou ano 2015 com um desempenho que não se esperava – o rápido crescimento das exportações para a Ásia, [aberturade novos mercados, saldo positivo que supera o do ano passado. Estas estatísticas refletem não só as vitórias ucranianas, mas também indicações de perspectivas de desenvolvimento e dos desafios. Se no ano passado Ucrânia apenas “trilhava os caminhos comerciais” aos novos países, comprovava a qualidade dos seus produtos, a sua própria seriedade e confiabilidade, o 2016 é o momento para as negociações de um novo nível – a abertura de novas posições de exportação, o aprofundamento das relações comerciais, as exportações de alto valor agregado. Ucrânia não deve apenas provar, mas brilhantemente assegurar a completa independência agrícola em relação ao vizinho agressor.

E se 2015 foi neste sentido um “ensaio geral”, em 2016, pela primeira vez na história recente, o mercado russo estará ausente no horizonte dos produtores ucranianos. Em 2016 espera-nos um monte de trabalho.

Fonte:
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Texto do Oleksiy Pavlenko, o Ministro da Política Agrária e de Alimentação da Ucrânia.

ZAZ “Tavria”, roubada à Ucrânia

1978, cidade de Yalta, o líder soviético Leonid Brejnev (no meio, de camisa branca), um grande apaixonado pelos carros, olha para a novidade fabricada na cidade ucraniana de Zaporizhia — ZAZ–1102 «Tavria».

Brejnev gostou da viatura e esta deveria ser fabricada em série à partir de 1981. ZAZ “Tavria” seria a pioneira na nova classe automóvel soviética: hatchback de três portas com a tração dianteira.

Mas o caso foi tomado pelos burocratas, a fábrica ucraniana recebeu uma nova tarefa técnica, o engenheiro chefe foi enviado à cidade de Togliatti, onde ele “criou” VAZ-2108 (Lada Samara). O segredo da decisão é simples: no Ministérios dos transportes da URSS trabalhavam diversos ex-funcionários de “AutoVaz” (Lada). A «Tavria» começou ser fabricada na Ucrânia em série apenas em 1988.
Embora parcialmente copiada da “Austin Metro City” e/ou da “Ford Fiesta”, ZAZ–1102 «Tavria» possuía a tração dianteira e uma excelente aerodinâmica, caixa de 5 velocidades; pesava 800 kg e tinha um tanque de combustível de 50 l. Ganhava bem a velocidade e chegava à velocidade de cruzeiro de 90 km/h. Os bancos desdobravam-se de maneira quase ideal para formar a cama. As suas maiores desvantagens: eversão ruim e rodas originais (fonte).

Ucrânia na Eurovisão 2016
A cantora ucraniana Jamala, irá representar Ucrânia no festival Eurovisão 2016 com a composição “1944”, dedicada ao genocídio soviético de deportação dos Tártaros da Crimeia, crime da limpeza étnica que teve o lugar em maio de 1944.
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