quarta-feira, março 13, 2013

Papa Francis I e os ucranianos


Saudamos com muita alegria todos católicos do mundo, pela eleição do novo Papa, Francis I. É o segundo Papa fora da Europa e o primeiro da América Latina.

No dia 6 de novembro de 1998, na qualidade de arcebispo, ele foi designado como bispo-ordinário dos crentes católicos do rito oriental que vivem na Argentina e não possuem a eparquia própria.

Não é o caso dos ucranianos, pois estes possuem a sua própria eparquia, “Santa María del Patrocinio en Buenos Aires de los ucranios”, com o centro na Catedral da Nossa Senhora de Patrocínio (Pokrova).

A eparquia foi criada em 1968 por Papa Paulo VI como Exarcado Apostólico, o mesmo Pontífice a elevou à Eparquia com a bula “Cum praete rito”, com a jurisdição sobre todos os católicos de rito ucraniano bizantino que vivem em Argentina. Faz parte da Igreja Greco – Católica Ucraniana.

A emigração ucraniana na Argentina começou no ano 1880, neste momento no país vivem cerca de 200.000 pessoas de descendência ucraniana, cerca de 120.000 são católicos (60.000 na província e cidade de Buenos Aires; 30.000 em Misiones, 20.000 em Chaco e Formosa e 10.000 no resto do país). Eparquia possui 15 paróquias e 44 igrejas e capelas.
Patriarca ucraniano Svyatoslav (Shevchuk) e Cardeal Bergoglio
Para melhor conhecer os católicos ucranianos de Argentina, visitem:

National Geographic em ucraniano


A revista internacional National Geographic será publicada em ucraniano à partir do dia 25 de março de 2013, a edição ucraniana já esta presente numa das redes sociais: National Geographic Ukraine

terça-feira, março 12, 2013

Cubano por 30 dias


O repórter norte-americano Patrick Symmes que aceitou o desafio de viver um mês em Havana com apenas 15 dólares, salário médio de um cubano, narra seu mergulho na sociedade cubana e os diversos “jeitinhos” a que precisou recorrer para obter comida, se locomover e até mesmo para destilar rum caseiro.

Seguem os trechos mais interessantes da sua reportagem tragicómica.

Em Cuba, o salário médio é de US$ 20. Médicos chegam a ganhar US$ 30, e muitas outras pessoas ganham só US$ 10. Decidi que me concederia o salário de um jornalista cubano: US$ 15, a renda de um intelectual oficial. Sempre quis ser um intelectual, e US$ 15 representava uma vantagem significativa sobre os proletários que constroem paredes de alvenaria ou cortam cana por US$ 12, e quase o dobro dos US$ 8 da pensão de muitos aposentados. Com esse dinheiro, eu teria de comprar minha ração básica de arroz, feijão, batata, óleo, ovos, açúcar, café e tudo o mais de que precisasse.

CADERNETA Cada família recebe uma caderneta de racionamento. As mercadorias são distribuídas numa série de mercearias (uma para laticínios e ovos, outra para "proteínas", outra para pão; a maior delas cuida dos enlatados e outros produtos embalados, de café e óleo a cigarros). Cada loja conta com um administrador que anota na caderneta a quantidade de produtos retirada pela família. Os vizinhos do meu amigo - marido, mulher e neto - receberam a ração padronizada de produtos básicos, que consiste, por pessoa, em: dois quilos de açúcar refinado, meio quilo de açúcar bruto, meio quilo de grãos, um pedaço de peixe e três pãezinhos.

Eu sempre havia desdenhado os cubanos que se dispõem a aplaudir o regime em troca de um sanduíche, mas, já no meu segundo dia na ilha, eu me sentia disposto a denunciar Obama em troca de um biscoito.

CAFÉ Se era questão de chupar alguma coisa, eu já sabia exatamente o quê. Apanhei-me contemplando os Ladas que passavam, para ver se as tampas de seus tanques de gasolina tinham trancas. Com uma mangueira e um recipiente plástico, eu poderia obter cinco litros de gasolina e vendê-la por intermédio de um amigo no bairro chinês. Mas todos os carros de Cuba têm trancas nas tampas do tanque de combustível, ou ficam protegidos atrás de portões trancados, à noite. Já havia homens demais, e bem mais durões que eu, envolvidos nesse tipo de trabalho. Cuba não é terra para ladrões amadores.

COMIDA ROUBADA Fui perseguido por duas mulheres que acenavam com uma lata imensa de molho de tomate e gritavam "15 pesos! É para os nossos filhos!" Não parei, mas depois percebi que havia cometido um erro. Ao preço de 15 pesos por uma lata em tamanho restaurante, o molho de tomate seria uma pechincha. Comida roubada é a mais barata. E nada poderia ser mais normal em Cuba do que caminhar carregando uma lata gigante de alguma coisa.

PROGRESSO Quando contei a (dissidente Elizardo) Sánchez que havia caminhado até sua casa, como parte de um plano para passar 30 dias vivendo e comendo como um cubano, ele me mostrou sua caderneta.
"O nome disso é caderneta de suprimentos", disse ele, "mas é um sistema de racionamento, o mais duradouro do mundo. Os soviéticos não tiveram racionamento por tanto tempo quanto os cubanos. Nem mesmo o racionamento chinês durou tanto." A escassez surgiu logo depois da revolução; o sistema para a distribuição controlada de bens básicos já estava em funcionamento em 1962. Depois de 50 anos de Progresso, o país está falido, na prática. Em 2009, ervilhas e batatas foram retiradas da ração e os almoços baratos nos locais de trabalho foram reduzidos às dimensões de lanches rápidos.

Como sobreviver, portanto? "Os cubanos inventam alguma coisa", disse Barbara. Um dos truques é vender os bens racionados, comprados a baixo preço, pelo valor de mercado. Foi assim que enfim consegui comprar minha porção de 10 ovos. Sem a caderneta de racionamento, não tinha como comprá-los legalmente. Mas ao anoitecer do dia anterior, eu havia esperado perto da loja de ovos local, onde troquei um olhar com uma mulher idosa que estava saindo com 30 ovos – um mês de suprimento para três pessoas. Ela os comprou a 1,5 peso por unidade, e me vendeu 10 deles por dois pesos cada. Voltou à loja e imediatamente comprou mais ovos, lucrando três ovos e alguma sobra de dinheiro com a transação. Os dois caminhamos de volta para nossas casas cuidadosamente, com medo de desperdiçar toda a ração mensal de proteína por conta de um único tropeço.

Para sobreviver, todo mundo precisa de "algo extra", alguma renda excluída do sistema. O marido dela alugava um quarto para um turista sexual norueguês. A vizinha vendia almoços a trabalhadores de uma empresa cujo refeitório fora fechado recentemente. A mãe dela caminhava pelas ruas com uma garrafa térmica e xícara, vendendo cafezinhos. Uma vizinha na rua ao lado roubava óleo de cozinha e revendia por 20 pesos a garrafa de meio litro. Outra vizinha roubava carne de frango e a vendia por 33 pesos o quilo. ("Boa qualidade, preço muito bom, você devia comprar", ela aconselhou.) Eu costumava dizer que, em Cuba, 10% de tudo era roubado, para revenda ou reaproveitamento. Agora creio que a proporção real seja de 50%. O crime é o sistema.

A caminho de casa, uma mulher perguntou onde passava o ônibus P2. Atrapalhei-me para responder. "Ah, achei que você fosse cubano", ela disse. Mude de peso, mude de nacionalidade. Ri de seu engano e continuei andando, mas não demorou um minuto para que ela me seguisse. "Ei, me leve para almoçar", ela disse. "Onde você quiser". Fiz que não com a cabeça. "Almoço", ela disse, enquanto eu me afastava. "Jantar. Como preferir". Em casa, abri a geladeira e contei os cinco ovos que me restavam.

Mas Ofelia (esposa do dissidente Oswaldo Payá) tirou a embalagem da cesta de lixo. Era carne de peru "separada mecanicamente" produzida pela Cargill, dos Estados Unidos, parte das centenas de milhões de dólares em produtos agrícolas vendidos a Cuba a cada ano sob uma cláusula de isenção do embargo. Era quase intragável, mesmo com a fome que eu sentia, mas Ofelia tinha um sorriso largo nos lábios. "Muito melhor que o peru que comprávamos antes", disse.

Ler em português:

Original em inglês (PDF):

segunda-feira, março 11, 2013

Sozinho no oceano: fuga da URSS

A história verídica do Stanislav (Slava) Kurilov (1936 — 1998) — oceanógrafo soviético que fugiu da URSS em 1974, saltando fora do bordo do cruzeiro soviético nas águas internacionais, desafiando a proibição de autoridades comunistas de viajar para fora do país.
Slava Kurilov @arquivo familiar | aif.ru
Kurilov estudava a psicologia social, era oceanógrafo profissional, praticava a yoga. Várias vezes viu negado o seu pedido de viajar ao estrangeiro, negação originada, entre outros, pelo facto de cientista possuir familiares no estrangeiro, a sua irmã tinha casando-se com um cidadão indiano, emigrando mais tarde para Canadá.
Slava Kurilov @arquivo familiar
Em dezembro de 1974 Kurilov comprou o bilhete para o cruzeiro “União Soviética”, que fazia o trajeto de ida e volta entre a cidade de Vladivostok e a linha do equador, sem entrada em nenhum porto estrangeiro (assim as autoridades soviéticas pretendiam evitar a possível fuga dos passageiros).
Slava Kurilov jovem | arquivo
Na noite de 13 de dezembro de 1974, Slava Kurilov saltou do cruzeiro, tendo apenas máscara de mergulho e as barbatanas, sem alimentos, nem água, durante 3 dias ele percorreu cerca de 100 km, chegando à ilha de Siargao (Filipinas). Depois de investigação por parte das autoridades filipinas, Kurilov se mudou ao Canadá, onde recebeu a cidadania local.
Slava Kurilov em Israel com esposa Elena @arquivo familiar | aif.ru
A sua fuga foi tornada pública pela rádio “Voz da América”, na URSS Kurilov foi julgado à revelia, condenado à 10 anos de cadeia pela “traição de pátria”. O seu irmão mais novo, Valentim, foi expulso do serviço (era navegador marítimo de longo curso). Desde 1986 Slava Kurilov vivia em Israel, onde casou e trabalhou no Instituto Oceanográfico de Haifa. Morreu em janeiro de 1998 no ocidente de mergulho, foi sepultado em Jerusalém.
Ler o trecho em francês
Em 1994 a editora francesa “Hachette” publicou o livro de suas memórias sob o título de La Fuite (A Fuga, ISBN: 9782010212147), ilustrado pelo magnífico ilustrador húngaro Gabor Szittya. Edição russa, “Sozinho no oceano” foi publicada em 2004, já após a morte do autor.
Alone in the Ocean (PDF | ePub | ler online, inglês)
A campa do Slava Kurilov
Descarregar o filme:
http://new-films.biz/movies/9636-odin-v-okeane-2012.html

A entrevista do Slava Kurilov em Israel (em ídiche e inglês):

  
Ver no YouTube: A Fuga (Sozinho no Oceano), versão integral, 44 min.:

domingo, março 10, 2013

Shevchenko novamente proibido na Ucrânia


Em Moryntsi, na aldeia natal do poeta ucraniano Taras Shevtchenko o novo poder ucraniano proíbe aos cidadãos de celebrar o nascimento do génio literário da Ucrânia.

Desde manha a casa onde nasceu Taras Shevchenko foi cercada pela polícia, as testemunhas falam em dois pelotões, informa a televisão INTV.

Às 7h30 de manha veio o chefe do município que proibiu ao coro local de cantar e às crianças declamar a poesia, principalmente o verso “A Campa Aberta”, motivando a sua proibição pelo facto de poesia do Shevchenko ser revolucionária e como tal é inconveniente hoje em dia. Depois da curta cerimónia estatal, o chefe do município desapareceu da cerimónia de celebrações, proibindo aos diretor da casa de cultura local dar qualquer acesso aos equipamentos de som aos ativistas, contou um dos moradores da vila.

O governamental Partido das Regiões colocou na aldeia uma tenda com a sua simbólica, distribuía os materiais propagandísticos partidários.

Os deputados da oposição colocaram as flores ao monumento da mãe do Taras Shevchenko, também na aldeia de Moryntsi, visitaram a casa onde jovem Shevchenko viveu e trabalhou na condição do servo de um fidalgo russo, escreve Censor.net.ua.

O deputado do parlamento ucraniano, Olexander Bryhynets, conta no seu perfil numa das redes sociais que a população local está indignada com as ações do poder político e com o facto de Shevchenko novamente se tornar poeta proibido e perseguido, mesmo na sua aldeia natal.

É de recordar que nos anos 1970, na URSS, frequentemente as pessoas eram detidas por declarar a poesia do Taras Shevchenko em público fora das festividades patrocinadas e controladas pelo poder estatal. O verso do Shevchenko, “A Campa Aberta”, por exemplo, era publicado na sua coletânea oficial quando Ucrânia Soviética foi dirigida pelo Petro Shelest, mas retirado dos livros durante os “anos do chumbo” do Brejnev.

O dia 9 de março de 1900, outro aniversário do poeta, foi marcado pela proclamação do Manifesto “Ucrânia Independente” da autoria do advogado Mykola Mikhnovsky. Este foi o primeiro político ucraniano que colocou a questão da independência política e absoluta da Ucrânia.

O verso "A Campa Aberta" pelo grupo ucraniano "Komu Vnyz" no YouTube:

sexta-feira, março 08, 2013

Romance “Quem é Marta?” premiado na Alemanha


A escritora ucraniana radicada na Alemanha, Marjana Gaponenko, recebeu o prémio literário “Adelbert von Chamisso”, atribuído pela Fundação Robert Bosch, pelo seu novo romance Wer ist Martha? (editora Suhrkamp, ISBN 9783518423158).

Marjana Gaponenko nasceu em 1981 na cidade ucraniana de Odessa, aos 19 anos pela primeira vez visitou Alemanha, já viveu em Cracóvia e Dublin, neste momento mora em Mogúncia. Em 2002 a revista literária alemã «Deutsche Sprachwelt» a nomeou como autora do ano. O seu primeiro romance “Annuschka Blume” (Annuschka-Flor) foi publicado em 2010. Os direitos do romance “Wer ist Martha?” foram comprados pela editora francesa «Fayard».

O romance conta a história do professor ornitólogo ucraniano, Luka Lewadski, com 96 anos e sofrendo de cancro, que passa os últimos tempos da sua vida no “Hotel Imperial” de Viena, onde mentalmente volta aos anos da sua juventude.

Antes de mais, o professor Lewadski tenta recordar o nome da menina por quem apaixonou-se na sua meninice. Autora deixa como enigma a questão “Quem é Marta?”, embora no início do romance ela apresenta a Marta, assim chamava-se a pomba-passageira que morreu no mesmo dia em que nasceu o futuro ornitólogo ucraniano.

Marjana Gaponenko se iniciou na escrita em alemão aos 15 anos de idade, lendo uma coletânea poética bilíngue do Osip Mandelstam. Nunca escreveu poesia em nenhuma das línguas. Neste momento está a escrever o seu terceiro romance, cujos heróis são historiador-filósofo e o seu discípulo, que está apaixonado pela floresta. Por isso autora lê imensa literatura sobre as florestas e árvores, aprendendo os distinguir, explica Marjana na entrevista ao serviço ucraniano da Deutsche Welle.

Marjana Gaponenko no YouTube:

quinta-feira, março 07, 2013

Victor Kravchenko: Escolhi a Liberdade

O livro documental “Escolhi a Liberdade: A Vida Privada e Política de um Funcionário Soviético” (1946) do ucraniano Victor Kravchenko (1905 – 1966), foi a primeira denúncia pública do comunismo soviético, muito antes do “Arquipélago GULAG” de Soljenitsin ou de “Contos da Kolyma” de Varlam Shalamov.

Victor Kravchenko se formou em engenharia na Universidade de Kharkiv, foi membro da juventude comunista, o Komsomol, em 1929 filiou-se no partido comunista PC(b) soviético. Desempenhou as funções do engenheiro-chefe de algumas fábricas metalúrgicas, participou nas políticas de coletivização agrícola. Conheceu a miséria generalizada e a violência exercida pela polícia secreta, O/GPU (futuro NKVD). Durante a II G.M. serviu no Exército Vermelho, depois foi enviado aos EUA para trabalhar na Comissão de Compras Soviéticas, com sede em Washington, DC.

Em 1944 ele solicitou o asilo político ao governo dos Estados Unidos. As autoridades soviéticas, primeiro negaram a sua existência, para depois exigir a sua imediata extradição como desertor. Segundo o livro "The Forsaken" do Tim Tzouliades, o embaixador dos Estados Unidos em Moscovo, Joseph E. Davies, a pedido de Estaline, solicitou a extradição do Victor Kravchenko diretamente ao presidente Roosevelt. No entanto, o governo dos EUA garantiu lhe o asilo político, Kravchenko passou a viver com um nome falso, em função do perigo de ser assassinado por agentes soviéticos.

Victor Kravchenko ficou conhecido em todo o mundo após a publicação de seu livro, “Escolhi a Liberdade” (no Brasil publicado em 1948 pela editora “A Noite”, tendo pelo menos 5 edições), traduzido em mais de 20 línguas. O livro revela detalhes sobre a coletivização agrícola, sobre Holodomor ucraniano, além das prisões de inocentes que eram enviados para campos de concentração de GULAG. Além de “Escolhi a Liberdade”, Kravchenko escreveu “Escolhi a Justiça”, narrando as audiências no Tribunal de Justiça de Paris que ficou conhecido como o Julgamento do Século.

A tradução francesa do livro de Victor Kravchenko apareceu em 1947 sob o título «J’ai choisi la liberté – La vie publique et privée d’un haut-fonctionnaire soviétique» (Editions Self), recebendo um dos principais prêmios literários da França, o Sainte-Beuve. Em 13 de novembro de 1947, o semanário pró-comunista “Les Lettres Françaises” publicou um artigo, pondo em dúvida a veracidade do livro de Kravchenko. Victor Kravchenko processou o jornal por difamação, exigindo o equivalente aos 50.000 dólares de indenização. Uma das testemunhas do Kravchenko foi a sobrevivente dos campos de concentração soviéticos, a comunista alemã Margarete Buber-Neumann que primeiro foi presa pelo NKVD e deportada ao Cazaquistão e depois entregue aos nazis que a deportaram ao campo de concentração de Ravensbrück. O processo durou vinte e cinco dias e o tribunal deu razão ao Kravchenko. Mais tarde, o Tribunal Supremo reduziu a indemnização ao equivalente a 1 dólar simbólico, alegando que o processo ajudou ao autor na publicidade e promoção do seu livro.

Mostrando-se socialista, Kravchenko, tentou organizar as cooperativas agrícolas em Bolívia e Peru, experiência que revelou-se em insucesso comercial que consumiu as suas economias.
Em 1966 Victor Kravchenko foi encontrado morto com um tiro na cabeça no seu apartamento em Nova Iorque. Gary Kern, autor do livro “The Kravchenko Case: One Man’s War on Stalin” levanta a dúvida sobre a possibilidade de Kravchenko for assassinado por agentes soviéticos. Andrew Kravchenko, filho do escritor com a americana Cynthia Kuser, acredita que pai foi morto por agentes do KGB. Em 2008, Andrew Kravchenko produziu um documentário chamado The Defector, dirigido pelo realizador Mark Jonathan Harris que conta a vida de seu pai.
O filho ucraniano do Victor Kravchenko, Valentin Bodrov, teve na URSS uma vida extremamente amargurada, foi preso pelo NKVD como “filho do inimigo do povo”, tentando o suicídio no GULAG. Em 1992 ele emigrou aos EUA, morrendo em 2001 de ataque cardíaco, no mesmo dia em que recebeu o seu estatuto da residência conhecido como Greencard.

Apesar de ser ucraniano étnico e denunciador do Holodomor ucraniano, em termos políticos Victor Kravchenko revelou-se adepto do império russo, o que ditou o seu afastamento definitivo da Diáspora ucraniana e das organizações engajadas na luta pela libertação nacional da Ucrânia, radicadas nas sociedades ocidentais livres. 

quarta-feira, março 06, 2013

Mantenham calma, somos ucranianos!


A página ucraniana Korrespondent.net em conjunto com Fórum dos editores livreiros e Fundação Rinat Akhmetov “Desenvolvimento da Ucrânia”, organizou o concurso do design “Leipzig lê Ucrânia”.

Entre 19 de fevereiro e 1 de março de 2013 os usuários registados da página puderam expor as suas ideias do slogan e logótipo que serão usados pela delegação ucraniana na Feira de Livros de Leipzig. A votação decorreu na página Korrespondent.net, mas também nas diversas redes sociais: Google+, Facebook, Twitter, Linkedin, entre outras.

O vencedor foi o blogueiro e desenhador ucraniano Elias Strongovski, cujo trabalho aparece no início deste artigo. O vencedor receberá uma mala ecológica com os livros autografados pelos participantes ucranianos da feira em Leipzig, a segunda mais importante na Alemanha, após a feira de Frankfurt. A feira de Leipzig também é considerada como a principal atração da primavera do mercado livreiro europeu, escreve Korrespondent.net.

terça-feira, março 05, 2013

Recordar general Roman Shukhevych

No dia 5 de março de 1950, em resultado da operação especial das secretas soviéticas foi descoberta a casa segura do comandante-em-chefe do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), general Roman Shukhevych, situada na aldeia de Bilogorsha, nos arredores da cidade de Lviv (hoje a parte da cidade).

General Shukhevcych tentou romper o cerco, mas foi ferido com gravidade (contra as ordens de o deter vivo) e não querendo cair nas mãos do inimigo suicidou-se com uma bala na testa. O seu corpo, às ordens do MGB, foi reconhecido por alguns dos membros presos da OUN e pelo filho, Yuri. O mais provável que de seguida o corpo foi em segredo destruído pelo MGB, até hoje o local exato é desconhecido (ler Mistério da morte do Roman Shukhevych).

As primeiras informações sobre a sua morte foram publicadas no Ocidente só nos finais de outubro de 1950. O jornal ucraniano Svoboda, editado interruptamente nos EUA desde 1893, publicou a notícia, usando apenas o pseudónimo do general, “Taras Chuprynka”, também usando o pseudónimo para identificar o sucessor do Shukhevych, “coronel Vasyl Koval” (general Vasyl Kuk).



Ler também:

Em nome do pai: vingança do NKVD (entrevista extensa do Yuri Shukhevych)
Costela empresarial do Roman Shukhevych



segunda-feira, março 04, 2013

Quebrando o nariz do Estaline


Um dos problemas com qual invariavelmente se deparam todos aqueles que nasceram por trás da “cortina de ferro” é a grande dificuldade de contar as nossas vivências, para que estas pudessem ser compreendidas pelas pessoas que nasceram nas sociedades livres.

O livro Breaking Stalin’s Nose (publicado na Rússia sob o título Nariz do Estaline) do escritor Eugene Yelchin preenche essa lacuna. Dirigido às crianças entre 12 à 15 anos, o livro conta aos alunos de escola sobre os acontecimentos da época do Grande Terror na União Soviética.

O seu autor e ilustrador, Eugene Yelchin, nasceu em 1956 em Leninegrado, emigrando em 1983 para os EUA. As suas experiências pessoais e familiares são incorporados no livro, mas a obra não é autobiográfica. O passado soviético comum, fantasmagoricamente condensado, mas não menos reconhecível, aparece neste livro, juntamente com os tiques aparentemente desaparecidos, mas “mais vívidos do que os seres vivos”.
capa da edição russa

Quebrando o nariz do Estaline” (editora “Henry Holt and Co.”, ISBN 9780805092165) nos conta as 48 horas da vida de um aluno soviético normal, Sasha Zaichik, que sonha em se tornar o pioneiro e escreve a carta ao camarada Estaline. Mas o dia começa mal, Sasha testemunha a detenção do seu querido pai, oficial do NKVD, faz ensaio para se tornar o porta-bandeira da sua turma da escola, se torna o filho do inimigo do povo, parte o busto do camarada Estaline, provocando a detenção da sua professora, Nina Petovna e até torna-se o alvo de aliciamento por parte do agente do NKVD.

O mundo do Sasha Zaichik desaba momentaneamente: todas as suas noções do bem e do mal, estabilidade e justiça do universo soviético desaparecem. Afinal, atrás das palavras oficiais dos editais dos jornais sobre os “inimigos do povo” se encontram as pessoas próximas e reais. E mesmo o nosso herói, até ai tido como exemplo à seguir, se torna um pária, pessoa cuja cara na fotografia grupal da escola é coberta com a tinta permanente.
capa da edição sul-coreana

Seguem as consequências diretas de ser considerado “filho do inimigo do povo”: o quarto dos Zaichik, o melhor do apartamento comunal, onde vivem 48 cidadãos soviéticos honestos é ocupado pela família de Stukachov. O que torna claro que o patriarca deles, Stukachov Sr., é um informador do NKVD que, muito provavelmente denunciou o pai do Sasha. No apartamento comunal, onde a sua tia Larisa vive com o marido e filho recém-nascido, moram 26 pessoas e alguns são informadores do NKVD. Receosa pela segurança da sua própria família tia Larisa expulsa Sasha, abrigar o filho do “inimigo do povo” torna-se perigoso demais.

Já no fim do livro, estando nos traseiros do famoso edifício do NKVD na Lubianka, numa fila interminável dos familiares dos detidos, Sasha Zaichik enfrenta os sentimentos humanos não chorados das pessoas cujos entes queridos estão em desgraça, e finalmente encontra a esperança.
capa da edição japonesa

A editora “Girafa cor-de-rosa”, que publicou o “Nariz do Estaline” na Rússia, anunciou que planeia organizar uma série de encontros nas bibliotecas, escolas, festivais literários, para discutir o livro.

Em 2011, a revista literária Horn Book considerou o livro como um dos melhores do ano, em 2012 “Quebrando o nariz do Estaline” ganhou o prémio John Newbery. O livro já teve duas edições na Correia do Sul e neste momento se prepara a edição japonesa.

O escritor e ilustrador checo, Peter Sís, o autor da obra «The Wall: Growing Up Behind the Iron Curtain» caracterizou o livro de seguinte maneira: É importante que este livro seja lido por todas as pessoas que vivem na sociedade livre”.