No último dia 1 de dezembro
dois locais dos tártaros da Crimeia foram atacados pelos extremistas protegidos
pela polícia. Um dos alvos era o local de construção da Mesquita catedral de
Simferopol.
Primeiro, na noite de
sexta-feira para sábado, cerca de 200 jovens armados com as marretas apareceram
no terreno contencioso onde os tártaros da Crimeia construíram diversas edificações
temporários para protestar contra a política de uso e aproveitamento da terra,
praticada na península. Refat Abdullaev, um dos ativistas tártaros contou que
os jovens agressores eram comandados à partir das viaturas estacionadas nas
imediações, a ação foi acompanhada pelo efetivo policial (8-10 polícias, incluindo
os elementos da polícia de choque), que não impediu a ação da destruição das
edificações. Cerca de 20 tártaros que estavam no terreno na qualidade de vigias
não interferiram no sucedido por estarem em minoria numérica.
O serviço da imprensa
da Direção Geral do Ministério do Interior da Crimeia informou que os seus
efetivos estiveram no local para impedir os confrontos entre as partes e que na
ausência de queixas sobre o sucedido, polícia não pretende investigar o caso.
A responsabilidade da
ação foi revindicada pelo partido chauvinista local “Unidade russa”, que afirmou
na sua página na Internet: “os proprietários dos terrenos destruíram
construções ilegais … ajudados nesta ação pelos ativistas do partido “Unidade russa”.
A lei e ordem foram asseguradas pelos representantes dos cossacos e da polícia”.
Duas horas mais tarde,
na cidade de Simferopol, os desconhecidos atacaram o local onde será construída
a Mesquita catedral, usando uma bomba incendiária de fabrico caseiro. O caso
não teve vítimas e o guarda do local conseguiu apagar o fogo. A polícia enviou
uma brigada de investigação e abriu o processo-crime sob artigo № 194, parte 2
do Código Penal da Ucrânia (“tentativa da destruição da propriedade aleia via fogo-posto”),
que prevê uma pena efetiva de até 10 anos de privação de liberdade.
A Direção Espiritual
dos Muçulmanos da Crimeia (DUMK) classificou o ataque como ação xenófoba. O
mufti da Crimeia, Emirali Ablaev, disse: “este crime é claramente uma
provocação das forças que não querem a estabilidade e a coabitação pacífica na
península”, acrescentando: “impunidade aumenta o número dos crimes que são
cometidos na base de intolerância interconfessional e interétnica”.
Os peritos acham que os
incidentes deste tipo são capazes de destruir a paz instável na Crimeia. É de
recordar que durante as últimas legislativas o partido “Unidade russa” já tinha
prometido atacar as construções dos tártaros da Crimeia. Neste momento tudo
dependerá da ponderação feita pelo Mejlis
do povo tártaro. O vice-presidente do Mejlis, Refat Chubarov afirmou: “Essa
foi uma provocação direta. […] Necessária aos marginais que se sentem bem quendo
a sociedade da Crimeia se sente intranquila”.
No dia 24 de novembro
na Ucrânia e em mais de 30 países em redor do mundo foram recordadas solenemente
as vítimas doHolodomor,
fome artificial, planeada, organizada e executada pelo regime comunista da
URSS.
Os historiadores
canadenses, Alexander J. Motyl e Bohdan Klid acabaram de publicar o seu novo
livre “The Holodomor Reader”, uma coleção abrangente de textos-chave e fontes
primários, muitos dos quais nunca antes foram publicados em inglês, sobre Holodomor,
a fome genocida de 1932-33 na Ucrânia soviética. O assunto é introduzido em um
ensaio extenso e o material é apresentado em seis seções: bolsa de estudos;
avaliação jurídica; achados e resoluções; relatos de testemunhas e memórias; testemunhos
dos sobreviventes; memórias, diários e cartas; documentos soviéticos, ucranianos,
britânicos, alemães, italianos e polacos; obras de literatura. Cada seção é
prefaciada com observações introdutórias descrevendo o conteúdo. O livro também
contém um guia para leitura adicional e um mapa.
Além de virar um
holofote sobre esta catástrofe humana, cuja magnitude não se tornou aparente até
o colapso da União Soviética, este livro apresenta amplas evidências de que o Holodomor
foi um genocídio perpetrado por Joseph Stalin e seus capangas. O livro é um
guia indispensável para todos os que estão interessados no Holodomor, genocídios
ou estalinismo.
Sobre os autores:
Alexander J. Motyl é
professor de Ciência Política da Universidade Rutgers-Newark; ele é especialista
em Ucrânia, Rússia e União Soviética. Ele também é autor de livros escolares e seis
romances.
Bohdan Klid é diretor
assistente do Instituto Canadense de Estudos Ucranianos (CIUS) da Universidade de
Alberta. Ele é autor de artigos sobre historiografia ucraniana e música popular
contemporânea e política na Ucrânia.
Uma
receção de Nicolas Sarkozy e da sua esposa Carla Bruni foi comprada pela módica
quantia de 270.000 Euros pelo filho do deputado do partido do poder ucraniano.
Igor
Yankovsky, filho do deputado do Partido das Regiões, Nikolay Yankovsky, comprou
num leilão francês um barril do vinho de luxo pelo preço de 270.000 Euros,
obtendo em troca o direito de receber na Ucrânia o ex-presidente francês
Nicolas Sarkozy e a sua esposa Carla Bruni-Sarkozy.
O
vinho foi vendido pela própria Bruni que disse: “por 200.000 Euros entregarei o
barril pessoalmente e por 250.000 serei acompanhada pelo meu marido”, escreve «Аtlantico».
O
preço inicial do barril de 350 litros de corton grand cru Charlotte Dumay era
de 20.000 Euros, os lucros serão repartidos entre a Fundação Carla Bruni-Sarkozy
e a Fundação Idée, representada por ex-treinador de clube de futebol AJ-Auxerre,
Guy Roux.
Não se
sabe quando o casal Sarkozy planeia visitar Ucrânia e se a receção será
pública. O porta-voz da casa de leilões «Bichot» Jean-David Camus disse: «Yankovsky
pretende revender o barril em Kyiv por um preço mais alto para financiar os
programas de educação artística para as crianças desfavorecidas».
E ninguém pergunta da
onde veio o dinheiro, ninguém quer saber da sua origem lícita ou ilícita.
Ninguém questiona a razão que faz com que os ucranianos ganham os salários baixíssimos
que permitem aos seus patrões dispor das celebridades europeias que
alegadamente contribuam para boas ações aqui e ali…
Uma garrafa cheia das
sementes do panicum (Panicum abscissum) vinda do Holodomor foi encontrada na
província ucraniana de Vinnytsya.
Na horta da Maria
Soroka, na aldeia de Velyki Krushlyntsi, nos arredores da cidade de Vinnytsya,
foi achada uma garrafa cheia de sementes de panicum, que foi escondida 80 anos
atrás durante Holodomor.
Maria Soroka recorda o
que aconteceu com a sua família em 1932-33:
- A irmã mais velha da
minha mãe teve três filhos: dois rapazes e menina. Em 1932 eles ficaram inchados
de fome. O seu pai conseguiu achar algumas batatas meio-podres, trouxe à casa
para fazer a sopa. A mãe chorava, dizia que os filhos não se salvariam na
mesma, pedia que o pai comesse as batatas. O pai entregou a comida aos filhos
até a última gota. Mas isso não os salvou. Todos os alimentos foram levados
pelas brigadas especializadas. Acharam e levaram o recipiente com feijão, descobriram
e confiscaram todo o trigo que foi escondido nas panelas. O avô enterrou um
pouco de panicum, mas na primavera seguinte não conseguiu achar, até a sua
morte ele se culpava por não fazer um marco bem visível no local.
Oitenta anos depois,
quando Maria Soroka viu o tesouro do seu avô, ela ficou comovida: com estas sementes
podia-se semear metade da horta, tive muita pena que isso não ajudou a sua família
naquela época.
Mais vítimas do que na II
G.M.
Aldeia Velyki
Krushlyntsi perdeu 170 homens na II G.M. e 770 pessoas morreram durante
Holodomor. – tio Ivan Halunko apanhava os pardais, os cozia e deu um a mãe,
conta Mykola Havryliuk, vizinho da Maria Soroka e o seu colega da escola. – Ela
se lembrava disso até a sua morte. Na aldeia não havia cães. Se aparecia algum,
os que podiam andar o perseguiam e matavam para comer. Caso de alguma casa saia
a fumaça, a brigada vinha para ver se o dono tinha algo para comer. As brigadas
até partiram os equipamentos moageiros para que as pessoas não pudessem moer
nenhum cereal.
Kurkul que ganhou o
concurso dos gadanheiros
Mykola Havryliuk diz
que o achado se deve mostrar às pessoas, talvez oferecer ao museu do Holodomor
em Kyiv. “Porquê as pessoas esconderam estas sementes? Pois as levavam à força.
Será que não é o genocídio privar as pessoas do pedaço do pão?”, se interroga ele.
O pai do Mykola Havryliuk foi considerado kurkul e deportado para a Sibéria. Os
vizinhos aconselharam sua mãe a fugir, a esposa do kurkul poderia ter o mesmo
destino. Ela levou o filho e irmã mais nova e foi viver com um tio na região
próxima. Este tio também foi considerado kurkul, mas por alguma razão deixaram
o viver nas proximidades.
O tio chamava-se Yakiv,
tinha alcunha Semenets. Uma vez ele ouviu que o novo poder kolkhoziano organiza
o concurso de gadanheiros, participou e ganhou, obtendo como prémio um saco de 16
kg de trigo. Aquele trigo acabou por salvar a sua família, juntamente com a mãe
e irmã do Mykola Havryliuk do Holodomor.
Lídia Yurchenko de 89
anos conta que sua mãe a entregou aos familiares da aldeia vizinha, por eles ainda
tinham alguns alimentos. Ela lembra que uma vez viu um homem com pernas e mãos
cortados, os mais velhos conheciam a família onde comeram uma criança. Lídia tinha
presenciado como as pessoas famintas despedaçavam um cavalo morto…
Os apanhadores dos
cadáveres andavam pela aldeia e recolhiam os corpos mortos. Depois estes eram
lançados na vala comum. Por vezes levavam as pessoas ainda vivas, mas que iriam
morrer em breve. Na aldeia de Velyki Krushlyntsi contam que uma vez uma mulher
inchada pediu para levarem o seu marido moribundo. Ela sabia que não conseguiria
o enterrar e se a carroça não chegaria no dia seguinte o que ela faria com o
corpo?
O professor americanoGrover
Furr(docente de inglês que insiste em
ensinar a história) na Universidade Estadual deMontclairnos EUA defende a ideia do que Estaline
e regime comunista da URSS não são responsáveis pelos milhões de mortes ocorridas
na União Soviética durante a ditadura estalinista.
Sugiro que os nossos leitores dedicam alguns minutos do seu rico tempo para se manifestar sobre o assunto, escrevendo no perfil da Universidade no Facebook ou na forma de contato da própria Universidade:
O Governo ucraniano
assinou o contrato no valor de 1 bilião de dólares com um alegado cidadão
espanhol, representante alegado da empresa espanhola “Gas Natural
Fenosa” (alias “Gas Natural SDG, SA”; alias “ENAGÁS
SA”).
No dia 26 de novembro,
em Kyiv, na presença do primeiro-ministro da Ucrânia Mykola Azarov e do ministro
da Energia e da Indústria de Carvão Yuriy Boyko, foi assinado o Acordo de Gestão
do Consórcio para construção do terminal de gás líquido no valor de 1,1 bilhões
de USD. Da parte ucraniana o Acordo foi assinado pelo diretor da Agência Estatal
de Investimento e Gestão dos Projetos Nacionais, Vladyslav Kaskiv e pela parte espanhola
por Jordi Sarda Bovehi (nome desconhecido pelo Google), alegadamente, atuando em nome da “Gas Natural Fenosa”.
Os problemas começaram quando a empresa espanhola declarou oficialmente que não
conhece Jordi Sarda Bovehi, não lhe passou nenhuma procuração para agir em seu nome
ou em nome das suas subsidiárias, escreve Pravda.com.ua.
O jornalista do Financial
Times, Roman Olearchyk, escreve no seu blogue
que o alegado representante da contraparte espanhola se expressava em espanhol
durante a cerimónia da assinatura do contrato e que ele foi identificado pelos
governantes ucranianos como Jordi Sarda Bovehi. Abordado na cerimónia da
assinatura do Acordo, o próprio Jordi Sarda Bovehi recusou-se a falar com
jornalistas.
A parte ucraniana
insiste na ideia do que o Acordo foi oficialmente assinado com “Gas Natural Fenosa”,
representada pelo Jordi Sarda Bovehi. Na opinião do Vladyslav Kaskiv “Gas Natural
Fenosa” nega o seu envolvimento no negócio apenas por causa das “tecnicalidades
por resolver”. Kaskiv também informa que os estudos da viabilidade económica do
projeto foram efetuadas pela “Gas Natural Fenosa Engineering (ex-Socoin)”, a
subsidiária da casa-mãe. Vladyslav Kaskiv também desvaloriza a posição da “Gas Natural
Fenosa” e explica que prioridade para Ucrânia está no transporte da plataforma
marítima até a costa ucraniana do Mar Negro e que está operação é assegurada
pela empresa americana “Excelerate Energy LLC”.
Na página oficial do
Governo ucraniano está escrito que o Acordo foi assinado pelo diretor-geral das
relações exteriores da empresa “Gas Natural Fenosa” Jordi Garcia Tabernero (pessoa
real, mas em nada parecida com o assinante do Acordo) e pelo
vice-presidente sénior da “Excelerate Energy”, Edward Scott. Na página da Agência Estatal
de Investimento e Gestão dos Projetos Nacionais está escrito que pela parte
espanhola o Acordo foi assinado pelo Jordi Sarda Bovehi.
Diversos órgãos da imprensa
ucraniana informam que uma delegação conjunta do Ministério dos Negócios Estrangeiros
da Ucrânia e da Agência Estatal de Investimento e Gestão dos Projetos Nacionais
deslocou-se de urgência para Espanha para tentar minimizar os danos desta
história verdadeiramente caricata.
No dia 17 de dezembro
de 2010 Ucrânia criou a empresa “Projeto Nacional do Terminal de Gás Liquido”,
que deveria assegurar a construção de um terminal marítimo com a capacidade de
receber 10 biliões de m³ de gás natural em 2014. No dia 30 de janeiro de 2012 a
empresa “Socoin” concluiu os estudos da viabilidade económica do projeto.
Segundo o estudo, o projeto poderá ser concluído em 49 meses e as primeiras
remessas do gás podem ser recebidas em 2016. O custo aproximado do projeto é de
846 milhões de Euros, a parte ucraniana é de 25% + 1 ação.
Num país
normal o caso poderia terminar com a demissão do chefe da Agência Estatal de Investimento
e Gestão dos Projetos Nacionais e até do primeiro-ministro. Na Ucrânia, cujo
presidente, Viktor Yanukovych é “académico” de uma academia virtual existente
apenas no papel, isso não deverá acontecer tão já…
Todo e qualquer crime,
todos os genocídios, tiveram as suas vítimas e os seus carrascos. Uma das caraterísticas
universais dos perpetuadores é o desejo de permanecer na sombra, alegação de “simplesmente
seguir as ordens” e até a negação dos próprios genocídios. O Holodomor
ucraniano não é uma exceção...
O funcionário do
partido-Estado soviético, Dmytro Hoichenko(1903-1993),
conheceu o sistema por dentro e teve a coragem de contar o que fez e o que
presenciou. No seu livro “Apocalipse vermelho: pela deskulakização e Holodomor”
(ISBN
9786175850398, editora «A-ba-ba-ha-la-ma-ha»),
ele conta sobre os acontecimentos assustadores da coletivização soviética e do Holodomor
ucraniano.
Membro da nomenclatura
partidária e estatal soviética, Dmytro Hoichenko escreveu o seu livro nos
finais dos anos 1940 – início dos 1950. A sua posição privilegiada permitia que
autor possuísse a diversa informação social e política. O que transformou as
suas memórias na verdadeira enciclopédia da vida da sociedade ucraniana durante
o Holodomor.
A segunda parte da sua vida
Dmytro Hoichenko passou no mosteiro católico de São-Francisco, onde vivia sozinho,
sem amigos e sem o seu próprio nome. Querendo confessar-se escreveu uma longa
carta ao metropolitano. Não a enviou. Decidiu escrever o testemunho sobre a sua
própria vida e sobre a maneira como o comunismo deformava as almas das pessoas
que apenas desejavam fazer o bem e alcançar a verdade. O manuscrito das suas
memórias foi achado nos arquivos de mosteiro em 1994, um ano após a morte do
autor.
O historiador ucraniano
Volodymyr Vyatrovych conta que gravou dezenas de depoimentos das vítimas do
regime comunista e nenhum dos seus perpetuadores. Embora estes últimos possuem
a melhor forma física, o seu silêncio significa a perceção pessoal que serviram
a força maligna. Pouquíssimos deles tiveram a corregem e nobreza de confessar
os seus crimes. Dmytro Hoichenko, o lutador contra os “kurkuls ucranianos” e caçador
incansável do “trigo escondido ao Estado” conseguiu essa façanha.
O editor-chefe da casa
editorial “A-ba-ba-ha-la-ma-ha”,
Ivan Malkovych, explicou que o livro foi propositadamente publicado em russo
para poder ser lido por todos os adeptos da “escolha comunista” para Ucrânia.
Entre as coisas que a
minha mãe não gostava, estavam o borsch verde de urtica, águas-neves e os
alemães. Porquê os alemães, eu entendia desde pequeno. Sobre o borsch e águas-neves
mãe explicou quando eu comecei a ganhar o cabelo grisalho e ela deixou de ter
medo.
De borsch de urtica ela
ficou saciada desde 1933. As águas-neves faziam ninhos na estepe, os ninhos tinham
muitos ovos que eram tão amargos, que a mãe, os lembrando muitos anos depois, cuspia
à maneira masculina. Tantos ovos que ela bebeu.
E mais algumas coisas, vindas
daqueles tempos, que a mãe não gostava e não sabia explicar porquê. Um deles
era Demyd, o nosso vizinho. Vivíamos apertadinhos, as nossas janelas olhavam
para as janelas dele. Numa das janelas eles tinham um brinquedo – comboio com
as rodas vermelhas. E as nossas crianças invejavam os deles.
Quando os nossos comiam
borsch de urtica, Demyd não quis. Ele levou a sua família, nove almas, para o
quintal e lhes disse que sabia onde existia uma maquina-maravilha: bastava se
deitar debaixo dela que os ravioli cairão na sua boca. O brinquedinho –
comboiozinho levaram consigo. Chegaram à aldeia vizinha, se deitaram uns ao
lado dos outros no campo pastorício e morreram lá mesmo, todos os nove.
Naquele ano na aldeia
morreram duas mil pessoas.
A mãe contava sobre
isso de uma maneira zangada. Como se fosse uma morte errada, inalcançável, como
se fosse aquele brinquedo na janela do vizinho. A mãe dizia: “Estúpido Demyd!” –
muito diferentemente de todos os outro. Embora sabia os nomes de todos os
aqueles que morreram naquela ano. Eram dois mil, dez vezes mais dos que
desapareceram mais tarde na II G.M. E ai eu perguntava:
— Mamã, porquê você não
gosta dos alemães, se os nossos mataram dez vezes mais?
— Mas foram os nossos! –
respondia a mãe candidamente.
Eu dizia que estes “nossos”
deveriam ser enforcados e ai ela chorava. Agora não a pergunto sobre isso. Ela
me visita nos sonhos raramente e eu não quero ver ela a chorar.
Este vídeo faz parte do
drama “Grande Deus”, abordando a história da criação do hino religioso “Quão
Grande Tu És”. O texto foi retirado do diário e das anotações do jornalista
britânico Gareth Jones, que denunciou Holodomor ao mundo.
Tal como Holocausto e
Genocídio arménio mudaram as respetivas nações, oHolodomormoldou e tipificou para
sempre o arquétipo da nação ucraniana.
Holodomor bruscamente
mudou as normas incorporadas da ética social. Primeiramente disseminou-se o
clima de delação, apoiado e fomentado pelo poder Estatal. O que antes era vergonhoso, foi apresentado como um ato da consciência social. Os delatores eram
pagos, quem mostrava onde o vizinho escondia o trigo recebia 10-15% do achado como
prémio. Os quem não tinham nada para comer, quebravam o tabu e denunciavam o
vizinho. Isso desmoralizou tanto os camponeses, que no inverno de 1933 o simples
facto de ter algum alimento em casa era visto como sinal de prémio pela
delação.
Nas aldeias se enraizou
a desconfiança e inimizade. Parecia que o mundo ficou de avesso: um delatava
para sobreviver, outro para ajustar as contas. Atmosfera tornou-se tão
carregada, que os camponeses ficavam com medo do poder Estatal e dos vizinhos, tentando
antecipar-se na denúncia. Um camponês da província de Kyiv contou que abateu o
vitelo e entregou metade ao vizinho para não ser denunciado. O vizinho aceitou,
mas na mesma tarde foi denunciar o caso.
A escola usava as
crianças para delatar os seus próprios pais. Os professores formulavam as
perguntas disseminados nos testes para saber se alguém tinha trigo escondido.
Perguntavam aos alunos se as suas famílias têm algo para comer ou como os seus
pais conseguiam os alimentos. Os professores recebiam 10% dos alimentos achados
na base da denúncia. Praticava-se a seguinte forma de delação: após as férias,
os alunos deveriam escrever uma redação “Como os meus pais celebraram o feriado kulakiano/kurkuliano” (o Natal e a Páscoa eram considerados “invenções dos popes” e eram proibidos).
Mudanças na cultura
alimentar dos ucranianos
Antes do Holodomor não era
possível comer a carne dos cavalos, rás, cegonhas, pombos, corvos. Comer as
cegonhas era visto quase como sacrilégio, pois a lenda dizia que eles traziam
as crianças. No fim de 1932 já não fazia a diferença o que comer. Não havia pequeno-almoço,
almoço ou jantar, desapareceram alimentos tradicionais dos casamentos ou
enterros. Embora até as últimas as pessoas se agarravam às tradições
ucranianas. Uma mulher conta que a sua mãe guardou dois ovos para os pintar na
Pascoa, preparou um pequeno pão pascoal para celebrar a festa de Ressureição. Os ucranianos acreditavam que iriam sobreviver até o ano seguinte se conseguissem
comer a tradicional ementa pascoal.
Comiam coisas não
comestíveis: faziam a farinha dos ossos e peles de animais, comiam as solas dos
sapatos. Moíam a palha, misturavam a com restos de milho-miúdo e trigo-mouro, cascas
das árvores, cascas de batata e disso coziam o “pão”. Faziam a “sopa” de folhas
de beterraba. Preparavam as “panquecas” da comida de porcos, que retiravam do
kolkhoz.
Antes da década de 1930,
nas aldeias as casas se fechavam. As portas eram afixadas com uma pedra ou
vassoura, se os donos não estavam em casa, ninguém entrava. A comunidade era
intolerante com o roubo, por mais insignificante que fosse. O ladrão era levado durante um dia
inteiro pela aldeia com o produto do seu roubo ao pescoço. Durante Holodomor o
roubo deixou de ser visto como pecado, como vergonha. Sem roubar, não irás
sobreviver. As mulheres camponesas escondiam nas botas a beterraba ou algum
cereal. Com passar dos anos, o roubo no kolkhoz foi encarado como uma
compensação pelos dias-horas não pagos.
Holodomor e sua
influência na cultura e tradições
Apesar do Holodomor, os
casamentos continuavam a celebrar-se, mas sem seguir as tradições. Testemunhas
contam que na província de Vinnytsya numa cerimónia de casamento os convidados
comiam beterraba com leite. Antes, o casamento era celebrado durante uma
semana, a aldeia inteira era convidada para a cerimónia. Antes, o matrimónio era
impensável sem o casamento religioso, depois, simplesmente impossível. No
arquivo do Instituto de Estudos de Arte, folclore e etnologia da Academia de
Ciências da Ucrânia podemos encontrar o folclore da época:
Pararam todos de rezar,
Foram sem os padres se casar,
Sem os padres se
morrer,
Padres foram desprezados.
Os casamentos fartos
eram dos serviçais do poder. Mas facilmente se transformavam nas bebedeiras com o acompanhamento musical. Quando, após o fim do Holodomor, as tradições
matrimoniais foram ressuscitando nas aldeias, vários dos seus elementos se
perderam. Uma mulher conta que em 1934 no seu kolkhoz foi organizada a festa
do fim da safra. As pessoas já tinham o que comer, mas todos estavam calados à
mesa. Finalmente, alguém começou a cantar e as pessoas simplesmente choraram.
As tradições ligadas ao
enterro
Tradicionalmente, nas
aldeias ucranianas um morto era sepultado no terceiro dia, com a presença do padre
e era feita a missa em memória do defunto. Durante Holodomor, os mortos eram atirados numa
vala comum ou na melhor das hipóteses eram colocados numa espécie de caixão, se
a família ainda tivesse algum homem vivo. As mulheres levavam os seus defuntos
em sacos, embrulhados em panos. Colocavam vários mortos na mesma campa, as
pessoas não tinham as forças de abrir a campa própria. No inverno de 1933,
quando a situação se tornou especialmente terrível, as pessoas eram enterradas
na neve. Na primavera do mesmo ano estes corpos foram profanados pelos animais
vadios…
Quase todos os kolkhozes criavam o posto de recolhedor de cadáveres. Os mortos eram procurados nos
quintais, colocados na carroça e levados até o cemitério. Sepultavam 10-20
pessoas em valas comuns. Os recolhedores recebiam 300-500 gramas de pão por
dia, era uma maneira de sobreviver a fome. Por vezes eles despiam os mortos e ficavam com as suas roupas. Existe o testemunho do caso na província de Mykolaiv quando um
aluno desenterrou o seu professor para levar o fato dele e trocar pelo pão. Quando
todos os moradores de uma aldeia morriam, aldeia era marcada, todas as suas casas
passavam pela “limpeza”. Depois aldeia era repovoada com os colonos da Rússia e da Belarus. Eles recebiam alojamento e emprego. Mas as casas, onde morreram as
pessoas, emitiam um cheiro específico. Vários recém-chegados fugiam. Eram capturados
e devolvidos à força.
Mito de canibalismo
Os arquivos do Serviço
de Segurança da Ucrânia (SBU) mostram que em toda Ucrânia foram registados cerca
de 2.000 casos. Por isso, dizer que durante Holodomor o canibalismo era massificado
e usual é absoluta inverdade. Casos de canibalismo e necrofagia, na sua
maioria, tinham lugar na primeira metade de 1933 e estavam claramente ligados
aos distúrbios psíquicos. As pessoas já não sabiam o que estavam a fazer. Houve
casos em que os canibais eram linchados pela população, pois as suas vítimas
eram, geralmente, as crianças. Na aldeia de Samhorodok, uma mulher que comeu os
filhos foi enforcada. As pessoas percebiam que os culpados estavam totalmente
transformados, existia até um ditado: “O nosso vizinho já ficou louco e comeu
os seus filhos”.
Em 1933 também houve
uma onda dos suicídios, um pecado mortal na ética cristã. Geralmente pessoas
se enforcavam. Uma mulher da aldeia de Voskresenske na província de Kyiv não
aguentou ver os seus filhos a pedirem-lhe a comida. Um homem na província de Vinnytsya
contou que ficou tão fraco, que já não conseguiu rasgar a sua camisa para fazer
a corda. Houve casos em que se suicidavam até os ativistas pró-poder, eles não
aguentavam o assédio das chefias distritais que os obrigavam a retirar os
alimentos dos seus conterrâneos.
Olesya Stasyuk, chefe
do Departamento Científico-Organizativo do Centro ucraniano do desenvolvimento
da museologia. Formada pela Universidade Pedagógica de Vinnytsya. Em 2007
defendeu a tese “Deformação da cultura tradicional ucraniana no fim dos anos
1920 – início dos anos 1930 do século XX”. Autora da monografia: “Genocídio dos
ucranianos: deformação da cultura popular”. Casada, mãe de um filho.
Assistir a intervenção do Prefessor Dr. Andrea Graziosi da Universidade de Nápoles:“Estaline e a fome como uma ferramenta para dominar
o campesinato ucraniano”: