domingo, setembro 23, 2012

Crimes do NKVD no Leste da Ucrânia


Apesar a fé quase religiosa dos apologistas de estalinismo, as repressões em massa dos anos 1930-1940 ceifaram não apenas a cúpula do partido comunista, mas exterminaram milhões de vidas de cidadãos absolutamente apolíticos, transformando os em “lascas” do terror soviético quer no longínquo GULAG, quer nos locais de extermínio massificado, algures perto da sua própria casa.
  
por: Dmytro Vyrovets (extrato)

Em cada capital distrital daqueles tempos, milhares de pessoas se transformavam em vítimas das repressões estatais massificadas. Para a execução das penas e ocultação apressada dos seus corpos, de propósito se alocavam os territórios nos subúrbios das cidades, longe das testemunhas. Mas ocultar totalmente estes “locais secretos” era impossível, devido à envergadura do terror contra a população civil, que ultrapassava todos os limites imaginários.

Os moradores da província ucraniana de Donetsk apontavam o campo de Rutchenkovo como um destes lugares, situado no bairro de Kirov, na cidade de Estalino (atual Donetsk). No fim de 1988 – início de 1989, os ativistas dos grupos da defesa dos direitos humanos, “Donbass-88”, grupo estudantil “Pluralismo”, sociedade “Memorial” local, enviaram os inquéritos às instituições do poder estatal perguntando sobre a existência possível das valas comuns no campo de Rutchenkovo. Todas as instituições, incluindo KGB local responderam que “não possuíam as informações” ou diziam “informações não confirmadas”.

Estranhamento, na segunda metade de 1988, o Comité executivo da cidade de Donetsk alocou o mesmo território para o desenvolvimento da cooperativa de garagens “Têxtil” (na URSS havia grande défice de garagens para as viaturas particulares). Era difícil de acreditar que o poder municipal não tinha informação sobre o uso que era dado à este local no passado.       

Na época era simplesmente impossível consultar os “arquivos especiais”, por isso ativistas pediram os moradores dos arredores compartilharem as suas memórias sobre aquela região. Uma parte dos testemunhos foi gravada, o jornal local, “Gorniatskaya Slava” (Glória Mineira), publicou o artigo sobre os segredos guardados pela estepe de Rutchenkovo.

As testemunhas contaram que desde meados da década de 1930, um murro de forma retangular, de dois-três metros de altura, cercou uma parte da estepe. O murro possuía arrame-farpado, existia uma torre com o guarda armado, no período noturno o campo era vigiado pelas patrulhas caninas. Os moradores locais sabiam que aqui foram executados os “inimigos do povo”. As pessoas eram transportadas diretamente do edifício do NKVD em Donetsk nos camiões conhecidos popularmente como “corvos negros”. Uma parte das vítimas já estava morta, outros eram trazidos para a execução. No território foram abertas as valas com o cumprimento de cerca de 100 metros, que eram preenchidos com os corpos dos executados. Uma das valas foi escavada na primavera – verão de 1989, praticamente em cima da construção das garagens, os ativistas foram informados que alguns proprietários mais apressados encontravam as ossadas e as despejaram na vala de drenagem mais próxima.  

Mas as testemunhas também contaram que autoridades soviéticas executaram os feridos do seu próprio hospital militar, localizado no hospital comum da cidade № 24, mesmo nas vésperas da ocupação nazi da cidade. Provavelmente, o mesmo destino foi dado aos estudantes das escolas de aprendizagem fabril e operária (FZU), filhos dos “inimigos do povo”, que não conseguiram ou não quiseram se evacuar.

Todos estes testemunhos terríveis necessitavam a confirmação no terreno, perante apatia total do poder estatal e municipal local. Em abril de 1989, os ativistas mal começando a cavar, descobriram as diversas ossadas massificadas. O procurador provincial, chamado para o local, “celebrizou-se” com a frase: “Mas não serão ossadas dos cães?” Os arqueólogos e antropólogos presentes confirmaram, as ossadas eram humanas. A procuradoria provincial abriu um caso criminal, começou a trabalhar a comissão oficial de inquérito.

Apesar da cobertura oficial, a força principal de escavação era constituída pelos estudantes da faculdade de história da Universidade de Donetsk, ativistas e seus amigos. O transporte, alimentação e ferramentas eram assegurados pela municipalidade local.

Durante as escavações foi encontrado um grande número de haveres pessoais: carteiras, escovas de dentes e as ossadas de mais de 500 indivíduos. A sua morte foi definitivamente violenta, os crânios com perfurações das balas, um grande número das balas espalhadas. Eram encontradas as diversas garrafas de bebidas alcoólicas, principalmente a vodka, sepultadas juntamente com os corpos. As datas de fabricação eram anteriores ao início da guerra entre Alemanha nazi e URSS. Não era crível que a bebida era servida aos executados para os acalmar, tudo indicava que os carrascos precisavam aumentar a sua “coragem”.

Numa das valas foram encontrados os restos humanos queimados, sentia-se perfeitamente o cheiro de querosena. Encontravam-se muitos haveres pessoais: lâminas de barbear, distintivos de mineiros, crucifixos, pentes, calçado masculino e feminino produzido na fábrica “Triângulo Vermelho”. A presença das escovas de dentes indicava que as vítimas podiam não saber da execução futura. Numa das escovas estava escrito o apelido Kozlovskiy, num porta-cigarros lia-se claramente “Pokarev V. D.” A investigação apontou que o porta-cigarros podia pertencer ao engenheiro mineiro da cidade de Kriviy Rih, vítima da repressão soviética.

Mais tarde, o grupo das escavações aproximou-se à resolução da questão mais gritante, execução dos soldados feridos e dos estudantes das escolas FZU, filhos de “inimigos do povo”, ocorrida em outubro de 1941, nas vésperas da ocupação da cidade de Donetsk pelos nazis. A verdade terrível já era contada pelos moradores locais, mas nem todos queriam acreditar nela, por causa do aproveitamento da tragédia feita pelas autoridades nazis após a tomada da cidade em 1941.

A imprensa generalista ucraniana, provincial e local não ousou a contar sobre a execução dos soldados do Exército Vermelho efetuada pelo NKVD. Apenas o jornal “Gorniatskaya Slava”, com a tiragem de 2.000 exemplares, publicou a recordação de um testemunho que no outono de 1941 viu “soldados soviéticos mortos, alguns amputados, ao seu lado estavam muitas muletas”. Havia testemunhos de dezenas de outros moradores, que confirmavam a informação.

No verão de 1989, 48 anos após os acontecimentos trágicos, o grupo de escavação desenterrou vários objetos caraterísticos de um hospital militar: ligaduras ensanguentadas, membros engessados, máscaras de oxigénio, loiça sanitária da época. Num buraco à parte foram encontrados os restos das camisas, muito parecidas com as uniformes usadas nas escolas FZU…

Em 4 de julho de 1989, o jornal “Pravda”, órgão central do PCUS, publica o artigo crítico e bastante honesto do seu correspondente ucraniano, Glotov, “Lá onde decidiram construir as garagens…” O jornalista visitou o local das escavações, falou com testemunhas, com representantes do poder municipal, entrevistou o investigador judicial e o perito da medicina legal. O artigo não mencionava os militares fuzilados, mas dizia abertamente que Rutchenkovo é o local das repressões em massa na província de Donetsk. Glotov criticava KGB provincial pela falta de cooperação na investigação do caso criminal e criticou o poder estatal pela burocracia e falta de profissionalismo. O artigo até mencionava o número total das vítimas das repressões na província de Donetsk na década 1930 – 40.000 pessoas. Embora o número mais tarde foi contestado, mas fornecido pelos “órgãos” locais não podia ser exagerado, mais certo que o número das vítimas das repressões era maior.

Segundo a lógica partocrática soviética, o artigo do “Pravda” foi um poderoso sinal de cima para baixo para os órgãos locais do poder estatal. O caso foi divulgado na televisão ucraniana, Comissão da cidade de Donetsk reconheceu o facto da existência da sepultura massificada…

No entanto, muito em breve, a mesma Comissão decidiu terminar as escavações e começar a transladação dos restos mortais descobertos. Seria impossível que uma decisão daquele tipo foi tomada sem consentimento de Moscovo, pois o caso foi recentemente e amplamente divulgado. Os ativistas ficaram convencidos que a principal razão dessa decisão tinha a ver com o caso dos soldados e estudantes de FZU executados. As escavações e os estudos do caso eram desde início muito mal vistos pela Direção provincial do KGB.

No dia 16 de setembro de 1989 foram solenemente transladados os restos mortais de 540 vítimas. No comício popular estavam presentes os representantes do poder local, membros da sociedade Memorial, representantes dos estudantes que participaram nas escavações. Os oradores diziam que o local da tragédia deveria preservar as memórias das vítimas do terror estalinista. Mas apenas 16 anos depois, em 2005, no Dia da Memória das vítimas do Holodomor e das repressões políticas na Ucrânia, naquele local foi inaugurado o monumento em memória dos cidadãos que se tornaram as “lascas” anónimas na tentativa do regime soviético “com a mão de ferro empurrar a humanidade à felicidade”.

Em 2007, o autor destas linhas visitou novamente o local. O campo de Rutchenkovo tinha um ar descuidado e abandonado. Aqui e ali foram abertas as pequenas hortas, a cooperativa de garagens se separou do monumento com um murro de concreto. O cemitério local se aproxima cada vez mais. Um grupo de jovens desocupadas bebia e fumava ao lado do monumento, fugindo antes de as puderam perguntar se elas faziam a ideia da história do local. O céu sobre o campo era tenso e desassossegado…

Fonte

quinta-feira, setembro 20, 2012

As crianças no GULAG soviético

O regime comunista soviético, à semelhança da sua congénere nazi, deportava as crianças e adolescentes para os campos de concentração de GULAG. Uma tragedia até hoje pouco conhecida pelo grande público.

Essa lacuna de conhecimento é preenchida pelo realizador americano Chris Swider, cujo filme documentário “Children in Exile”, venceu em 2011 o Festival de Cinema de Amsterdão, ganhando o prémio Van Gogh de Melhor Filme sobre o tema de Direitos Humanos.

Chris Swider fez o filme por causa da própria conexão pessoal: o seu pai, médico polaco, sobreviveu o campo de concentração do GULAG na cidade de Uchta. Em 1991 o realizador viajou até a Uchta, capital da República Komi, no oeste da Rússia, onde encontrou nos arquivos da cidade o processo do NKVD relativo ao seu pai. Ele também entrevistou diversas pessoas em Uchta: alguns eram polacos, outros não, mas a maioria ou eram ex-prisioneiros ou seus descendentes, que para sempre assentaram naquela região.

Para o filme Swider selecionou as pessoas que tinham 18 anos ou menos, quando foram deportados para GULAG. Eles contam a sua história. Não há no filme um único perito, historiador ou qualquer espécie da autoridade. Além da introdução, que utiliza imagens de arquivo para explicar a II G.M., todos relatam a experiência na primeira pessoa. O resultado é um olhar sincero e profundo que descreve os horrores que essas crianças presenciaram e sofreram no GULAG.

Há muita história no filme – contexto necessário que explica os meandros históricos e políticos e as complexidades sociais daqueles tempos, que ditaram o destino das crianças e das suas nações no conflito mais mortífero do continente europeu.

Em 22 de junho de 1941, a Alemanha nazi ataca a URSS, o seu aliado recente. Os soviéticos precisam de homens para a frente de combate, por isso assinam um pacto com os britânicos e com o governo polaco em exílio, chamado de “anistia”, uma farsa, considerando os polacos abrangidos pelo acordo nunca tinham cometido nenhum crime. A condição é que os polacos que queriam sair do GULAG deveriam se juntar ao exército polaco e combater os alemães. Uma missão bastante complicada, porque os homens e as suas famílias precisavam de uma autorização para sair da União Soviética, documento emitido pelo NKVD.

Uma das entrevistas mais surpreendentes do filme é com Wojciech Jaruzelski, último líder comunista da Polônia, que foi deportado para Cazaquistão em 1941, aos 16 anos, considerado pelas autoridades soviéticas como “elemento social indesejável”.

Janina Kepinska tinha 11 anos, quando foi deportada, se recorda que havia 48 pessoas no vagão que levou ela e a sua família para o Cazaquistão. Não havia instalações sanitárias, apenas um buraco no chão. Através do qual, perturbadoramente, os deportados poderiam ter uma noção de quantos tinham ido antes deles sobre as mesmas trilhas, que foram preenchidos com pilhas intermináveis ​​de dejetos humanos.

Uma das partes mais difíceis da viagem era quando os comboios passavam a fronteira polaco-soviética. Mieczyslaw Wutke, que tinha 12 anos, conta que é um momento que nunca irá esquecer. Wesley Adamczyk começou a cantar o hino nacional polaco, mas os guardas soviéticos o mandaram calar, ameaçando o alvejar “como um cão”.

A viagem para GULAG durava, em média, um mês. Muitos não conseguiram chegar. Mas aqueles que sobreviviam eram imediatamente colocados a trabalhar, independentemente de sua idade. Aos sete anos de idade Wesley Adamczyk aprendeu que “quem não trabalha, não come”, pois ele é um “inimigo do povo”. Assim, ele e a sua irmã recolhiam o esterco de gado para o usar na fogueira. Pelo trabalho as crianças recebiam os “suprimentos de inverno”. A família do Jacek Furdyna recebeu dois pães e uma melancia. Isso é para toda a família, para todo o inverno.

Além do frio, fome e piolhos, aconteciam os estupros. Feliks Milan tinha 17 anos e recorda que não se passava um dia sem os estupros. No campo de concentração havia muitos prisioneiros do delito comum, eles eram cruéis para com os presos políticos, sem nenhuma proteção dos guardas do campo. Eles estupravam as meninas, os meninos, alguns até a morte – na frente de suas famílias. Feliks fica perturbado, recordando os horrores: “Isso irá ficar comigo até o fim da minha vida”.

Uma das piores coisas que aconteceu depois foi a incompreensão que as crianças sobreviventes do GULAG receberam da sociedade, quando finalmente voltaram para a Polônia. As pessoas diziam: “se os campos eram tão horrível, como eles tinham sobrevivido. Talvez realmente eram espiões?” Esse foi o castigo final dos sobreviventes, eles podem encontrar o consolo apenas entre os seus.

O filme “Children in Exile” foi exibido em 28 festivais de cinema e ganhou oito prêmios, incluindo o de Melhor Filme Documentário de menos de 60 minutos no Festival Internacional San Luis Obispo de 2008. Mas para o público norte-americano GULAG e os seus sobreviventes é um assunto que encontra pouca ressonância e pouco interesse. As pessoas se desculpam, dizendo que “a Cortina de Ferro já caiu e o Muro de Berlim já foi abaixo”.

Durante as deportações de 1939 – 1941, naqueles vagões de gado, as crianças morriam nos braços das suas mães. As mães morriam segurando os seus bebês, diz Feliks Milan. “Esta é a maior tragédia. Quem hoje se lembra dessas crianças?

***

Em 1939, o pai do realizador, Konstanty Swider era capitão do Corpo Médico do exército polaco, doutorado em neurologia e psiquiatria. Foi preso pela NKVD nos arredores da cidade de Lviv e enviado para um campo de concentração na cidade de Uchta, onde primeiro trabalhou como lenhador, depois conseguiu o emprego como médico, o que provavelmente o salvou. Quando a tal anistia surgiu em 1941, ele se juntou ao Exército polaco do general Anders e através do Mar Cáspio seguiu para o Irão, Iraque, Palestina e Egipto. Participou na famosa Batalha de Monte Cassino, onde as tropas polacas venceram os alemães e italianos.

A mãe de Chris Swider, Maria Baranowska Swider, havia sobrevivido a Revolta de Varsóvia de 1944. Conheceu o seu futuro marido em Verona, em 1947 a família emigrou para a Inglaterra e em 1951 se mudou para os EUA.

O seu pai continuou trabalhando como médico, passando de estagiário à residente em Nova Iorque. Morreu em 1965 sem nunca mais visitar a Polônia.

Fonte:

domingo, setembro 16, 2012

O comércio da solidariedade internacional

A “solidariedade internacional”, este ativo imaterial da “humanidade progressista” tinha altos custos financeiros, suportados pelos impostos, maioritariamente, de cidadãos soviéticos, e em menor escala dos cidadãos dos outros países da Europa do Leste.

Em 1969 Moscovo criou o “Fundo Internacional de ajuda às organizações operárias de esquerda” no valor de 16,55 milhões de dólares anuais. Moscovo era o dador principal, contribuía com 14 milhões, checoslovacos, romenos, polacos e húngaros – 500 mil cada, búlgaros – 350 mil e RDA – 200 mil USD. Naquele mesmo ano o fundo era distribuído entre 34 recetores, os comunistas da Itália levaram 3,7 milhões para o período de 6 meses, comunistas franceses dois milhões, comunistas americanos um milhão e o chefe do partido comunista da Sri-Lanka, camarada S.A. Wickremesinghe, recebeu 6 mil. Tudo isso continuou até 1990, mas já em 1981 o número dos beneficiantes aumentou até 58 e os comunistas americanos ficaram com dois milhões de USD. Em 1990, último ano da sua existência, fundo distribuiu 22 milhões, o número dos recetores chegou até 73, entre os “partidos e organizações comunistas, operárias e revolucionárias – democráticas”.

Do ano para ano aumentava a contribuição soviética para o fundo, na década de 1980 – 15,5 milhões, em 1986 – 17 milhões, em 1987 – 17,5 milhões e em 1990 a totalidade – 22 milhões. Desde o final da década de 1970 deixaram de pagar os camaradas polacos e romenos, desde 1987 foram húngaros, justificando a sua decisão pelas dificuldades econômicas e a falta de divisas. Em 1988 e 1989, a PSUA da RDA e partidos comunistas da Checoslováquia e Bulgária não pagaram as suas quotas sem nenhuma explicação formal. Em 1987 estes três partidos contribuíam com 2,3 milhões de USD, cerca de 13% do valor total do fundo. O chefe do Departamento Internacional do PCUS, Valentin Falin, informava o CC do PCUS sobre a receção dos “pedidos devidamente motivados” para o novo 1990, onde alguns partidos pediam o “aumento considerável” do subsídio.

A Perestroica já estava decorrer há três anos, o Ocidente financiava a URSS e os “reformadores” do PCUS procuravam as maneiras de substituir os subsídios diretos pela ajuda financeira via “empresas amigas”. Caminho complicado, como Anatoli Dobrynin, informava o CC do PCUS: “muitas empresas, controladas pelos partidos comunistas são economicamente fracas, com limitadas ligações e possibilidades comerciais, até dão prejuízo. Apenas as empresas de alguns partidos irmãos – francesas, gregas, cipriotas, portuguesas são capazes de realizar a cooperação comercial com as organizações soviéticas de comércio externo obtendo lucros consideráveis”.

Através deste Fundo, os comunistas franceses receberam entre 1969 e 1990 não menos que 44 milhões de USD, comunistas americanos cerca de 35 milhões, os italianos beneficiaram mais do que qualquer outro partido. No total, Moscovo distribuiu cerca de 400 milhões de USD, sem contar com outras formas de financiamento. Parcialmente isso era o dinheiro ocidental, que os capitalistas ocidentais emprestaram à URSS para salvar os comunistas da “ala liberal” perante o ataque dos “conservadores”.  

Amigos italianos e espanhóis

Bureau Político mandava não apenas no partido, mas no estado. Por isso deliberou incumbir o Ministério do Comércio Externo à vender à empresa italiana “Interexpo” 600 mil toneladas de petróleo e 150 mil toneladas de gasóleo, com desconto de 1% à crédito no período de três-quatro meses para que a empresa obtivesse o lucro de cerca de 4 milhões de USD.

Oferecendo este tipo de lucros fabulosos, a URSS iria querer alguma coisa em troca. Vejamos o caso da empresa espanhola “Prodag S.A.” (ainda hoje ativa na Argentina), que negociava com União Soviética desde 1959 e em 1979 era responsável pelo 50% do comércio bilateral entre dois países. O presidente da empresa, Ramón Mendoza, ex-vice-presidente de Real Madrid, já em 1979, afirmava numa entrevista que “não tinha a mínima vinculação com os serviços de informação soviéticos” (ABC 25/04/1979, p. 93), isso é, logo após publicar na Espanha o livro de Leonid Brejnev: “Paz, desarmamento e as relações soviético – americanas”.

Em 1981 estas “empresas amigas” abriram em Moscovo 123 representações suas. Será que alguém sabe o que elas faziam além do comércio e mais importante, o que fazem agora?

Frente ideológica

Empresa V/O Mezhdunarodnaya Kniga (pediu a bancarrota judicial em 2012) se dedicava à abertura das livrarias que vendiam os livros e imprensa soviética no estrangeiro. A criação e funcionamento das lojas eram cobertos pelos créditos soviéticos, quase nunca devolvidos, as dividas do próprio comércio eram perdoadas consoante “pedidos das lideranças dos amigos”. As despesas eram variáveis. A abertura da livraria “Collets” em Londres custou 80 mil libras. A abertura de uma loja semelhante em Montreal custou apenas 10.000 dólares canadianos. Os valores “perdoados” também diferem, entre 12.300 rublos expressos em divisas (1 rublo expresso em divisas equivalia à cerca de 1,33 USD) à livraria do PC de Israel, «Popular bookshop» em 1969, 56.500 rublos expressos em divisas à livraria do PC belga «Du monde entier» até 300.000 USD às empresas dos comunistas americanos «Four Continent Book Corporation», «Cross World Books & Periodicals» e «V. Kamkin». Até na longínqua Austrália a empresa do partido socialista local «New Era Books & Records» devia à Moscovo 80.000 rubos expressos em divisas.

É difícil avaliar o prejuízo total deste “comércio”, mas se sabe que em 1967 “Mezhdunarodnaya Kniga” exportou aos países capitalistas no valor de 3,9 milhões de rublos expressos em divisas, o valor total da divida por pagar era 2,46 milhões e divida não paga 642 mil. Mas as exportações continuaram e em 1982 foram “perdoadas” as dívidas no valor de 460.000 USD às empresas do PC americano, «Imported Publications» e «International Publishers».

Além disso, a URSS fornecia gratuitamente o papel para as edições dos “partidos irmãos”, através de um fundo especial, criado em 1974. Apenas em 1980, este fundo forneceu ao estrangeiro 13.000 toneladas de papel, aos preços soviéticos isso poderia custar algo como 3,5 milhões de rublos por ano (1 USD equivalia aos 0,59 rublo). No dia 1 de janeiro de 1989 o fundo foi liquidado e o primeiro-ministro soviético, Nikolay Ryzhkov ordenou que “os gastos, ligados à fabricação e fornecimento de papel de jornal, pelas contas do fundo especial, criado para satisfação das necessidades dos partidos irmãos, devem constar na rubrica do orçamento estatal da URSS para a concessão da ajuda graciosa aos países estrangeiros”.

A URSS também praticava a compra das publicações produzidas pelos “partidos irmãos”, alegadamente, para a venda aos turistas estrangeiros e estudantes dentro da URSS. Não se sabe ao certo quando foi gasto nesta rubrica, mas só em 1989 a URSS adquiria e transportava 90 publicações dos 42 países, gastando para o efeito 6 milhões de USD por ano (4,5 milhões de rublos expressos em divisas).

Em 1989 em Moscovo viviam 33 correspondentes destas “edições irmãs”, ocupando 30 apartamentos e 7 escritórios. Além dos salários, eles tinham telefone, telex e correio gratuito, reparações grátis dos apartamentos e escritórios, viagens dentro e fora da URSS, assistência médica e tratamentos climáticos, tudo isso pago pela Cruz Vermelha Soviética (desde década de 1950, provavelmente por razões de conspiração). Praticamente todos os correspondentes tinham um secretário-referente que também recebia o salário no Comité Executivo da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho da URSS. A totalidade dos gastos relacionados com este grupo superou 1 milhão de USD.

E claro, sem esquecer os líderes dos “partidos irmãos”. Em 1971, o CC do PCUS alocou 3,2 milhões de rublos expressos em divisas para a recepção no país da chefia destes partidos, esperando receber 2900 pessoas, dos quais 100 pretendiam passar por algum tratamento médico.

Caso de El Salvador

Uma outra forma de “solidariedade internacional”, praticada pela URSS, era chamada nos documentos secretos soviéticos de “preparação especial”. Em apenas dez anos, entre 1979 e 1989, mais de 500 ativistas de 40 partidos comunistas e “operárias” dos diversos cantos do mundo passaram essa preparação, incluindo os membros dos comités centrais e bureau políticos destes partidos.

O caso de El Salvador é um exemplo gritante dessa “solidariedade internacional” e da cegueira política ocidental. Já assisti dezenas de filmes americanos dedicados de uma ou de outra maneira à “culpa dos EUA no El Salvador” (RED – Aposentados e Perigosos; Crimes em Primeiro Grau) e não conheço nenhum que revelasse o papel ativo da URSS e do KGB no conflito.

No dia 23 de julho de 1980, Schafik Handal, secretário-geral do partido comunista do El Salvador (PCS) escreve aos “queridos camaradas” em Moscovo e pede a receção dos “30 membros da nossa juventude comunista” aos cursos de preparação militar: 6 camaradas para o perfil de “inteligência militar”; 8 para “comandantes das unidades insurgentes”; 5 para “chefes da artilharia”; 5 para “chefes das unidades de sabotagem”; 6 para “radiocomunicações”.

O Departamento Internacional do CC do PCUS concorda, ordena a organização dos respetivos cursos com duração de 6 meses e delibera que todos os gastos inerentes dos mesmos, além do transporte dos “estudantes” até El Salvador serão pagos pelo Ministério da Defesa da URSS (Mikhail Gorbachov está entre os responsáveis que assinaram a deliberação).

À seguir, o CC do PCUS ordena o transporte de 60-80 toneladas de armamento ligeiro e munições do fabrico ocidental [1], (oferecido ao PCS pelo Vietname), da cidade de Hanói para Havana em setembro-outubro de 1980, para a entrega através dos “camaradas cubanos” aos “amigos salvadorenhos”. O responsável pelo transporte é o Ministério da Aviação Civil da URSS; o financiamento é assegurado pelo fundo do orçamento estatal da URSS da “ajuda graciosa aos países estrangeiros”. Mais uma vez, Gorbachov assina o documento.

O embaixador soviético em Havana recebe o telegrama secreto: “Repassem ao secretário-geral do CC do Partido Comunista de El Salvador, camarada Schafik Handal […] que o seu pedido sobre o transporte de armas do fabrico ocidental de Vietname para Cuba foi visto na instituição e recebeu a decisão positiva. […] Para o vosso conhecimento: a entrega das armas será feita pelos aviões de Aeroflot. Oferecem a colaboração necessária para a organização da entrega na cidade de Havana desta carga aos camaradas cubanos para os amigos salvadorenhos. Informem sobre a execução”.

E por fim, a parte final: crise repentina naquele país, o sofrimento das populações e os crimes, mas não dos grupos da sabotadores comunistas, que receberam a “preparação especial” na URSS, mas do governo local que se defende como pode e que é chamado na imprensa “progressista” de “junta sangrenta”. Um pequeno trecho da “solidariedade internacional” que até nos dias de hoje produz as suas sequelas violentas.

Psiquiatria punitiva
Mas nem todos os “amigos da URSS” eram obrigatoriamente pagos, por vezes as pessoas pretendiam servir a ditadura soviética por razões ideológicas. Um dos casos é do psiquiatra e neuropatologista português, deputado do PS, Professor António Fernandes da Fonseca. No último dia da sua visita à URSS, em 1977, o Professor informou o jornalista e representante soviético, Yuri Zhukov, sobre os alegados “perigos” do VI Congresso Mundial de Psiquiatria (Honolulu – Havaí, 28/8 – 3/9 de 1977), onde os “ativistas anti-soviéticos americanos” pretendiam “organizar uma campanha anti-soviética feroz”, baseada nas “afirmações caluniosas” que URSS usava as clínicas psiquiátricas para o internamento compulsivo dos dissidentes.

Professor Fernandes da Fonseca pretendia receber, da parte soviética, os dados relativos aos casos, que ele pretendia compartilhar com “os psiquiatras proeminentes dos outros países da língua oficial portuguesa”. Fernandes da Fonseca estava decidido provar a “absurdidade das acusações americanas”, por isso queria ver “o diagnóstico e os dados do tratamento” dos dissidentes, casos de Leonid Plyushch, Vladimir Bukovsky e outros, para provar que eles não são “vítimas inocentes”.

Fontes:
Vladimir Bukovsky, “Processo de Moscovo” / “Jugement à Moscou”:

Blogueiro:

Em Portugal, os médicos que colaboravam com PIDE-DGS foram ostracizados pela classe após 25 de abril. Aqui temos um caso do médico português que procura os contatos com uma ditadura para oferecer os seus serviços, tentando justificar os atropelos da lei e as torturas terríveis, infringidas às pessoas cuja única culpa era o delito de opinião. O psiquiatra estava disposto a divulgar os dados pessoais dos prisioneiros de consciência, sem reparar na falta gritante da ética desta intenção e não se importar com a violação clara do Juramento de Hipócrates do caso. Após a queda do Murro de Berlim, António Fernandes da Fonseca nunca pediu desculpa às vítimas do regime soviético. Dr. Fonseca faleceu em 16 de dezembro de 2014 sem nunca aproveitar a oportunidade de pedir as desculpas públicas ou mesmo privadas pela sua colaboração com o regime opressivo soviético no encobrimento de crimes da ditadura comunista…

sexta-feira, setembro 14, 2012

Ucranianos como “estrangeiros inimigos” no Canadá


A URSS não foi única potência a maltratar os ucranianos. O Canadá democrático também tem culpa no cartório e não se apressa em reconhecer os crimes, discriminação e o preconceito contra os ucranianos.

por: Pierre-André Normandin

Durante a Primeira Guerra Mundial dezenas de milhares dos imigrantes do Leste Europeu forma classificados no Canadá como “estrangeiros inimigos”, detidos e presos em 20 acampamentos. Um dos primeiros centros de detenções para o efeito foi inaugurado na cidade de Montreal em 13 agosto de 1914.

Apesar dos repetidos pedidos dos ucranianos, a cidade sempre se recusou colocar uma placa em frente da prefeitura, onde estava o centro de detenção, da onde ucranianos presos na província de Quebeque eram transportados até os campos de trabalhos forçados.

A porta-voz da cidade, Jacques-Alain Lavallée, justifica a insensibilidade da sua cidade pelo facto de que a detenção dos estrangeiros era de responsabilidade do governo central da Canadá.

Lubomyr Luciuk, o líder da Associação ucraniano-canadenses das Liberdades Civis, estima que cerca de 8.500 “inimigos estrangeiros”, passaram pelo Montreal, destes cerca de 5.000 eram ucranianos.

terça-feira, setembro 11, 2012

Brasil e Portugal nos Arquivos Soviéticos

Os mecanismos usados pela União Soviética e do seu partido comunista (PCUS) no financiamento e treino dos elementos dos “partidos amigos” não foram devidamente estudados até agora. Neste contexto é muito útil a coletânea dos documentos secretos do Comité Central e do Bureau Político do PCUS, disponíveis on-line para a consulta pública. Os documentos, na sua maioria, foram copiados em 1992 pelo dissidente Vladimir Bukovsky (em 1976 libertado da prisão soviética em troca pelo comunista chileno Luis Corvalán) e são conhecidos pelo nome genérico de Arquivos Soviéticos.

O arquivo é dividido em nove capítulos, desde a ideologia e política do PCUS, passando pelas repressões ao movimento dissidente até a invasão do Afeganistão e situação na Polônia em 1980. Cronologicamente, o arquivo também cobre o período da Perestroica (engana-se quem pensa que Gorbachov acabou com as ingerências da URSS e do KGB no exterior). A título do exemplo, em 14 de fevereiro de 1990 (documento № CT112/27), o Comité Central (adiante CC) do PCUS decidiu satisfazer o pedido da liderança dos Partidos Comunistas da Argentina e do Chile em permitir o “treino especial” dos 5 argentinos e 4 chilenos. Os camaradas iriam aprender na URSS as “questões ligadas à segurança do partido e dos seus líderes, incluindo os meios técnicos”. [1]

Alias, a maioria dos partidos comunistas e socialistas da América Latina, solicitava a URSS o treino militar e ensino das técnicas de clandestinidade para os seus membros. No arquivo são publicados diversos documentos com os pedidos semelhantes e as deliberações positivas da liderança do PCUS em relação aos operativos comunistas da Argentina, Chile, Colômbia, Costa – Rica, El Salvador, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.

Mas voltando ao tema do nosso artigo, vejamos os casos do Brasil e do Portugal em pormenor…

No dia 8.V.1974, o secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Luís Carlos Prestes escreve a carta ao CC do PCUS, solicitando a admissão do camarada Leandro Leal para o curso da “preparação especial”. Carlos Prestes informa que camarada Leal é membro do PCB desde 1945, ele chefiava o partido no Paraíba, em 1964 foi colocado no Rio de Janeiro onde se dedicava às “atividade ilegais do aparelho clandestino do Comité Central”.

Já no dia 20.V.1974, o Secretariado do CC do PCUS deliberou (documento número CT125/145) que Leonardo Leal será recebido na URSS por um período de três meses e frequentará o curso de “preparação especial ligada à técnica partidária”. O curso e a “organização do programa da permanência do camarada Leal” seriam da responsabilidade do KGB. Já a sua “receção e serviços” seriam assegurados pelo Departamento Estrangeiro e pela Direção dos serviços do CC do PCUS. Todos os gastos na sua permanência na URSS, além das passagens aéreas Rio – Moscovo – Rio, iriam ser cobertas pelo “orçamento da receção dos funcionários partidários estrangeiros”.

No mesmo documento podemos ler que o treino se destinava a preparar Leonardo Leal para que ele esteja à altura de “encabeçar um grupo de camaradas, que iria funcionar em paralelo e independentemente do aparelho atual (do partido), no caso do revés do último”. O documento informa que a questão já foi coordenada com o chefe do KGB, Viktor Chebrikov. [2]

Passando quatro anos, aos 14.XI.1978, o mesmo Carlos Prestes escreve ao CC do PCUS solicitando a admissão do camarada Marcelo Santos, membro da Comissão Executiva do CC do PCB, nos cursos de curta duração (3-5 dias) de “atividades clandestinas”. O pedido é justificado pelo facto do que PCB finalmente criou o “centro dirigente do partido”.

De seguida, aos 7.XII.1978, o CC do PCUS deliberou (documento número CT137/29) positivamente sobre o pedido do PCB e ordenou que o seu representante seja admitido no curso da “preparação especial no trabalho ilegal e conspiração” com a duração de até três meses. A receção e os serviços ao Marcelo Santos eram assegurados pelo Departamento Estrangeiro, pela Direção dos serviços do CC do PCUS e pelo KGB. Os gastos ligados à permanência dele na URSS e as suas viagens forma cobertas pelo orçamento do PCUS.

O CC do PCUS justifica a necessidade de oferecer o curso do trabalho ilegal e conspiração ao facto da “necessidade de reforçar a liderança clandestina do PCB e os seus contatos com centros estrangeiros pelos quadros especialmente formados”. Desta vez o caso foi coordenado com o primeiro vice-chefe do KGB, Semion Tsvigun. [3]

Na década de 1980 Portugal vivia uma situação interna muito mais calma. Após o “verão quente” de 1975, o Partido Comunista Português (PCP) ficou convencido que não conseguiria transformar o país em uma ditadura comunista por via armada. Apesar disso, o PCP recebia um subsídio fixo, avaliado pelos historiadores em cerca de 1 milhão de USD anuais. O que não impedia o PCP fazer os pedidos “pontuais” para compra deste ou daquele item, que fazia falta na sua luta diária contra o grande capital especulativo e claro, pelos direitos dos trabalhadores portugueses.

Em abril de 1980, o camarada Octávio Pato, pediu o CC do PCUS financiar a compra dos “equipamentos especiais do fabrico estrangeiro para garantir a segurança do partido”. Em 13 de maio do mesmo ano, o CC do PCUS concordou (documento número CT210/62) e incumbiu o Ministério das Finanças da URSS alocar à Direção dos serviços do CC do PCUS as divisas no valor 2.500 rublos expressos em divisas (equivalente aos 3.000 USD). O CC do PCUS também deu a ordem ao KGB para comprar e fornecer os equipamentos aos “amigos portugueses”. A questão foi coordenada com o chefe do KGB, Yuri Andropov e os gastos forma cobertos pelo orçamento do PCUS. [4]

A documentação disponível não especifica o tipo dos tais “equipamentos especiais”, quem sabe se não eram os aparelhos de escutas, mencionadas recentemente pela ex-deputada Zita Seabra (ver o caso dos ar condicionados).  

Bibliografia


Consultar o Arquivo:

E claro, os historiadores e simplesmente amantes da história, serão deliciados a consultar The Yale Russian Archive Project (YRAP), que reúne diversa informação sobre os novos documentos disponíveis nos arquivos da ex-URSS:

sábado, setembro 08, 2012

Como URSS falsificava o seu passado histórico

A famosa anedota soviética dizia que na URSS não apenas o futuro, mas também o passado eram imprevisíveis. O esquema tecnológico dessa “correção da história” é descrito ao pormenor na distopia “1984” do George Orwell. Na URSS, os funcionários do “ministério da verdade”, não possuíam nem o Photoshop atual, nem a maquinaria orwelliana, mas usando métodos muito simples e temendo se transformar na estatística repressiva, faziam pequenos milagres de simplesmente fazer sumir todos os que caiam em desgraça política.

O britânico David King, designer e colecionador da arte soviética, o autor do álbum “The Commissar Vanishes: The Falsification of Photographs and Art in Stalin's Russia” (edição russa “Comissários desaparecidos. Falsificação das fotografias e das obras de arte na época de Estaline”), demonstra que na era do estalinismo na URSS mentiam até as fotografias.

No seu livro King reúne os originais das fotografias e as suas cópias “retocadas” pelos gráficos, para apagar as caras de certas pessoas, “retirar” objeto, pessoa (ou até o grupo de pessoas) da imagem.

A censura estalinista das fotografias era apenas uma parte de uma política mais ampla de falsificação da própria história. Desde os meados dos anos 1930, na URSS era impossível publicar, mostrar, afirmar em público, praticamente nada daquilo que poderia pôr minimalmente em duvida a autoridade suprema do Estaline como o chefe do povo soviético e líder das forças progressistas mundiais. O culto da personalidade se baseava no terror policial sem precedentes, chegando ao seu pico no fim dos anos 1930, mas continuava com pequenos “afrouxamentos” até a sua morte, em 1953.

Neste contexto funcionavam as falsificações, eles deveriam convencer o povo soviético que as aventuras catastróficas eram vitórias épicas, deveriam obrigar o povo a endeusar os criadores do sistema totalitário, exterminar qualquer pensamento mais leve sobre a possibilidade de caminhos ou resoluções alternativas. Qualquer pessoa que discordava do culto de personalidade do Estaline era imediatamente considerada criminoso, e até a memória da sua existência era apagada dos anais da história. Em primeiro lugar, o “desaparecimento” atingiu os líderes do partido-estado comunista.

David King não explica no seu álbum porque isso aconteceu, apenas mostra a tecnologia e a temporização deste desaparecimento (extrato de http://lib.rus.ec/b/369125).
Lavrentiy Beria: a sua cabeça, retirada da foto real, em fato civil, foi colocada no fardamento militar
(Beria gostou da foto e não pretendia "perder" o seu tempo com a mudança de fatos) 
A falsificação das fotografias na propaganda soviética tem uma história longa e uma escola tecnológica bastante avançada. Por vezes, as fotos eram simplesmente “retocadas”, pois as caras dos “amados líderes” não podiam ter imperfeições (nas fotografias oficiais Estaline não tinha marcas da sarna e mesmo Gorbachov ficava sem o seu sinal de nascença). Os retocadores podiam “trocar” a roupa às personagens. Por exemplo, Lavrentiy Beria gostou da sua fotografia, mas na publicação oficial quis trocar farda militar pelo fato civil.
Uma foto icónica, Lenine e Krupskaia, com as crianças na aldeia de Kashino. Na foto original eles estavam rodeados pelos adultos, mais tarde, vítimas da luta contra os kulaks e quase todos presos ou deportados. Como resultado, os adultos foram eliminados e o fundo da fotografia foi escurecido.
Entre oito personagens genuínas, retocador deixou apenas quatro. Na foto original, Frunze (segundo à esquerda), Voroshilov (quinto), Estaline (sexto) e Ordzhonikidze (oitavo), estão separados. Foram recortados com um bisturi fino e recolocados. O retocador falhou, no casaco do Frunze aparece uma sombra…

Um passeio junto ao canal Moscovo – Volga, último à direita é o Comissário Popular do Interior, Nikolay Yezhov. Mais tarde preso, julgado e fuzilado. Assim no seu lugar aparece um vazio, apenas a balaustrada e a água do canal.
Em 1948l o quadro “Lenine proclama o poder soviético no 2° Congresso dos Sovietes”, do pintor Vladimir Serov, ganhou o prémio Estaline. Neste quadro Estaline ficava ao lado do Lenine, o que quase certo, agradava o ditador. Já em 1962, durante a política de destalinização, o próprio Serov muda radicalmente as imagens do quadro. Juntamente com Estaline desaparecem Sverdlov e Dzherzhinsky: o trio é substituído pelas figuras alegóricas dos soldados revolucionários.

A mostra fotográfica “Comissário Desaparecido” em Moscovo:

Exposição “Comissário Desaparecido” online:

quarta-feira, setembro 05, 2012

Ativismo pré-pago mata na Ucrânia

autor@ SerhiyKolyada

A campanha eleitoral ucraniana fica cada vez mais marcada pelo aumento da tensão e da violência, em parte, fruto da vontade do Partido das Regiões vencer o escrutínio custe o que custar, para atingir a maioria parlamentar absoluta de 300 deputados eleitos.

No passado dia 28 de agosto, na cidade de Kyiv foi assassinado Ruslan Bagmut, o organizador dos comícios pagos, ligado aos interesses do Partido das Regiões. A informação foi avançada na rede social VK pelo seu lugar-tenente, Dmytro Shevchenko, que escreveu o seguinte: “Rapazes, desde hoje, o nosso chefe, Ruslan Bagmut não está vivo”.

Um dos coordenadores da campanha civil “Fórum da salvação de Kyiv”, Vitaly Cherniakhivsky informa, que Bagmut foi atirado pelos desconhecidos do 16° andar de um prédio em Kyiv.

O falecido foi conhecido como coordenador dos comícios e ações públicas pré-pagas. Ele recrutava os voluntários através da sua página na rede social VK, usava o perfil especial de recrutamento da mesma rede, chamado: “Trabalho: Eleições 2012, comícios / ações, pagamentos” (http://vk.com / vakansiya_kiev), que tinha mais de 10.500 usuários.

Muitas vezes os “voluntários” reclamavam por causa das questões financeiras. Por vezes, após o fim dos comícios, o pagamento prometido não se efetuava. Nestes casos as “cabeças falantes” do Bagmut culpavam o cliente.

Um dos clientes habituais era o deputado do Partido das Regiões, Oleh Kalashnikov. A revelação foi feita pelo próprio Bagmut ao canal televisivo ucraniano, “Inter”:

“Eu queria contar, que o Partido das Regiões gama o dinheiro das pessoas. Dois dias atrás o comício foi encomendado pelo deputado do Partido das Regiões Oleh Kalashnikov. Ele disse que há que ir até o tribunal, pois haverá o julgamento da Yulia Tymoshenko. Grupo de apoio do Partido das Regiões. Prometeu 100 UAH (12,5 USD) por dia. […] Só eu reuni 280 pessoas. No total tivemos cerca de 2.000 pessoas. Ficamos de vigia todo o dia. O dinheiro não foi pago a ninguém”, disse Bagmut na entrevista.    


Nas redes sociais ucranianas, os blogueiros apontam dois possíveis autores da morte do Bagmut, os seus clientes político-partidários ou os “voluntários” que não foram pagos e sentindo-se desrespeitados, quiseram vingar-se. De qualquer maneira, os negócios da compra e venda da consciência cívica, definitivamente não fazem bem à saúde.

Fonte:

Blogueiro

A fotógrafa ucraniana Olena Bilozerska, ajuda-nos reconstruir o retrato do Ruslan Bagmut: natural de Kyiv, no final da década de 1980, ele pertencia aos movimentos juvenis informais. Após terminar o secundário se tornou o motorista do elétrico. No início dos anos 1990 abre o seu próprio negócio – uma papelaria. Desde os meados dos anos 2000 se dedicava à organização dos movimentos juvenis. Nos últimos anos trabalhava intensamente para o Partido das Regiões…

sábado, setembro 01, 2012

Bofony: a moeda da resistência ucraniana


Durante os longos anos da sua luta pela libertação nacional da Ucrânia, a Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) e o seu braço militar, Exército Insurgente Ucraniano (UPA), sentiam a necessidade de encontrar os meios para financiar a luta armada. E se o armamento era tomado em combate, comprava-se ou adquiria-se junto às diversas fontes, a alimentação, geralmente era fornecida pela população ucraniana.

Por isso a liderança da OUN-UPA produzia bofony (singular bofon, abreviatura que significa “fundo de combate”), o papel-moeda em formato de notas, com imagens de um só lado (mais raramente de ambos os lados), que continha os símbolos da Ucrânia independente, da OUN e da UPA e habitualmente possuía um valor facial fixo. Graças aos bofony, o apoio financeiro, material ou alimentício prestado ao OUN-UPA era aceite pelos cidadãos como uma espécie de letras de crédito da longa duração. Apesar do terror nazista e comunista, e do perigo real de ser considerado “apoiante dos bandidos”, a população guardava estas notas. Nos vários processos que permanecem nos arquivos do SBU aparecem as notas de diversos anos de emissão, o que permite supor que a moeda insurgente era usada pelos cidadãos para a poupança.

Criados para regular as relações materiais e financeiras entre os insurgentes e a população da Ucrânia, bofony são documentos importantes que mostram a base económica da guerrilha ucraniana. Graças aos símbolos da Ucrânia independente, aos slogans políticos sempre atualizados, estas notas eram vistas pelos ucranianos como um dos elementos do Estado e eram respeitados como tal. Além disso, várias notas representavam a arte gráfica insurgente, criadas pelos proeminentes artistas ucranianos: Nil Khasevych, Robert Lisowsky, Ivan Bahrianyi e dezenas de amadores, cujos nomes foram protegidos para sempre pelos pseudónimos e cifrónimos.

Um dos estudiosos da moeda insurgente, o vice-diretor do Arquivo Estatal da província de Ternopil, Oleh Klymenko, avalia que entre 1939 e 1952, a resistência ucraniana emitiu cerca de 500 diferentes tipos de bofony. Estas notas eram usadas em pelo menos 12 províncias ucranianas, mas também em Belarus, Polónia, Checoslováquia, Alemanha e Áustria. Existem as informações não documentadas que em 1954-1960, bofony eram produzidas no GULAG, em diversos campos de concentração soviéticos.
Autor: Nil Khasevych

Atualmente, a maior coleção de bofony (276 peças) pertence ao Museu Estatal do Serviço da Segurança da Ucrânia (SBU). O estudo mais completo sobre a moeda é da autoria do Oleh Klymenko, autor da monografia “Documentos monetários (bofony) da OUN, 1939-1952” (Kyiv, 2008).


A história de bofony

Os primeiros bofony foram emitidos na Galiza Ucraniana, mas desde 1943 foram amplamente usados na Volyn e em Rivne. Na Galiza, onde durante a II G.M., circulava o zloty de Cracóvia, a OUN emitia bofony com nominal de 5,10, 20 e 50 zloty. Também é conhecido bofon com nominal de 1 marco alemão.

Em 1944-1946, a liderança da OUN emite os bilhetes com os nominais de 4, 6 e 7, sem menção da unidade monetária. Já em 1945-1946, UPA-Norte emite a “Série de Volyn”, com nominais de 5, 10, 20, 50, 100, 300, 500 e 1000 karbovanets. A série foi desenhada pelo gráfico Nil Khasevych. As notas possuíam a qualidade gráfica superior e serviam de inspiração aos outros gráficos da resistência, pressupõe-se que havia planos de os usar em todo o território ucraniano.

Durante o período de Natal e Ano Novo, apareciam bofony com a temática anticolonial e religiosa: “Cristo Ressuscitou! Ressuscitará Ucrânia! Liberdade aos povos! Liberdade à pessoa! Morte aos tiranos!”

Acredita-se que em 1949 a resistência da OUN-UPA na Ucrânia Ocidental possuía o orçamento de cerca de 17 milhões de rublos.

Durante os trabalhos propagandísticos junto às populações das zonas libertadas ou com a forte presença da OUN-UPA, os insurgentes ucranianos explicavam às pessoas que os empréstimos financeiros seriam devolvidos após a proclamação e criação da Ucrânia independente. E é de notar que os guerrilheiros cumpriram a sua palavra. Hoje, na Ucrânia independente bofony é uma raridade numismática, a sua procura largamente supera a oferta e o preço corrente de algumas notas chega aos valores monetários proibitivos.

Ler mais: 

Descarregar o livro “Documentos monetários (bofony) da OUN, 1939-1952” gratuitamente (PDF ou TXT; 30,9 MB):