sexta-feira, setembro 14, 2012

Ucranianos como “estrangeiros inimigos” no Canadá


A URSS não foi única potência a maltratar os ucranianos. O Canadá democrático também tem culpa no cartório e não se apressa em reconhecer os crimes, discriminação e o preconceito contra os ucranianos.

por: Pierre-André Normandin

Durante a Primeira Guerra Mundial dezenas de milhares dos imigrantes do Leste Europeu forma classificados no Canadá como “estrangeiros inimigos”, detidos e presos em 20 acampamentos. Um dos primeiros centros de detenções para o efeito foi inaugurado na cidade de Montreal em 13 agosto de 1914.

Apesar dos repetidos pedidos dos ucranianos, a cidade sempre se recusou colocar uma placa em frente da prefeitura, onde estava o centro de detenção, da onde ucranianos presos na província de Quebeque eram transportados até os campos de trabalhos forçados.

A porta-voz da cidade, Jacques-Alain Lavallée, justifica a insensibilidade da sua cidade pelo facto de que a detenção dos estrangeiros era de responsabilidade do governo central da Canadá.

Lubomyr Luciuk, o líder da Associação ucraniano-canadenses das Liberdades Civis, estima que cerca de 8.500 “inimigos estrangeiros”, passaram pelo Montreal, destes cerca de 5.000 eram ucranianos.

terça-feira, setembro 11, 2012

Brasil e Portugal nos Arquivos Soviéticos

Os mecanismos usados pela União Soviética e do seu partido comunista (PCUS) no financiamento e treino dos elementos dos “partidos amigos” não foram devidamente estudados até agora. Neste contexto é muito útil a coletânea dos documentos secretos do Comité Central e do Bureau Político do PCUS, disponíveis on-line para a consulta pública. Os documentos, na sua maioria, foram copiados em 1992 pelo dissidente Vladimir Bukovsky (em 1976 libertado da prisão soviética em troca pelo comunista chileno Luis Corvalán) e são conhecidos pelo nome genérico de Arquivos Soviéticos.

O arquivo é dividido em nove capítulos, desde a ideologia e política do PCUS, passando pelas repressões ao movimento dissidente até a invasão do Afeganistão e situação na Polônia em 1980. Cronologicamente, o arquivo também cobre o período da Perestroica (engana-se quem pensa que Gorbachov acabou com as ingerências da URSS e do KGB no exterior). A título do exemplo, em 14 de fevereiro de 1990 (documento № CT112/27), o Comité Central (adiante CC) do PCUS decidiu satisfazer o pedido da liderança dos Partidos Comunistas da Argentina e do Chile em permitir o “treino especial” dos 5 argentinos e 4 chilenos. Os camaradas iriam aprender na URSS as “questões ligadas à segurança do partido e dos seus líderes, incluindo os meios técnicos”. [1]

Alias, a maioria dos partidos comunistas e socialistas da América Latina, solicitava a URSS o treino militar e ensino das técnicas de clandestinidade para os seus membros. No arquivo são publicados diversos documentos com os pedidos semelhantes e as deliberações positivas da liderança do PCUS em relação aos operativos comunistas da Argentina, Chile, Colômbia, Costa – Rica, El Salvador, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.

Mas voltando ao tema do nosso artigo, vejamos os casos do Brasil e do Portugal em pormenor…

No dia 8.V.1974, o secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Luís Carlos Prestes escreve a carta ao CC do PCUS, solicitando a admissão do camarada Leandro Leal para o curso da “preparação especial”. Carlos Prestes informa que camarada Leal é membro do PCB desde 1945, ele chefiava o partido no Paraíba, em 1964 foi colocado no Rio de Janeiro onde se dedicava às “atividade ilegais do aparelho clandestino do Comité Central”.

Já no dia 20.V.1974, o Secretariado do CC do PCUS deliberou (documento número CT125/145) que Leonardo Leal será recebido na URSS por um período de três meses e frequentará o curso de “preparação especial ligada à técnica partidária”. O curso e a “organização do programa da permanência do camarada Leal” seriam da responsabilidade do KGB. Já a sua “receção e serviços” seriam assegurados pelo Departamento Estrangeiro e pela Direção dos serviços do CC do PCUS. Todos os gastos na sua permanência na URSS, além das passagens aéreas Rio – Moscovo – Rio, iriam ser cobertas pelo “orçamento da receção dos funcionários partidários estrangeiros”.

No mesmo documento podemos ler que o treino se destinava a preparar Leonardo Leal para que ele esteja à altura de “encabeçar um grupo de camaradas, que iria funcionar em paralelo e independentemente do aparelho atual (do partido), no caso do revés do último”. O documento informa que a questão já foi coordenada com o chefe do KGB, Viktor Chebrikov. [2]

Passando quatro anos, aos 14.XI.1978, o mesmo Carlos Prestes escreve ao CC do PCUS solicitando a admissão do camarada Marcelo Santos, membro da Comissão Executiva do CC do PCB, nos cursos de curta duração (3-5 dias) de “atividades clandestinas”. O pedido é justificado pelo facto do que PCB finalmente criou o “centro dirigente do partido”.

De seguida, aos 7.XII.1978, o CC do PCUS deliberou (documento número CT137/29) positivamente sobre o pedido do PCB e ordenou que o seu representante seja admitido no curso da “preparação especial no trabalho ilegal e conspiração” com a duração de até três meses. A receção e os serviços ao Marcelo Santos eram assegurados pelo Departamento Estrangeiro, pela Direção dos serviços do CC do PCUS e pelo KGB. Os gastos ligados à permanência dele na URSS e as suas viagens forma cobertas pelo orçamento do PCUS.

O CC do PCUS justifica a necessidade de oferecer o curso do trabalho ilegal e conspiração ao facto da “necessidade de reforçar a liderança clandestina do PCB e os seus contatos com centros estrangeiros pelos quadros especialmente formados”. Desta vez o caso foi coordenado com o primeiro vice-chefe do KGB, Semion Tsvigun. [3]

Na década de 1980 Portugal vivia uma situação interna muito mais calma. Após o “verão quente” de 1975, o Partido Comunista Português (PCP) ficou convencido que não conseguiria transformar o país em uma ditadura comunista por via armada. Apesar disso, o PCP recebia um subsídio fixo, avaliado pelos historiadores em cerca de 1 milhão de USD anuais. O que não impedia o PCP fazer os pedidos “pontuais” para compra deste ou daquele item, que fazia falta na sua luta diária contra o grande capital especulativo e claro, pelos direitos dos trabalhadores portugueses.

Em abril de 1980, o camarada Octávio Pato, pediu o CC do PCUS financiar a compra dos “equipamentos especiais do fabrico estrangeiro para garantir a segurança do partido”. Em 13 de maio do mesmo ano, o CC do PCUS concordou (documento número CT210/62) e incumbiu o Ministério das Finanças da URSS alocar à Direção dos serviços do CC do PCUS as divisas no valor 2.500 rublos expressos em divisas (equivalente aos 3.000 USD). O CC do PCUS também deu a ordem ao KGB para comprar e fornecer os equipamentos aos “amigos portugueses”. A questão foi coordenada com o chefe do KGB, Yuri Andropov e os gastos forma cobertos pelo orçamento do PCUS. [4]

A documentação disponível não especifica o tipo dos tais “equipamentos especiais”, quem sabe se não eram os aparelhos de escutas, mencionadas recentemente pela ex-deputada Zita Seabra (ver o caso dos ar condicionados).  

Bibliografia


Consultar o Arquivo:

E claro, os historiadores e simplesmente amantes da história, serão deliciados a consultar The Yale Russian Archive Project (YRAP), que reúne diversa informação sobre os novos documentos disponíveis nos arquivos da ex-URSS:

sábado, setembro 08, 2012

Como URSS falsificava o seu passado histórico

A famosa anedota soviética dizia que na URSS não apenas o futuro, mas também o passado eram imprevisíveis. O esquema tecnológico dessa “correção da história” é descrito ao pormenor na distopia “1984” do George Orwell. Na URSS, os funcionários do “ministério da verdade”, não possuíam nem o Photoshop atual, nem a maquinaria orwelliana, mas usando métodos muito simples e temendo se transformar na estatística repressiva, faziam pequenos milagres de simplesmente fazer sumir todos os que caiam em desgraça política.

O britânico David King, designer e colecionador da arte soviética, o autor do álbum “The Commissar Vanishes: The Falsification of Photographs and Art in Stalin's Russia” (edição russa “Comissários desaparecidos. Falsificação das fotografias e das obras de arte na época de Estaline”), demonstra que na era do estalinismo na URSS mentiam até as fotografias.

No seu livro King reúne os originais das fotografias e as suas cópias “retocadas” pelos gráficos, para apagar as caras de certas pessoas, “retirar” objeto, pessoa (ou até o grupo de pessoas) da imagem.

A censura estalinista das fotografias era apenas uma parte de uma política mais ampla de falsificação da própria história. Desde os meados dos anos 1930, na URSS era impossível publicar, mostrar, afirmar em público, praticamente nada daquilo que poderia pôr minimalmente em duvida a autoridade suprema do Estaline como o chefe do povo soviético e líder das forças progressistas mundiais. O culto da personalidade se baseava no terror policial sem precedentes, chegando ao seu pico no fim dos anos 1930, mas continuava com pequenos “afrouxamentos” até a sua morte, em 1953.

Neste contexto funcionavam as falsificações, eles deveriam convencer o povo soviético que as aventuras catastróficas eram vitórias épicas, deveriam obrigar o povo a endeusar os criadores do sistema totalitário, exterminar qualquer pensamento mais leve sobre a possibilidade de caminhos ou resoluções alternativas. Qualquer pessoa que discordava do culto de personalidade do Estaline era imediatamente considerada criminoso, e até a memória da sua existência era apagada dos anais da história. Em primeiro lugar, o “desaparecimento” atingiu os líderes do partido-estado comunista.

David King não explica no seu álbum porque isso aconteceu, apenas mostra a tecnologia e a temporização deste desaparecimento (extrato de http://lib.rus.ec/b/369125).
Lavrentiy Beria: a sua cabeça, retirada da foto real, em fato civil, foi colocada no fardamento militar
(Beria gostou da foto e não pretendia "perder" o seu tempo com a mudança de fatos) 
A falsificação das fotografias na propaganda soviética tem uma história longa e uma escola tecnológica bastante avançada. Por vezes, as fotos eram simplesmente “retocadas”, pois as caras dos “amados líderes” não podiam ter imperfeições (nas fotografias oficiais Estaline não tinha marcas da sarna e mesmo Gorbachov ficava sem o seu sinal de nascença). Os retocadores podiam “trocar” a roupa às personagens. Por exemplo, Lavrentiy Beria gostou da sua fotografia, mas na publicação oficial quis trocar farda militar pelo fato civil.
Uma foto icónica, Lenine e Krupskaia, com as crianças na aldeia de Kashino. Na foto original eles estavam rodeados pelos adultos, mais tarde, vítimas da luta contra os kulaks e quase todos presos ou deportados. Como resultado, os adultos foram eliminados e o fundo da fotografia foi escurecido.
Entre oito personagens genuínas, retocador deixou apenas quatro. Na foto original, Frunze (segundo à esquerda), Voroshilov (quinto), Estaline (sexto) e Ordzhonikidze (oitavo), estão separados. Foram recortados com um bisturi fino e recolocados. O retocador falhou, no casaco do Frunze aparece uma sombra…

Um passeio junto ao canal Moscovo – Volga, último à direita é o Comissário Popular do Interior, Nikolay Yezhov. Mais tarde preso, julgado e fuzilado. Assim no seu lugar aparece um vazio, apenas a balaustrada e a água do canal.
Em 1948l o quadro “Lenine proclama o poder soviético no 2° Congresso dos Sovietes”, do pintor Vladimir Serov, ganhou o prémio Estaline. Neste quadro Estaline ficava ao lado do Lenine, o que quase certo, agradava o ditador. Já em 1962, durante a política de destalinização, o próprio Serov muda radicalmente as imagens do quadro. Juntamente com Estaline desaparecem Sverdlov e Dzherzhinsky: o trio é substituído pelas figuras alegóricas dos soldados revolucionários.

A mostra fotográfica “Comissário Desaparecido” em Moscovo:

Exposição “Comissário Desaparecido” online:

quarta-feira, setembro 05, 2012

Ativismo pré-pago mata na Ucrânia

autor@ SerhiyKolyada

A campanha eleitoral ucraniana fica cada vez mais marcada pelo aumento da tensão e da violência, em parte, fruto da vontade do Partido das Regiões vencer o escrutínio custe o que custar, para atingir a maioria parlamentar absoluta de 300 deputados eleitos.

No passado dia 28 de agosto, na cidade de Kyiv foi assassinado Ruslan Bagmut, o organizador dos comícios pagos, ligado aos interesses do Partido das Regiões. A informação foi avançada na rede social VK pelo seu lugar-tenente, Dmytro Shevchenko, que escreveu o seguinte: “Rapazes, desde hoje, o nosso chefe, Ruslan Bagmut não está vivo”.

Um dos coordenadores da campanha civil “Fórum da salvação de Kyiv”, Vitaly Cherniakhivsky informa, que Bagmut foi atirado pelos desconhecidos do 16° andar de um prédio em Kyiv.

O falecido foi conhecido como coordenador dos comícios e ações públicas pré-pagas. Ele recrutava os voluntários através da sua página na rede social VK, usava o perfil especial de recrutamento da mesma rede, chamado: “Trabalho: Eleições 2012, comícios / ações, pagamentos” (http://vk.com / vakansiya_kiev), que tinha mais de 10.500 usuários.

Muitas vezes os “voluntários” reclamavam por causa das questões financeiras. Por vezes, após o fim dos comícios, o pagamento prometido não se efetuava. Nestes casos as “cabeças falantes” do Bagmut culpavam o cliente.

Um dos clientes habituais era o deputado do Partido das Regiões, Oleh Kalashnikov. A revelação foi feita pelo próprio Bagmut ao canal televisivo ucraniano, “Inter”:

“Eu queria contar, que o Partido das Regiões gama o dinheiro das pessoas. Dois dias atrás o comício foi encomendado pelo deputado do Partido das Regiões Oleh Kalashnikov. Ele disse que há que ir até o tribunal, pois haverá o julgamento da Yulia Tymoshenko. Grupo de apoio do Partido das Regiões. Prometeu 100 UAH (12,5 USD) por dia. […] Só eu reuni 280 pessoas. No total tivemos cerca de 2.000 pessoas. Ficamos de vigia todo o dia. O dinheiro não foi pago a ninguém”, disse Bagmut na entrevista.    


Nas redes sociais ucranianas, os blogueiros apontam dois possíveis autores da morte do Bagmut, os seus clientes político-partidários ou os “voluntários” que não foram pagos e sentindo-se desrespeitados, quiseram vingar-se. De qualquer maneira, os negócios da compra e venda da consciência cívica, definitivamente não fazem bem à saúde.

Fonte:

Blogueiro

A fotógrafa ucraniana Olena Bilozerska, ajuda-nos reconstruir o retrato do Ruslan Bagmut: natural de Kyiv, no final da década de 1980, ele pertencia aos movimentos juvenis informais. Após terminar o secundário se tornou o motorista do elétrico. No início dos anos 1990 abre o seu próprio negócio – uma papelaria. Desde os meados dos anos 2000 se dedicava à organização dos movimentos juvenis. Nos últimos anos trabalhava intensamente para o Partido das Regiões…

sábado, setembro 01, 2012

Bofony: a moeda da resistência ucraniana


Durante os longos anos da sua luta pela libertação nacional da Ucrânia, a Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) e o seu braço militar, Exército Insurgente Ucraniano (UPA), sentiam a necessidade de encontrar os meios para financiar a luta armada. E se o armamento era tomado em combate, comprava-se ou adquiria-se junto às diversas fontes, a alimentação, geralmente era fornecida pela população ucraniana.

Por isso a liderança da OUN-UPA produzia bofony (singular bofon, abreviatura que significa “fundo de combate”), o papel-moeda em formato de notas, com imagens de um só lado (mais raramente de ambos os lados), que continha os símbolos da Ucrânia independente, da OUN e da UPA e habitualmente possuía um valor facial fixo. Graças aos bofony, o apoio financeiro, material ou alimentício prestado ao OUN-UPA era aceite pelos cidadãos como uma espécie de letras de crédito da longa duração. Apesar do terror nazista e comunista, e do perigo real de ser considerado “apoiante dos bandidos”, a população guardava estas notas. Nos vários processos que permanecem nos arquivos do SBU aparecem as notas de diversos anos de emissão, o que permite supor que a moeda insurgente era usada pelos cidadãos para a poupança.

Criados para regular as relações materiais e financeiras entre os insurgentes e a população da Ucrânia, bofony são documentos importantes que mostram a base económica da guerrilha ucraniana. Graças aos símbolos da Ucrânia independente, aos slogans políticos sempre atualizados, estas notas eram vistas pelos ucranianos como um dos elementos do Estado e eram respeitados como tal. Além disso, várias notas representavam a arte gráfica insurgente, criadas pelos proeminentes artistas ucranianos: Nil Khasevych, Robert Lisowsky, Ivan Bahrianyi e dezenas de amadores, cujos nomes foram protegidos para sempre pelos pseudónimos e cifrónimos.

Um dos estudiosos da moeda insurgente, o vice-diretor do Arquivo Estatal da província de Ternopil, Oleh Klymenko, avalia que entre 1939 e 1952, a resistência ucraniana emitiu cerca de 500 diferentes tipos de bofony. Estas notas eram usadas em pelo menos 12 províncias ucranianas, mas também em Belarus, Polónia, Checoslováquia, Alemanha e Áustria. Existem as informações não documentadas que em 1954-1960, bofony eram produzidas no GULAG, em diversos campos de concentração soviéticos.
Autor: Nil Khasevych

Atualmente, a maior coleção de bofony (276 peças) pertence ao Museu Estatal do Serviço da Segurança da Ucrânia (SBU). O estudo mais completo sobre a moeda é da autoria do Oleh Klymenko, autor da monografia “Documentos monetários (bofony) da OUN, 1939-1952” (Kyiv, 2008).


A história de bofony

Os primeiros bofony foram emitidos na Galiza Ucraniana, mas desde 1943 foram amplamente usados na Volyn e em Rivne. Na Galiza, onde durante a II G.M., circulava o zloty de Cracóvia, a OUN emitia bofony com nominal de 5,10, 20 e 50 zloty. Também é conhecido bofon com nominal de 1 marco alemão.

Em 1944-1946, a liderança da OUN emite os bilhetes com os nominais de 4, 6 e 7, sem menção da unidade monetária. Já em 1945-1946, UPA-Norte emite a “Série de Volyn”, com nominais de 5, 10, 20, 50, 100, 300, 500 e 1000 karbovanets. A série foi desenhada pelo gráfico Nil Khasevych. As notas possuíam a qualidade gráfica superior e serviam de inspiração aos outros gráficos da resistência, pressupõe-se que havia planos de os usar em todo o território ucraniano.

Durante o período de Natal e Ano Novo, apareciam bofony com a temática anticolonial e religiosa: “Cristo Ressuscitou! Ressuscitará Ucrânia! Liberdade aos povos! Liberdade à pessoa! Morte aos tiranos!”

Acredita-se que em 1949 a resistência da OUN-UPA na Ucrânia Ocidental possuía o orçamento de cerca de 17 milhões de rublos.

Durante os trabalhos propagandísticos junto às populações das zonas libertadas ou com a forte presença da OUN-UPA, os insurgentes ucranianos explicavam às pessoas que os empréstimos financeiros seriam devolvidos após a proclamação e criação da Ucrânia independente. E é de notar que os guerrilheiros cumpriram a sua palavra. Hoje, na Ucrânia independente bofony é uma raridade numismática, a sua procura largamente supera a oferta e o preço corrente de algumas notas chega aos valores monetários proibitivos.

Ler mais: 

Descarregar o livro “Documentos monetários (bofony) da OUN, 1939-1952” gratuitamente (PDF ou TXT; 30,9 MB):

quinta-feira, agosto 30, 2012

Ga(s)tos da campanha eleitoral


As eleições legislativas ucranianas prometem um outono quente e uma campanha eleitoral bastante gastadora para a maioria das forças político – partidárias.

Na primeira metade de julho de 2012 o Partido das Regiões gastou para a propaganda política outdoor cerca de 1 milhão de USD (8 milões de UAH), o Partido Comunista (que promete devolver o país ao povo) gastou 6 milões de UAH, Viktor Medvedchuk (milionário visto como Bidzina Ivanishvili ucraniano) – 5 milhões de UAH, informação avançada pela Doors Consulting, que se baseia no seu próprio monitoramento da situação.

Segundo a mesma empresa, o partido “Ucrânia para Frente” (o mesmo que “contratou” o ex-futebolista Andriy Shevchenko), gastou 2,5 milhões de UAH e o partido UDAR do pugilista Vitali Klitschko se ficou pelas 1,25 milões de UAH.

Durante o monitoramento, Doors Consulting, contabilizou não menos que 3000 billboards do Partido das Regiões, cerca de 2500 dos comunistas, 1170 da “Ucrânia para Frente”, 2000 do Medvedchuk, 707 da Oposição Unida e apenas 81 do UDAR, que começou a campanha só no dia 15 de julho.

Acredita-se que a publicidade televisiva custa aos partidos cerca de triplo daquilo que as mesmas forças gastam em outdoor. O custo dos diversos tipos da publicidade oculta não está contabilizado nestas contas.

Fonte:
http://tyzhden.ua/News/57945

domingo, agosto 26, 2012

Crimes de estalinismo: Dniproges

Nos dias 17-18 de agosto de 1941, o 157° regimento de guarda do NKVD e o tenente-coronel Boris Epov, receberam a ordem secreta do Estaline de explodir a maior hidroelétrica soviética – DniproHESEm resultado e devido ao afogamento, as estimativas mais conservadoras apontam a morte de cerca de 80.000 civis e 20.000 militares soviéticos.

Cituada na cidade ucraniana de Zaporizhia, o orgulho da industrialização soviética, DniproHES era uma cópia das hidroelétricas americanas, desenhada pela Freyn Engineering Company de Chicago. As suas turbinas hidráulicas foram fabricadas pela norte-americana Newport News Shipbuilding and Drydock Company. Em 1932, DniproHES era a maior e mais poderosa hidroelétrica europeia, produzindo cerca de 50% de toda a eletricidade usada nas indústrias da parte europeia da URSS. A hidroelétrica também elevou o nível do rio Dnipro em cerca de 37 metros.
Na noite de 17 para 18 de agosto de 1941, o exército alemão rompeu as defesas do Exército vermelho e a cidade de Zaporizhia estava condenada. A 274ª divisão de infantaria, completada pelos soldados inexperientes, empurrada pelos alemães, começou a sua retirada.

No dia 18 de agosto na represa da hidroelétrica foram colocados 20 toneladas de trotil, tapado com sacos de arreia para direcionar a força da explosão contra a crista da DniproHES. Os sapadores eram comandados pelo técnico principal do laboratório de minas e explosivos, engenheiro militar e tenente-coronel (segundo outras fontes, coronel), Boris Epov (Epin?), o mesmo que em 1931 comandou a destruição da Igreja do Cristo Redentor em Moscovo.

Segundo diversas fontes, a explosão que ocorreu entre 20h00 à 20h30, causou um rombo entre 100 e 165 metros na represa da hidroelétrica, através do qual uma onda gigantesca de 25-30 metros de altura avançou, causando a destruição total à sua passagem.
Foto alemã, após a explosão
Nem a população local, nem as unidades do Exército vermelho foram avisados de antemão. As aldeias inteiras, animais, colunas de refugiados, unidades militares, hospitais de campanha, não tiveram o tempo de se salvar e foram aniquilados momentaneamente. A onda gigantesca destruiu equipamentos militares e armazéns de alimentos e munições, afundou diversas embarcações da frota militar de Zaporizhia, juntamente com as suas tripulações. Foram atingidas as unidades da Frente Sul (2° Corpo da cavalaria, 9° e 18° Exércitos), que em combate se retiravam em direção ao Kherson. Uma parte dos militares se afogou, outros foram capturados pelos alemães, não conseguindo passar para a margem esquerda do rio Dnipro. A quantidade total das vítimas nunca foi contabilizada. As estimativas mais conservadoras apontam a morte de cerca de 80.000 civis e 20.000 militares soviéticos [1].

As perdas dos alemães foram avaliadas pelo comandante do 3° Corpo de blindados, coronel, mais tarde general, Hasso-Eccard von Manteuffel em cerca de 1500 homens. Os números semelhantes foram mencionados pelo general e marechal-de-campo alemão, Ewald von Kleist.

Crime e castigo
Foto alemã, após a explosão
A ordem formal foi assinada pelo marechal soviético Semion Budionny. Mas a liderança política e militar da Frente Sul, o chefe do Conselho Militar, general A. Zaporozhets e o chefe do Departamento político, Leonid Brejnev, não foram informados sobre a operação. Em consequência disso, Boris Epov e os seus subordinados diretos foram desarmados e entregues ao SMERSH. Por sua vez, SMERSH também não sabia da operação e durante 10 dias torturou Epov, exigindo confessar a alegada “traição da Pátria”.

Um outro responsável do Departamento político da Frente Sul, Mamonov, enviou um telegrama ao chefe do Departamento Político Geral do Exército, Lev Mekhlis:

Tenente-coronel Petrovsky … e tenente-coronel Epin (provavelmente Epov) … não informando o Conselho Militar da Frente, explodiram a represa e a ponte (a crista da represa funcionava e funciona com a ponte sobre o rio Dnipro) … os responsáveis foram detidos e entregues ao juízo do Tribunal militar”.

Apenas no dia 20 de setembro, após pôr Epov “em ordem” (colocação da maquilhagem para dissimular as torturas), ele foi enviado a Moscovo, onde no ano seguinte foi condecorado com Prémio Estaline de 1942-43 [2].

Quarenta e seis dias após a explosão, quando os alemães tomaram a cidade de Zaporizhia, a parte danificada de represa foi parcialmente reconstruída e no verão de 1942 a hidroelétrica renovou o seu funcionamento. Em 1943, deixando a cidade, os alemães novamente explodiram o que restava da DniproHES.   
  
Ver as fotografias:
set № 1 e ser № 2

Ver vídeo no YouTube:

Bibliografia


Blogueiro

Cerca de 100.000 cidadãos soviéticos foram sacrificados para atingir 1.500 alemães. Este era o preço terrível que os cidadãos da URSS tiveram de pagar pelo mito estalinista de “vencer o inimigo à custa do pouco sangue no seu próprio território”. Após o fim da II G.M., durante o julgamento de Nuremberga, a URSS apresentou a caso de destruição de DniproHES como um dos crimes nazis. E Alemanha teve que pagar pelo crime comunista.

sábado, agosto 25, 2012

7671 dias da Independência ucraniana


A Ucrânia comemorou no dia 24 de agosto o seu 21° aniversário da Independência nacional.

Nos dois últimos anos o país vive sob a ocupação cultural, social, política e linguística de um governo regional que não está a trabalhar em prol da nação ucraniana. Embora ainda não está a viver a ditadura, neste aspeto Ucrânia está muito mal servida, pois, por exemplo, enquanto os ditadores latino-americanos não eram os democratas, pelo menos eram patriotas dos seus países. O grupo que comanda Ucrânia é composto pelos patriotas e até os cidadãos dos países estrangeiros, muitos dos quias simplesmente odeiam Ucrânia e a prejudicam em tudo que podem…

No entanto, apesar disso tudo, apesar da ocupação estrangeira que durou mais de 300 anos, apesar do Holodomor, das repressões e das vidas dadas pela Independência, Ucrânia existe e isso já é um pequeno, mas importante milagre.

Na primeira foto: “capacetes azuis” ucranianos em Kosovo colocaram a bandeira ucraniana no topo da Ljuboten (2.498 m), pico que entra na lista das montanhas mais altas do país.

quinta-feira, agosto 23, 2012

Recordar as vítimas do comunismo e do nazismo

Heinz Guderian e Semyon Krivoshein

No dia 23 de agosto é celebrado o Dia Europeu da memória das vítimas do estalinismo e do nazismo (também conhecido como o Dia Internacional do Laço Negro).

Neste dia devemos recordar mais uma vez a parada conjunta soviética e nazi na cidade de Brest-Litovsk, que teve o lugar no dia 22 de setembro de 1939. A parada foi comandada pelo general alemão Heinz Guderian e comandante da brigada soviética, Semyon Krivoshein. Era o ponto mais alto na amizade dos dois ditadores que dividiam a Europa entre as zonas da sua influência.




E não esquecem de visitar a exposição virtual GULAG do Museu Global do comunismo.

terça-feira, agosto 21, 2012

As maravilhas da culinária soviética


Aproxima-se mais um aniversário do desaparecimento da União Soviética. Neste dia memorável é sempre instrutivo recordar as coisas e os processos que morreram juntamente com o “país de operários e camponeses”.

A União Soviética foi um dos líderes mundiais em destruição da culinária como uma arte. O défice permanente de produtos mais elementares, os roubos cósmicos nos locais de “alimentação comum” (eufemismo soviético para as locais de venda de alimentos confecionados, situados nas empresas, nos estabelecimentos de ensino, diversas cantinas e afins), ajudaram a cimentar essa posição pouco honrosa. A falta da ordem, consequência da ausência do proprietário, arrumou o assunto.

Frutas e legumes frescos praticamente não se vendiam nas lojas fora da sua época. No outono, inverno e primavera, nas lojas especializadas em venda de legumes era possível comprar a batata, cenoura, beterraba, repolho, na sua maioria sujos, cheios da terra, no parcial estado ligeiro de decomposição. Por vezes as mesmas lojas vendiam o repolho picado, melões inteiros conservados em tambores de madeira e maças, frescas ou também conservadas. Nas capitais das repúblicas soviéticas, de vez em quando, se vendiam as laranjas gregas ou marroquinas. As bananas apareceram em venda livre só na década de 1990.

Esparguete e macarrão muitas vezes tinham a cor cinzenta, situando-se à anos-luz da original pasta italiana. “Pelmeni” (ravioli) eram vendidos em caixas de cartolina, as peças facilmente se “colavam”, transformando-se em massa única e pegajosa, para as separar era preciso usar uma faca. Chamavam-se “Russos” e eram produzidos com um único sabor em toda a URSS.

Leite e nata eram vendidos em garrafas ou em pacotes triangulares que costumavam rebentar pelas costuras ou pelo menos pingar, sujando a roupa ou outros produtos que a dona de casa soviética teve a sorte de “apanhar” (eufemismo que significava comprar).

Peixe podia ser congelado, era a carpa viva ou em conserva. O conceito de peixe fresco era totalmente desconhecido, assim como as ostras, búzios, caranguejos, camarões ou polvo. A lula era vendida de vez em quando.

Especiarias e temperos: pimenta preta e malagueta, cravinho. Mais nada.

Chá e café: quase lixo, os restos que sobravam após o melhor chá georgiano era exportado ao Ocidente, pois o país precisava das divisas (que depois eram usadas para financiar os partidos e organizações comunistas ou pelo menos anti – Ocidentais). Café instantâneo soviético era simplesmente mau…

Almôndegas nas cantinas eram feitas de pão, alho e mais pão. As nojentas sopas de leite com aletria. Fígado que os cozinheiros sabiam transformar em pedra. Cerveja aguada.

Carne nas lojas tinha mais ossos do que a própria carne. Numa grande parte do território da Rússia Soviética (região de Volga, Rússia Central), a carne não aparecia no comércio estatal, as pessoas viajavam até Moscovo para comprar a mortadela. O único tipo de mortadela vendido naquelas regiões e mesmo assim, muitíssimo raramente, custava 1,60 copeque por quilo e era conhecida na Ucrânia como “felicidade de cão” (ucranianos a usavam para alimentar os seus cães e gatos).

Frangos: as pessoas contavam as anedotas sobre os frangos azuis. Uma anedota típica descrevia o ocidental crédulo que ficava deslumbrado com a suposta superioridade socialista ao ver uma fila enorme que esperava pelos “frangos deitados fora” (calão soviético que significava “em venda livre”). Depois de ver os frangos de perto ele dizia: “No meu país também deitamos fora os frangos desta qualidade”.

Queijo se vendia apenas dois, no máximo quatro tipos diferentes. A existência de Parmesão só era conhecida através do cinema e da literatura.

Vinhos: mixórdia de 0,5 que custava 0,92 copeque e se chamava “vinho de frutos e bagos”. Portveine “777”. Ninguém adivinhava que o verdadeiro Vinho de Porto é um vinho espirituoso saboroso e nobre.
Pela felicidade dos cozinheiros e adeptos de alimentos saborosos, este mal nos deixou para sempre!

Bónus

O blogueiro inbelousov, farmeiro e dono de uma rede de supermercados recorda a sua própria juventude.

Cresci na província de Kurgan. Pela primeira vez provei o chouriço em 1977 no Palácio dos Desportos na cidade de Chelyabinsk, quando foi ver o circo de Moscovo. Até agora me lembro os pedaços finíssimos colocados no pão. Bananas uma vez o pai trouxe de Leninegrado, em 1976. Tangerinas só apareciam nas prendas do Ano Novo. 

Em 1984 após a graduação na escola militar foi servir no Extremo Oriente russo, na província de Amur, aldeia Srednebelaya-2. A carne era vendida apenas aos portadores de talões, cada pessoa tinha direito aos 500 gramas mensais. Eu e a minha esposa tivemos o direito de 1 kg de carne. Na loja da guarnição se vendia a farinha, ovos, pasta de tomate e “salada Jager”. Mais nada. Essa era a Rússia onde eu vivia, este era o poder soviético para mim.

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