Sugerimos uma opção para o presente de Natal. Os livros: “Os Ucranianos no Brasil” – editado na Ucrânia – em português, inglês e ucraniano – custo R$ 60,00 + R$ 10,00 para a remessa postal registrada no Brasil e “Pêssanka” de Eduardo Sganzerla, editado em português (também disponível em inglês e ucraniano) – custo R$ 50,00 + R$ 10,00 para a remessa postal registrada no Brasil. Quem reside em Curitiba poderá comprar os livros na Rua Brigadeiro Franco, Nr. 374 – segundas, quartas e sextas feiras entre 9h00 e 12h00, sem a necessidade de pagar a remessa postal. Demais cidades, depositar o dinheiro na conta da Representação Central Ucraniano Brasileira – RCUB – Banco Itaú – Agência n.º 3813 – Conta 12848-9 e enviar o scan do recibo e o endereço para remessa postal para o e-mail: rcucranianobrasileiraarrobagmailpontocom
sábado, dezembro 03, 2011
sexta-feira, dezembro 02, 2011
O espírito de liberdade para Ucrânia
O deputado da Assembleia Nacional da França, Christian Vanneste, propôs por duas vezes a discussão do anteprojecto da Lei sobre o reconhecimento do Holodomor como o genocídio do povo ucraniano. Apesar do que em 2009 o Parlamento Europeu reconheceu o Holodomor de 1932-1933 como o crime contra a humanidade, o parlamento francês não legislou no mesmo sentido. Porque?
CV: Tudo é muito simples. O extermínio das pessoas em massa, perpetuado pelo regime do Stalin nos anos 1930 não parece com mais nada, mas com genocídio. Essa vontade permanente de exterminar os ucranianos assombra ainda mais, pois Ucrânia sempre teve a reputação de ser a produtora principal de trigo, primeiramente do Império russo e depois da URSS. Para mim sempre foi importante, por um lado, a simbologia política desta tragédia, para mostrar o sentido desumano dos regimes totalitários comunistas. Por outro lado, eu queria mostrar a solidariedade com o povo ucraniano. Eu considero que para os ucranianos aquele período das provas horríveis, ao mesmo tempo se tornou o momento do nascimento de uma nação ucraniana política e moderna.
Estes argumentos não convenceram os seus colegas – deputados, de maneira que não foram reunidas 100 assinaturas que permitissem a votação do projecto.
CV: Existem três razões. Primeira, existiu a comissão especial dedicada às questões históricas. [...] Comissão decidiu que não se deve aprovar novas leis históricas, mas aprovar as resoluções. Agora o meu grupo político que se chama La Droite Populaire, em breve apresentará o projecto da resolução sobre Holodomor. Segunda razão, reconhecer Holodomor é sem duvida um acto de estabelecimento da verdade histórica. Tal como no caso do fuzilamento dos oficiais polacos em Katyn, se trata de reconhecer a verdade da direita e a não verdade da esquerda. Como vocês, certamente, sabem, ideologicamente, na França a ideologia da esquerda é mais disseminada do que da direita. [...] Terceira razão é especificamente ucraniana. Os ucranianos não são numerosos na França, eles não têm muita influência política. [...] Por isso exorto os ucranianos se engajar mais activamente na exigência da verdade.
Dos 5 manuais da história, actualmente em uso nas escolas da França, apenas dois mencionam Holodomor e mesmo assim, no contexto dos “efeitos secundários da colectivização”...
CV: Basta recordar Katyn, não se diz absolutamente nada sobre essa tragédia nos manuais, pois muitos deles até agora se encontram sob a influência da ideologia comunista.
Nas últimas eleições europeias, o partido do Cristian Vanneste, Centro Nacional dos Independentes_e Camponeses teve no seu programa a exigência da atribuição à Ucrânia o estatuto do candidato à UE. [...] Hoje, quando Ucrânia se engajou nas negociações sobre o estatuto de associação e sobre a zona do comércio livre, França assumiu a posição bastante dura em relação às constantes violações da supremacia do direito...
CV: E como será diferente, se as prisões de um certo número dos políticos possuem o contexto político claro? Durante a Revolução Laranja, Ucrânia fez um grande passo para estabelecer um regime realmente democrático. Hoje este processo foi travado. Eu tenho a impressão do que o vosso país, que tem uma história antiga e peculiar, uma herança cultural interessante, agora tenta construir a sua identidade moderna. Não sem problemas e não sem as próximas dificuldades. [...]
Quando as portas são abertas, sempre aparece o espírito de liberdade. Não sou adepto dos boicotes e isolamentos. [...] Ucrânia é um grande país, rico em recursos. Mesmo se hoje a caminhada para a democracia ficou mais lenta, acho que seria errado castigar todo o povo ucraniano por causa dos problemas que surgiram no poder ucraniano no domínio do uso da justiça.
Fonte:
http://www.ut.net.ua/Society/36144quinta-feira, dezembro 01, 2011
Realismo socialista como comodidade política
O filme documentário “Klucis: a Desconstração de um Artista” (Klucis. Nepareizais Latvietis, 2008), que tive a oportunidade de assistir recentemente no Eurochannel conta soberbamente a tragédia humana do génio letão que serviu o regime totalitário da URSS e que acabou por ser devorado por este mesmo regime.
Gustav Klucis nasceu na Letónia rural no seio de uma família numerosa, com início da I G.M., foi mobilizado para o exército russo. Após a revolução de 1917, Klucis decide ficar na Rússia, sem saber que nunca mais irá ver a família que ficou na Letónia. Naquele momento Letónia, provavelmente, perdeu o seu artista mais talentoso, nas cartas, Klucis diz que pretende se tornar o “melhor artista do mundo”, e a URSS ganha mais uma alma empregue na “frente” propagandística, incumbida de enaltecer o regime.
As obras do Klucis têm bastante aceitação. Principalmente os retratos gigantes dos “amados líderes”, Lenine e Stalin. A sua técnica de colagem, que mistura fotografias, linhas rectas e palavras de ordem, é vista com menos entusiasmo. Artista se defende nos artigos publicados, reivindicando o direito de “experimentação”. Por enquanto o regime aceita...
Anos 1935 – 1937, auge da bajulação total do Stalin, cujo nome é ostentado em tudo: fabricas, kolkhozes e canais de navegação, nas paradas militares os aviões voam, formando a palavra Stalin, ovações intermináveis nos congressos (cada um dos presentes com muito receio de ser primeiro a parar de bater as palmas), gritos “Viva Stalin, viva Stalin” e brindes ao “camarada Stalin” nas reuniões públicas.
Em 1937 Klucis é destacado para a Exposição de Paris, onde União Soviética e Alemanha nazi tentam se superar mutuamente, competem para provar a sua superioridade ideológica e lutam para conquistar a opinião pública ocidental. Klucis é empenhado na montagem das suas obras gigantescas no pavilhão soviético. De Paris, Klucis traz vários bens ocidentais (um par de fatos janotas, prendas para os amigos). Para a esposa, Valentina Kulagina, ele traz as bananas; fruta que ela saboreia pela primeira vez na vida.
A URSS é visitada pelos intelectuais ocidentais que se deslumbram com o comunismo soviético e com Stalin, Romain Rolland, Bertold Brecht, Bernard Shaw não sabem ou pretendem não saber a realidade das purgas e das repressões em massa. Os jornais publicam as obras gráficas do Klucis: “Pela fuga para o estrangeiro – fuzilamento”, “Pela não delação (da mesma fuga) – 10 anos de prisão”.
Valentina Kulagina em carta para Gustav Klucis: “Hoje visitei metro de Moscovo, metro é muito melhor do que a superfície. Lá fora estão as casas feias, o lixo”.
Em 1938 Gustav Klucis é preso. Em breve, a família é informada sobre a sua sentença: 10 anos sem o direito à correspondência. Ele pertencia ao partido comunista, servia ao regime, nunca se metia em nada suspeito. Família não entende o que se passa e acredita que houve “um erro” e que o erro brevemente será esclarecido.
Anos mais tarde, Valentina Kulagina escreve ao Kliment Vorochilov: “Disseram me que Gustav Klucis morreu em 16.03.1944, mas sem explicarem onde; solicito a revisão do seu caso, pois acredito fortemente que o bom nome do meu marido será reabilitado”...
Na realidade, Gustav Klucis foi executado em 26.02.1938, apenas 6 semanas após a sua detenção. Os carrascos da NKVD ordenaram a abertura de 16 valas comuns, cada uma com 3 metros de profundidade. Os documentos de arquivo não mencionam em qual das valas foi sepultado o corpo do Gustav Klucis. A sua culpa? Artista foi vítima da campanha generalista contra os letões. A origem étnica letã significava automaticamente que a pessoa era considerada como “anti-soviético”.
Hoje muitas das obras do Gustav Klucis são conhecidas por serem colectadas e preservadas pelo motorista da embaixada da Grécia em Moscovo. O filho do Gustav e da Valentina possui o apelido da mãe, Kulagin, dessa maneira ele escapou à terrível sina de ser constantemente apontado como um ChSIR, “membro da família de traidor da pátria”...
O filme foi dirigido pelo letão Peteris Krilovs e é uma co-produção da Letónia e França.
Bónus
Aconselho também assistir dois outros filmes documentários fabulosos, exibidos pelo Eurochannel:
“De Frente Para o Murro” (Gesicht zur Wand, 2010), do director Stefan Weinert, que conta a história dos cinco cidadãos da ex-RDA que procuram ultrapassar os traumas vividas durante o seu encarceramento nas cadeias comunistas de Stasi nas décadas de 1960 – 1980. Um dos heróis da película, também aparece no outro filme sobre o passado da Stasi, recentemente exibido pela Aljazeera English.
“Retrato Duplo de uma Moeda” (Monētas dubultportrets, 2008), do director Romualds Pipars é uma colectânea dos filmes caseiros de 8 mm da Letónia que foram filmados durante a ocupação comunista do país.
terça-feira, novembro 29, 2011
O meu comunismo familiar
O comunismo que chegou à Ucrânia nos anos 1920 trazido pelas baionetas do exército vermelho, atingiu os meus trisavôs em cheio. O descendente da pequena nobreza polaca, o trisavô perdeu quase todos os seus bens que foram lhe confiscadas em nome do “futuro brilhante” de toda a Humanidade...
A sua casa agradou a direcção do recém – criado kolkhoze, que lá se instalou, ficando na posse dos bens que eles tinham em casa: mobílias, utensílios, roupas, coisas que as pessoas adquirem durante as suas vidas. Os trisavôs receberam a generosa permissão de ficarem com a roupa que traziam no corpo, além de pudessem manter o violino (o trisavô tocava as polcas nos casamentos). E ficaram ainda com a máquina que expremia óleo, a partir das sementes do girassol. Desta maneira, até a sua morte, os trisavôs tiveram um pequeno meio de sustento que lhes permitia sobreviver com o mínimo da dignidade.
Incrivelmente benevolentes, as novas autoridades até deixaram os trisavôs a viver no seu próprio estábulo. Os seus animais: vaca, cavalo (o trisavô possuía pequena carroça que usava para se deslocar até a cidade mais próxima), porcos, também abalaram rumo ao socialismo científico, colocados nos estábulos kolkhozianos. Onde em breve muitos destes animais morreram, pois novas autoridades proibiam aos antigos donos de cuidarem dos seus bichos e não designaram absolutamente ninguém para trata-lo.
Por fim o kolkhoze mandou abater todas as arvores de um grande pomar, formado pelas macieiras e pereiras, que também pertencia aos meus trisavôs. As arvores “burguesas” deveriam dar lugar às culturas mais úteis aos proletários e camponeses. Como resultado, este novo campo nunca foi cultivado e se tornou um terreno baldio, cheio de ervas daninhas e arbustos inúteis...
Apesar de tudo isso, o filho do meu trisavô, meu bisavô, recebeu o comunismo de braços abertos. Doutrinado, provavelmente, durante o seu serviço na marinha czarista, ele voltou a Ucrânia no fim da I G. M., aderindo às rédeas do bolchevismo. A lenda familiar reza que bisavô servia nas fileiras da maquina repressiva, embora não se sabe ao certo nas quais: Tcheka?, Chon?, GPU? Mesma lenda conta que uma vez no Outono, os homens do chefe insurgente ucraniano Zeleniy (Danylo Terpylo) vieram a procura do bisavô e dos seus. Ele não estava em casa e a bisavó teve que se esconder às pressas dentro da meda de feno. Os intrusos picaram a meda com as baionetas, uma deles perfurou a xaile da bisavó. Seja por causa do susto extremo, seja porquê ficou constipada, ela adoeceu e morreu de seguida.
![]() |
| O chefe Zeleniy (sentado) com os seus homens |
Nas vésperas do Holodomor, a sua filha, a
minha avó, foi levada para a cidade pelo seu irmão mais velho, que a colocou a
estudar na escola técnica e ensinou a falar russo. Ninguém da minha família
directa faleceu em consequências do Holodomor, os protegeu a proximidade com
Belarus (onde as
pessoas iam para trocar os alimentos) e o facto de viverem em um canto
bastante esquecido da Ucrânia.
O irmão mais velho de um outro bisavô meu, funciobário do NKVD, foi dado como desaparecido em combate na frente da batalha, provavelmente na Ucrânia Ocidental, durante a I G.M. Em vez de ficar quieto e calado (possuir os familiares no estrangeiro na União Soviética era a maneira mais curta de perder o emprego e acabar no GULAG), ele tentou o localizar através da Cruz Vermelha, imaginem, internacional. Quando o seu serviço soube do sucedido, o bisavô foi imediatamente despedido e só não foi preso porque Alemanha nazi atacou URSS; assim ele foi imediatamente mobilizado para o exército como soldado raso. O bisavô desapareceu em combate (na realidade morreu) nos primeiros meses da guerra, tombado na defesa do Leninegrado, “o berço da revolução” que Stalin ordenou defender custe o que custar.
Já o avô, que foi mobilizado para a inteligência do regimento da infantaria soviético em 1943, quando o Exército Vermelho retomou a Ucrânia, terminou a II G. M. em Budapeste. Ele deixou a sua vila em 1932 fugindo do Holodomor, rumando à Kyiv, onde primeiro entrou na Rabfak (Faculdade dos Trabalhadores), depois conseguiu a vaga na Universidade. Holodomor de tal maneira afectou a vida social e académica da sua região natal, Zhytomyr, que durante três anos consecutivos: 1932, 1933 e 1934 na escola secundária dele não foram leccionadas nenhumas aulas. O que criou uma situação inédita, quando a sua turma original começou a 10ª classe, o avô voltou à escola como professor, leccionando aos colegas da turma a física, química, biologia e matemática. Em 1941 ele já não estava na idade de recruta, além disso a condição do professor permitiu que não fosse mobilizado ao exército.
Apesar da exigência do poder comunista e depois dos nazis de entregar todos os aparelhos de rádio (os nazis simplesmente executavam aqueles que encontravam na sua posse), o avô não entregou o seu. Escutava à noite as notícias de Moscovo e algumas estações de rádio estrangeiras. Foi denunciado e levado pelos nazis para ser enforcado, quando um membro da polícia auxiliar ucraniana interveio em sua defesa. Após a guerra, o avô mostrava o tal ex-polícia (quando se cruzavam na rua) aos seus familiares e dizia: “Vejam, filhos, este é o homem que salvou a minha vida”.
Nos anos pós – guerra os avôs maternos guardavam cada copeque para pudessem construir a sua própria casa. De noite, a família ia para os bosques próximos, coletar ilegalmente os pequenos troncos para fazerem as ripas; também levavam as folhas, bolotas e agulhas que se misturavam com o barro, tudo para construir as paredes. Nada disso era permitido por Lei, se eles fossem apanhados poderiam ser detidos, multados ou presos.
A minha própria mãe contava que vivia um drama constante: tudo o que aprendia na escola a ensinava que deveria denunciar os pais às autoridades, pois eles “delapidavam o património socialista”, além disso, o seu pai escutava as rádios estrangeiras, naturalmente anticomunistas. Por outro lado, eram os seus pais, a sua única família no mundo. Algumas vezes ela pensava que iria faze-lo, no fim, o complexo comunista do Pavlik Morozov não funcionou nela.
Quando eu próprio me tornei pioneiro, aderi ao Clube da Amizade Internacional (KID), o Clube fornecia-nos os endereços das crianças dos países socialistas com quem poderíamos se corresponder em língua russa. Os países como Albânia, China, Jugoslávia e Roménia não constavam na lista. Escrevi para vários endereços, no fim comecei me corresponder com uma menina polaca, gostaria imenso de saber onde vive e o que faz hoje a “minha” Agnieszka... Um dia os meus pais compraram o bonito álbum bilingue (em russo e polaco) sobre a arte sacra da Igreja de Santa Sófia em Kyiv, eu queria o enviar para a minha amiga. Mas nos correios centrais da nossa cidade fomos informados do que este álbum, editado na Ucrânia Soviética, numa editora soviética (portanto próprio para o consumo doméstico), deveria obter a permissão oficial do KGB para poder ser enviado para o estrangeiro, pois se tratava de material ligado à religião. Mesmo para um país socialista irmão...
Anos mais tarde, já nas vésperas da Perestroica, conheci a jovem senhora, chamaremos ela de Valentina, casada com um membro do PCP, a estudar na nossa cidade alguma ciência útil. Valentina era bela, fresca e deslumbrante, ela dizia com ar de vedeta internacional cansada da fama: “sou bi – cidadã, tenho o passaporte soviético e português” e nós demonstrava o livro do Álvaro Cunhal autografado pelo próprio. Além disso, Valentina, era costureira, creio que usava os modelos da revista “Burda” (uma novidade absoluta na URSS, a primeira edição soviética, naturalmente em russo, só chegou as senhoras em 8 de Março de 1987), e as vendia como roupas de marca ocidentais, que alegadamente, comprava no Berlim Ocidental (os quadros da PCP faziam lá as compras nas férias universitárias) ou mesmo em Portugal, que para nós equivalia aos EUA ou mesmo à Marte, um lugar simplesmente inacessível.
A Valentina tinha uma vida paralela, seguramente não sancionada nem pelo marido, nem pelo PCP. Ela tinha um amante, rapaz novo, belo e fogoso, creio que boliviano, com quem mantinha uns encontros “calientes” aqui e ali. Por vezes, eles se encontravam no meu apartamento, tudo começava com beijos e abraços e acabava com beijos, abraços e choros recíprocos. Mais tarde soube que Valentina chegou a esconder na sua casa um amigo meu, expulso da Universidade na sequência do processo ordenado pelo KGB. Recentemente encontrei, graças à Internet, o nome do marido da Valentina (que recordo como um sujeito sempre cabisbaixo, triste e desanimado) nas listas distritais (vocês vão se rir), do PSD. Que voltas dá o mundo...
Estive no centro de Kyiv quando no dia 24 de Agosto de 1991 foi proclamada a Independência da Ucrânia, naquele mesmo dia começaram desmontar o monumento enormíssimo de Lenine (rodeado pelas figuras alegóricas do soldado, marinheiro e operária), que dominava a actual Praça de Independência (Maydan de Kyiv). Durante muitos anos guardei como recordações os bocados do granito e do bronze que faziam parte daquele conjunto monumental.
Pressuponho que a história do polícia auxiliar poderá servir para algum “camarada cacete” me acusar de “branquear os crimes de nacional socialismo”. Do mesmo jeito os mesmos camaradas classificam qualquer denúncia dos crimes do comunismo como “um ataque contra os comunistas”. O que não pode e nem deve ser confundido. Os crimes do comunismo são reais, massificados e largamente documentados. Mas a responsabilidade pelos crimes é sempre individual. Algum correligionário do Lenine ou do Stalin assinou a ordem executiva, algum carrasco a executou. Mas todos eles possuem os seus nomes próprios e como tal são responsáveis pelos seus próprios actos.
![]() |
| A capa do ensaio “Porque eu não quero voltar para URSS?” |
O escritor ucraniano e político socialista Ivan Bahrianyi, autor do famoso ensaio “Porque eu não quero voltar para URSS?” (1946), dizia: “Os nossos quadros estão no partido (comunista) e em Komsomol (juventude comunista)”. A frase que a maior parte da emigração ucraniana rejeitava revelou-se bastante profética. Como demonstrou a história, os patriotas da Ucrânia se encontravam no partido, em Komsomol e até mesmo no KGB. Apenas entre os delatores e os carrascos não havia patriotas, pois os seus corpos físicos se encontravam na Ucrânia, mas as suas almas, mesmo nos dias de hoje, pertencem às gavetas obscuras dos arquivos moscovitas.
Мітки:
Arquivos Soviéticos,
comunismo-nazismo,
cultura,
demotivador,
dissidentes,
Guerra Fria,
GULAG,
história,
Holodomor,
II G. M.,
KGB,
Kyiv,
memórias,
Portugal,
sociedade,
Ucrânia,
ucranianos
domingo, novembro 27, 2011
Vitali Klitschko e Holodomor
O campeão do boxe e líder do partido UDAR, ucraniano Vitali Klitschko faz parte dos 67% dos ucranianos que consideram Holodomor como genocídio da Nação ucraniana. Eis o depoimento inédito do pugilista.
Pela primeira vez me contou sobre Holodomor a minha avó, Yevdokia Pylypivna. Meninos, eu e meu irmão pensamos que com as histórias terríveis avó simplesmente nós tentava assustar. Eu tinha 9 anos, Volodymyr ainda era pequeno mesmo, mas ambos lembramos até agora aquelas recordações assustadoras.
Avó Dusya recordava como ela, juntamente com as irmãs recolhia a erva Malva sylvestris, como os seus pais escondiam os alimentos dos pelotões de requisições, como gritou a mãe dela, quando estes levavam o trigo. Avó sempre chorava quando se recordava disso, e nós não conseguíamos acreditar que tudo aquilo era verdade. Na grande família da avó havia 8 crianças. Naquele Inverno assustador os seus país e todos os irmãos e irmãs morreram. A pequena Dusya foi salva pelos vizinhos, ela foi única que sobreviveu.
Nos nossos manuais soviéticos da história não havia nenhuma linha sobre a terrível fome de 1932-1933. Mas quase todas as famílias ucranianas ouviram falar sobre este acontecimento. E odiavam em silêncio Stalin, pois sabiam que aquela fome foi o seu plano horrível.
Para mim, o dia 26 de Novembro é o dia da memória da minha avó, dos seus irmãos e irmãs. O dia quando nós recordamos a história da nossa família, a história da Ucrânia, para também poder conta-la aos nossos filhos.
Hoje (26.11) à noite eu acenderei a vela da memória. Pelos todos assassinados sem culpa nenhuma...
Fonte:
sexta-feira, novembro 25, 2011
High time to see Ukraine
“High time to see Ukraine” é uma série de spots promocionais que pretendem mostrar Ucrânia aos visitantes europeus, nas vésperas do campeonato de futebol Euro-2012.
“Conseguimos abraçar os grandes lugares de nossa pátria maravilhosa e estamos contentes de apresentar várias pérolas da Ucrânia à sua atenção”, explica o filme promocional.
Os grandes mares que explodem no Cabo Tarchankut na Criméia, os picos das montanhas dos Cárpatos, que se reflectem na superfície do lago de Synevir. A monumental cidade de Kharkiv com seu símbolo – a Praça da Independência extremamente espaçosa. A cidade de Lviv que valoriza o mistério de uma antiga metrópole. Campos sem fim que estão alimentando vidas durante gerações. O castelo de Kamyenets-Podilskiy com suas muralhas que passaram por muitas épocas e mudanças. O Mosteiro de Svyatohorskiy como uma encarnação da sabedoria e da fé. O estádio Donbass Arena que é um verdadeiro Coliseu ucraniano, o estádio irá assistir a um monte de grandes conquistas no futuro. Para não mencionar Kyiv – a cidade que está nos corações dos ucranianos. Todas estas belezas são apenas uma gota no oceano de maravilhas ucranianas. Milhares de outras coisas espantosas e inéditas foram deixados para trás das filmagens.
Nós amamos o nosso país e com a genuína hospitalidade ucraniana dizemos "Welcome!" para todos os hóspedes do nosso país.
Ver no YouTube:
Dia da Memória das Vítimas da Fome e das Repressões Políticas
O dia 26 de Novembro (quarto sábado de todo o mês de Novembro) é o “Dia da Memória das Vítimas da Fome e das Repressões Políticas”, instituído pelo Parlamento Ucraniano para homenagear as vítimas do Holodomor. Faça a sua homenagem, não deixe passar a data em branco. O Holodomor foi o genocídio perpetrado por Stalin e a cúpula do partido comunista soviético contra o povo ucraniano em 1932-33. Nessa tragédia pereceram, vitimados pela fome, doenças e assassinatos, cerca de 5 – 7 milhões de ucranianos, entre homens, mulheres e crianças. O Holodomor foi um crime monstruoso, que abalou até mesmo a base genética da Nação ucraniana, e por isso não pode e não deve ser esquecido!
Bónus:
A parada conjunta dos nazis e do Exército Vermelho em 1939:
quarta-feira, novembro 23, 2011
Holodomor nunca mais!
Analisando o livro que a Associação “CompaRes” pretende editar em forma de colectânea de artigos sobre Holodomor ucraniano, cuja ideia surgiu depois de “Quinzena histórica e cultural da Ucrânia” realizada em 2009 na Reitoria da Universidade de Lisboa e que foi financiada pela comunidade ucraniana em Portugal, fiquei surpreendido pelo facto do alguns capítulos do livro não respeitarem a verdade histórica do genocídio perpetuado pelo regime comunista soviético, nem a memória de milhões de vítimas deste crime.
Conseguimos imaginar que a nossa dor colectiva, a nossa maior tragédia singular do século XX pode contentar alguns e ser indiferente para outros. Mas Holodomor não é nenhum tema de discussão pós – moderna, onde todas as opiniões são válidas e onde todo mundo pode ter a sua razão. Holodomor foi um crime premeditado, calculado, planeado e executado pelas lideranças políticas da URSS e do Partido Comunista da União Soviética, quer ao nível central, em Moscovo, quer ao nível local, na Ucrânia Soviética.
Acusam-nos de nos centrarmos em “demasia” nos casos de canibalismo, ocorridos durante Holodomor, dizem que não são as recordações “bonitas”. Mas estes factos tristes e revoltantes tiveram lugar, eram reais e hoje em dia fazem parte da verdade histórica. Verdade que não pode, nem deve ser mudada consoante a conjuntura política ucraniana, europeia ou mundial.
Também nos acusam de usarmos o Holodomor como arma de arremesso político contra Rússia. O que não é verdade de todo. No passado recente o tribunal ucraniano pronunciou os indivíduos pessoalmente culpados no genocídio ucraniano, eles são: Stalin, Kaganovich, Postyshev, Kossior, entre outros.
Associam constantemente Holodomor com o nome do Presidente ucraniano Viktor Yushchenko. Mas todos os presidentes da Ucrânia independente cuidaram da memória dessa tragédia: Leonid Kravchuk, Leonid Kuchma e Viktor Yushchenko. Sim, é verdade que presidente Yushchenko fez mais do que seus predecessores, mas não é menos verdade que não fez tudo e que podia fazer mais.
Dizem que Holodomor é uma arma política apontada contra Rússia e que constitui uma política anti – russa. Não nos parece que alguém no Ocidente ousará classificar a luta pelo reconhecimento do Genocídio Arménio ou Holocausto Judaico como política “anti-turca” ou “anti-alemã” e que alguém no Ocidente ousará associar a memória dos arménios ou judeus exterminados com esta ou aquela força ou personalidade política da Arménia ou do Israel.
Contudo, isso é constantemente e abusivamente feito em relação aos ucranianos. Porquê? Não sabemos. Mas de certeza, não iremos pactuar com isso!
O maior cinismo possível é a tentativa de obrigar as vítimas de financiar os pontos de vista dos seus carrascos. Por isso não peçam aos ucranianos para pagarem as “opiniões” e “divagações” da índole política dos não procuram a verdade histórica dos factos.
Holodomor nunca mais!
terça-feira, novembro 22, 2011
Aniversário da Revolução Laranja
Nos dias 21 – 22 de Novembro se completa o 7° aniversário da Revolução Laranja que em Novembro de 2004 se revoltou contra a falsificação massificada e sem precedentes das eleições presidenciais ucranianas.
Passaram-se sete anos, muitas das promessas feitas não foram cumpridas, Viktor Yuschenko perdeu a confiança das pessoas e não foi eleito para o segundo termo; a Yulia Tymoshenko foi recentemente condenada e neste momento se encontra na cadeia, sofrendo do problema grave da coluna, embora parece que presidente de Yanukovych foi obrigado a permitir que ela seja tratada nos hospitais civis fora da cadeia.
Amedrontados pela possível reacção das pessoas, o poder ucraniano, através do Tribunal Distrital Administrativo de Kyiv, proibiu a condução dos comícios populares em Kyiv. A decisão foi justificada pela, alegada, necessidade de montar a arvore de Natal na Praça (Maydan) de Independência e também “para evitar as inconveniências” durante a estadia em Kyiv do Presidente da Lituânia. País, que diga-se de passagem, desde a primeira hora apoiou a Revolução. Os cibernautas ucranianos chegaram recolher as assinaturas para pedir ao presidente lituano a visitar Ucrânia numa outra ocasião.
Ao mesmo tempo, o poder não quer confrontar as pessoas directamente, por isso Ministério do Interior prometeu que não irá não deter as pessoas que vão celebrar o Dia de Liberdade em Kyiv na Praça de Independência no dia 22 de Novembro.
O chefe do Departamento das RP do Ministério do Interior, Volodymyr Polishuk disse que “polícia apenas levantará o acto contra os organizadores da acção”, escreve edição on-line Tyzhden.
Blogueiro Alexandr Kovalenko escreve que neste momento, para perturbar o comício, o poder usa o sistema de som que transmite a música dita popular, de baixa qualidade artística.
A activista Hanna Sinkova escreve que às 18h30 (menos dois em Maputo, menos 4 em Lisboa, menos 9 em Brasília), na praça de Independência já se reuniram mais de 1500 pessoas, vigiados de perto por cerca de 1000 (!) polícias de choque.
Blogueira Kateryna Avramchuk informa que agora mesmo dois activistas foram detidos pela polícia, não se sabe por que razão.
Ver a Praça de Independência de Kyiv em directo: http://ru.justin.tv/amidov00#/w/2114387744
Para recordar, a Praça de Independência de Kyiv em 5.12.2004, grupo Plach Jeremiji (Choro do Jeremias), composição “Na Maydani” (Na Maydan):
Subscrever:
Mensagens (Atom)










