quinta-feira, junho 23, 2005

A Revolução Laranja na Ucrânia comemora seus 180 dias

No dia 26 de Junho, a Ucrânia vai celebrar 180 dias da sua pacifica e vitoriosa Revolução Laranja (no dia 26 de Dezembro tive lugar a 2ª volta das eleições presidenciais, que deu a vitoria ao Viktor Yushenko). Muita gente, principalmente na América Latina, foi induzida para ver essa Revolução, como luta entre Ocidente e Leste. Enquanto os ucranianos lutavam pela independência do seu próprio país, ameaçada por um candidato com passado criminal e com fortes ligações aos serviços secretos soviéticos. Nesta data, gostaria de vos apresentar dois artigos dedicados a Revolução ucraniana, escritos em Dezembro de 2004 e Junho de 2005.

Russia looks at 'little brother' - and worries
Anne Applebaum*, "The Daily Telegraph", Grã – Bretanha, 27 de Dezembro de 2004, (Tradução abreviada)

*Anne Applebaum, membro do Conselho de Redactores do jornal "The Washington Post"

Moscovo, Dezembro de 2004. Nunca antes ouvi falar do Fundo Internacional da Paz e Cooperação. Mas recebi o convite da embaixada americana e decidi participar, pensando que o auditório – são professores vindos do interior da Rússia, para o semanário da “educação da cidadania”.
Depois da minha intervenção, pedi para fazer as perguntas. Uma das primeiras, relacionava-se com a Ucrânia: porque Ocidente colabora com os ucranianos, que pretendem anular as eleições legítimas? Eu disse que as eleições NÃO ERAM legítimas: alguns amigos meus eram observadores nestas eleições e foram testemunhas de fraudes maciças. O auditório começou ficar nervoso.
Uma das outras perguntas era sobre a Tchechenia: porque Ocidente financia os terroristas tchechenos? Eu disse que o Ocidente não financia os terroristas tchechenos. Povo começou ficar mais nervoso. Uma das personalidades importantes do Fundo Internacional da Paz e Cooperação, sentada comigo no pódio, disse-me com gozo: “Você deveria preparar-se melhor, aí você iria saber quem realmente financia o terrorismo tchecheno”. Sou obrigada a pensar, que ele sugeria a administração do George W. Bush.
Mais tarde, eu soube que este Fundo Internacional da Paz e Cooperação foi criado no tempo do comunismo, quando chamava-se simplesmente Fundo da Paz e funcionava como uma das guarda – chuvas do partido.

Um dia antes, eu participei no fórum do movimento democrático russo, ou melhor, aquilo que restou dele. Aqui e ali na sala, eu via homens e mulheres com braçadeiras e camisetas cor de laranja, mostrando a sua solidariedade com os manifestantes na Ucrânia. No final do fórum, eu encontrei uma russa minha conhecida, que queria saber, para quem em Washington D.C. ela teria que ligar, para saber como organizar a Revolução Laranja na Rússia. Se isso realmente foi um complot ocidental para difundir a democracia, ela queria participar nele.
Os acontecimentos na Ucrânia, que MAIOR PARTE DOS RUSSOS ATÉ AGORA consideram como Pequeno Irmão (ou a Pequena Rússia), obrigaram muitos dos cidadãos russos, reflectir mais profundamente sobre as mudanças recentes no seu próprio país.
Em poucos anos, o autoritarismo do Governo do presidente Putin aumentou, os médias foram limitados, organizações políticas independentes sofrem pressão, propaganda anti – ocidental na TV controlada pelo estado, activou-se, e tudo isso, de alguma maneira, ficou despercebido. No estrangeiro ninguém prestou grande atenção, e a maioria dos russos, achou que essa tendência não é importante, relativamente ao bem estar económico, possibilitado pelos preços altos do petróleo no mercado internacional.
Nos últimos anos, a administração do presidente ucraniano Leonid Kuchma matava os jornalistas, atacava os média independentes, perseguia os seus oponentes políticos e chegou envenenar com dioxina o Viktor Yushenko. E tudo isso, acontecia com concordância e colaboração clara do Governo russo, lideres do qual acharam, que mais uma manipulação das eleições ucranianas e criação do mais um governo ucraniano repressivo, não provocará grande ressonância nem na Ucrânia, nem em parte alguma.
Eles enganaram-se. As demonstrações de massa nas ruas de Kyiv, atenção internacional às falsificações das eleições na Ucrânia, visitas ao aquele país do Javier Solana e Lech Walesa, foram completamente inesperados para o Governo russo e para os cidadãos comuns. Ao nível oficial e não oficial, os russos culpam o Ocidente, principalmente porque não tem a capacidade de perceber, que poderá haver uma explicação deferente.
Embora muitos estudiosos caracterizam a luta em Kyiv como luta entre o Ocidente e Leste, manifestantes ucranianos não pensam assim. A maioria deles considera, que luta pela independência do seu país. Uns ficaram ofendidos pelo apoio brutal do Vladimir Putin ao “seu” candidato, Viktor Yanukovich. Outros ficaram amedrontados pela pele escurecida na face do Viktor Yushenko, testemunha de envenenamento pela dioxina. Os empresários ucranianos acompanharam muito atentamente, a situação dos empresários russos, que tiveram a coragem de se tornar muito independentes do Kremlin sofrendo perseguições e cadeia, e decidiram, que necessitam de um outro (diferente do russo) sistema político. Quando os média ucranianos começaram difusão independente, quando o Ministério dos Negócios Estrangeiros afirmou o seu apoio ao Viktor Yushenko, quando uma parte do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), organizou a fuga de informação das reuniões dos conselheiros de Yanukovich sobre a falsificação das eleições, os ucranianos comuns também decidiram juntar-se à eles.
Mas existem russos, que entendem que acontece em Kyiv, russos que não acreditam mais na propaganda oficial, russos, que entendem, que isso é um movimento popular e não complot ocidental. Estes russos, provocam maiores receios na administração de Putin. Ucrânia, nas mentes dos russos, não é um pais pequenino com uma língua estranha como Letónia ou Lituânia. E também, não é um país completamente “estrangeiro” como a Polónia. Se aquilo aconteceu na Ucrânia, poderá acontecer aqui. Devemos esperar que será renovado o controlo sobre o débil movimento democrático russo, aumento de controlo sobre médias russos e retórica anti – ocidental mais barulhenta. E apesar de tudo disso, temos que esperar, que pelo menos uma dezena de russos, sentirá inspiração.

Russia is now ripe for freedom revolution, warns Solzhenitsyn

Jeremy Page, “The Times”, Grã – Bretanha, 7 de Junho de 2005
(Tradução abreviada)

Aleksándr Solzhenitsyn, escritor – dissidente no passado, deu entrevista para dizer que a Rússia poderá brevemente viver uma revolução igual à Revolução Laranja na Ucrânia.
O Nobél da Literatura de 86 anos, que ficou preso 10 anos no GULAG soviético, disse na entrevista, que na Rússia não acontece nenhum retrocesso democrático, pois o país nunca chegou a ser verdadeiramente democrático.
“Que tipo da democracia é ameaçado? O poder do povo? Nos não temos este poder”, - disse escritor à canal “Rossiya”.
“Não temos nada, que pode assemelhar-se à Democracia. Tentamos criar a democracia sem a autonomia administrativa local. Primeiro, temos que criar o sistema, que permita às pessoas dirigir os seus próprios destinos”.
Solzhenitsyn também disse, que a Duma Estatal (a câmara baixa do parlamento russo), onde a maioria apoia Kremlin, comporta-se como “bêbada” e que se o Governo não mudar o curso, país poderão viver movimentações, parecidas com a Revolução Laranja na Ucrânia em 2004.
Solzhenitsyn é considerado na Rússia, como uma das poucas autoridades independentes, morais e políticas, mas ele é muitas vezes criticado no Ocidente pelo seu nacionalismo e ortodoxia religiosa. Nas suas entrevistas anteriores, ele atacava o Putin, por este não conseguir dominar os oligarcas, duas dezenas de empresários, que no processo das privatizações nos anos 90, adquiriram as empresas estatais às preços muitíssimo baixos.
No Ocidente, o Putin é criticado exactamente por ataque estatal contra um dos oligarcas do petróleo, Mikhail Khodorkovskiy. No mês passado, Khodorkovskiy foi condenado à nove anos de prisão, no processo que muitos consideram ensaiado pelo Kremlin, para castigar um potencial concorrente e apoderar-se da sua propriedade.
O Vice – Procurador Geral da Rússia, Vladimir Kolesnikov, disse à televisão NTV, que poderão surgir os novos parecidos processos jurídicos. “Posso dizer que o processo de Khodorkovskiy não será último”.

Vida e obra de Solzhenitsyn:

Autor do “Um dia de vida de Ivan Denisovich”, conto sobre o dia–a–dia do GULAG, traduzido para 35 línguas, incluindo português;
1970 – o Prémio Nobél da Literatura;
1974 – deportado da URSS, pela publicação no Ocidente do livro “Arquipélago GULAG”, sobre o sistema dos campos de concentração soviéticos;
1994 – retorno definitivo à Rússia.

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