domingo, outubro 08, 2017

Mercenários russos do grupo “Vagner”: a vida dos “cães de guerra”

Presente na Síria desde 2012 e no leste da Ucrânia desde maio de 2014, a empresa militar privada russa (EMP), grupo Vagner é ativa nas frentes de guerra híbrida, onde o estado russo quer estar presente militarmente, mas não pretende assumir a sua responsabilidade política dessa mesma presença.

A recente captura e possível liquidação de dois mercenários russos, que se acredita estavam na Síria nas fileiras do grupo, novamente chamou a atenção pública sobre a EMP “Vagner” e sobre as suas atividades mercenárias e terroristas, condenáveis, mesmo ao abriga da legislação penal russa.
Na sua habitual conferência de imprensa, decorrida no dia 7 de outubro corrente, o chefe da secreta ucraniana SBU, general Vasyl Hrytsak informou os jornalistas que SBU reuniu uma considerável base de dados sobre as atividades terroristas do grupo “Vagner” na Ucrânia, detetado pela primeira vez, no leste do país em 29 de maio de 2014.

A secreta ucraniana possui os dados de 1.587 membros do grupo, que neste momento acredita-se conta com cerca de 5.000 efetivos (vivos, capturados e mortos), entre eles cerca de 40 ucranianos. Os efetivos do “Vagner” participaram nas atividades militares contra as forças ucranianas entre junho de 2014 e agosto de 2015; desde agosto de 2015 o grupo foi transferido para Síria, onde foi visto em Homs, Hama, Latáquia, Damasco, Palmira.

Na Ucrânia os membros do grupo “Vagner” foram responsáveis diretos no derrube do avião cargueiro ucraniano Il-76MD que resultou na morte dos 49 militares (40 pára-quedistas e 9 pilotos); eles participaram ativamente no assalto ao aeroporto de Luhansk, nos combates em Debaltseve e cometeram outros atos terroristas contra os militares e civis ucranianos.
Dmitry Utkin aka "Vagner" 
O general Hrytsak informou que os investigadores da SBU emitiram uma notificação formal contra o líder do “Vagner” Dmitry Utkin (11.06.1970); no dia 10 de outubro de 2017 a notificação será entregue ao Ministério Público (Procuradoria) da Ucrânia. O general Hrytsak também acrescentou que SBU partilha regularmente a informação sobre as atividades do grupo Vagner com os serviços secretos ocidentais. O tema que será desenvolvido mais profundamente numa conferência de imprensa à ser realizada em Bruxelas no dia 19 de outubro.

12 caixões de zinco vindos da Síria
O mercenário terrorista russo Grigoriy Curkanu
Após a publicação da entrevista com Roman Curkanu, irmão do Grigoriy Curkanu, um dos mercenários russos recentemente capturados na Síria, a Rádio Svoboda foi contactada pela Irina (nome fictício), a amiga/namorada de um dos membros do grupo “Vagner”, morto na Síria e que também conhecia pessoalmente outro capturado, Roman Zabolotniy. Falando sobre a dupla, o coordenador do grupo OSINT russo Conflict Intelligence Team, Ruslan Leviev, escreveu que só se poderá ter certeza sobre a morte dos dois, após a notícia for conformada pelo Daesh/EI ou alguma agência noticiosa próxima à militância islamista.
Roman Zabolotniy (à direita) com a cruz dos terroristas de Donbas
Irina contou à Rádio Svoboda que no dia 28 de setembro, ao aeroporto russo da cidade de Rostov-on-Don chegaram 12 caixões de zinco, em nome do representente da «EMP Vagner», Vladimir Drachev. Sabe-se que os caixões da “carga-200” foram efetivamente levantados, mas o seu paradeiro atual é desconhecido. Nenhuma casa mortuária da região confirmou que recebeu os caixões.  

Neste momento a própria Irina espera por receber o corpo do seu amigo/namorado “Sergey Kovalevski” (1978), morto na Síria por “estilhaços na cabeça”. Os familiares do mercenário receberam a informação da morte, mas não sabem se o corpo já chegou à Rússia ou não. Ao chegar à Rússia, os caixões habitualmente são recebidos pelos representantes do grupo “Vagner”, que após um certo período de temo os entregam à família dos mercenários, proibindo categoricamente a abertura dos caixões.

As condições, salários e prémios
O mesmo Dmitry Utkin numa recepção no Kremlin em 9/12/2016
Teoricamente, sendo uma empresa privada, o grupo “Vagner” possui a sua base militar e de treino na região de Krasnodar, na localidade de Molkino – o local de aquartelamento da 10ª Brigada especial do GRU, a unidade militar № 51532.

Os voluntários recebem a propostas salariais até 240.000 rublos mensais (4.155 dólares); na realidade recebem 160.000 rublos (2.770). Voltando após uma das suas missões em Síria que durou cerca de 5 meses, “Sergey Kovalevski”, recebeu às mãos cerca de 2 milhões de rublos (34.626 dólares). O militar morto vale aos seus familiares entre 1,3 à 3 milhões de rublos (22.506 – 51.939 dólares), dependendo da sua qualificação e patente militar. No caso da morte do mercenário, o atestado de óbito pode chegar aos seus familiares até dois meses depois. Não se percebe por que razão os familiares não têm o direito de ver o corpo do seu ente querido (assinando o contrato, o mercenário concorda explicitamente com essa imposição).

Os contactos com os familiares
Assinando o contrato, o mercenário concorda em não possuir o telemóvel pessoal, os contactos são permitidos através dos “operadores”, usando as linhas não oficiais, por exemplo pertencentes aos outros cidadãos que se encontram na Síria. O amigo/namorado da Irina mandou a SMS aos seus familiares no dia 13 de setembro de 2017: “Ainda estou vivo, mas não conseguimos sair, está tudo minado”. No dia 26 de setembro a família recebeu a informação de que “Sergey Kovalevski” estava morto.

A motivação dos mercenários
O mercenário terrosista russo Alexey "Ural" Gladyshev (01.09.1987),
liquidado ao norte da Hama na Síria em 19 de setembro de 2017
A maior motivação é financeira, de acordo com o presidente Putin o “nível mínimo de subsistência” na região de Rostov é de 33.000 rublos (571 dólar). Irina, como funcionária pública recebe apenas 13.000 rublos (225 dólares), o mesmo acontece com os homens da sua região.
Sabe-se que “Sergey Kovalevski” foi casado por duas vezes, deixou dois filhos, que não receberão nenhuma ajuda estatal pela perda do pai. Após a escola secundária ele cumpriu a SMO, não possuía nenhuma formação superior. Participou nas atividades terroristas no leste da Ucrânia, os seus dados, com o nome real, constam na base de dados da página ucraniana “Myrotvorets”.

Sem comentários: