sábado, outubro 01, 2016

Todos somos netos de vítimas e dos carrascos

Recentemente, Vladimir Yakovlev, fundador e o primeiro editor do jornal russo “Kommersant”, escreveu um texto profundo e tocante sobre o seu avô, carrasco do Cheka, sobre o apartamento espaçoso do vovô, expropriado ao algum comerciante (provavelmente fuzilado), sobre o sofá muito cómodo, que também foi arrancado à alguém, sobre a salvação da vida do avô pelo Dzherjinsky, o carrasco-mor soviético, e sobre o pensamento: como viver com tudo isso?

Me deram o nome em homenagem ao avô. O meu avô, Vladimir Yakovlev, era um assassino, carrasco sangrento, chequista. Entre as suas inúmeras vítimas estavam os seus próprios pais. Ele fuzilou o próprio pai por causa da especulação. A sua mãe, minha bisavó, sabendo disso, se enforcou.  
As minhas memórias infantis mais felizes estão ligadas ao apartamento velho, espaçoso, na rua [moscovita] de Novokuznetskaya, motivo de orgulho da nossa família. Este apartamento, como eu soube mais tarde, não foi comprado ou construído, era expropriado, ou seja, arrancado pela força à uma família rica dos comerciantes da região de Moscovo.

Eu lembro-me do velho buffet, todo esculpido, onde me metia à procura da doce. E um grande sofá muito cómodo, onde com a minha avó, nas tardes, embrulhados numa manta, líamos os contos de fadas. E duas poltronas enormes, de cabedal, que, segundo a tradição familiar, eram usados somente para as conversas mais importantes.

Como eu soube mais tarde, a minha avó, que eu amava muito, a maior parte da sua vida trabalhou, com sucesso e de forma profissional como agente provocadora. Fidalga de origem, ela usava as suas origens familiares para estabelecer as relações e provocar os conhecidos para as franquezas. Em resultado destas conversas escrevia os relatórios oficiais.

O sofá, na qual eu escutava os contos de fadas, e as poltronas, e buffet e toda a outra mobília no apartamento, os avôs não tinham comprado. Eles simplesmente a escolheram num armazém especial, para onde eram levados os bens dos apartamentos dos moscovitas fuzilados. Deste armazém, os chequistas, de forma gratuita, apetrechavam os seus apartamentos.   

Sob uma fina película de ignorância, as minhas felizes memórias da infância são imbuídas no espírito de roubos, assassinatos, violência e traição. Embebidas em sangue.

Mas será que sou o único?
Nós todos, crescidos na Rússia – somos netos das vítimas e dos carrascos. Absolutamente todos, sem exceção. Na sua família não havia vítimas? Então havia os carrascos. Não havia os carrascos? Então havia as vítimas. Não houve nem as vítimas, nem os carrascos? Portanto, há mistérios.
Nem tenham dúvidas!

Eu creio que nós fortemente subestimamos a influência das tragédias do passado russo sobre a psique das gerações atuais. Da nossa mente. Até hoje, se despedindo, dizemos um ao outro – “do svidaniya” (“até à visita”), sem percebendo que a palavra “visita”, de facto, é uma palavra prisional. Na vida quotidiana há encontros, as visitas acontecem na prisão. Até hoje, facilmente escrevemos nas SMS: “Vou escrever, quando me libertar!”
Quando me LIBERTAR...

Avaliando as dimensões de tragédias do passado russo, geralmente contamos as vítimas. Mas para avaliar a extensão do impacto destas tragédias na psique das gerações futuras, não se deve contar os mortos, mas sim, sobreviventes.

Os mortos – morreram. Os sobreviventes – tornaram-se os nossos pais e os pais dos nossos pais.
Sobreviventes – são viúvos, órfãos, que perderam os entes queridos, exilados, despojados, expulsos dos país, os que mataram para a sua própria salvação, pela ideia ou pelas vitórias, traídos e traidores, arruinados, os que venderam a sua consciência, transformados em carrascos, torturados e torturadores, estuprados, mutilados, roubados, obrigados a delatar, levados pela bebida devido à tristeza desesperada, devido sentimento de culpa e a fé perdida, humilhados, passando pelas fomes mortais, cativeiros, ocupação, campos de concentração.

Os mortos são dezenas de milhões. Os sobreviventes – centenas de milhões. Centenas de milhões de pessoas que passaram o seu medo, a sua dor, o seu sentimento de ameaça constante vinda do mundo exterior – às crianças que, por sua vez, somando à essa dor, os seus próprios sofrimentos, passaram este medo à nós.

Apenas estatisticamente, na Rússia de hoje não há nenhuma família, que de uma ou de outra forma não levasse em si as consequências pesadíssimas, das atrocidades sem precedentes, continuadas no país durante séculos.

Alguma vez você já refletiu sobre a medida em que a experiência de vida de três gerações sucessivas dos seus ancestrais DIRETOS influencia a sua percepção pessoal atual do mundo? Da sua esposa? Dos seus filhos?
Se não, pense nisso.

Levei anos para compreender a minha história familiar. Mas agora eu sei melhor da onde veio o meu eterno medo irracional. Ou sentimento exagerado de sigilo. Ou a incapacidade absoluta para a confiança e construção dos relacionamentos. Ou o constante sentimento de culpa que me persegue desde a infância, todo o tempo que me lembro.

Na escola nos contavam sobre as atrociades dos fascistas alemães. No instituto – sobre as atrocidades dos guardas vermelhos chineses ou dos khmers vermelhos cambojanos. Nos apenas esqueceram de contar que a zona do genocídio mais assustador na história da humanidade, em termos de alcance e em duração, não foram Alemanha, não a China, nem a Comboja, mas o nosso próprio país.
E sobreviveram este horror do pior genocídio na história da humanidade não os longínquos chineses ou coreanos, mas três gerações consecutivas de SUA PRÓPRIA família.

Muitas vezes achamos que a melhor maneira de proteger-se do passado, é não incomodá-lo, não vasculhar na história da família, não cavar até os horrores que aconteceram com os nossos familiares.

Achamos que o melhor é não saber. Na verdade é pior. Muito pior.
O que nós não sabemos, continua a influenciar-nos através de memórias de infância, por meio dos relacionamentos com os pais. Simplesmente desconhecendo, não percebemos essa influência e, portanto, somos incapazes de lhe resistir.

A pior consequência da lesão hereditária é a incapacidade de percebê-la. E, como consequência – a impossibilidade de compreender a medida em que a lesão distorce a nossa percepção atual da realidade.

Não importa o que para cada um de nós hoje é a personificação deste medo, o que, cada um de nos vê hoje como uma ameaça – os Estados Unidos, o Kremlin, Ucrânia, homossexuais ou os turcos, Europa “devassa”, a quinta coluna ou simplesmente o seu superior hierárquico no trabalho ou o polícia na entrada do metro.

... Em 1919, na devastação e fome, o meu avô assassino morria de tuberculose. Foi salvo da morte pelo Félix Dzerjinsky, que arrastou, se lá da onde, o mais provável de mais um armazém “especial”, a caixa de sardinhas francesas em óleo. O avô comeu-as durante um mês, e apenas graças à isso, ficou vivo.
Quer isso dizer que a minha vida se deve ao Dzerjinsky?

E, em caso afirmativo, como viver com isso?
NA FOTO: Identificação pessoal № 432 do membro do CheKA do avô do Vladimir Yakovlev. “Emitido ao camarada Vladimir Yakovlev, que lhe é concedido o direito de prender todas as pessoas suspeitas dentro das limites da cidade de Moscovo e dos seus arredores (fonte).

Blogueiro: a reflexão do Vladimir Yakovlev é válida, quase por inteiro, praticamente ao todo o espaço pós-soviético. Apenas Ucrânia e os Países Bálticos podem dizer com orgulho que possuem as famílias que não pertencem inteiramente às vítimas, nem, muito menos aos carrascos. São resistentes que nas fileiras da guerrilha ucraniana ou a dos países bálticos resistiam ao avanço comunista. Resistiram até onde podiam...

1 comentário:

Anónimo disse...


No início do século, o comunismo era uma novidade. Ninguém sabia se ia funcionar.

Em 1922, a Universidade de Stanford e Berkeley resolveram enviar uma missão, para ver o que estava acontecendo na União Soviética.

As universidades enviaram o economista Lincoln Hutchinson e o imigrante judeu russo Frank Alfred Golder, para ver como estava o país, e fazer o relatório de tudo.

Eles ficaram 2 anos vivendo e viajando na União Soviética, e quando voltaram, publicaram um livro, do que viram "Na estrada da Fome Russa".
Pelo menos dois capítulos foram dedicados a situação da Ucrânia.

A missão foi patrocinada pelo governo, com todas as despesas pagas. Eles conversaram com nobres e líderes.

A Guerra Fria não existia. Era 1922, a Primeira Guerra havia recentemente terminado, e a União Soviética fazia parte dos aliados.

Não havia nenhuma necessidade de mentir, muito pelo contrário, eles tentaram embelezar muitas coisas que viram, como o cenário bonito, por exemplo.

E na viagem, o que mais chamou a atenção deles: A Fome

A pior de todas, era na Ucrânia, que foi descrita como "loucura", por que estava sendo feita propositalmente pelo governo, para punir aquele povo.

O povo sofria com fome, assaltos, a brutalidade dos soldados, epidemias fora de controle de tifo, malária, cólera, cenas de canibalismo e tudo que é mais terrível.

O governo americano estava doando grandes quantias em ajuda humanitária, desde 1920, e o próprio governo Soviético reportava a morte de milhões de habitantes.

Se você quer um relato real, limpo de qualquer guerra de informação, de tudo que aconteceu, essa é a fonte. O livro ainda tem fotos e gravuras das regiões, parte deles está no Google.

https://books.google.com.br/books?id=5WSkAAAAIAAJ&printsec=frontcover&hl=pt-BR#v=onepage&q&f=false

A única conclusão depois de ler isso é:

Holodomor foi 100% verdadeiro. Foi tudo verdade.
Foi uma monstruosidade muito grande.
Os russos sempre irão negar. Sempre dirão que é mentira.
A culpa é grande demais para conseguir suportar.