sábado, maio 04, 2013

Páscoa celebrada no GULAG

"Mãe do Deus, salve o povo ucraniano do cativeiro". 1946

Na história da Ucrânia, a fé cristã se tornou a parte integrante da criação de identidade nacional. As grandes festas religiosas se tornaram a parte da tradição popular, com as particularidades só ucranianas. Por isso, em qualquer lugar que estejam os ucranianos, as suas tradições estão com eles.

por: Ihor Derevyaniy *

Na segunda metade da década de 1940 o poder soviético apostou em aniquilamento do movimento nacional ucraniano. Entre 1944 e 1953 da Ucrânia Ocidental (Galiza ucraniana), foram deportados 134.000 membros e apoiantes da OUN-UPA (Organização dos Nacionalistas Ucranianos – Exército Insurgente Ucraniano) e cerca de 204.000 civis, que eram a base de apoio da resistência ucraniana.

As condições de vida nos campos de concentração soviéticos, rotinas diárias, regime e ateísmo demonstrativo eram pensados para aniquilar primeiro o espírito e depois o corpo físico dos prisioneiros. Nestas condições, só a base espiritual permite sobreviver e preservar as qualidades de moral humana. Por isso não é de estranhar, que a celebração de Natal e Páscoa mostrava a firmeza da pessoa em oposição à máquina de aniquilação soviética.

Até 1953 a festa principal dos prisioneiros do GULAG era Natal. Isso acontecia por diversas razões: havia menos trabalho no Inverno, exatamente no Natal, uma parte dos prisioneiros recebia os alimentos de casa (eles tinham o direito à apenas um cabaz por ano). Os familiares, geralmente, mandavam apenas o trigo ou nozes, pois os alimentos na base de carne eram proibidos pela administração do GULAG. Outro problema era a dificuldade de calcular o dia certo para celebrar a Páscoa (este dia não é fixo), principalmente, quando na zona ou campo prisional não havia o sacerdote. Por tudo isso, a mesa de Páscoa muitas das vezes, era composta apenas pelo pão prisional, raramente aparecia o pão caseiro, enviado pelos familiares.

Lyubomyr Polyuha, estafeta e segurança do comandante-em-chefe do UPA, Roman Shukhevych, recorda a Páscoa de 1952, na 4ª zona feminina de campo especial № 1 – Minlag (cidade de Intá).
Páscoa celebrada pela guerrilha ucraniana
A brigada feminina foi colocada, sob escolta, para escovar a terra congelada após o Inverno, para servir de alicerces ao futuro edifício. Elas conseguiram terminar o normativo diário até 16h00, para puderem voltar às barracas, celebrar a Páscoa. Os guardas ordenaram a continuação dos trabalhos. A recusa originou as ameaças, intimidação com os cães, disparos para o ar. Em algum momento, uma das mulheres começou a cantar “Cristo ressuscitou dos mortos…” O canto foi seguido por todas – isso lhes deu a força moral contra a arbitrariedade totalitária. Os guardas ficaram baralhados, testemunhando a resistência pela primeira vez na sua carreira e o seu oficial ordenou: “Formar o grupo, vamos para o campo!

Após a morte do Estaline, GULAG foi sacudido pelas fortíssimas revoltas dos prisioneiros, que levaram à liberalização relativa do regime: ia-se ao trabalho sem escolta, eram pagos pelo seu trabalho, os prisioneiros podiam se mover livremente entre as barracas dentro do campo prisional. Tudo isso criou as largas possibilidades para a comunicação entre os presos.

Halyna Zayachkivska-Mykhalchuk, que pertenceu à rede da OUN e participou ativamente na revolta de Norilsk em 1953, recorda o acordo secreto, feito entre os prisioneiros sobre a missa matinal, antes das 4h de manha, quando eram acordados para trabalhar. Administração do campo ficou surpreendida, quando ouviu o hino religioso, “Cristo ressuscitou dos mortos…”, cantado pelos prisioneiros, antes de tocar o hino soviético. Um caso semelhante se deu em 1956, na 3ª zona de Minlag, quando os prisioneiros benzeram o pão pascoal após a missa matinal.

Nem todos os prisioneiros tiveram a força moral e respeito necessário pelas festas religiosas. Recorda Volodymyr-Ihor Porendovskiy, que em 1943-1944 era chefe das comunicações da circunscrição militar UPA-Ocidente e participou ativamente na revolta de Kengir de 1954.

“Na Páscoa de 1957 eu quis apreciar a Sibéria neste dia especial. No caminho até a casa, encontrei o prisioneiro Raskov, que estava sentado numa valeta absolutamente bêbado. Lhe disse com a reprimenda:
– Você tem cá um aspeto, hoje é Páscoa, será que não sente a vergonha?
Em resposta ouvi:
– Hoje já bebi pelo partido, pelo governo, pelos sindicatos, pelo Khrushov, pelo Lenine, mas pela Páscoa ainda não bebi. Boa oportunidade

Hryhoriy Pryshliak, que em 1944 era membro da Concelhia regional da OUN, recorda o ano 1957 em Intá, quando a Páscoa foi celebrada em conjunto pelos ucranianos e lituanos. As duas nações tiveram melhores relações entre si no sistema do GULAG, até criaram o coro conjunto, que cantava as canções pascoais em duas línguas.

Com o tempo, sob a pressão das pessoas, a administração prisional deixou de interferir nos feriados religiosos. Nestes dias os prisioneiros não trabalhavam e os capatazes não os obrigavam. Formalmente, isso constituía a violação das regras, por isso preencham-se os relatórios fictícios de trabalho, inventava-se a execução das normas. Mas administração se lembrava das revoltas de 1953-1954 e não queria aprofundar o conflito com os prisioneiros políticos, que, além de tudo, trabalhavam melhor que os criminosos do delito comum.


Páscoa, se transformou para os ucranianos prisioneiros do GULAG, não apenas num marco de identidade nacional e moral, mas no elemento da resistência contra o sistema soviético. As pessoas viviam com a fé na ressuscitação da Ucrânia e na esperança de voltar à sua pátria. Tal como Cristo que sofreu pela salvação da humanidade, eles passaram pelos sofrimentos, para testemunhar a longa e complexa caminhada pela liberdade das pessoas e das nações.

* Funcionário sênior do Museu Nacional Memorial das vítimas dos regimes de ocupação “Cadeia na Lonckoho”

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