quarta-feira, outubro 31, 2012

Ucrânia: quo vadis?


As legislativas ucranianas do passado dia 28 ofereceram algumas surpresas agradáveis. A principal é a ascensão da Coligação VO Svoboda (Liberdade) ao estatuto do partido nacional.

Se nas legislativas de 2006 a VO Svoboda obteve 0,4% dos votos; em 2007 passou para 0,7%, neste momento já está a alcançar o marco de 10,32%. Mais as vitórias já confirmadas nos círculos uninominais permitem ao partido ter o grupo parlamentar de 30-35 deputados.

Na capital ucraniana, em Kyiv, a VO Svoboda teve apoio dos cerca de 20% dos eleitores; partido consegui eleger o seu primeiro deputado no centro-leste do país, na cidade de Poltava, onde Yuriy Bublyk com 36,45% dos votos (29.974 eleitores), superou uma dúzia de candidatos técnicos do Poder.

Corrupção massificada

Um dos marcos das eleições de 2012 foi a corrupção massificada, intimidação dos adversários e o uso do “recurso administrativo” por parte do Partido das Regiões e do governo ucraniano.
um grupo de "jornalistas" tenta intimidar VO Svoboda
foto @Roman Chornomaz 
No círculo uninominal № 223 (cidade de Kyiv), a Comissão Nacional de Eleições registou oficialmente o facto de falsificação de dados a favor do candidato independente (apoiado pelo poder) Viktor Pylypyshyn, cujo adversário principal é Yuri Levchenko da VO Liberdade (no 4º dia da contagem de votos nesta assembleia foram contabilizados apenas 64,35% dos votos!)

Como resultado, o chefe da comissão eleitoral tentou abandonar o local de apuramento de dados, foi detido pelos cidadãos (a polícia de segurança pública não exerce a sua autoridade, mantendo a “neutralidade” perante atropelos da Lei eleitoral), escreve Aratta-ukraine.com

Nos círculos uninominais № 217 e № 215 (Kyiv), o chefe da comissão eleitoral, Ihor Krinytsya informou que foi vítima da tentativa de suborno no valor de 13.000 dólares, em troca de falsificação dos resultados da votação. Ele afirmou também que a tentativa foi feita pelo representante do Partido das Regiões. No círculo № 215 concorrem a secretária permanente do conselho municipal de Kyiv, Halyna Gerega (independente apoiada pelo poder) e Andriy Ilchenko da VO Svoboda (Andriy finalmente ganhou superando o adversário em apenas 191 voto, 3 dias após o fecho das urnas!)

Oposição informa ainda que no círculo № 216 (Kyiv), onde ganhou a candidata da oposição Xenia Lyapina, os membros da comissão eleitoral receberam a proposta de suborno no valor de 10.000 dólares (para cada membro da comissão) pela falsificação dos resultados eleitorais, escreve página LB.ua

Quo vadis?

As eleições foram falsificadas, o ato eleitoral não foi democrático, nem transparente. A tentativa do poder em alegar a honestidade das eleições através do uso de câmaras de CCTV ou de urnas transparentes revelou-se fracasso total. Poder ucraniano tenta implementar o modelo autoritário da “democracia dirigível”.
A oposição fortificou as suas posições. A 2ª posição é ocupada pelo bloco próximo à Yulia Tymoshenko que iniciou a greve de fome para protestar contra as falsificações. O parlamento irá renovar-se, serão criados os novos grupos parlamentares: UDAR (pugilista Vitaly Klitschko) e VO Svoboda.

Os perdedores

O maior perdedor foi o partido “Sonho Ucraniano”, criado pelo Poder como simulacro da oposição. A sua líder, Natália Korolevska, que teve o poder econômico para contratar o ex-futebolista Andriy Shevchenko não conseguiu ultrapassar a barreira de 5% de votos (amealhando cerca de 1,58%). Isso, apesar de possuir o orçamento mais que robusto, aplicado em todo o tipo de publicidade, incluindo dissimulada, nos diversos canais de distribuição: TV, rádio, jornais, Internet, painéis, etc.  

terça-feira, outubro 30, 2012

Como falsificar as eleições?


Em quando uma parte dos observadores internacionais não consegue ver as falsificações do processo eleitoral ucraniano, o Comité dos Eleitores da Ucrânia (http://cvu.dn.ua) exemplifica a tecnologia prática destas falsificações.

Os observadores do CVU executavam o controlo paralelo de número dos votantes que apareceram nas assembleias de voto, usando para o efeito o aparelho mecânico (na foto em cima). A metodologia do controlo se baseia na comparação de dados dos observadores e dos dados oficiais das assembleias. O estudo não regista as próprias falsificações, mas é uma espécie de controlo cívico sobre as atividades das comissões eleitorais.

O que segue são os dados da assembleia de voto № 41 do círculo uninominal № 141601 na província de Donetsk (leste da Ucrânia, burgo do Yanukovych e do seu Partido das Regiões).

O número real dos votantes (pela contagem do CVU) é de 998 eleitores (47,9% de todos os eleitores registados). O número de votos pelos dados oficiais é de 1543 (74% de todos os eleitores registados). Ou seja, a diferença é de 545 eleitores. Os observadores informam que após a abertura das urnas para a contagem dos votos no local foi cortada a eletricidade, tudo por volta das 20h40 do dia 28 de outubro de 2012. O local ficou sem a luz durante cerca de 5 minutos.

Durante este período no local aconteceu uma cena parecida com esta:


Pelos dados oficiais da Comissão Central de Eleições a percentagem dos votantes do círculo uninominal № 141601 foi de 76,87% na mesa de votação № 41; 59,89% na mesa de votação № 42; 53,73% na mesa №43; 72,64% na mesa №44 e 69,39% na mesa № 45, informa CVU.org.ua

Mais violações do processo eleitoral ucraniano são registadas aqui:

Bónus

É claro que os observadores internacionais que permanecem na assembleia do voto por uma – duas horas não podem detetar este tipo de falsificações. Genericamente, eles se parecem com aqueles escritores ocidentais que visitavam a URSS nos anos 1920-1930 e após falarem com agentes do NKVD devidamente instruídos e escolhidos voltavam ao Ocidente convencidos do que o povo soviético vivia "razoavelmente livremente". Para não se surpreender com as futuras Líbias e Egiptos, a UE deveria deixar de fazer o acompanhamento eleitoral “para o ditadores verem” e passar a escrutinar o processo até a contagem do último voto e apuramento dos resultados definitivos.

segunda-feira, outubro 29, 2012

Voto da put@ extraordinária

Lançamento massificado dos votos na cidade de Donetsk

As últimas horas são aproveitadas pelo partido do poder para falsificar os resultados eleitorais ucranianas.

No círculo № 214 em Kyiv, a equipa do deputado pró – poder Oles Dovhiy exigia contar ao seu favor o boletim onde o eleitor escreveu em frente do nome daquele deputado: “puta extraordinária”. Alegando que assim “o eleitor demonstrou inequivocamente a correspondência para com o deputado”.

A polícia impede a entrada de deputados e dos jornalistas na comissão local de eleições № 215 em Kyiv:

Emigração ucraniana escolha direita


Após o apuramento da totalidade dos votos fora da Ucrânia, a Coligação VO Svoboda (Liberdade) da direita lidera com 23,63% dos votos, no segundo lugar está o Partido das Regiões.

Infelizmente, entre os milhões de cidadãos ucranianos que se encontram fora do país, dos mais de 370.000 eleitores registados, menos de 20.000 exerceram o seu direito de cidadania…

Na Ucrânia, o poder aproveitou a noite passada para falsificar o resultado da votação, se os dados colhidos à boca-de-urnas davam ao Partido das Regiões entre 28-30% de intenção de voto, neste momento ao partido atribuído cerca de 40% dos votos.

A tática de falsificações é simples, após o fecho das mesas da votação se faz o lançamento massificado de boletins, tal como é mostrado neste vídeo, captado na mesa de voto № 121071 25, na cidade de Dnipropetrovsk (leste da Ucrânia):

domingo, outubro 28, 2012

Legislativas ucranianas à boca-de-urnas II


Os dados nacionais colhidos à boca-de-urnas às 18h00 (hora de Kyiv) apontam:

Partido das Regiões – 28,1%
Oposição Unida (Yulia Tymoshenko) – 24,7%
UDAR (Klitschko) – 15,1%
VO Svoboda (direita) – 12,3%
Comunistas – 11,8%
O nível de recusa de responder foi de 20-30% (!)

Fonte:

Vejam os debates on-line no YouTube:

Legislativas ucranianas à boca-de-urnas

Alguns eleitores optaram por invalidar os seus boletins...

Sem esquecer que o Partido das Regiões usará os seus recursos administrativos para falsificar as eleições nos círculos uninominais, os dados colhidos à boca-de-urnas às 17h00 (15h00 em Lisboa e 16h00 em Maputo) apontam:

Partido das Regiões – 30%
Oposição Unida (Yulia Tymoshenko) – 25%
UDAR (Klitschko) – 15%
Comunistas – 12%
VO Svoboda (direita) – 11%
(dados fornecidos pela Oposição Unida – Yulia Tymoshenko)

Dados fornecidos pelos Regiões:

Partido das Regiões – 31%
Oposição Unida (Yulia Tymoshenko) – 24%
UDAR (Klitschko) – 11-13%
Comunistas – 11%
VO Svoboda – 7-8%

Fonte:

Bónus:
Informação sobre as eleições no Twitter #sitemaidan 

Eleições ucranianas em curso

As eleições ucranianas decorrem em um ritmo lento. Neste momento votaram cerca de 24% dos eleitores registados. Em várias partes do país são registados atos esporádicos, mas organizados de falsificação dos resultados à favor do Partido das Regiões (no poder) e contra a oposição, principalmente contra Coligação VO Svoboda (direita).

As ações de falsificação mais habituais são: canetas com a tinta invisível distribuídas nas mesas de votação (após a votação tinta desaparece), votação massificado nos hospitais estatais, incluindo psiquiátricos (os diretores recebem a ordem de garantir 100% de votos à favor do Partido das Regiões), os professores são "convidados" a votar no Partido das Regiões, caso contrário são ameaçados com o despedimento.

Por exemplo, na cidade de Dnipropetrovsk, o número de eleitores nos hospitais aumentou nas vésperas das eleições entre 3 à 10 vezes, no circuito eleitoral Nr. 25 o número dos votantes no hospital aumentou de 67 para 270 pessoas (!), informa Radio Svoboda.org  

Nas vésperas das eleições em diversas locais das diversas regiões da Ucrânia, a Coligação VO Svoboda foi retirada do boletim do voto, embora o partido não se retirou da votação.

Falsificação das eleições na cidade de Donetsk, lançamento massificado dos boletins na urna de votação:

   

quarta-feira, outubro 24, 2012

Em Nome do Pai: vingança do NKVD


A famosa frase do Estaline “O filho não é responsável pelo pai” era diariamente desmentida pelo dia-a-dia do regime soviético. Mas talvez o caso do Yuri Shukhevych, filho do comandante supremo do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), general Roman Shukhevych foi o mais emblemático.

por: Dmitri Gordon, “Bulevar do Gordon”

Aos 15 anos Yuri foi condenado aos 10 anos de campos de concentração, oficialmente pelos contatos com a resistência ucraniana. Na realidade, pelo facto de ser filho do Roman Shukhevych, embora a lei soviética proibia o envio dos menores aos campos de concentração.

Aqueles que compreendem a situação ucraniana entendem que ficando entre os dois enormes maldades (comunismo e nazismo), o líder político e militar ucraniano, Roman Shukhevych, tentou escolher o mal menor, compreendendo que em ambos os casos a sua escolha seria má.

Ao longo dos anos NKVD metodicamente exterminava a sua família: prenderam pai, irmão, irmã, esposa, filho, retiraram a filha, que cresceu sem saber quem é ela. Não é de estranhar que durante o cerco general Shukhevych suicidou-se, não querendo passar pelos maus tratos nas casamatas e campos de concentração dos criadores do “futuro brilhante”.

Dos seus 79 anos, Yuri Shukhevych passou 31 anos nas cadeias e campos de concentração, apenas 4 anos entre as penas viveu no Cáucaso, sem direito de voltar a Ucrânia. Durante 5 anos, tendo a saúde fraca e já cego, foi detido contra a sua vontade na Casa dos Inválidos no interior da Rússia. Apenas após a compra da casa em Lviv, pela sua mãe, ela própria ex-prisioneira política, o regime soviético deixou Yuri Shukhevych voltar à pátria. Um dos seus filhos, que foi criado pela primeira esposa, tornou-se pequeno empresário já após o início da Perestroica e foi assassinado pelo crime organizado.                 
Yuri e Maria Shukhevych

Depois da prisão da mãe, Natália Shukhevych (apelido de solteira Berezynska), Yuri e Maria foram colocados no orfanato, primeiro na cidade de Chornobyl, depois em Stalino (hoje Donetsk). No verão de 1947 Yuri fugiu, conseguiu achar o pai, voltou para Stalino para libertar a irmã, mas foi reconhecido e preso.
Yuri Shukhevych conta que pai percebia que mais tarde ou mais cedo iria morrer. Num dos últimos encontros, no fim de 1947 ele disse ao filho: “Yurko, nesta luta nos iremos morrer, mas se morrerão (os jovens) como você, quem irá levantar este povo?” Uma outra frase do pai que ficou na memória foi essa: “Yurko, entendes, estamos lutar não pela vingança, mas para que este regime anti-humano nunca mais puder existir”.

Família Shukhevych

O avô do Roman Shukhevych era etnógrafo, autor do trabalho fundamental “Hutsulia”: uma coletânea de contos mágicos, provérbios, cerimónias tradicionais. O pai, Iosif-Zenon era juiz civil, tocava violino. O próprio Roman Shukhevych terminou a Politécnica de Lviv (faculdade de construção de pontes), Instituto Superior de Música na classe de piano, gostava as obras do Edvard Grieg, cantava (era um tenor), fazia natação e equitação.

Famílias como esta componham a elite intelectual da Galiza ucraniana. Muitos foram exterminados pelos comunistas em 1940-41, outros emigraram no fim da II G.M., os que ficaram eram metodicamente assassinados após a guerra.

A esposa do Roman Shukhevych e mão do Yuri, Natália foi presa pelo MGB em 17 de julho de 1945 e condenada à 10 anos de colónia penal com confiscação de bens.

Justos entre as Nações

A família dos Shukhevych escondia a menina judia Irina Reichenberg arriscando a sua própria vida (nestes casos os nazis fuzilavam toda a família que dava o abrigo aos judeus). Eugénia-Emília Shukhevych, mãe do Roman Shukhevych e a sua esposa Natália conheciam o pai da Irina. Natália, uma cristã grego-católica ucraniana concordou em esconder a menina. Foram preparados os documentos falsos em nome da Irina Ryzhko, órfã, nascida em 1937 (um ano menos do que a verdadeira Irina). Após o fim da II G.M., Irina Reichenberg terminou o politécnico, casou-se e vivia em Kyiv até a sua morte em 2006.

Morte do Roman Shukhevych

Na operação da captura do Roman Shukhevych NKVD-MGB usou cerca de 700 operativos, que obtiveram a ordem expressa de o capturar vivo. No dia 5 de março de 1950 NKVD cercou a sua casa segura na aldeia de Bilogorsha, nos arredores de Lviv, Shukhevych tentou romper cerco, consegui matar um major, mas foi gravemente ferido com rajada da pistola automática. Para não cair nas mãos do inimigo preferiu se suicidar…

Yuri, que estava na cadeia de Lviv foi levado para reconhecer o corpo do pai. Ajoelhou-se e beijou a sua mão. Onde os bolcheviques sepultaram o corpo do Shukhevych é segredo até hoje. Nos arredores de Lviv havia um local de construção civil, onde NKVD atirava os corpos no cal viva, para fazer desaparecer o corpo completamente.

Calvário dos Shukhevych

O irmão do Roman Shukhevych, Yuri, foi assassinado pelo NKVD em 1941, a irmã, estudante da medicina, foi presa em 1940 e condenada à 10 anos de campos de concentração e exílio no Cazaquistão. A mãe, Eugénia-Emília Shukhevych foi presa em 1945 e também deportada à Cazaquistão. O pai Iosif-Zenon Shukhevych tinha uma perna partida quando detido, morreu deportado.

Yuri passou 31 anos nas cadeias e campos de concentração, teve mais 5 anos de exílio. Sua mãe Natália cumpriu a prisão de 10 anos, foi novamente condenada apenas por viver em Lviv sem registo, retornou e morreu em Lviv. Irmã Maria foi entregue ao orfanato: sem saber quem ela é, sem saber o seu apelido ou quem são os seus pais. Ela foi formada em construção civil na escola técnica de Dnipropetrovsk, depois voltou para Lviv. Na sua certidão de nascimento estava escrito que nasceu em Donetsk, ano de nascimento foi falsificado. Atribuíram lhe o apelido Berezanskaya, inventando o pai, “Roman Berezanskiy”, deixando o nome paterno real Romanivna. Sem colocar o nome da mãe…   

História do Yuri

Tinha ele 15 anos quando foi condenado à 10 anos pela ligação à clandestinidade da OUN-UPA, sem sair da cadeia foi condenado à mais 10 anos pela “agitação e propaganda antissoviética”. Viveu 4 anos em liberdade no Cáucaso (não tinha o direito de voltar à Ucrânia), foi novamente condenado à 10 anos pela “agitação e propaganda antissoviética”, cumprindo um ano e novamente sem sair da cadeia recebeu mais 10 anos pela mesma acusação, cumprindo 11 no total. Como “recidivista extremamente perigoso” tinha que cumprir mais 5 anos de degredo.

Yuri conheceu as diversas cadeias soviéticas, que chama de suas universidades. Passou pelos espancamentos dos investigadores, os presos do delito comum chamavam à ele e outros prisioneiros políticos de “fascistas”, mas tratavam bem, pediam para escrever ora a contestação formal, ora queixa jurídica.

Paradoxo, mas nas cadeias Yuri Shukhevych lia os livros proibidos nas bibliotecas públicas da URSS, Merezhkovsky, cartas do Gogol, obras publicistas do Dostoevski. Por volta de 1981, no campo de concentração ele perdeu a visão, órgãos de “lei e ordem” proibiram a segunda operação aos olhos, embora a visão poderia ser salva.

Fonte:
http://www.bulvar.com.ua/arch/2012/41/5075d5f3f3844

quarta-feira, outubro 17, 2012

A queda do murro de Havana


Os cubanos hoje estão em clima da euforia: Raul Castro anunciou alguma liberalização da lei verdadeiramente draconiana que regia a política de saída dos cidadãos desta ilha revolucionária.

A nova lei aboliu a necessidade de obter a permissão de saída (uma espécie do visto da saída do país para os cidadãos nacionais), desde início de janeiro de 2013 a migração cubana também não irá mais exigir o convite passado pela contraparte estrangeira. É claro que o regime não esquece às suas origens: uma data de pessoas (desde os portadores de segredos do estado até médicos e desportistas) não irá viajar livremente. Também não se espera a saída livre dos dissidentes cubanos. No entanto é uma especie da primavera cubana que se queira possa transformar em queda do murro de Havana...

Até agora, os maiores viajantes cubanos são as "mulas", mas não, eles não trazem a droga, disso se encarregam os barões que são ligados aos amigos dos amigos. Não, as tarefas das "mulas" em Cuba são muito país prosaicas, bem descritas pela dissidente e blogueira cubana Yoani Sánchez: 

Se o conceito de “mula” no resto do mundo é entendido como alguém que transporta drogas, em Cuba alude a quem – especialmente dos Estados Unidos – traz pacotes que inclui na maior parte das vezes roupa, sapatos, alimentos em conserva, eletrodomésticos, comida instantânea, medicamentos e utilidades domésticas. A “mula” recebe um pagamento por este trabalho de mensageiro e muitas vezes o custo da sua passagem para a Ilha está pago como parte do acordo com a agência que o contratou”.

Leia o blogue da Yoani Sánchez (título é da responsabilidade do nosso blogue):

domingo, outubro 14, 2012

Brasil celebra Helena Kolody


No Brasil comemora-se o Centenário de nascimento da poetisa ucraniano-brasileira, Helena Kolody. Evento realizado pela Representação Central Ucraniano Brasileira – RCUB, que contou com a presença do Embaixador da Ucrânia no Brasil, Rostislav Tronenko.

SAGA

No fluir secreto da vida,
atravessei os milênios.

Vim dos vikings navegantes,
cujas naus aventureiras
traçaram rotas nos mapas.
Ousados conquistadores
fundaram Kiev antiga,
plantando um marco na história
de meus ancestrais.

Vim da Ucrânia valorosa,
que foi Russ e foi Rutênia.
Povo indomável, não cala
a sua voz sem algemas.

Vim das levas de imigrantes
que trouxeram na equipagem
a coragem e a esperança.

Em sua luta sofrida,
correu no rosto cansado,
com o suor do trabalho,
o quieto pranto saudoso.

Vim de meu berço selvagem,
lar singelo à beira d'água,
no sertão paranaense.
Milhares de passarinhos
me acordavam nas primeiras
madrugadas da existência.

Feliz menina descalça,
vim das cantigas de roda,
dos jogos de amarelinha,
do tempo do “era uma vez...”

Por fim ancorei para sempre
em teu coração planaltino,
Curitiba, meu amor!

sexta-feira, outubro 12, 2012

Lenine como hidra revolucionária


A “hidra de contrarrevolução” foi o termo amplamente usado pelos bolcheviques, desde 1919, para descrever os seus adversários políticos reais ou imaginários. A propaganda comunista cunhou os termos “hidra rastejante de contrarrevolução”, “hidra mentirosa da contrarrevolução”, “hidra emigrante de contrarrevolução”, por analogia à Hidra de Lerna, discriminando quer os grupos sociais inteiros, quer os indivíduos.

Na maior ironia histórica, neste ano, no centro da capital romena – Bucareste, um monumento do Lenine foi renovado em forma de hidra. O corpo do monumento é original, mas do seu pescoço surgem hastes das flores ou pescoços das serpentes. Por traz do monumento se localiza o edifício gigantesco da “Casa da Imprensa Livre”, onde se situava o jornal oficial do partido comunista romeno Scînteia (“Centelha”). Hoje o edifício abriga os escritórios de aluguer.

O autor do monumento original, o escultor romeno Costin Ionita chamou a obra de “Hidra”. Ao seu ver, o objetivo do trabalho é mostrar a falta do interesse dos cidadãos pelos políticos.

O Lenine romeno, erguido em 1960, copiava o monumento semelhante situado em frente da Universidade de Moscovo. Em 1990, após a queda da ditadura do Nicolae Ceauşescu, o monumento foi retirado do local e o seu pedestal ficou vazio por 22 anos.

Lembramos que em 2011 na capital búlgara, Sófia, os artistas desconhecidos coloriram o monumento dos soldados soviéticos, transformando os militares cinzentos em personagens simpáticas da mitologia ocidental do universo BD. Na cidade de Kyiv, uma das avenidas principais continua ter a presença do monumento do Lenine, a figura sinistra que nunca visitou Ucrânia, mas que teve a responsabilidade ideológica pela perda da independência ucraniana em 1919.  

Fontes:

Bónus

No dia 25 de dezembro de 1989, o Tribunal Militar Extraordinário condenou à morte o líder do PC romena e presidente da Romênia Nicolae Ceauşescu e a 1ª vice-primeira-ministra do país Elena Ceaușescu. O ditador e a sua esposa foram fuzilados, o momento do fuzilamento não foi capturado para a história pois o operador da câmara não consegui acompanhar a rapidez com que agiu a unidade formada pelos paraquedistas voluntários…

Ver o vídeo que deveria ser estudado e assimilado por todos os demais ditadores que continuam por enquanto agarrados ao poder:

terça-feira, outubro 09, 2012

O combatente judeu do UPA


Discutindo a II G.M., muitas vezes somos confrontados com os seus modelos simplistas. Uns invariavelmente são heróis e vítimas, outros carrascos, traidores e criminosos. Mas a vida é muito mais interessante e rica do que os clichés. Entre os ucranianos e judeus podemos encontrar aqueles que serviram os ocupantes estrangeiros, as vítimas inocentes e aqueles que lutaram pela independência ucraniana.

por: Volodymyr Vyatrovych, historiador

O veterano do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), judeu Mandik Hasman vive na província de Volyn, um dos redutos da resistência ucraniana contra diversos invasores estrangeiros. Os arquivos do NKVD não mencionam o seu nome, pois jovem Volodymyr Dmytrenko, preso pelo NKVD em 1945 não revelou as suas atividades ou a origem étnica…

Mandik nasceu em 11 de outubro de 1929, penúltima criança do Jisik (Djisik), chamado pelos vizinhos ucranianos de Djysko e da Carolina Hasman. Teve três irmãs, Ginda, Hana e Frida e três irmãos Itzik, Idol e Savik. A sua família não diferia muito dos vizinhos ucranianos ou polacos, no dia-a-dia se falava ucraniano e polaco.

Na I G.M., Jisik Hasman serviu no exército austro-húngaro, acabou a guerra com patente do capitão. Depois da guerra ganhava o sustento transportando os passageiros numa carroça, uma espécie de táxi da época. A família não era rica, mas não passava as necessidades. Os Hasman viviam entre os ucranianos, Mandik os recorda com ternura.

A vida calma da Galiza ucraniana foi perturbada em 1939. A queda da Polônia e a chegada do regime soviético se intrometeram na vida dos Hasman: uma das irmãs casou com oficial soviético, outra foi aprender a enfermagem. Mais tarde isso salvou Hana e Ginda da perseguição nazi, a enfermeira foi mobilizada para o exército soviético, outra foi evacuada para o Leste. O resto da família ficou na cidade e acabou no gueto de Drohobych. Frida foi presa pelos nazis e enviada para Auschwitz.

No verão de 1942 os nazis começaram a liquidação do gueto. Jisik, Carolina, Itzik e Idol Hasman foram fuzilados. Num intervalo que os assassinos aproveitavam para descansar, Mandik levou o irmão Savik e a prima Kaili e fugiu. A sua corregem explica de maneira simples: “Apenas queria viver”.

Conseguiram chegar até a Volyn, onde se escondiam entre as famílias ucranianas. Mandik se batizou e escolheu um novo nome: Volodymyr Dmytrenko. Fugindo das rusgas nazis, que levavam os jovens ucranianos aos trabalhos forçados na Alemanha, Mandik decidiu se juntar ao UPA, assim aos 14 anos ele se torna um insurgente ucraniano.

Quando o perguntam se não tinha medo dos nacionalistas ucranianos, Hasman responde: “O bom-troco levavam os delatores, diversos traidores, independentemente da sua nacionalidade”. No UPA Mandik cuidava dos cavalos, se tornou o “condutor” dos diversos comandantes da guerrilha.

Nos anos 1943-1944 participava nos combates contra os alemães e polacos. UPA atacava as guarnições dos nazis, destruía as suas comunicações. Hasman tinha uma pistola polaca, sempre com falta de munições. Na primavera de 1944, juntamente com a centena do comandante “Khoma”, Mandik participou na defesa das aldeias ucranianas contra a ofensiva da guerrilha anticomunista polaca, Armia Krajowa.

Além da preparação militar, Hasman recebeu o preparo ideológico, até hoje consegue citar o “Decálogo do Nacionalista Ucraniano”, desde sempre honrou a sua tese principal: “Obterás o Estado ucraniano ou morrerás lutando por ele”. Mandik adora cantar as canções insurgentes.


Na primavera de 1944 a ocupação nazi da Volyn foi substituída pela ocupação soviética. Por isso no verão de 1945 UPA se divide em pequenas unidades móveis que continuam a luta. No inverno do mesmo ano Hasman é ferido em combate (uma rajada da metralhadora atingiu as duas pernas) e preso pelo NKVD. Nos interrogatórios o batiam sem piedade, mas Mandik, alias Volodymyr Dmytrenko, sempre dizia o mesmo: no UPA se escondia dos nazis, tratava dos cavalos deles. Sendo menor, nove meses mais tarde foi libertado.

Mandik ficou a viver na Volyn, aqui se casou, em 1949 foi mobilizado para o Exército soviético. Cumpriu o serviço militar no Extremo Oriente, onde a contrainteligência militar o obrigou a confessar o verdadeiro nome e a origem étnica. Voltando para Volyn, 35 anos Mandik trabalhou numa mina. Desde 1991 serve ativamente na Irmandade Ucraniana dos Veteranos da OUN-UPA. Como a maioria dos seus companheiros não recebeu nenhuma distinção oficial do estado ucraniano. “Poder ucraniano não gosta dos seguidores do Bandera”, diz Hasman.

As organizações judaicas também não reconheceram os sacrifícios do Mandik. Eles recordam os judeus que lutaram contra os nazis nas unidades da Armia Krajowa e Armia Ludowa, Exército Vermelho ou partisanes comunistas. Os veteranos do UPA por enquanto continuam no esquecimento.   

Fonte:
http://www.istpravda.com.ua/articles/2011/06/8/41955

sábado, outubro 06, 2012

Kobza que desafiou estalinismo


Durante a longa noite do terror comunista que se abateu sobre Ucrânia, até os instrumentos musicais eram temidos pelas autoridades soviéticas pelo seu alegado “perigo nacionalista”.

No fim de 1935 na Ópera de Kharkiv (a capital da Ucrânia Soviética até 1934), decorreu o Congresso dos Cantores Populares da Ucrânia Soviética. O Congresso pretendia engajar os cantores populares na “construção socialista” segundo as novas prioridades ideológicas do regime. Após votar as resoluções propostas, os cantores, muitos deles eram invisuais, foram colocados no comboio e trazidos aos arredores da aldeia Kozacha Lopan, onde tinham sido fuzilados pela unidade especial do NKVD. As suas kobzas e banduras foram queimadas.

Ainda em 1933, o Plenário do Comité da Sociedade dos Trabalhadores da Arte de Toda a Ucrânia, declarou a kobza e bandura como “instrumentos inimigas da classe”. O autor da sentença, Andriy Khvylia (nascido como Andrey Olinter, fuzilado em 1938), disse que estes instrumentos orientam a “frente musical” aos “tempos dos hetmanes” e “romantismo cossaco”. E o regime não queria permitir essa liberdade.

Nos primeiros anos pós-ocupação bolchevique, o poder soviético matava os cantores populares ucranianos de maneira extrajudicial. Mais tarde, a tática foi mudada e o poder estatal institucionalizou quatro decretos: “Sobre a proibição de mendicidade”, “Sobre registo obrigatório dos instrumentos musicais nas unidades da milícia e do NKVD”, “Sobre aprovação do repertório nos departamentos do Comissariado Popular da Educação”, “Regulamento sobre atividade musical e da performance individual e coletiva”. Os bardos já não eram assassinados arbitrariamente, mas presos e os seus instrumentos destruídos.

Os títulos da imprensa soviética diziam: “Controlar os tocadores da kobza de maneira mais vigilante”, “Kobza é uma charrua musical”, “Sanfona-milagreira se torna e se tornou um verdadeiro meio de educação das massas”. Os artigos alertavam contra o perigo dos “velhos restos nacionalistas” trazido pelos banduristas e exortavam a usar os meios decisivos para acabar como “nacionalismo dos kobzares”.

O escritor Yuri Smolych, “motivado” pelo regime escrevia: “Kobza representa um certo perigo, pois é ligada fortemente aos elementos nacionalistas da cultura ucraniana, ao romantismo cossaca e à Sich de Zaprorizhia. Este passado os kobzares certamente tentavam a reanimar”.    

O regime colonial comunista usava a tática de extermínio dos representantes da memória nacional, dos que exortavam a luta de libertação nacional, os heróis da resistência ucraniana. Os banduristas preservavam o sentimento da determinação nacional, lembrando aos ucranianos as raízes da sua identidade nacional, preservavam as riquezas da herança cultural da Ucrânia.

Existem testemunhos, indicando que os arquivos do NKVD de Kharkiv relativos a este caso foram queimados em 1941 e mais tarde em 1960. O número exato dos banduristas e kobzares exterminados não é conhecido, na literatura histórica aparecem os números entre 200 e 1234 pessoas. Sabe-se que só na província de Kyiv, no início do século XX viviam cerca de 240 destes bardos, até 1941 já não sobrava nenhum.

Existiam os escritores ucranianos que tentavam defender os banduristas, casos do Pavló Tychyna e Maksym Rylskiy. Também havia a tentativa dos comissariados de educação e do NKVD a obrigar os banduristas tocar as canções e poemas que exortariam a atualidade soviética e realismo socialista.

O assassinato dos banduristas é mencionado no livro do Robert ConquestHarvest of Sorrow”: “os bardos recordavam permanentemente aos camponeses o seu livre e glorioso passado. Os bandurristas foram chamados para o Congresso, reunidos juntos e presos. Pelas notícias existentes muitos deles foram fuzilados, havia lógica nisso, pois iriam servir pouco nos campos de trabalhos forçados”.    

quinta-feira, outubro 04, 2012

Morreu Sofia Chumachenko


A ex-primeira-dama da Ucrânia, Kateryna Yushchenko, informa na sua página do Facebook sobre a morte da mãe, Sofia Chumachenko.

Sofia Chimachenko nasceu em 1926 na aldeia de Litky na província de Kyiv. Aos 6 anos quase morreu durante Holodomor. Aos 15 anos foi levada pelos nazis aos trabalhos forçados na Alemanha, trabalhou numa quinta agrícola na Baviera.

Na Alemanha conheceu o seu marido, também ele um trabalhador forçado, levado da Ucrânia Oriental. Aos 19 anos nasceu a sua primeira filha, Lídia. Durante oito anos a família viveu na Alemanha Federal, onde pai tratava a tuberculose aguda. Mais tarde se mudaram para os EUA, Sofia trabalhava como lavadeira.

Os pais sempre sonhavam que um dia iriam ver a Ucrânia independente, eram ativos na comunidade ucraniana. Quando o pai morreu, segundo o seu testamento foi sepultado em Kyiv. Os país tinham 3 netas e 2 netos, que têm agora entre 8 à 46 anos.

Kateryna Yushchenko recorda a mãe como uma pessoa feliz que amava a vida, gostava de receber as visitas, adorava danças e cantos ucranianos, passeava à pé e de bicicleta, lia, cuidava do quintal e da horta. Amava a sua família, o marido, Ucrânia, netos e os amigos.

Nos últimos anos da sua vida Sofia Chumachenko viveu com a filha na Ucrânia.

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