quinta-feira, maio 31, 2012

A “cruzada” linguística dos “bilinguistas”


A reflexão pública do blogueiro ucraniano do leste da Ucrânia sobre a cruzada em “defesa” dos falantes da língua russa, anunciada por uma parte mais radical do Partido das Regiões.

Durante o recente encontro com a deputada do Partido das Regiões, Yelena Bondarenko, em que esteve presente na qualidade do jornalista, convenci-me do que o nosso povo será mais uma vez “puxado pela língua”, nas vésperas das eleições legislativas.

Quando a deputada, sem mais nem menos, começou a falar sobre o “desalojamento da população russófona da Ucrânia”, eu compreendi que Regiões não terão nenhum programa económico inteligível e em vez deste, nos espera a palhaçada do costume.

Quando a fotografia do Vadim Kolesnichenko de camisa rota na tribuna do Parlamento ucraniano correu a imprensa, eu soube com a surpresa que este homem arriscou a sua saúde por minha causa. Meteu a cabeça aos socos, estragou as roupas caras pagas com o dinheirinho modesto do deputado, e tudo isso, defendendo os meus interesses. Pelo menos ele dizia que sim.

Pois sou eu, o tal morador russófono de Donbass, com as raízes étnicas russas, cujos direitos são violados pelos “fascistas”. Sou o tal descendente do veterano do exército soviético, ferido nos combates da II G.M., que na opinião da Yelena Bondarenko é desalojado da Ucrânia pelos agentes da “ucrainização rastejante”. São os meus avôs “que combateram”, logo dois, como deve ser. Significa que é por mim que os deputados estão prontos à partir os seus maxilares de porcelana.

Por isso, na pressa de evitar qualquer derramamento de sangue futuro, danos materiais e possíveis vítimas entre os deputados, eu me quero dirigir aos defensores da língua russa e os pedir um pequeno favor.

Senhores, camaradas, peço vos, não há necessidade de me defender.

Eu, russófono até as tantas, morador da Ucrânia do Leste, liberto vos dessa missão gloriosa, parem. Vos sois mal informados, sois equivocados. Palavra de honra, ninguém me proíbe de falar russo. Eu não sou espião, nem o desertor da Galiza. Sou o maior natural de Donetsk, do que eu próprio gostaria de ser. Em Donbass nasceram os meus avôs e as minhas avós, na minha família nunca ninguém falava ucraniano, mas eu quero lá mandar as vossas iniciativas linguísticas cá para um sítio, pois vocês são vigaristas e mentirosos.

Eu não preciso a vossa defesa, pois o maior mal da Ucrânia, do qual eu gostaria de me defender, são vocês próprios. A luta contra a ucrainização em Donetsk, onde é impossível encontrar um letreiro em ucraniano, onde a língua ucraniana nas ruas é usada menos do que árabe, pode ser conduzida ou pelos cretinos absolutos ou pelos paranoicos irremediáveis. De uns e de outros, na minha convicção profunda, é necessário manter a distância. E muito menos, nem uns, nem outros, não teriam o meu aval para me defender no parlamento, por isso vos peço, não defender mais os meus direitos linguísticos.

Juro, ninguém me oprime e não desaloja da Ucrânia. Sem problemas eu compreendo a língua ucraniana, ao mesmo tempo tenho o acesso livre à literatura, música e produção vídeo em língua russa. Por vezes, tenho a vergonha do meu país, mas isso nada tem a ver com as línguas.

Passo a vergonha, quando leio na imprensa estrangeira sobe a corrupção e estupidez dos burocratas ucranianos. Passo a vergonha quando vejo na TV o presidente que cumpriu dois termos prisionais. Passo a vergonha quando vejo nos jornais a cara pacóvia do Vadim Kolesnichenko. Me incomoda a qualidade vergonhosa dos serviços nas instituições estatais, a inflação e a miséria de infraestrutura das cidades ucranianas. Fico bastante incomodado com a herança soviética nos nomes das ruas, estão fora da moda, e eu não quero ver este lixo diariamente, pela mesma razão do que vocês não vestem os casacos de tweed. E se vocês ficam tão preocupados com o meu conforto, façam alguma coisa em relação a tudo isso, mas deixem em paz as questões linguísticas.

Acreditem, eu, cidadão ucraniano falante da língua russa, absolutamente não estou preocupado com a existência na Ucrânia da língua ucraniana. Eu, cidadão da Ucrânia falante da língua russa, estou muito preocupado com as atividades provocatórias do Partido das Regiões. Eu vos peço, vão para o diabo com as vossas camisas rasgadas. Nos, aqui em Donbass, podemos mugir na língua das vacas, apenas para que vocês desaparecessem do parlamento e nunca mais nos recordassem da vossa existência.

Fonte

Bónus

Os deputados do Partido das Regiões que representam as regiões ocidentais da Ucrânia estão prontos a fazer a démarche durante a votação do projeto da lei linguístico.

Como explicou o deputado Petró Pisarchuk, ele pessoalmente não votará pela aprovação da lei. “Considero a aprovação desta lei como um erro político e por isso não a votarei favoravelmente”, disse Pisarchuk, que planeia concorrer nas próximas legislativas numa circunscrição majoritária (listas não partidárias), na região de Lviv, escreve Comments.ua

quarta-feira, maio 30, 2012

Solidariedade com o veterano do OUN-UPA


Dmytro Verkholyak (“Dub” – Carvalho) é centenário do UPA, oficial do Serviço de Segurança (SB OUN), prisioneiro político durante 25 anos, hoje apesentado, que vive na província ucraniana de Ivano-Frankivsk.

Hoje, já com cerca de 80 anos, tem muita dificuldade de andar (resultado dos ferimentos militares, resultantes na doença das pernas). Não tem a família, vive sozinho, não recebe a ajuda do poder local e precisa de nossa solidariedade.

Dmytro Verkholyak continua a cuidar dos seus animais (cabritos, galinhas), anda muito devagar e apenas com a ajuda das muletas. Coisas que ele necessita urgentemente:

– uma gabardina (pode ser militar) para não se molhar, quando precisa de estar no quintal durante a chuva
– novas muletas
– alimentos
– roupa, utensílios

A pessoa que neste momento cuida dele é o funcionário do Centro de Estudos dos Movimentos de Libertação (CDVR), Serhiy Pohorelchuk, contactos + 38 097 8419223, pohorelchukarrobagmailkrapkacom

terça-feira, maio 29, 2012

Euro – 2012 e perspetivas turísticas da Ucrânia

Tal como aconteceu no Mundial da África do Sul e nos Jogos Pan-Africanos em Maputo, o governo ucraniano traça cenários extremamente otimistas da chegada dos turistas estrangeiros. O que segue é uma visão de até que ponto estes cenários são reais, já que 88% dos pedidos da compra dos bilhetes para os jogos partiram da Ucrânia e da Polónia.

Primeiramente um pouco da estatística. Durante o Euro, Ucrânia irá sedear 15 jogos, o que multiplicado pela capacidade dos seus estádios dará de 730.000 lugares. Tendo em conta os tais 88% dos pedidos provenientes das nações – organizadores e calculando que Ucrânia e Polónia pedem o mesmo número dos bilhetes, significa que para os estrangeiros fica apenas cerca de 450.000 bilhetes. Não é mau, mas longe dos “milhões” prometidos.
Quem conhece a Europa, sabe que hoje em dia os jovens europeus viajam alugando um carro (ou procuram bilhetes aéreos low-cost). Praga, Berlim, Barcelona ou Amsterdão se enchem-se de jovens das outras cidades e países que chegam para divertir-se, visitar os clubes, beber a cerveja, namorar ou simplesmente descansar.
O Campeonato europeu torna-se apenas um argumento extra para este tipo de turismo, quando a ideia previa já estava a “pairar no ar”. O futebol per si, não é o atrativo demasiadamente forte para os obrigar a visitar o país – organizador no caso de não possuírem nenhum interesse anterior de visita-lo.
Além disso, este tipo de viagens não envolve preparativos longos e não são financeiramente difíceis para um europeu médio.
O que neste aspeto oferece Ucrânia?
A eliminação do visto de entrada para os cidadãos da União Europeia fez com que haja mais turistas ocidentais em Lviv, mas não em Kyiv ou outras cidades ucranianas. Enquanto Polónia é visitada pelos turistas da UE durante todos o fim-de-semana, mesmo agora, ainda sem Euro algum.
O mercado ucraniano de viagens aéreas possui apenas um único operador de low-cost, além disso, existe o “quase low-cost”, MAU, com um serviço melhorado, mas este dificilmente poderá oferecer a viagem London – Kyiv abaixo dos 200 Euros (ida e volta).
A situação não é melhor com o alojamento (tirando o alojamento extremamente caro nos pacotes all-inclusive), a maioria dos turistas irá procurar hotéis ou outro tipo de alojamento que custam até 50 Euros por dia. A página booking.com oferece apenas 54 propostas em Kyiv, comparados com 188 hotéis em Varsóvia. Situação nas outras cidades ucranianas é bastante pior.
Blogueiro
Bem, talvez nem tudo é tau mau, pessoalmente já recebi os pedidos dos jornalistas portugueses para indicar o alojamento em Lviv e Donetsk. Mas é claro, uma centena de jornalistas europeus não irão salvar o Euro do facto do nosso turismo ser bastante caro, principalmente se for comparado com quase total desconhecimento do mercado ucraniano na Europa. 20 anos após a sua independência política, continuamos ser uma terra-incógnita aos olhos da maioria dos europeus.  

segunda-feira, maio 28, 2012

Altar de pysankas em Kyiv


Na Praça Sofia no centro de Kyiv foi montado o altar formado por 250.000 pysankas.

A composição é formada por 250.000 ovos da Páscoa e representa uma parcela do altar do Ghent, obra-prima da autoria dos irmãos van Eyck, pintores flamengos do século XV.

A altura do “Altar das Nações” é de 22 metros, largura mais de 30 metros. As pysankas foram pintadas pelos pintores profissionais, crianças e as pessoas que cumprem as penas nos estabelecimentos prisionais da Ucrânia. A autora da composição é a pintora ucraniana Oksana Mas.

Após a demonstração do altar em Kyiv, os seus fragmentos serão exibidos nas praças centrais das maiores cidades ucranianas.    

Ver mais fotografias:

domingo, maio 27, 2012

A euforia sueca


by@ Gustav Cederström (1845-1933)

Parabéns à Suécia que ganhou o festival “Eurovisão-2012”. A Gaytana tinha toda a possibilidade de mostrar um lindo exemplo de afro-ucrainidade e se mostrou apenas como uma razoável cópia da Whitney Houston... 

Aconselhamos visitar o blogue Orpheusandlyra dedicado à Ucrânia (em inglês).

sábado, maio 26, 2012

Viva Geórgia!



26 de maio é o dia da Independência da Geórgia.
გილოცავთ საქართველოს დამოუკიდებლობის დღეს!

sexta-feira, maio 25, 2012

G1 mente descaradamente

Reportando a discussão no Parlamento ucraniano sobre o projeto-lei que permitirá o uso oficial da língua russa, a página brasileira G1 está a desenformar os seus leitores de uma maneira absurda e totalmente inaceitável.

A página escreve: “A briga começou quando a oposição apresentou um projeto de lei para permitir o uso oficial da língua russa”. Que é falso, pois o projeto é da autoria do deputado Vadim Kolesnichenko do Partido das Regiões, base do Governo e sob o controlo do presidente Yanukovych, da mesma cor política.
Vadim Kolesnichenko vestindo uma T-shirt provocatória

Depois G1 diz: “Os deputados leais ao presidente Yanukovich acreditam que a lei vai dividir o país”. Que mais uma vez é absolutamente falso, pois é a oposição (Nossa Ucrânia – Autodefesa Popular, Bloco Yulia Tymoshenko) fortemente contesta a lei, que certamente irá dividir o país. E são os deputados mais pró-russos do Partido das Regiões, mesmo arriscando os votos dos seus apoiantes ucranianos apostam tudo em promover uma lei absolutamente irrefletida e que, de longe, não reúne o consenso na sociedade ucraniana.

quinta-feira, maio 24, 2012

Contra a divisão linguística da Ucrânia


O Parlamento ucraniano (Verkhovna Rada) se encontra cercada pelos cidadãos que protestam contra o projeto-lei “Sobre os alicerces da política linguística estatal”, que pretende dar à língua russa o estatuto da segunda língua oficial da Ucrânia.

Os participantes do comício enviaram ao presidente Yanukovych uma delegação com a seguinte declaração (o blogueiro Mykola Malukha escreve que as pessoas decidiram não arredar o pé do parlamento, pernoitando nas suas portas):  

Viemos cá em nome dos cidadãos da Ucrânia que neste momento estão fazer aquilo que deveria fazer a V. Excelência e os membros do Seu partido defender a unidade e estabilidade do país. Exortamos a V. Excelência influenciar imediatamente a maioria parlamentar por si controlada, retirando da ordem do dia o projeto-lei divisionista”.

Apesar do que os cidadãos avisaram a Municipalidade de Kyiv sobre a sua intensão de visitar o presidente, a polícia os impede de aproximar à Presidência da República, agarra as pessoas pelas mãos, arranca os seus pertences. Os agentes da polícia não se identificam, como manda a lei, escreve Maidan.org.ua

Dentro do plenário, os deputados da oposição bloqueiam a tribuna para não permitir a votação da lei, que definitivamente irá prejudicar o desenvolvimento da língua ucraniana na Ucrânia.

O Historiador Volodymyr Viatrovych escreve no seu perfil na rede social FB, que a seção plenária foi  abruptamente fechada apenas dois minutos antes da votação, assim o projeto-lei não foi votado e houve a luta corporal entre os deputados. Os deputados do Partido das Regiões se portaram como autênticos criminosos (existem a informação do que eles introduziram no Parlamento os seus "soldados"), partiram a cabeça do general Mykola Petruk, deputado do Bloco Yulia Tymoshenko, usando alguma coisa metálica, provavelmente um punho-inglês ou um molho de chaves.
Foto@ Victor Ukolov

Ambulância na entrada do Parlamento

Amizade Geórgia – Ucrânia


A comunidade georgiana de Donetsk, ofereceu à cidade o monumento de São Jorge (padroeiro da Geórgia), como “o sinal de agradecimento à toda região de Donetsk, que se tornou a segunda pátria para os georgianos aqui residentes”, diz a inscrição no monumento.

quarta-feira, maio 23, 2012

A resistência ucraniana na guerra contra NKVD


Myroslav Symchych é um lendário comandante do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), prisioneiro político ucraniano que passou 32 anos, 6 meses e 3 dias nas cadeias e campos de concentração soviéticos.

Perseguido e torturado, ele nunca cedeu aos seus carrascos. Atrás das grades ele conheceu e fez amizade com diversos intelectuais ucranianos, da geração de 1960: escritor e publicista Yevhen Sverstyuk, poetas Ivan Svitlycny e Ihor Kalynets, jornalista Valeriy Marchenko. Estes invencíveis conseguiram derrotar a URSS, quando passaram para Ocidente a sua carta – protesto, que foi publicada na imprensa europeia e americana.

No final da década de 1940, Myroslav Symchych (“Kryvonis”), comandava a centena de Berezy, que por sua vez fazia parte do Kurin (unidade tática básica) dos Cárpatos do UPA. Os serviços secretos soviéticos contabilizam cerca de 40 combates que a sua centena travou com as tropas do NKVD. Em apenas dois deles os guerrilheiros ucranianos não saíram vitoriosos.

– Na realidade, estes combates e estas vitórias eram muito mais numerosas, – com um sorriso malandro diz Myroslav Symchych.

Mas o seu combate mais famoso se deu no dia 15 de janeiro de 1945 nos arredores da aldeia Rushir, na entrada da aldeia de Kosmach (tida como a capital da guerrilha ucraniana), quando a sua centena (cerca de 250 combatentes), derrotou e exterminou o 256° batalhão das guardas do NKVD. Juntamente com o seu comandante, tenente-coronel (por vezes referido como o general), Aleksey Dergachov (1913 – 1945, desde agosto de 1944 o comandante do 256° batalhão da 36ª divisão das guardas do NKVD da Circunscrição Ucraniana).

Tínhamos que esconder os 250 homens para que o inimigo não desconfiar de nada. Encontramos uma boa localização. As montanhas circundavam o caminho em forma de ferradura. Pensei, foi o próprio Deus que criou as nossas montanhas para podermos exterminar nelas os visitantes importunos”, – lembre-se Symchych.

Os seus homens possuíam 22 metralhadoras ligeiras, um lança-minas, um lança-granadas, mais de 20 pistolas automáticas, cerca de 15 carabinas semiautomáticas, os restantes guerrilheiros estavam armados com espingardas e granadas.

A coluna inimiga apareceu de manha cedo: entre 12 à 15 camiões Studebaker (das cerca de 500 mil unidades produzidas nos EUA, 477.000 foram fornecidas à URSS segundo o programa de Lend-Lease), a abarrotar de soldados e um carro ligeiro que parou em frente da ponte, que os guerrilheiros acabavam de desmontar. Todos estavam ao alcance do tiro…

Em duas horas e meio do combate, foram aniquilados cerca de 405 soldados e oficiais do batalhão, juntamente com o seu comandante, tenente – coronel Dergachov.

– Quantos carrascos do NKVD vocês lá arrumaram, se pergunta ao Symchych.
– Não tínhamos tempo de contar, pessoalmente foi ferido com uma bala dum-dum na mão direita, apenas consegui fazer a estimativa de cerca de 200 pessoas. Assim escrevi no meu relatório. Já em 1968, durante a pós-investigação, soube que NKVD intercetou o meu relatório.
– Tu não mataste os nossos 200 homens, chiava maldosamente o investigador, só em combate morreram 375 pessoas, outros 50 morreram no hospital dos ferimentos…

No gabinete do investigador, o prisioneiro Symchych encontrou a viúva e o filho do tenente-coronel Dergachov. O investigador lhes propôs “olhar nos olhos” daquele que despachou ao inferno o seu “pai e marido”. Quando o NKVDista lhe perguntou sobre o tipo de castigo que insurgente ucraniano merecia a receber, a viúva do carrasco respondeu decididamente:

– Apenas a pena capital, apenas a pena capital…

Em 13 abril de 1949 Symchych foi sentenciado pelo Tribunal Militar da cidade de Stanislavsk (hoje Ivano-Frankivsk) ao abrigo do artigo 54-1, linha “A” (“traição da pátria”) e 54-11 (“envolvimento em organizações contrarrevolucionárias”) aos 25 anos de prisão. Em 1968 ele foi preso novamente e julgado pelo seu papel na aniquilação do 256° batalhão do NKVD. Foi libertado apenas em 1985, mais um ano viveu sob a constante vigilância policial. Neste momento é apesentado e vive na província de Ivano – Frankivsk.

Ver o filme histórico “O inverno quente de 1945. A batalha de Kosmach” no YouTube, 15’14’’:

terça-feira, maio 22, 2012

Ucraniano é o campeão de armwrestling


Ucraniano Ihor Paseka, natural da província de Ternopil (Galiza Ucraniana), é o novo campeão da Europa de luta de braço, que neste fim-de-semana decorreu na cidade polaca de Gdansk, escreve VK.com.

Parabéns ao Ihor!

A revolta de Kengir: crônicas do GULAG


Nas estepes quentes do Cazaquistão
Levantaram-se os campos especiais
Desdobraram-se as costas cansadas
Não é a hora de se lamentar.
Na rotura sagrada
Se abriram feridas
Não seremos, não seremos escravos
Nem queremos nos jugo portar!
Decaíram os murros que nos separavam,
O irmão encontra irmã,
Pai e filho, esposa e marido
Uma moça saúda o rapaz…

(Hino da revolta de Kengir da autoria do ucraniano Mykhaylo Soroka)

A revolta de Kengir faz parte do movimento da resistência popular dos prisioneiros políticos soviéticos, que abalou o sistema dos campos de concentração de GULAG. A revolta que durou entre 16 de maio e 26 de Junho foi esmagada com blindados T-34.

O campo especial dos prisioneiros políticos № 4 – “Steplag” (campo de estepe) se situava no deserto areoso da província de Karaganda. Localidade de Kengir, hoje Dzhezkazgan, o atual Cazaquistão.

O campo criado em 1948, cercado primeiramente com o arame farpado e depois com um murro de três metros de altura, abrigava duas zonas prisionais: masculina e feminina. A mão-de-obra semiescrava era usada na construção de fábricas, manufaturas, estradas, edifícios habitacionais.

Quando o número dos prisioneiros ultrapassou 3.000 pessoas, campo foi alargado até 5 zonas. Cada zona era separada das restantes por um murro alto e robusto. As pessoas viviam em abrigos feitos na terra, mais de 70 pessoas em cada um. Mais tarde, passaram para as barracas, lá viviam até 200 pessoas. Era a força laboral gratuita, mal alimentada, humilhada, privada de quaisquer direitos e escravizada, a construir “o futuro melhor” no “país socialista mais democrático do mundo”. As suas ferramentas eram a alavanca, marreta, pá e cunha de 12 kg. Tudo era escovado e retirado manualmente, para o transporte eram usadas as carinhas de mão.

No início de 1954 o “Steplag” já abrigava 20.698 prisioneiros, destes 9.596 eram ucranianos (incluindo vários membros e simpatizantes do movimento guerrilheiro ucraniano), 2.661 russos, 2.690 lituanos, 1074 letões, 878 belarusos, no total representantes de 33 nacionalidades, além disso 167 pessoas eram registados pela administração como “outros”.

Nas vésperas da Páscoa de 1954 um dos guardas matou com o fogo da sua pistola-metralhadora 13 e feriu 33 pessoas, dos quias 5 morreram mais tarde. Na terceira zona o guarda, sem um motivo aparente, abateu a tiro o prisioneiro idoso, ao qual faltavam apenas duas semanas para a sua libertação. Numa ocorrência separada, no pátio auxiliar foram assassinados mais de 50 presos.

No dia 16 de maio, mais de 10.000 prisioneiros de Kengir entraram em greve, após a recusa da administração de investigar e punir os guardas responsáveis pelo assassinato das pessoas inocentes, alegando a “tentativa da fuga”, por vezes apenas para ganhar uma folga extra ou um relógio pela “dedicação ao serviço”.

No segundo dia da greve o campo parou por completo. Para desmoralizar os grevistas, a administração transferiu para “Steplag” cerca de 600 criminosos de delito comum, oficialmente classificados não como “inimigos do povo”, mas como “cidadãos soviéticos que optaram pelo caminho de reabilitação”. Quebrados fisicamente e psicologicamente pela resistência organizada dos veteranos do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), uma considerável parte deles optou por apoiar a revolta.

Os prisioneiros cavaram os túneis e abriram as brechas nos murros, unificando todas as zonas e a cadeia interna em uma única entidade. Cerca de 12.000 prisioneiros de diversas nacionalidades uniram-se, elegendo na reunião geral o Comité organizativo da revolta de 16 pessoas. Os revoltosos tomaram o controlo da reserva alimentar, garantiam a continuação do funcionamento da cozinha, cabeleireiro, banhos, lavatórios e outros pontos estratégicos do campo.

O Comité grevista comunicava com a população civil circunvizinha, usando os altifalantes e os papagaios de papel, pedindo informar Moscovo e a intervenção de uma comissão estatal. As negociações com a administração local não levavam aos resultados aceitáveis. O campo era guarnecido pelo perímetro exterior, os chekistas não aceitavam as exigências dos grevistas de parar os desmandos e castigar os guardas – assassinos.

No 40° dia da greve, os franco-atiradores do ministério do Interior mataram os vigias nas barricadas e iniciaram o ataque da sua própria infantaria, secundada pelos blindados. O memorando № 228 dedicado à revolta de “Steplag”, reúne os informes do vice – ministro do Interior da URSS, S. Iegorov, do chefe do GULAG, tenente – general I. Dolgikh, do vice-chefe do GULAG tenente – general V. Bochkov, endereçados ao ministro soviético do Interior, coronel-general S. Kruglov. O memorando confirma o uso em Kengir de cinco blindados T-34, duas divisões de guardas armados de 1600 homens, 98 cães com os guias e três carros de bombeiros com os jatos de água.

Os blindados demoliam as barracas, esmagando as pessoas, usavam as metralhadoras disparando contra a multidão. O médico húngaro Ferenc Varkoni (1920 – 1988) afirma nas suas memórias publicadas em 1956 no Ocidente, que na manha do dia 26 de junho foram esmagados cerca de 500 homens e 400 mulheres. O prisioneiro político ucraniano, Vasyl S. Fursyk, afirmava que pelos dados dos próprios guardas, foram mortos cerca de 1000 pessoas, entre eles 520 mulheres, quase 2.000 foram feridas.

Durante quatro horas os prisioneiros, armados apenas com pedras, tijolos e algumas armas brancas, resistiam às metralhadoras e aos tanques. Era a revolta dos milhares de invencíveis que tiveram a coragem de defender a sua própria dignidade. Mesmo após o ataque dos blindados, os revoltosos não se renderam imediatamente, recuando e transformando as suas barracas em último reduto da resistência.

Os participantes ativos da revolta (cerca de 500 homens e 500 mulheres) foram transferidos para Magadan, recorda um dos participantes, ucraniano Yuriy Ferenchuk, condenado aos 25 anos de campos de concentração e 5 anos de exílio especial.

Vários factos sobre a revolta são conhecidos graças ao livro de um outro resistente, ucraniano Volodymyr M. Karatash. Nascido em 1926 na região de Odessa e proveniente de uma família destroçada pelo regime soviético, ele chegou a ser condenado à pena capital pelos nazis. Preso pelo NKVD, recebeu a sentença de 8 anos de prisão e mais tarde, em 1953, a pena capital. Depois da morte do Estaline, o fuzilamento foi substituído pela prisão e exílio. Após o fim da revolta, ele juntamente com outros 305 prisioneiros foi transferido para a Kolyma e em 1956, cumprindo 12 anos da sua pena, foi absolvido pelo Presídio do Conselho Supremo da URSS com a anulação das condenações.

@Bohdan Melnychuk, deputado municipal da VO Svoboda
       
Fonte:

segunda-feira, maio 21, 2012

A camuflagem digital de caças ucranianas


Duas caças da força aérea da Ucrânia, Mig-29 e Su-27, que foram reparadas de raiz em 2012, receberam a nova camuflagem digital, que entrou na “moda” militar após o seu uso em esquadrilha dos Mig-29 da Eslováquia.

As caças tiveram a gama de cores diferente, Mig-29, número de identificação “02 azul”, foi reparado em Lviv e recebeu a camuflagem cinzenta, a mais próxima do original eslovaco. Já a caça Su-27 (na foto) com o número de identificação “100 azul” (antigo “58 azul”, número da série 35717), foi reparada em Zaporizhia e terá a camuflagem em diversos tons azulados, escreve VK.com.

A parada gay em Kyiv


No dia 20 de maio a cidade de Kyiv testemunhou a primeira parada gay da Ucrânia, embora o seu organizador, o ativista LGBT Taras Karasiychuk prefere o termo “pride” ou oficialmente, “Fórum – Festival Internacional LGBT Kyiv-Pride 2012”.

Dado que várias organizações da sociedade civil e indivíduos declararam a sua firme intenção democrática de “partir as fuças aos p@neleiros”, o local exato da parada não foi tornado público. Apenas os participantes, jornalistas, representantes das organizações internacionais e das embaixadas saberão o local do encontro nas vésperas do mesmo, tal como nos filmes de espionagem.

Os gays desejosos a participarem na parada, podiam se registar na página do evento Kyivpride (que tudo indica foi vítima de algum ataque DDOS), onde após uma verificação minuciosa para saber “quem é quem” seriam convidados a fazer parte da ação cultural (arte de tatuagens, estilística, mostra das curtas metragens da temática LGBT), na própria parada (20.05) ou no fórum político em forma da mesa redonda.

Na parada são esperados até 90 ativistas ucranianos, 15 belarusos, 6-7 representantes da Letónia, alguns observadores internacionais, 5-6 diplomatas, até 150 pessoas no total, mais informação sobre o evento pode ser vista AQUI, AQUI e Kyivpride2012.

As embaixadas dos EUA, Canadá, Suécia, Holanda, Espanha manifestaram o seu apoio à parada. Os organizadores acreditam que receberão o apoio da representação da EU na Ucrânia, Alemanha e França. Se espera a presença dos representantes da Amnistia Internacional, da ILGA-Europa, “Pais e amigos dos gays” da Espanha e deputados gays da Alemanha, Polônia e Parlamento Europeu.

A parada terá dois slogans oficiais “Vamos defender o direito à expressão” (contra os Projetos da Lei 8711 “proibição da propaganda de homossexualidade” e 10290 “proibição da propaganda de homossexualidade dirigida às crianças”, ambos apresentados pelos deputados do partido do poder) e “Pela vossa e nossa liberdade”.

Contra a parada está o partido VO Svoboda, igreja, cossacos e outros grupos tradicionalistas que revelam a sua firme vontade de “se opor à parada em conformidade com a legislação”. As suas forças se juntam nas páginas Stop gay pride e Kyiv contra os pederastas, a última já conta com cerca de 3.000 usuários.

Tudo isso promete alguma distração aos citadinos, boas fotos e matérias aos jornalistas e uma real dor-de-cabeça à polícia de Kyiv. Mas nas vésperas do Euro-2012 e após a violência contra Yulia Tymoshenko, o poder ucraniano não se pode dar ao luxo de ser boicotado por causa do não respeito aos direitos dos gays.

As fotos de alegados espancamentos dos ativistas gay em Kyiv (assim ficou o ativista gay Svyatoslav Sheremet após o ataque dos desconhecidos):


sábado, maio 19, 2012

Diáspora ucraniana é perseguida na Rússia


O Tribunal Supremo da Federação da Rússia aceitou o pedido do Ministério da Justiça da Rússia de liquidar a União dos Ucranianos da Rússia (OUR), a única organização cívica ucraniana ao nível federal. A decisão foi comunicada pelo juiz do Tribunal supremo, Nikolay Romenenkov, informa página Ukrros.info.

O Tribunal Supremo decidiu liquidar a organização cívica russa “União dos Ucranianos da Rússia”, retirando a do registo único estatal das pessoas jurídicas”, disse Romenenkov.

O advogado da OUR, Alim Zhgulev, informou que o Ministério da Justiça não apresentou nenhumas provas novas da culpa da organização, prometendo recorrer à sentença.

Em outubro de 2011, o Tribunal do Bairro de Zamoskvoretsk satisfez o pedido do Ministério da Justiça russo no caso de liquidação da União dos Ucranianos da Rússia. O antigo copresidente da organização, Valeriy Semenenko, foi acusado de intervir na imprensa russa em nome da OUR, durante o seu encerramento temporário, o que serviu de pretexto formal para o encerramento definitivo da União, originando os protestos e a solidariedade dos ucranianos residentes em Portugal.

Lembramos que no fim de 2010, a Direção de Cultura do Circuito Administrativo Central de Moscovo, parcialmente interrompeu o funcionamento da única biblioteca pública ucraniana em toda a Federação da Rússia. A polícia russa efetuou na biblioteca várias rusgas, acabando por retirar os livros, que considerou “extremistas” (sobre a caça policial às “bestas” ler AQUI e AQUI).

Já no dia 24 de novembro de 2011, o Tribunal Supremo da Rússia ordenou a liquidação da “Autonomia Étnico-Cultural Federal dos Ucranianos na Rússia” (FNKA), organização cívica que coordenava as atividades das organizações ucranianas nas diversas regiões da Rússia. A principal razão do encerramento da FNKA foram as intervenções públicas do presidente da Autonomia, Veleriy Semenenko, nos eventos dedicados à memória dos ucranianos mortos durante o Holodomor.

A última interferência estatal russa nos assuntos da comunidade ucraniana foi de tal maneira brutal, que provocou a declaração razoavelmente enérgica do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, publicada hoje na página do MNE:

Essa decisão confirmou o tratamento preconceituoso para com o funcionamento da diáspora ucraniana, apesar das inúmeras promessas no sentido oposto (feitas) ao nível político. Consideramos que este tipo de abordagem é contrário às tradicionais relações de amizade entre os nossos países e povos”.

Blogueiro

O tema sobre a “opressão dos russos na Ucrânia” é um tema bem caro aos políticos e à imprensa russa. No entanto, assistimos o encerramento da única e última organização federal ucraniana. Uma violação sem precedentes dos direitos humanos da comunidade ucraniana na Rússia, infringindo as disposições do artigo sétimo da Convenção Quadro do Conselho da Europa de 1985, onde é garantido às minorias étnicas o direito da liberdade das associações.

Tendo em conta ainda que a Federação da Rússia não garante o direito das minorias étnicas à religião, língua, património cultural, que é estipulado na mesma Convenção Ramo do Conselho da Europa. No território russo não existe nenhuma escola onde os ucranianos tivessem possibilidade de aprender a língua ucraniana, nenhuma igreja onde poderiam rezar de acordo com as suas convicções religiosas.

Ucrânia - Terra das Tradições


sexta-feira, maio 18, 2012

Recordar a deportação dos tártaros da Crimeia


O dia 17 de maio é o 68º aniversário da deportação dos Tártaros da Crimeia para a Sibéria, Urais e Ásia Central pela decisão do Estaline.

A ação conduzida pelo Ministério da Defesa Soviético e pelo NKVD resultou em deportação dos cerca de 200 mil cidadãos da etnia tártara
da Crimeia, durante a deportação e nos primeiros anos do exílio, cerca de 46% deles acabaram por morrer...

Neste momento na Crimeia vivem mais de 260 mil tártaros da Crimeia, outros 150 gostariam de voltar à sua terra natal.
Hoje o Serviço Federal de Segurança (FSB) russo ainda não aceita tornar públicos os documentos relevantes sobre a deportação forçada dos tártaros, já o Cazaquistão enviou à Ucrânia mais de 10.000 dossiers pessoais dos deportados. SBU publica estes dossiers na sua página, entregando os originais às famílias das vítimas do genocídio estalinista.

Além dos tártaros da Crimeia, da península, pela decisão da cúpula soviética foram deportados arménios, búlgaros e alemães.

Apenas em setembro de 1967 foi publicado o Decreto do Presídio do Conselho Supremo da URSS «Sobre os cidadãos da nacionalidade tártara que residiam na Crimeia». Este Decreto abolia a acusação anterior de colaboração coletiva dos tártaros com a Alemanha nazi, mas afirmava que estes “se enraizaram no território do Uzbequistão e outras repúblicas da união”.

Apesar disso, muitos tártaros da Crimeia entenderam o Decreto com a permissão de voltar para as suas casas. No entanto, o poder local na Crimeia recebeu as instruções secretas para não efetuar o registo oficial domiciliário dos recém-retornados (na URSS a residência sem o registo domiciliar era considerada o delito administrativo, que no entanto poderia ser sancionado com uma pena de prisão efetiva), não registar o direito a propriedade, não admitir as crianças tártaras nas escolas da Crimeia, não empregar os tártaros nas empresas públicas da região.

Tudo isso originava novas tragédias, como a do tártaro Mussa Mamut, que imolou-se vivo protestando contra a terceira (!) deportação ilegal
da sua família da aldeia Donske, nos arredores de Simferopol em 28 de junho de 1978.


No dia 17 de maio na praça de Independência de Kyiv entre 20h00 e 22h00 decorrerá a ação memorial “Acende a vela no seu coração”, organizada pelo Centro Juvenil dos Tártaros da Crimeia e os ativistas anónimos de Kyiv.

Mais informação pode ser vista na página do evento no Facebook ou confirmada com a ativista Tamila Tasheva pelo telefone + 38 06767 97976. 

quinta-feira, maio 17, 2012

Que estado foi construído na Ucrânia


Tal como alguns anos atras, durante a Revolução Laranja, a Ucrânia está novamente no centro da atenção da imprensa mundial. As perguntas dos jornalistas ocidentais são tipificadas: estado de saúde da Yulia Tymoshenko, porque ela foi vítima da violência, boicote do Euro-2012.

por: Vitali Portnikov

Um dos jornais britânicos com uma certa perplexidade nota que Yanukovych, que gastou centenas de milhões de dólares para a preparação do campeonato e reconstrução do estádio Olímpico em Kyiv, onde será realizado o final do campeonato, se arrisca em ficar sozinho na tribuna VIP. Os políticos e jornalistas ocidentais absolutamente honestamente não entendem: porque a situação com Tymoshenko foi levada à violência, ao absurdo, exatamente nas vésperas do campeonato e da Cimeira dos países da Europa Central, preparada em Kyiv como um dos acontecimentos internacionais mais importantes do ano. Porque o poder que se deveria preocupar com o prestígio internacional, pois isso significa o turismo, investimento, dinheiro, preferiu estreitar a imagem da Ucrânia até a célula prisional na colônia de Kachanivska?

Mas existe a lógica nestes acontecimentos, é a lógica do próprio processo das transformações ucranianas. Aqueles que acham que após a subida ao poder, Viktor Yanukovych tenta transformar a Ucrânia em uma espécie da Rússia do Putin ou da Belarus do Lukashenka e por isso tão decididamente “limpa” os adversários, estão errados. Yanukovych não é Lukashenka ou Putin, tal como a Ucrânia não é Rússia ou Belarus.

Lukashenka começou criar o seu regime à partir de zero, agora, após as sanções da Europa sabemos com surpresa que no país existem uns certos “financeiros presidenciais”, quase oligarcas, mas controlados em absoluto pelo Lukashenka. Belarus é um país do autoritarismo da nomenclatura, baseado na tradição soviética, e este estado só é possível criar apenas usufruindo da mentalidade e da economia soviéticas. Putin chegou ao poder no país onde as posições dos oligarcas eram fortes, e por isso eles, juntamente com os burocratas próximos, ditavam as regras do jogo. Estes oligarcas não desapareceram, para se entender com eles e ocupar o seu lugar no poder, Putin adotou uma série de passos e medidas que determinaram a face da Rússia como autocracia da oligarquia e da nomenclatura. Assim era a Ucrânia durante a cadência do Leonid Kuchma e maioritariamente continuava assim sob Viktor Yuschenko.

Yanukovych tenta construir no país uma novidade para o espaço pós-soviético, o regime já aprovado na província de Donetsk, o regime da simbiose entre a criminalidade organizada e a nomenclatura. Neste regime podem existir os oligarcas e os burocratas, mas as regras do jogo são diferentes: você já nunca conseguirá entender onde começa a criminalidade e acaba o estado. A fronteira que é possível sentir na Rússia e na Belarus, não foi simplesmente ultrapassada, foi aniquilada. Neste sentido, Ucrânia do Yanukovych é um estado absolutamente novo no espaço pós-soviético e por isso ninguém compreende as suas regras do jogo.

Porque estas regras não existem. Existe a vontade da primeira pessoa, que não se baseia nos cálculos, mas é dominada pelas vontades instantâneas, emoções e visões da vida. Essa vontade pode ser influenciada pelo velho amigo, filho, anacoreta da Lavra ou do mosteiro de Afone (dois últimos até mais do que o amigo e filho). Mas essa influência nunca será baseada nos pensamentos sobre o futuro e nunca será politicamente viável. Mais, mesmo o dia de hoje será definido não pela realidade, mas pela visão da realidade. É por isso que quaisquer ações do poder são monstruosamente deformados e caricatos.

Não faz o sentido de procurar as razões da transferência forçada da Yulia Tymoshenko da cadeia para hospital e depois de volta para a prisão – essa foi a vontade superior. Não faz o sentido de procurar as razões da prisão e da condenação da Tymoshenko, foi a vontade. Não faz o sentido de procurar a racionalidade na vontade de encarcerar Tymoshenko exatamente pelos acordos do gás, o que ofendeu Putin, foi a vontade. Não faz o sentido de procurar a lógica em todos os subsequentes passos do poder ucraniano, não a haverá.

A lógica dos processos está na sua falta da lógica. O estado criminal e da nomenclatura não se pode desenvolver de uma maneira diferente, pois o poder vive pelas suas próprias regras do jogo e não pela lógica política ou social. Estas regras negam o racional, pois ao contrário não garantiriam a sobrevivência dos titulares. Estas regras negam a moralidade, senão se deveria sofrer com a consciência, algo que eles não possuem. Essas regras negam a estratégia, pois morra você hoje, mas eu amanha.

A Ucrânia hoje é um local privilegiado para os estudiosos do autoritarismo, que tomou as formas absolutamente especiais de opereta grotesca, parece que descritas nas velhas comédias soviéticas, do tipo “Casamento em Malinovka”. Só que os cidadãos do país não estão ver a piada nisso, pois uma coisa é assistir a opereta na TV e outra coisa se transformar em convidados e serventes da mesma. Ouvir os discursos do chefão, pagar as propinas ao seu lugar-tenente e esperar que o bandido que se tornou o chefe das polícias te defenderá dos outros bandidos. Nos já aprendemos que a tragédia sempre se repete em forma de farsa, agora sabemos ainda que farsa sempre se repete em forma da tragédia…

Fonte:

Ver “Casamento em Malinovka”, 92 min