terça-feira, junho 21, 2011

Aline Gallasch-Hall: monárquica, professora e deputada


A deputada luso – ucraniana da Assembleia Municipal de Lisboa (AML), eleita pelo Partido Popular Monárquico (PPM), Aline Gallasch-Hall, é uma mulher linda, inteligente e trabalhadora, temida sobretudo por políticos cujos discursos públicos contrastam com as suas actuações privadas.

Filha de um militar português de origem britânica, Amílcar Gonçalves Hall e de ucraniana Ludmilla Gallasch Hall, cujos pais fugiram das repressões estalinistas para o longínquo Brasil, Aline nasceu na cidade de Porto Alegre e aos sete anos de idade mudou-se para Portugal. Fortemente influenciada pelos avós maternos e pela mãe, Aline hoje em dia tem a atenção especial para com a comunidade ucraniana residente em Lisboa. Aline define essa tarefa nos seguintes termos: “Gostaria de contribuir para a sua maior integração na sociedade portuguesa, ajudarei naquilo que for preciso para que a comunidade ucraniana possa ter uma maior visibilidade na nossa sociedade”.

Desde adolescente Aline sentia-se insatisfeita com os políticos, com as injustiças, com a crise civilizacional. Mas sempre achava que criticar o Governo sem fazer nada também é uma incoerência. Cedo interessou-se pela política, sendo monárquica por influência do pai. Aline acredita que uma monarquia constitucional, secundada por um Governo eleito por sufrágio universal é a melhor maneira de governar, pelo menos em Portugal. As suas esperanças de ver um rei português são ligadas a D. Duarte Pio actual herdeiro da coroa portuguesa mas, principalmente, ao seu filho Dom Afonso. “Sei que em Portugal existem várias pessoas que apoiam a ideia de monarquia, gente da sociedade civil ou filiados nos diversos partidos políticos, mesmo no Partido Comunista Português”, afirma Aline com muita convicção.

Em 1998, no hotel Ritz de Lisboa era organizado o Baile dos Debutantes de Lisboa, evento social em que as meninas eram apresentadas à sociedade. Aline participou no baile em representação da Associação de Austríacos em Portugal e foi vista pelo presidente da Câmara Municipal de Viena, que adorou a sua valsa. Assim ela foi convidada a representar Portugal em Viena, uma entre 200 participantes. Até foi dispensada dos treinos. Adorou a cidade, foi uma viagem especial, já que a sua mãe nasceu em Viena e o seu compositor preferido é Mozart (Aline fez a tese de mestrado sobre os elementos egípcios na ópera “A Flauta Mágica”).

Durante oito anos Aline Gallasch – Hall foi professora na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, dava aulas de História de Arte, Cultura Portuguesa e Cultura Brasileira. Desde 2010 lecciona disciplinas de Teoria da Arte e História da Cenografia, e Cultura Contemporânea nos Cursos de Cenografia e Design de Moda, respectivamente, na Faculdade de Arquitectura da UL. Além disso, Aline foi uma das co-autoras do Dicionário do Antigo Egipto, o primeiro de género em Portugal. Deu aulas de Cultura no Curso de Enfermeiros da Fundação Gulbenkian na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo iniciado um Manual de Cultura Portuguesa.

A sua filiação no PPM data de 2009. Antes disso, Aline não participava activamente na política, embora desde 2005 se empenhou na divulgação da informação sobre Holodomor em Portugal. Relativamente poucos anos atrás, a questão do Holodomor era absolutamente desconhecida em Portugal, nem os professores universitários, nem os livros escolares abordavam este assunto. Com ajuda da Embaixada da Ucrânia e a Associação de Ucranianos de Portugal, em 2006 Aline organizou a exposição sobre Ucrânia e sobre Holodomor na Faculdade de Letras da UL. Até nas suas aulas na Universidade, ela abriu um módulo sobre a História e Cultura ucraniana para que os alunos tivessem mais informação sobre os ucranianos e a sua relação com a cultura portuguesa, actualmente bastante presentes na sociedade portuguesa.

Na AML Aline Gallasch – Hall pertence a três comissões diferentes: Finanças e Património, Reforma Administrativa da Cidade, Solidariedade Social e Integração (dos mais desfavorecidos da sociedade, incluindo imigrantes). Uma das propostas que Aline pretende apresentar brevemente é o reconhecimento do Holodomor por parte da AML, que seria uma vitória muito importante. Lisboa não será a primeira cidade portuguesa a reconhecer Holodomor como genocídio, algumas cidades portuguesas já fizeram este reconhecimento oficial. No entanto a aprovação não está garantida, visto que PCP e BE provavelmente votarão contra, como é habitual, e o voto do PS é uma incógnita.

Aline é respeitada e até algo temida por colegas na AML, pois costuma dizer aquilo que pensa, objectivamente, mas de modo bastante directo e sem medos. Houve o caso (bastante insólito na história da AML), em que toda a esquerda presente (PS, PCP, BE e deputados independentes alinhados com a esquerda), abandonaram a sala do plenário, “ofendidos” com o seu discurso. A razão de tal indignação? Aline criticou o oportunismo político dos deputados Helena Roseta e Rubens de Carvalho pela sua abstenção permissiva durante a votação sobre o projecto do Terminal de Contentores de Lisboa (LisCont). Aline até foi chamada de mentirosa pelo PCP, mas apenas cingiu-se à verdade factual, coisa que habitualmente não agrada aos partidos de esquerda.

Nas últimas eleições legislativas realizadas no dia 5 de Junho deste ano, PPM recolheu as preferências de 0,4% do eleitorado português. Como explica Aline, em grande  parte isso se deve à questão do “voto útil”, pois os eleitores evitam votar nos pequenos partidos, temendo que estes não ultrapassem a barreira dos 3% e como tal, o seu voto será objectivamente perdido. No entanto, comparando com as últimas eleições, o PPM obteve em Lisboa 1000 votos a mais, uma façanha conseguida pela postura e presença da Aline Gallasch – Hall. Espero sinceramente que nas próximas eleições autárquicas, que em Lisboa o PPM costuma concorrer em coligação do centro – direita com PSD, CDS-PP e MPT, Aline possa encabeçar a lista do seu partido e ser novamente eleita à AML. Uma luso – ucraniana, apaixonada por Mozart e pela sua família, pessoa simples e honesta que sacrifica a sua vida pessoal e que não tem vergonha de chorar quando fala em público sobre a tragédia do Holodomor.

As raízes da Aline Gallasch – Hall
Aline e Ludmilla Gallasch-Hall, Lisboa 2010
A sua avó materna, Alla Dubina é de Kyiv. O avo materno Vasyl Gallasch é de Kamianets-Podilskyi. Alla provém de uma família nobre; com gosto pela música, tocava vários instrumentos musicais: piano, guitarra, balalaica. Vasyl passou pelo GULAG e foi preso pelos nazis. Temendo as repressões estalinistas, no fim da II G. M., a família fugiu para Viena, onde ambos trabalharam para UNRRA no campo dos refugiados políticos (DP) ucranianos. Receando a possibilidade de deportação, pois os emissários da URSS faziam a “caça aos ucranianos” em toda a Europa Central e Ocidental, os avós pintaram o cabelo, arranjaram os documentos convenientes e se meteram no barco que ia para Brasil, bem longe do monstro moscovita. Estudavam português durante a viagem, moravam no Rio de Janeiro e depois em Porto Alegre, onde Vasyl trabalhou numa fábrica cervejeira alemã e Alla na fábrica de Siemens. Uma das primas da Alla, Antonina Dubina, viveu na Ucrânia até 100 anos e até foi distinguida pelo presidente Viktor Yushchenko.

Mãe, Ludmilla Gallasch – Hall gostava da filosofia e música, se interessou por literatura, parapsicologia, filosofia oriental, espiritismo. Lia de tudo, desde Tolstoi a Helena Blavatskaya e Allan Kardec. Conheceu o seu futuro marido através de correspondência. O jovem Amílcar veio ao Brasil, apaixonado pelo nome Ludmilla, voltaram para Portugal juntos, Ludmilla tinha nas mãos uma mala bastante pequena e levava o vestido de noiva Christian Dior, que custou ao seu pai 2 milhões de cruzeiros, uma pequena fortuna naquele tempo. Foi muito bem recebida pela nova família portuguesa, o casamento pomposo foi no Mosteiro dos Jerónimos. Já casada e a viver em Angola, Ludmilla foi modelo da Casa Stendahl, foi voluntária da Cruz Vermelha em Angola e Moçambique.

O Pai, Amílcar Gonçalves Hall é descendente directo de William Anthony Hall, um nobre que veio combater com o Duque de Wellington, jovem fidalgo britânico que visitou Portugal e por lá ficou. Amílcar Gonçalves abraçou a carreira militar, foi controlador aéreo na Base das Lajes, fez algumas comissões de serviço em África. Aliás, alguns membros da família Hall tiveram fortes ligações com África, nomeadamente o primo, Tarquinho Hall foi o Conselheiro do Governador de Angola, assim como um dos irmãos de Amilcar, Arménio Hall (futuro Juiz–Conselheiro), que trabalhou em Angola.

Desde o início da emigração ucraniana em Portugal nos anos 1990, Ludmilla e Amilcar dedicam uma grande parte do seu tempo à ajuda aos ucranianos que eram completamente desconhecidos em Portugal e nem tinham a oportunidade de conhecer direito no seu novo país de acolhimento. Naqueles tempos turbulentos Ludmilla não temia nem os bandidos, nem os burocratas da embaixada ucraniana, que cada um à sua maneira sugava os emigrantes, servia de intérprete na polícia, testemunhava nos tribunais e até entrava na cadeia.

Hoje, Ludmilla Gallasch – Hall continua activa na comunidade ucraniana de Portugal, aos domingos ela dá as aulas gratuitas de língua e cultura portuguesa na Igreja Grego – Católica Ucraniana junto à Praça de Chile em Lisboa. E continua a ser vista por muitos como a padroeira de todos os ucranianos de Portugal.

1 comentário:

Anónimo disse...
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